O Gato
1 One-Shot
Notas iniciais
Fazem 52 dias desde que o Jean me deixou. Cinqüenta e dois longos dias lutando para seguir em frente e não conseguindo porque tudo me lembra a ele. Ir para a faculdade está um inferno; todos meus amigos eram amigos dele e, naturalmente, ficaram do lado dele, então fui deixado sozinho.
É engraçado porque foi ele quem me traiu e ainda conseguiu sair da história sem qualquer problema. Eu quem sou a pessoa ruim que nunca demonstrei carinho por ele e nunca o dei o que ele queria.
Ah, por favor.
Por mais que eu queira odiá-lo, eu não consigo. A dor que eu sinto desde que ele me deixou é maior do que tudo.
Mas eu precisava sair da cama e me forçar a seguir o fluxo da vida. Ainda preciso ir à faculdade, e em um ano vou me formar e esse pesadelo acabará.
Saio da cama e começo minhas obrigações matinais como escovar os dentes e tomar um banho. Como não tenho tempo para cozinhar, decido tomar meu café-da-manhã na cafeteria no fim da rua e vou até lá.
Meus fones de ouvido eram minha salvação; eles me distraiam da vida real e me impediam de pensar demais sobre minha solidão. Os coloco automaticamente antes de sair e caminho sem me importar com todos ao meu redor.
Bom, quase todos.
Quando eu estava prestes a atravessar a rua, noto que um gatinho atravessa a rua do outro lado. Os carros não estavam parando, provavelmente não o vendo, e eu não poderia deixar isso acontecer. Corro até ele e o pego seguramente em meus braços. Ele era preto como a noite e tão pequeno e magro que não parecia nada saudável. Tadinho.
A imagem dele miando para mim é a última coisa que vejo, entretanto, antes de um carro me jogar no chão e me fazer bater a cabeça. Malditos fones de ouvido que me impediam de escutar meus arredores.
~*~
Eu não morro, entretanto. Quando recupero minha consciência, eu estou em um quarto de hospital com tubos enchendo meu braço com alguma substância.
“Ah, graças a deus, Eren!” Ouço a voz de minha irmã e viro minha cabeça para o lado. “Eu teria te matado se você tivesse morrido.”
“Mikasa...” Tento falar, mas minha boca estava seca e meus movimentos lerdos.
“Não se force.” Ela levanta da cadeira ao lado da cama e pressiona um botão acima de minha cabeça. “Chamei a médica. Fica quieto.”
Não é como se eu quisesse me mover, de qualquer forma. Meu corpo estava pesado e não respondia direito.
“Ei, o garotinho finalmente acordou!” Uma médica entra e caminha até mim. “Como está se sentindo?”
“Fraco.” Murmuro.
“É só por causa da anestesia, vai passar logo.” Ela anota algo em sua prancheta. “Como está sua cabeça?”
“Não sei.” Fecho os olhos. Então, uma imagem do gatinho vem à minha cabeça novamente. “Onde está o gato?”
“Tá comigo.” Mikasa diz. “Ainda não acredito que você quase se matou por um gato.”
“Você teve sorte de não ficar em coma, sua batida na cabeça foi bem forte.” A médica completa.
“Quando posso ir pra casa?”
“Amanhã ou depois de amanhã, talvez. Precisamos ter certeza que seu cérebro está bem.”
Droga, tudo o que precisava agora eram dois dias em um hospital. Ótimo.
~*~
Por sorte eles não encontram nada de errado com minha cabeça e me mandam pra casa um dia e meio depois. Mikasa me dá uma carona do hospital e traz meu novo gatinho com ela. Sim, eu vou adotá-lo. Depois de quase me matar por ele é o que eu tinha que fazer, afinal.
“Tem certeza que você vai ficar bem sozinho?” Ela pergunta após me deixar em meu apartamento.
“Sim, não se preocupe. Eu me sinto bem.” Caio no meu sofá, deixando o gatinho brincar sobre ele.
