O Grito dos Bons

1 O Grito dos Bons


Notas iniciais
Esta é a minha estreia do universo do Morcego, portanto, por favor, sejam razoáveis. Boa leitura!

O Grito dos Bons

O sol e a lua se revezam para iluminar as entranhas da cidade que almeja a ordem e a prosperidade. Um ar viciado circula sobre a metrópole distorcida e corrompe o caráter dos homens fracos. Os habitantes de Gotham continuam a conviver com as comuns mazelas de um sistema falho: impunidade e corrupção. A chuva do desespero ameaça apagar a chama da esperança de dias melhores.

Tudo aconteceu no dia de folga da policial. No mesmo dia em que Alisa foi comunicada de sua aprovação nos testes internos da DPGC, o que significa que foi considerada apta para assumir o cargo de detetive. Greene não teve nem tempo para comemorar a conquista. Mas, a realidade do submundo é assim, impiedosa e não há lugar para misericórdia.

Depois do ataque da “corte das corujas”, o qual vitimou diversas pessoas ícones da cidade, o regresso de Edward Nashton foi o evento que mais fragilizou a metrópole. Nashton, conhecido como Charada, é um narcisista que atormenta a polícia com suas brincadeiras doentias de gato e rato deixando pistas sobre seus futuros crimes.

Alisa despertou num sobressalto. A sirene da ambulância foi substituída pelo som de monitor cardíaco. Cheiro de antisséptico predomina o ambiente. Um hospital, mais precisamente, o Hospital Geral de Gotham.

Levou a mão ao rosto e logo a percebeu enfaixada: no centro da palma da mão, uma fina linha horizontal rubra. Ao mover-se, sentiu uma fisgada e descobriu um curativo na região abdominal: passou por uma cirurgia. Ganharia as primeiras cicatrizes dos “ossos do ofício” mais cedo do que pensava. Virou a cabeça para o lado e avistou, sobre uma mesinha, um pequeno vaso de flores de pétalas pálidas. As suas favoritas:jasmins. Ganhou-as na última visita da sua irmã e de seu cunhado, um pouco antes de adormecer. Há quanto tempo ela estava naquele hospital? Há três dias? Ou seriam quatro? Os pensamentos organizam-se em sua mente.

“Tudo está claro agora. Nós havíamos encurralado o Charada e seus aliados na ponte Webb, a qual passa sobre o Canal Sul e liga a ilha central com a ilha do sul . O helicóptero da polícia sobrevoando a ponte e projetando seu holofote no carro de Nashton. Vi Gordon sair da viatura e ouvi gritar alguma coisa pra mim, porém foi tarde demais. Fui atingida por algo, porém não senti dor, apenas uma sutil ardência, a qual progrediu a uma sensação de queimação que se intensificava a cada segundo. Levei a mão ao abdômen e meus dedos mancharam-se de sangue. O sargento corrupto segurava uma Beretta M9 com um silenciador. Dei alguns passos em direção da viatura para me proteger e senti minhas pernas fraquejarem. A última coisa que meu cérebro registrou foi uma braçadeira cheia de arranhões de combate diante dos meus olhos”.

A detetive ouviu a enfermeira conversar com alguém do lado de fora do quarto e logo a porta foi aberta. Uma pessoa entrou. A expressão no rosto de Gordon suavizou-se assim que avistou Greene acordada. Um sorriso apontou debaixo do bigode, mas morreu antes de se abrir por completo.

– Como se sente, detetive?

– Minha boca está um pouco seca devido à morfina, mas bem.

–Eu lamento por tudo. Deveríamos ter desconfiado que o Sargento Cort era aliado do Charada. – disse o Comissário.

Assim que ingressou na força policial, Alisa teve que aprender rápido a lidar com o seu ambiente de trabalho, principalmente por que nele se convive com as mazelas siamesas no dia a dia: a impunidade, na libertação dos criminosos alguns dias após a apreensão deles, e a corrupção dentro da DPGC. Alguns policiais descobrem o desvio de conduta de seus colegas, porém optam por não delatar devido o código de sigilo ou se deixam oprimir pelo medo de represálias.

– Ninguém deve ser culpado pelo o que aconteceu. Há policiais sérios na força, que trabalham em dois turnos e se esforçam para garantir a segurança dos cidadãos, você sabe disso melhor do que eu. O plano de Nashton apenas atingiu o seu objetivo. – disse Alisa.

– Não alcançou. Edward Nashton será mantido no Blackgate até o dia do julgamento.

– Espero que o juiz seja honesto.

– É o que todos nós esperamos, minha cara!

Não é segredo algum que há magistrados corruptos, entretanto, também há os exemplares, como o promotor Harvey Dent. O maior desafio dos magistrados honestos é trazer a justiça entre os homens aplicando leis falhas e abertas a interpretações, formuladas pelos legisladores. Leis são elaboradas, entretanto, quando implementadas, a maioria delas fica aquém das expectativas dos cidadãos, sobretudo, dos de Gotham.

