O Herdeiro Da Luz
1 Conhecendo meu pai.
Notas iniciais
O clima de tensão não foi o suficiente para me fazer ficar acordado. O dia havia sido cansativo. Leo e os filhos de Hefesto estavam trabalhando como loucos na construção do Argo II. Quíron estava treinando os calouros de uma forma muito rigorosa, preparando para as futuras ameaças. Os combates ficavam mais acirrados, e os danos eram maiores que o comum. Muitos campistas estavam tendo missões ultimamente, as necessidades do acampamento tinham de ser repostas rapidamente, e a busca por semideuses passou a não ser mais apenas tarefa dos sátiros. Estamos montando um exército para uma guerra. A enfermaria estava mais cheia do que de costume e, como chefe dos enfermeiros e conselheiro do Chalé 7, era meu dever organizar a equipe médica e ajudar os feridos. Já há quatro dias que não dormia direito, mas hoje, tomei um banho demorado e me joguei na cama.
Acordei completamente renovado. O relógio já marcava 9 horas, imaginei que ninguém me acordou por que imaginava como eu estava cansando, ou simplesmente não conseguiram me acordar, ou Quíron não deixou. De qualquer forma, escovei os dentes e fui para o refeitório.
No caminho, Diana me viu e sorriu para mim. Poxa, tudo bem ela ser filha de Afrodite, mas por Zeus, aquela menina me tirava do sério. Com sua pele cor de leite, olhos cor escuros e cabelos castanhos perfeitamente ondulados... E a flor. Meus deuses. Ela sempre tinha uma flor presa ao cabelo. Só de olhar pra ela já me dava um calor. Somos ótimos amigos, mas queria ser mais do que isso. Mesmo sendo filho do deus mais perfeito dos olimpianos (segundo os livros), eu não sou muito bonito. Estava pensando em algum dia falar dos meus sentimentos para uma filha de Afrodite (quase um suicídio emocional), quando meus irmãos me chamaram. Percebi que todos me encaravam sérios.
- O que houve? Todo mundo está sério, ninguém está comendo. Até o Leo está aqui. O que está acontecendo? – sentei-me à mesa, e tudo que meus irmãos fizeram foi balançar a cabeça, em sinal negativo.
- Quíron acordou todo mundo, indo de chalé em chalé. Estamos aqui esperando há quase uma hora. Ninguém pode comer, ele não disse por que, mas acredito que seja algo muito importante, muito assustador. – respondeu Lara, a caçula do chalé.
- Se ele acordou todo mundo, porque eu estava dormindo?
- Ele disse que devíamos esperar por você, sem fazer barulho ou algo assim. Você tinha que descansar. Acho que você vai sair em missão.
Engoli em seco. Se eu ia sair em missão, e todo aquele suspense havia sido armado, não devia ser coisa pequena. Percebi que Annabeth estava me olhando, um olhar suplicante, como se ela estivesse me pedindo alguma coisa.
Ouço um clap, clap e olho para o outro lado do refeitório. Lá se vem Quíron, andando calmamente, Rachel enrolada em um roupão e com imensas olheiras. Do lado deles, vem um homem que eu nunca havia visto no acampamento. Todos o encararam curiosos, enquanto apenas Annabeth deu um suspiro de espanto. Algo estava errado. Se aquele cara conseguia assustar Annabeth, todos nós estávamos ferrados. Nunca conheci alguém tão corajoso como ela. Ela me derrotava em quase tudo no acampamento, exceto nas áreas que eram de domínio do meu pai, como arco e flecha, cura e música.
- Febo, enfim acordado. Venha até aqui.