“Bom, me liga se você precisar de alguma coisa.” Ela se vira em direção à porta. “E não faça nada idiota de novo.”
Assim que estou sozinho, brinco com o gatinho, fazendo cócegas em sua barriga e deixando que ele mordesse meu dedo.
“Você precisa de um nome, não é?” Digo naquele tom estúpido que uso com animais.
De repente um nome vem à minha cabeça. Levi. Não fazia idéia da onde ele veio, mas assim que olho para o gatinho de novo, sinto que o nome foi feito para ele.
“O que acha de Levi?” Pergunto, fazendo carinho em sua barriga de novo. “Então é Levi.”
Finalmente eu não estava mais sozinho.
~*~
Durmo como uma pedra e acordo atrasado para a aula no dia seguinte, então fico na cama por mais meia hora até que noto que Levi não está comigo.
“Levi?” Chamo, levantando lentamente e sentindo uma dor na parte de trás de minha cabeça.
Caminho até a sala, procurando por ele, e escuto barulhos vindos da cozinha. Primeiro penso que poderia ser o Levi bagunçando algo, mas então me dou conta que os barulhos pareciam mais com alguém cozinhando.
“Mikasa?” Chamo, sem resposta. Ela era a única que tinha cópias de minhas chaves para entrar, e fazia sentido que ela tenha ficado preocupada e decidiu aparecer para ver se eu estava bem.
Caminho lentamente até a cozinha, alerta, e encontro alguém se esticando para alcançar algo no armário. Um cara baixinho e de cabelo preto, que eu nunca vi antes.
“Quem é você?” Pergunto, assustado. “Como entrou aqui?”
Ele se vira para mim e me encara com seus olhos intensos. Eles eram familiares de certa forma, o que era assustador.
“Você acordou.” Ele diz com uma voz baixa e aveludada. “Estou fazendo seu café-da-manhã.”
Ele caminha para o fogão e continua fritando um ovo como se fosse a coisa mais natural do mundo. “Você, uh... Você provavelmente está no apartamento errado.” Eu digo.
“Como eu estaria? Você quem me trouxe pra dentro.” Ele se vira para mim de novo.
“Não lembro de trazer nenhum cara pra dentro ontem.” Franzo o cenho. “Quem diabos é você?”
“Sou o Levi, idiota.” Ele dá de ombros. “Aqui, fiz os ovos do jeito que você gosta.”
Ou eu estava alucinando ou esse cara era louco. Começo a rir e saio da cozinha, olhando para o chão.
“Levi, onde está você?” Pergunto, procurando pelo gatinho nos cantos.
E então o cara aparece da cozinha de novo.
“Você chamou?” Ele para na porta. “Venha e coma antes que esfrie.”
Eu estava ficando louco de verdade. Olho para ele e o encontro me encarando curioso, e isso me deixa tão bravo que eu volto para meu quarto e bato a porta ao fechar.
Eu ia dormir e ele ia desaparecer quando eu acordar.
~*~
Apago por praticamente o dia inteiro e isso era exatamente o que eu precisava. Assim que acordo, me espreguiço, bocejo e estalo cada osso de meu corpo antes de me levantar. Meu estômago estava doendo de fome, então destranco a porta e vou até a cozinha. Nenhum sinal do cara de cabelo preto, ainda bem. Eu provavelmente estava sonhando ou algo assim.
“Levi?” Chamo, olhando para o chão.
Logo um gatinho aparece da cozinha, miando alto. Ah, seu fofinho... Ele provavelmente estava com tanta fome quanto eu. Vou para a cozinha e procuro algo para comermos, e depois o pego em meus braços e o abraço. Tudo que eu precisava era de uma companhia assim.
Sento no sofá para assistir TV com o Levi na minha barriga, e logo ele dorme. Eu ainda estava bem acordado, já que havia dormido demais, então pego meu celular e respondo a mensagem da Mikasa perguntando por que eu faltei à aula (sim o Armin tinha que contar pra ela) e eu a digo repetidas vezes que estou bem.
