O Herdeiro

7 Vinganças não tão elaboradas


Se revirou na cama a noite toda com a visão tenebrosa da criatura abraçada nas trevas, as garras sanguinolentas arranhando o asfalto que se despedaçava ao toque, deixando para trás o rastro de um pixe derretido e fétido. Ele podia sentir o cheiro do asfalto derretido enquanto os olhos gigantes, todos os dezessete olhos da criatura, lhe encaravam e eram olhos tortos, alguns vermelhos e outros eram caramelo, com fendas verticais no lugar das pupilas e dessas fendas vermes brancos escorriam para a íris e de volta as fendas perdendo-se na escuridão daquele olhar em uma dança sem fim por onde lágrimas de sangue escorriam nas escamas que estavam no lugar da pele e gordas gotas rubras caiam, abrindo crateras como se fossem ácido, quando tocavam o chão. O corpo da criatura estava ainda oculto na densa e indiscernível treva que o cercava, mas sua presença era colossal.

Quando as trevas se dissipavam, era um segundo para que chicotes de carne-viva ascendessem dos céus, lhe acertando o coro, lhe prendendo os membros, lhe rendendo como vítima voraz de uma refeição cerimonial, de braços e pernas esticadas as garras da criatura vinham ao seu peito e antes que encostassem nele, podia sentir o calor derretendo sua pele, como se a besta-fera fosse o próprio inferno e toda sua ira estivesse ali, direcionada a ele… então acordava!

— Pai nosso que estás no céu, santificado seja vosso nome, venha a nós o vosso reino…

Caiam começava a rezar assim que abria os olhos, as mãos em busca desesperada pelo abajur no seu criado-mudo. O pânico… ele sentiu-se tão miseravelmente humilhado ao olhar para a cama.

Ali estava ele, um homem já, dezessete anos, forte e bonito, temido na escola por praticamente todos, desejado por todas. E ali estava ele, cheio de hematomas e ralados, suado e tremendo de medo olhando para um colchão molhado enquanto das próprias pernas a urina escorria por suas coxas, a cueca boxer ensopada.

*****

A boca do bairro era conhecimento geral. Todo mundo sabia que existia, onde ficava e o que vendiam ali, mas poucos, quão menos a polícia, intervinha.

Junto dos três amigos que mais eram guarda-costas, Caiam foi até a boca no sábado. Nunca foi de usar drogas, não gostava daquilo, mas já havia experimentado e vez ou outra com os amigos em alguma festa acabava sem ter como negar, precisava manter as aparências, precisava “ser legal”. Então acabou conhecendo um ou outro dali, mas um ou outro era o bastante.

— Suavidade?! — Cumprimentou indo até o seu contato.

Zenão era um africano refugiado no Brasil, mas que teve seu visto revogado e se tornou um imigrante ilegal. Sua família foi deportada, mas ele ficou… na verdade ele fugiu. A família ainda precisava do dinheiro, dinheiro que era mais fácil conseguir no Brasil que em seu país de origem devido a guerra. Porém depois que seu visto foi revogado ele não conseguia um emprego, mas ainda conseguia o dinheiro!

— Tá fazendo o que aqui copo de leite? — Zenão perguntou indo até os rapazes. — Já acabou a erva?

— Claro que não pô. — Caiam respondeu. — To precisando de um favor tá ligado.

— Favor tem limite parça. Eu faço favor pros meus bróder.

— Eu vou pagar.

— Então tu qué um serviço. To te sentindo, canta.

Caiam olhou para os amigos, então para Zenão. O africano era parte da Comunidade Única, já fazia alguns anos que São Paulo estava na mão de duas gangues, o Comando e a Comunidade Única, e ali era território da Comunidade há quase dois anos, tudo que acontecia, acontecia com a benção dos chefes da Comunidade, ou por retaliação deles.

— Tem uma velha macumbeira que precisa de uma lição, taca fogo naquela loja velha dela. — Caiam disse sem papas na língua, lembrando da imagem que toda noite retornava nos seus sonhos. Sabia que era coisa daquela velha, porque todos falavam dela, que era estranha, que fazia esquisitices, que vendia produtos de bruxaria.

— Isso vai ficar caro pra você.

— Eu disse que eu pago. Só falar quanto.

— Só isso moleque?

— Não. — Caiam olhou para os amigos e fez um gesto com as mãos. Os garotos recuaram dando privacidade para ele e Zenão. — Tem mais uma coisa… Alguém precisa de uma lição.

— Deixa eu adivinhar, tomou uma surra? — Zenão perguntou apontando para os ralados e marcas rochas no braço de Caiam.

— Ele tem que ser exemplo, to pensando em algo grande, pra ninguém esquecer quem eu sou, tá ligado?

— Ninguém achar que tua quebrada é bagunça, to sentindo. — Zenão colocou a mão no ombro dele. — Quer que apague ele?

— Não. — Caiam respondeu sem hesitar. — Eu preciso de uma peça, nem precisa de bala. Quem tem que fazer isso sou eu.

— Só isso moleque?

— Consegue por quanto?

— Vou cobrar só o incêndio. No fim do dia te dou o cano, você só me devolve depois.

— Assim, de graça?

— Assim de graça! — Zenão respondeu com um sorriso malicioso nos lábios indo até Caiam, colocou a mão no ombro dele e então subiu para a bochecha de Caiam, lhe dando dois tapinhas naquelas bochechas lisas. — É sempre bom ter um boyzinho que nem você devendo um favor!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.