Sim, meu nome é Febo. Um pouco sem criatividade, mas quando descobri que era filho de Apolo, minha mãe disse que ele havia insistido que eu tivesse esse nome, pois eu estava destinado a ser o mais forte filho dele da minha geração (é claro que não disse nada disso a nenhum dos meus irmãos) e, em tese, eu realmente era. Com 19 anos, além de mais velho do chalé, eu era o que tinha os poderes mais desenvolvidos. Conseguia curar ferimentos com um toque e um pouco de concentração. Conhecia todos os tipos de ervas medicinais. Era excelente em música, tocando ou cantando. Era o segundo no comando dos arqueiros do acampamento, ficando atrás do meu outro irmão, Kevan, devido ao fato de eu comandar a enfermaria. Eu podia esquentar as coisas com o toque, mas não criando fogo como o Leo, apenas liberando calor dos meus poros. Alguns do acampamento tinham medo de mim, alguns inveja, outros, respeito. Não ligava muito, apenas fazia o que eu tinha de fazer como semideus.
Levantei-me e me pus à frente de Quíron.
- Senhor. – fiz uma pequena reverência.
- Sabe que dia é hoje Febo? – falou o estranho, com uma voz tão suave quanto um cantor de ópera.
- Não... Senhor. – imaginei que devesse ser o nome certo para tratar alguém desconhecido e que aparentava ser um pouco mais velho, além de um tento assustador.
- Hoje é seu aniversário. Imaginei que você não fosse lembrar, pelo cansaço, e tentei distrair seus amigos para que nenhum se lembrasse disso. Meu presente tinha que ser especial, já que sou responsável por transformar garotos em homens. 20 anos... É uma idade muito boa.
- Hã... Como assim? Quem é você?
- Quem sou eu? – disse o estranho balançando as mãos, e de repente apareceu um brilho em sua mão direita. – Eu sou Apolo, seu pai.
Ok. Eu nunca havia visto meu pai em 20 anos, e agora ele aparece no acampamento, causando um alarde enorme por causa do meu aniversário. Como eu pude esquecer meu próprio aniversário? Acho que estava trabalhando demais. Mesmo nunca tendo visto meu pai, não o odiava. Ele me ajudou nas poucas missões que tive, falando na minha mente, mandando ajuda, sinais, e até um presente: um gatinho mágico (engraçado, mas violento), que por acaso estava atrás dele.
Ficar perto de um deus era algo desconcertante, ainda mais com este sendo o seu pai, além de muito bonito. Com cabelos castanhos um pouco cacheados e avolumados, num corte de cabelo que se encaixa perfeitamente com o formato do rosto. Percebi olhos claros, não cor de mel, mas amarelos, ardentes. Ele estava vestindo uma camisa vermelha bem despojada, com uma calça jeans preta e um all star desbotado.
- Err... Pai? Então... O que significa esse alarde todo por causa de um aniversário? Por que o senhor está aqui no acampamento? Por que o oráculo está aqui? Não entendo mais nada.
- Se acalme filho. – disse ele, puxando minha mão esquerda e colocando o brilho sobre ela.
Em minha mão apareceram um broche estilo alfinete, com um sol na cabeceira, e um anel com um arco em cima.
- O que é isso?
- Presente de aniversário, assim como o Aiacos aqui, que lhe dei no seu aniversário de 15 anos.
Fiquei assustado. Aiacos apareceu para mim quando eu estava prestes a morrer em uma missão, em que quase fui assassinado por autômatos controlados por um filho malvado de Hefesto. Ele salvou minha vida, e dali em diante passou a ser meu companheiro. Um segundo presente do meu pai, entregue por ele mesmo... Imaginei que tipo de missão impossível estava por vir.
- Febo, – dessa vez foi Quíron quem falou – acho que você já percebeu. Você partirá em uma missão. O motivo pelo qual chamei todos aqui foi pelo fato de termos um deus conosco, nada demais. A comida foi proibida para evitar possíveis algazarras.
- Caro Quíron, você se tornou muito chato com a idade.
Quíron fez uma careta para Apolo, que pareceu ignorar.
- O que significa isso, pai? Que tipo de missão é essa?