Acho que assisto dois filmes antes de dormir no sofá, com o Levi ainda sobre minha barriga. Acordo na manhã seguinte com o som do despertador de meu celular, e, antes de desligá-lo, noto que há algo grande sobre mim. Abro os olhos e vejo cabelos pretos. Ai céus.
“E-E-Ei!” Tento me sentar, acordando o cara. “Quem diabos é você e como você entrou aqui de novo?”
Ele se espreguiça com cuidado, bocejando, e encontra uma posição mais confortável sobre mim de novo, me ignorando totalmente.
“Ei, sai de cima de mim!” Grito.
“Uh, tão barulhento.” Ele murmura, incomodado. “Me deixa dormir...”
“Você não me escutou? Quem é você?”
“Eu já te disse, sou o Levi.” Ele diz, escondendo o rosto em meu peito. “Você é confortável.”
“E-Ei!” Me sinto tão invadido que o pego pelos braços e o levanto para longe de mim. “Sério, da onde você veio?”
“Você é burro ou o que, Eren?” Ele franze as sobrancelhas para mim. Nossa, sua expressão era assustadora. “Sou o Levi, seu gato!”
“Você não pode ser o meu gato.” Rio.
“Bom, eu sou.” Ele se livra de minhas mãos e se levanta. “Quer café-da-manhã?”
Eu fico sem palavras. O que diabos estava acontecendo? Animais não viram pessoas na vida real, isso é impossível. “Eu tô ficando doido.”
“Não se preocupe, eu ainda vou te amar.” Ele caminha calmamente para a cozinha. “Quer ovos de novo?”
Pego meu celular e envio uma mensagem para a Mikasa, “Meu gato é humano”, e ela responde indiferente com um “para de assistir TV e não perde sua aula hoje, idiota.”
“Vem aqui, Eren!” Levi chama da cozinha e eu quase deixo meu celular cair no chão.
Eu não tinha outra opção a não ser ir até lá. Levi estava vestindo um avental e fazendo ovos de novo. “Vou comer fora.” Eu digo.
“Oh.” Ele visivelmente fica triste. “Quando você volta?”
“Depois da aula.” Eu deixo a cozinha e volto para o quarto.
Tento me arrumar o mais rápido que consigo e volto para a sala. Levi ainda estava lá, ainda vestindo um avental e me olhando intensamente.
“Vou ficar esperando.” Ele diz, caminhando até mim. Ando para trás à medida que ele se aproxima, até que bato as costas na parede. Ele fica na ponta dos pés para ficar da minha altura e encara meus olhos com seu olhar perfurante. “Não se atrase.”
“Okay.” Gaguejo, trêmulo.
E assim ele me beija, e eu não tenho outra opção a não ser beijá-lo de volta. E, nossa, seu beijo era, uh, faminto? E um tanto quente, tenho que admitir.
“Te vejo em breve.” Ele termina o beijo e dá batidinhas em meu peito antes de se afastar.
Eu não tinha idéia alguma do que estava acontecendo.
~*~
Na faculdade eu conto minha situação para o Armin, esperando que ele acreditasse em mim ao contrário de minha irmã. Ele escuta minha explicação com atenção, concordando com a cabeça o tempo todo e parecendo pensar profundamente.
“Então?” Pergunto quando termino. “O que acha que tá acontecendo?”
“Eren, como eu sei que o seu acidente não te causou nenhuma seqüela, só consigo ver uma explicação para isso. Acho que você precisa superar o Jean.” Ele fala sem hesitação. “O que você está vendo, seu gato se tornando humano e o beijando, é totalmente uma alucinação causada pelo seu estado emocional. Você sente falta de alguém lá por você...”
“Eu não estou assim tão depressivo... Eu acho.”
“É claro que está. Você precisa sair desse buraco, Eren.”
Apenas agradeço ao Armin por sua análise e não toco no assunto de novo. Eu não podia estar assim tão deprimido para alucinar desse jeito.
