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A primeira manhã de inverno chegara límpida e fria, com uma aspereza que sugeria o fim do verão.
Não havia passado das onze da manhãe Brandon já estava no campo do seu condomínio, assistindo a uma partida amistosa de futebol, na qual seus dois irmãos mais novos se divertiam rindo uns das caras dos outros. Mas o tempo estava nublado e o ar permanecia num tom cinza claro. Brandon tinha absoluta certeza de que iria chover.
Encostado nas grades que arrodeavam a quadra, Brandon gritou para seus irmãos:
– Paul! George! Vamos pra casa. Agora.
Paul gemeu de raiva. George protestou.
– Vá pra casa você! Nós vamos ficar aqui. – pelo menos, soava como um protesto.
– Se cair uma chuva forte e vocês se encharcarem, contem para a mãe que a culpa foi toda de vocês.
– Feito. – disseram os gêmeos em coro e voltaram a jogar.

Brandon colocou seus fones de ouvido e enfiou as mãos nos bolsos do casaco. Andou até a sua casa, e ao abrir a porta, deparou-se com a figura de seu outro irmão, Scott, esparramado no sofá, babando nas almofadas.
– Scott... – Brandon balançou seu ombro a fim de acordá-lo – Scott! – dessa vez, um pouco mais forte, e com um só “baque”, Scott havia parado no chão, ainda dormindo.

No momento em que Bran levantou-se rindo, um trovão estourou fazendo sua cabeça pulsar de pouco em pouco, até que a dor se tornou insuportável. Desejava que sua mãe estivesse em casa para mimá-lo e dá-lo um remédio. Mas ela havia saído, sabe-se lá para aonde. Tocou em sua testa, afastando-se rapidamente. Estava quente. Os dedos trêmulos, a voz mal saía. Mas isso não o assustava. Não mais... Certamente, não era a primeira vez que acontecia. Segundos após o feito, a campainha tocou. O rapaz andou em passos lentos até a porta de entrada, pegando o maço de chaves na cômoda onde se encontrava seu celular e um porta-retratos. Abriu a porta lentamente e tentou segurar seu queixo que a essa altura já caíra no chão. Piscou mais de vinte vezes para ter certeza de que o que estava vendo não era uma miragem, e se beliscou só para confirmar que não estava sonhando.
– Posso ajuda-la? – Brand paralisou ao encontrar com as orbes verdes da moça, que contrastavam com seus cabelos negros, já assanhados, lhe conferindo uma beleza audaciosa. Ela aparentava ainda não ter passado dos seus dezesseis anos de idade. Um silêncio reinou e o olhar, antes inocente, da moça parada em sua porta, havia se tornado raivoso, provocador. Ouviram as nuvens se tocarem com um barulho terrível, e a chuva ficou cada vez mais forte.
Brand percebeu o papel de idiota que estava fazendo, e finalmente conseguiu falar algo útil.
– É... Eu posso ajuda-la. Quer entrar?
Procurou alguma resposta... Um ruído... Um barulho sequer, mas ela nada disse. Apenas entrou, com um sorriso falso, enquanto envolvia com as mãos, os próprios braços.
– Sinto frio... – disse a menina.
– Sente-se aí... Vou buscar alguma coisa... De preferência, um casaco. Ou uma toalha...
– Não precisa... – dessa vez Bran pôde prestar atenção no tom de sua voz. Soava como um doce-amargo. Suave e persistente. Firme e frágil.
– Não se preocupe... Pode ficar a vontade. Eu não mordo...
– E ele morde? – apontou para Scott, que babava no tapete da sala, sem saber de nada que estava acontecendo ao seu redor.
– Creio que não.
– Não sei se posso confiar.
– Nem eu. – ambos sorriram – Não se preocupa. É inofensivo... É como um poodle velho, fedido e feio. Agora, se me der licença, vou buscar algo para te cobrir.

Brandon caminhou em passos lentos até seu quarto, com mil pensamentos na cabeça. Em menos de dois minutos, de volta a sala principal, se deparou com a porta aberta. Paul e George estavam parados no tapete de entrada, totalmente encharcados.
Os dois eram gêmeos idênticos. Ambos de pele clara, cabelos castanhos e olhos pretos curiosos. Tinham por volta dos nove, dez anos de idade... Brandon nunca decorara a idade deles. Era péssimo nisso. Os irmãos pareciam estar em transe. Focavam em Scott, que babava inconscientemente no tapete. A mulher desconhecida os observava, no instante em que Brandon chegou.
– O que está acontecendo aqui? O QUE VOCÊS FIZERAM COM O MEU IRMÃO?– Paul se ajoelhou e com o ouvido, testou a respiração do irmão.
– Nada, Paul. – disse Brandon – Ele já nasceu assim.
– Estúpido. – disse ao irmão mais velho, e voltou-se para seu gêmeo – Ele apenas dorme, George.
– Quem é essa? – questionou George, mirando Brandon e a garota.
– Eu não sei. Pergunte a ela.
– Quem é você?
– Amiga dele – apontou, divertindo-se, para Brandon.
– Claro que é. Vem, Paul. Vamos tomar banho.
– Vão se secar primeiro! – disse Brandon, gritando.
– Não! – gritaram de volta.