–Você pretende deixar a força policial? — perguntou Gordon.

Alisa se demonstrou surpresa e respondeu com outra pergunta: – Quer se livrar de mim Comissário? – ela sorriu. – Claro que não! Não sou uma daquelas pessoas que desistem na primeira queda.

Após ouvir aquelas palavras, Gordon não pode evitar sentir um júbilo, apesar de também demonstrar-se preocupado com tal declaração. Afinal, não há palavras suficientes para descrever a realidade distorcida de Gotham. Nessa cidade, nada é tão simples o quanto parece, no entanto, é necessário e essencial que pessoas se importem e lutem pelo futuro para que as próximas gerações possam desfrutar de , ao menos, um pouco de paz.

–Eu acredito que Gotham pode ser salva do abismo em que se encontra. O primeiro raio de luz legítimo em décadas incidirá sobre Gotham quando os indivíduos pararem de temer em silêncio e conscientizarem-se e organizarem-se para fortalecer a pressão por transparência da administração pública, bem como a cobrança da prestação de contas dos governantes. Porém, deve ser um movimento consciente e contínuo, do contrário, de nada valerá. – a detetive declarou.

Gordon sabe que tais ações são os primeiros passos para solucionar os flagelos de uma cidade condenada, mas, às vezes, sente-se descrente quanto a recuperação de Gotham. Talvez, ele já tenha experimentado demais a cruel realidade, a qual o fez perder ótimos colegas; ver outros corromperem-se ou correr contra o tempo para salvar sua família das mãos de criminosos.

Ele sabia que era apenas uma questão de tempo para a visão rosada de um novato desbotar até tornar-se cinzenta. Ele, sinceramente, esperava que por mais difíceis e dolorosas fossem as peças que a vida preparasse para Alisa, que ela tivesse força para não perder a esperança, mesmo quando descobrisse que quanto mais se conhece a mente humana, menos se compreende.

O Comissário teve seus pensamentos interrompidos pelo toque de mensagem do seu celular. Enquanto lia o texto, as sobrancelhas do policial saltaram acima das lentes retangulares.

– Gotham precisa do bravo Comissário? – perguntou Alisa.

Jim Gordon suspirou. Estava visivelmente cansado, afinal, não é fácil tocar o barco da DPGC em águas turbulentas, que submergem o dique das leis, e Gordon tem desempenhado essa função com punhos de ferro.

– Ontem se comemorou o Dia da Independência, e um grave atentado ocorreu no festival de comemoração. O atentado acabou vitimando vinte e três pessoas. Sendo que dez faleceram e as outras estão feridas. Com a ajuda das câmeras de segurança, identificamos o autor do crime. Um fugitivo do Asilo Arkham. Julian Gregory Day. Também conhecido pelo pseudônimo Homem- Calendário. – Gordon respondeu coçando o bigode sutilmente manchado de nicotina.

Não é de se duvidar de que Gordon adquiriu o vício em nicotina e desenvolveu uma úlcera depois que deixou Chicago e experimentou a realidade mais distorcida que já testemunhou: a de Gotham. – Preciso ir à DPGC pedir reforço. – concluiu o Comissário.

Alisa sabia que Gordon referenciava-se a ele, Batman. Ela é perspicaz quanto a acontecimentos que a circundam. Há tempos que Gordon e Batman mantêm uma aliança tácita, a qual desagrada alguns colegas de trabalho do comissário, entre esses, o tenente Forbes. Regularmente, ocorrem levantes de questionamentos a respeito da prioridade da DPGC em apreender vigilantes. Greene nutre um ceticismo quanto aos métodos de vigilância do cavaleiro das trevas, porém o considera um aliado necessário para a força policial enquanto a improsperidade reinar na cidade.

– Espero vê-la na DPGC em breve. — Gordon se despediu da detetive sendo cuidadoso para não pressionar a cânula presente no dorso da mão de Greene.

Alisa estava sozinha novamente. Seus olhos castanhos miraram através da janela e avistaram a lua cheia de pairava no céu. Ela sabia que dentre alguns minutos, a sombra de um morcego seria projetado no firmamento, assim como sabia que a regeneração de Gotham será um processo longo que se estenderá por décadas ou gerações, por isso é preciso paciência, persistência e, sobretudo, fé. Os homens deixam suas marcas através de suas ações, e a menor delas faz a diferença. As vozes dos Gothamitas serão ouvidas em um só coro: o grito dos bons.

Notas finais
Você pensa que Gotham tem potencial para ser uma cidade livre da corrupção? Deixe-me saber sua opinião :) Cite o que lhe agradou e o que pode ser melhorado. Críticas construtivas são bem vindas!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!