Chego em casa esperando encontrar apenas um gato lá. Por sorte eu encontro, e eu não podia ficar mais feliz com isso, então até o pego do chão e o seguro o tempo inteiro. O levo para a cama comigo e o mantenho do meu lado para dormir, sem nem querer pensar no que eu encontraria pela manhã.
“Não vá embora, tá?” Peço, antes de desligar a luz.
Durmo como um bebê pela noite inteira. Quando acordo, estico meu corpo antes de abrir os olhos e meus pés encontram outros pés debaixo do cobertor. Ah não, por favor.
Abro os olhos e lá está ele.
“Ok, isso não tem nenhuma graça!” Sento e o balanço para acordá-lo. ”Acorda, seu psicopata!”
“Uh... O que foi?” Ele boceja e se estica.
“É sério; eu posso chamar a polícia pra você. O que você está fazendo, você gosta de fazer as outras pessoas ficarem loucas?”
“Eu não estou fazendo nada.” Ele senta e inclina o corpo para perto do meu.
“Você está invadindo meu apartamento!”
“Eu já te disse que foi você quem me trouxe pra dentro.” Ele franze as sobrancelhas, colocando uma mão em meu peito. “Quer algo em especial, mestre?”
“Eu quero que você vá embora!” Pego sua mão e a tiro de mim.
“Oh, tenha cuidado comigo.” Ele fala com raiva, fazendo que eu solte sua mão em medo.
Eu acho que não deveria, já que a próxima coisa que ele faz é me empurrar na cama e sentar sobre meu corpo.
“E-Ei, o que você—“
“Você me salvou, e eu sou tão grato por isso...” Ele diz, mordendo seu lábio inferior. “Então farei qualquer coisa para te fazer sentir bem, mestre...”
Oh céus. Não não não. “Sai de cima de mim.”
“Você não gosta dessa posição?” Ele se inclina, aproximando nossos rostos. “Vou fazer de tudo pra que você goste...”
Eu tinha que acabar com isso antes que eu fizesse algo estúpido, então eu rapidamente o tiro de cima de mim, pego meu celular no criado-mudo e me tranco no banheiro. Ligo para o primeiro número que aparece na tela e espero ansiosamente que atendam.
“Mikasa, me ajuda!” Eu grito.
“O que foi?”
“O Levi tá me atacando!”
“O quê?” Ela ri. “Ele tá te arranhando ou algo do tipo?”
“Não, eu tô falando sério, droga! Ele é um humano; ele me beijou ontem e hoje ele quase me violentou na cama!”
“Woa, calma aí. Onde você tá agora?”
“Trancado no banheiro. Preciso da sua ajuda!”
“Okay, eu tô indo aí.”
Quinze minutos depois eu escuto alguns passos dentro de meu quarto, e logo alguém bate na porta do banheiro. “Eren?”
Levanto e abro a porta. A Mikasa estava lá, franzindo a testa para mim.
“Onde ele está?” A pergunto.
“Quem?” Ela franze a testa ainda mais. “Não tem ninguém aqui.”
“Eu tô te dizendo que tem!” Saio do banheiro e caminho pelo quarto. Nenhum sinal do cara.
“Eren, eu tô começando a me preocupar com você.”
“Eu juro que tinha um cara aqui, ele ficou dizendo que era o Levi e tentou me atacar!” Eu grito.
“Não grita.” Ela revira os olhos. “Os vizinhos não precisam saber que você tá ficando maluco.”
Então o gato Levi adentra o quarto, e a Mikasa não hesita em pegá-lo no colo.
“Esse gato é demoníaco!” Eu aponto para ele. “Eu tô falando sério.”
“Nossa, Eren, calma.” Ela amansa a cabeça de Levi. “Você fumou algo?”
“É sério!” Balanço os braços em frustração. “Leva ele com você e você verá. Ele se transforma em humano e te ataca! Sexualmente!”
“Oh céus o que tá havendo com você.” Ela suspira. “Okay, vou levá-lo comigo. E você tem que acalmar sua cabeça.”
Ela vai embora logo depois com Levi, e eu me jogo em minha cama em frustração. Ótima vida.