Brandon olhou sem jeito para a mulher que sentava, desconfortada, em seu sofá. A cena que ela havia presenciado não era das mais normais possíveis.
– Desculpa pelos meus irmãos. – disse o rapaz enquanto bagunçava os cabelos levemente — Eles são um pouco estúpidos.
– Dá pra perceber isso pelo exemplo que têm...
– Fala de mim?
– Falo dele – a mulher afirmou, apontando para Scott, que agora deitava de bruços.
– Ah, claro.
– De qualquer forma, já está na minha hora. Obrigada pela hospedagem. – disse enquanto levantava-se, andando em direção à porta.
Brandon observou-a andar um pouco. Estava maravilhado... Encantado... Hipnotizado. E claramente, desnorteado. O ponto positivo era que a dor que havia sentido há um tempo, passava aos poucos. Algumas hipóteses passaram pela mente do rapaz... O fato de não ter perguntado nada... Certamente a garota não foi até ali a troco de nada. Não mesmo. Restava saber o que ela poderia procurar com ele.
Brandon fez todas essas perguntas em mente, com a plena convicção de que a resposta estava ligada à suas transformações de uma forma ou de outra. Mas ele preferiu esquecer tudo isso. Era certamente uma coisa de louco.

Distraído que estava, nem percebeu quando Scott acordou e lhe deu um chute na canela.
– Rabo de arraia! – disse Scott, gritando, e derrubando seu irmão no chão.
– Ai! – Brandon bufou com raiva e levou as mãos à cabeça novamente – Seu doente! Qual é o seu problema? – berrou.
– Nenhum. Sou perfeito. – Scott, já em pé, ajudou o irmão a levantar-se. — Já notou o meu físico totalmente atlético? – contraiu o abdômen, e bagunçou seu cabelo.
– Não, e poderia não ter visto essa cena antes do almoço. Perdi o apetite. – Brandon andou em direção à cozinha, quando Scott o interrompeu.
– Vai fazer o almoço?
– Vou. Aliás, vamos. Não vou esperar a mamãe voltar sabe-se lá que horas e também não vou preparar tudo sozinho. Você vai me ajudar.
– Então... – Scott arqueou as sobrancelhas – Tudo bem. E a propósito Brandon, você roncou a noite toda.
– Eu o que? Scott! Você parecia um porco! Você babou no tapete da sala!
– Claro que não! Eu só estava fingindo, você sabe.
– Claro que sei.
– E você não percebeu porque sou um excelente ator. Aliás, o que temos pra comer?
– Hum... – disse Brandon vasculhando o armário – Miojo? – retirou um pacote pequeno de macarrão instantâneo sabor galinha.
– Não! – disse Scott, choramingando.
– E agora? – disseram os irmãos em coro, quando a campainha tocou e os gêmeos desceram rapidamente.
– É para mim! – disse Paul, enquanto puxava George insistentemente pelo braço – É para a gente.
– Quem é? – Scott levantou-se.
– Almoço! – George exclamou ao ver o entregador de comida e Brandon suspirou de alívio.
– Pelo amor de santa Bárbara, diga que vocês pediram comida para os seus irmãos mais velhos – Scott perguntou.
– Santa Bárbara? – Brandon estranhou.
– Cala a boca e deixa o Paul responder. – Scott se virou para o irmão menor – Pediram?
– Claro. Devido a nós dois termos capacidade superior a manés jogadores de baseball, populares, quase repetentes em matemática e babadores de tapete, lembramo-nos de alimentar nossos irmãos mais velhos. – Paul disse aos irmãos, tirando os pacotes de comida das mãos do entregador – O irônico é que isso deveria ser totalmente o oposto.
– Nos perdoem, irmãozinhos – Brandon bagunçou o cabelo de George, olhando para Paul – Somos apenas manés jogadores de baseball, populares, quase repetentes em matemática e babadores de tapete. Não temos toda essa inteligência e raciocínio.
– Sei disso.
– Como vocês vão pagar toda essa comida? – Scott perguntou, ao ajudar os irmãos a carregar os pacotes.
– Não vamos. – os gêmeos olharam de relance para Brandon e Scott – Vocês vão.
– É justo. – Scott afirmou – Brandon, você paga.

Nesse momento, as silhuetas dos três irmãos mais novos de Brandon desapareceram na sala de jantar, e o rapaz deparou-se com a cara zangada de um entregador provavelmente muito atarefado, sem tempo para conversa de crianças.
– E aí, meu irmão, vai pagar ou não?
– Existe essa segunda opção?
– Não.
– Então fazer o que, não é? – por fim, Brandon tirou a carteira de dentro de seu bolso e suspirou. – Tem troco para cem?

Notas finais
é isso xuxus. primeiro capítulo é mais a apresentação dos personagens mesmo. Mandem reviews se puderem, haha (: vou adorar responder.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.