- Fácil. Você terá de recuperar uma coisinha para mim.
Seu rosto ficou sério, e eu senti um arrepio na espinha. Senti que todos me olhavam, apreensivos. Imaginei que se um deus perdeu alguma coisa, recuperar isso deveria ser algo difícil para um semideus. Mas são as regras do Olimpo: os deuses precisam dos heróis para fazer alguns serviços sujos deles, para evitar que eles fulminem a terra com seus poderes.
- O que vou ter de recuperar? – perguntei, recoso da resposta.
- A minha lira.
Prendi a respiração. A lira é um dos maiores símbolos do papai. Algo tão importante assim confiado a mim? Pedi, mentalmente, a benção de todos os deuses que eu conhecia.
- Minha lira foi perdida, acabei derrubando ela na terra sem perceber, enquanto dirigia o carro do sol. Por sorte, sou o deus dos oráculos e acabei por descobrir onde ela está, mas não posso pegar ela sozinho. Regras do seu avô. Então, pensei em pedir a sua ajuda. Ótimo presente de aniversário, não?
Senti um pouco de raiva, mas tinha de reprimir aquilo. Eu era um semideus, aquele era meu papel. E, verdade seja dita, ver meu pai olimpiano no dia do meu aniversário já estava bom o suficiente para mim.
- Então, acho que devo fazer a minha parte aqui – disse Rachel.
- Sim, sim. Não fiz você passar a noite prevendo o futuro para nada. – disse Apolo, em um tom sarcástico.
- O que vocês estão falando?
- Nada filho, se acalme. Estamos discutindo sobre a profecia da sua missão.
- Profecia? Isso piora a cada segundo. Posso recusar?
Consegui ver um pouco de raiva passar pelo rosto de Apolo, e logo me arrependi de tentar negar a missão. Além de ser deus da cura, meu pai também era deus da morte súbita e das pragas. Imaginei-me tendo um enfarto ali, na frente de todos os campistas.
- Não – disse o deus, bem sério – Sem a minha lira, não estou tendo inspiração para os meus haikais perfeitos. E isso piora o meu humor rapidamente, se você precisa saber.
Senti um pouco de ameaça no final da frase, mas fiquei calado e apenas assenti.
Apolo evaporou, como se nunca estivesse ali, e então os olhos de Rachel brilharam verdes, e ela falou em uma voz sibilante:
Tens de procurar o brilho no escuro sem escolher companhia
Tocar a melodia da morte sem permissão e com ousadia
A flor deve levar da terra um corte
A guerra vai ter fim com a morte
Vai ser guiado pelo amor no momento de dor
Se sobreviver ao horror
Deve seguir a luz de Orfeu
Para salvar o amor seu
Rachel respirou fundo e olhou para mim, com um olhar que até parecia de pena. Todos se entreolharam e rapidamente os cochichos começaram. Os meus irmãos olharam para mim com um olhar misto de curiosidade e preocupação. Quíron moveu os olhos para a mesa onde estava Annabeth, mas ela não estava mais lá.
A filha de Atena vinha caminhando bruscamente na minha direção, dirigindo um olhar determinado a Quíron, que a encarava com um olhar cansado.
- Quíron – disse Annabeth, em tom imperativo – eu vou nessa missão, ou em outra, mas eu vou atrás do Percy.
- Annabeth, para encontrar Percy precisamos esperar que Leo termine o Argo II. Enquanto isso, nada podemos fazer. E, além do mais, a profecia não falou nada sobre romanos ou água, como você pode achar que vai encontrar Percy assim? Se você for na missão, só irá atrapalhá-los.
- Mas, Quíron...
- Annabeth, não. – Quíron semicerrou os dentes e eu percebi que a discussão estava encerrada.
Com um aceno de Quíron, as harpias voaram e foram distribuindo os pratos e copos mágicos do acampamento. O café da manha estava servido.
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