~*~
O dia passa calmamente até que Mikasa aparece bem cedo na manhã seguinte com o Levi de novo.
“A Annie tem alergia, não posso ficar com ele.” Ela o solta no chão. “E não, ele não é um demônio e ele não vira humano, seu esquisito.”
“Eu tô te dizendo que ele vira.” Observo enquanto Levi vem até mim e passa entre meus pés.
“Bom, então você terá que lidar com isso. Boa sorte.” Ela se vira e vai embora.
Quando estou sozinho de novo com o Levi, observo-o miando aos meus pés, parecendo com fome e inofensivo. Ele era completamente e sem dúvidas um gato.
“Okay, vou pegar sua comida.” Caminho para longe dele. “Espera aí.”
Viro para seguir até a cozinha, mas paro no meio do caminho. E assim decido olhar para trás e o Levi não era mais um gato.
“Senti sua falta.” Ele diz, sentando no sofá. “Eu não gosto da sua irmã.”
Grito tão alto que provavelmente meu prédio inteiro ouviu.
“O que diabos?!” Agarro meu próprio cabelo em frustração. “Sério, o que é você?”
“Sou seus desejos internos, Eren...” Ele se levanta e começa a andar até mim.
“Não não não, você fica aí!” Ando para trás.
“Sei que você me quer...” Ele continua vindo, e eu continuo andando para trás.
“Fica longe ou eu chamo a policia!” Ameaço, pegando o celular de meu bolso. “É sério!”
“Não tenha medo, querido...”
Levanto meu celular e aperto o botão de câmera ao invés do de contatos, e quase tenho um ataque cardíaco. Ele não aparece na tela quando aponto a câmera para ele. “Merda.”
Passo por ele e deixo o apartamento apressadamente. Eu estava ficando louco.
O hospital era a apenas algumas quadras de distância. Corro até lá o mais rápido que posso e paro no balcão, ofegante.
“Me mandem pra ala psiquiátrica, eu tô louco!” Grito para a enfermeira que estava lá.
“Com licença?” Ela arregala os olhos.
“Eu estou vendo coisas, me ajuda!” Pego meus cabelos de novo, puxando. “Eu não faço idéia do que tá acontecendo!”
Eu estava provavelmente berrando como o louco que eu era, e toda a sala de espera estava olhando para mim.
“Senhor, preciso que você se acalme. Em breve nós o atenderemos...”
“Você não entende! Eu estou sendo atacado por algo que não existe!”
“Ei, você.” Alguém me chama com uma voz familiar e eu me viro. Meus olhos quase saem das órbitas.
“É você!” Grito, apontando para o homem em minha frente. “Você é o gato, você é o cara que tá me seguindo!”
“Hã?” Ele franze as sobrancelhas. “Nossa, melhor você vir comigo.”
“Não vou a lugar nenhum com você!” Dou um passo atrás.
“Você não se lembra de mim?” Ele suspira. “Eu quem te salvei.”
E então eu paro. Assim que ele menciona isso, minha mente volta ao dia em que fui atropelado por aquele carro. Sim, eu me lembro de alguém parecido com ele vindo me resgatar enquanto eu estava sangrando no chão. Oh.
E observando melhor agora, ele estava vestindo um jaleco. Oh.
“Você é um médico?”
“Eu sou o enfermeiro que infelizmente estava passando na hora que o acidente aconteceu.” Ele suspira de novo. “Você poderia, por favor, vir comigo e parar de causar um escândalo aqui?”
De certa forma as coisas começam a fazer algum sentido. Talvez o meu cérebro se lembrasse dele, mas o associou à coisa errada, e assim o gato virou ele. É, isso podia fazer algum sentido.
O sigo até uma sala e ele pede para eu sentar em uma maca. “Vou tirar sua pressão enquanto a médica não vem e você pode me contar o que está acontecendo.” Ele pega o medidor e põe em meu braço. “Então?”
“Eu, uh...” Era meio estranho falar disso agora que entendi quase tudo. “Eu comecei a ter algumas alucinações após o acidente, como meu gato virando humano...”
“Hm.” Ele concorda. “E aparentemente eu era o humano?”
“Uh... Sim.” Coro.
“Achei que se lembraria de mim, já que você ficou falando enquanto eu te salvava.” Ele murmura.
“Sério?” Franzo o cenho. “Não lembro de nada disso... E nem de você direito, pra ser sincero.”
“Isso é frustrante. Mas pelo menos explica porque você...” Ele pausa no meio de suas palavras e olha para mim. “Esquece.”
“Não, diga.” Pressiono. “Eu disse algo estranho?”
“Bastante coisa, na verdade.” Ele vira o rosto e torna sua atenção de volta para meu braço.
“Tipo o quê?”
“Eu prefiro não mencionar.”
E assim alguém abre a porta, e era a mesma médica da última vez. “Ei, garotinho!”
“Eu devo ir agora.” Ele deixa meu braço e caminha até a médica, a entregando sua prancheta.
“Espera...” Eu chamo, e ele se vira para mim. “Você...”
“Olha os bolsos da calça que você estava usando naquele dia.” Ele murmura antes de trocar um olhar constrangido com a médica e sair.
~*~
Depois de um zilhão de exames e duas prescrições, pego uma carona com a Mikasa e volto para meu apartamento com apenas uma coisa em minha mente. A primeira coisa que faço quando chego lá é procurar, em meu armário, a calça que usava naquele dia... e não é uma tarefa difícil, já que ela é a peça mais suja na pilha de roupas.
Procuro nos bolsos de trás, e então nos da frente, e finalmente encontro um pedaço de papel.
5552394 – Levi
Oh. Pego rapidamente meu celular e ligo para o número no papel.
“Alô?” Escuto sua voz baixa e aveludada do outro lado.
“Oh, ei.” Babulcio sem jeito. “É o cara do—“
“Sim, eu reconheci sua voz.” Ele me interrompe. “Pelo menos você lembrou de olhar seus bolsos.”
“Sim...” Eu rio. “Mas, uh... Por que eu tenho o seu número? E-Eu digo... Não que seja uma coisa ruim...”
“Nossa, achei que encontrar isso refrescaria sua mente.” Ele estala a língua, parecendo entretido. “Você me disse tanta bobagem que me fez te passar meu número, sabe. E isso não é algo que eu dou assim tão facilmente.”
“Oh, sério?” Coro. Merda, por que eu tinha que perder minha memória assim? “O que eu te disse?”
“Eu não vou te dizer.”
“Ah, vamos lá...” Peço, rindo de novo. “Se você não me disser, como vou me lembrar?”
“Espero que seja você quem repetirá tudo para mim, se lembrando ou não.”
Geralmente eu sou lento com flertes assim, mas consigo entender na hora dessa vez. “Oh, então eu preciso te ver de novo para, uh, ver se traz de volta as minhas memórias perdidas...”
“Café da manhã amanhã?”
Esperançosamente eu lembraria de tudo o mais rápido possível.
~*~
Mudo o nome do Levi (o gato) dois dias depois, já que o gato não tinha mais cara de Levi para mim. Duas semanas depois, Levi (o humano) conhece o gato, e os dois se dão facilmente bem juntos. E duas horas depois de eles se conhecerem, eu peço para o Levi namorar comigo e ele diz sim.
Eu não lembro o que eu disse para ele enquanto estava aluminando pela batida, mas desde nosso primeiro encontro eu tenho uma certa noção do que foi. Talvez foi algo sobre seus olhos lindos, ou sobre como ele parece um anjo, ou até poderia ser algo como eu sabia que ele era minha alma gêmea, se eu consegui ficar assim tão patético.
A única certeza que eu tenho é de que eu seria atropelado um milhão de vezes se isso significasse que eu seria salvo por ele depois.
FIM
Notas finais
Como não devo voltar até o ENEM, boa sorte para todos que vão fazer ele (como eu ugh) o/
Até a próxima, e obrigada por ler ♥
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