O Garoto Feito de Sol e Terra
76 Capítulo 76 — O Peso do Silêncio
Os dias se passaram arrastados, cada um pior que o anterior.
Eduardo continuava indo à escola, mas era como se estivesse ausente. Caminhava pelos corredores sem realmente ver ninguém, sentava no fundo da sala sem falar uma palavra, comia sozinho no intervalo, a cabeça sempre baixa, os olhos vazios.
Os cochichos e risadas haviam diminuído, não porque as pessoas tinham esquecido, mas porque ele tinha se tornado um fantasma. Um assunto velho. Uma história que já não gerava tanto interesse.
Mas o peso continuava.
O isolamento não era só dos outros. Ele próprio se afastava, se escondia dentro de si.
Até que, um dia, Tiago se aproximou.
Foi no intervalo, quando Eduardo estava sentado num banco afastado, fingindo mexer no celular só para parecer ocupado. Tiago se sentou ao lado dele, sem pedir permissão.
— E aí.
Eduardo não respondeu de imediato. Continuou olhando para a tela, mesmo que nada estivesse ali.
Tiago suspirou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— Eu sei que tá uma merda pra você.
Eduardo apertou os lábios, mas não olhou para ele.
— Eu não vou falar sobre o vídeo. — Tiago continuou, quase hesitante. — Não quero falar disso.
Eduardo finalmente ergueu os olhos, encarando-o.
Tiago não parecia debochado. Nem irritado. Ele parecia… cansado.
— Só queria trocar uma ideia contigo. Sobre qualquer outra coisa.
Por um momento, Eduardo pensou em responder. Em perguntar sobre a escola, sobre o vestibular, sobre qualquer merda que não envolvesse o que estava dilacerando ele por dentro.
Mas então, lembrou-se do que Tiago disse antes.
"Tu gosta mesmo desse moleque? Ou tu só curte pegar macho?"
A dor daquele dia ainda estava ali.
Ele não precisava de Tiago tentando aliviar a culpa.
— Eu tô bem. — Eduardo respondeu, finalmente.
Tiago olhou para ele por um instante, parecendo medir suas palavras.
— Olha, se quiser conversar, tô aqui.
Eduardo não respondeu.
Tiago ficou ali por mais um segundo e então se afastou, deixando Eduardo sozinho mais uma vez.
E talvez fosse melhor assim.
◄☼►
O fim do ano letivo se aproximava, e cada dia parecia trazer um peso maior.
Eduardo tentava ignorar, mas sua mente voltava para a mesma coisa todas as noites.
Leo.
Desde aquele dia em que havia dito palavras cortantes, Eduardo não tinha mais recebido mensagens.
Ele não sabia o que doía mais: o fato de Leo não ter tentado mais, ou o fato de sentir uma vontade absurda de mandar algo.
Mas como?
Depois do que ele disse…
Como ele podia aparecer agora e fingir que não tinha partido Leo ao meio?
Ele queria falar. Porra, como queria. Mas cada vez que pegava o celular e encarava a conversa vazia, a culpa o esmagava.
E então, ele desistia.
E o silêncio continuava.
◄☼►
A noite estava silenciosa. Eduardo estava deitado na cama, encarando o teto, o celular ao lado, como se qualquer vibração fosse disparar uma bomba dentro dele.
Ele não esperava que Leo fosse mandar mais nada. Depois de tudo o que aconteceu, depois da briga, depois das palavras cruéis que jogou nele como facas afiadas… Eduardo tinha certeza de que Leo finalmente tinha desistido.
Mas então, o celular vibrou.
Uma.
Duas.
Três vezes.
O coração de Eduardo disparou. Ele pegou o aparelho com as mãos trêmulas, e quando viu o nome de Leo na tela, sentiu o estômago afundar.
Abriu a conversa.
As mensagens estavam ali.
Leo: não sei por que ainda tô mandando isso, mas foda-se
Leo: eu fiquei mal pra caralho depois daquele dia, eduardo. de verdade
Leo: e vc nenhum dia perguntou se eu tava bem
Eduardo sentiu um aperto insuportável no peito.
Leo: eu entendo a raiva, a frustração, tudo. eu sei que sua vida virou um inferno. mas vc jogou tudo em mim. vc me culpou por algo que a gente viveu junto
Leo: e eu aceitei. pq eu sei que vc tá fodido. eu sei que sua vida virou um inferno e que vc tá tentando lidar com isso do jeito que consegue
Leo: mas sabe o que dói?
Leo: dói saber que eu me preocupei, passei noites sem dormir esperando por respostas, tentando entender o que tava acontecendo, me importando de verdade... e, no fim, vc só me descartou como se nada disso tivesse significado
Leo: eu passei dias me sentindo MUITO MAL por vc ter dito aquilo
Leo: eu fiquei me perguntando se tudo que a gente viveu de fato foi só um erro pra vc
Leo: se eu só fui um erro
Eduardo sentiu um gosto amargo na boca. A culpa crescia no peito, sufocante.
Leo: pq pra mim não foi, eduardo. nunca foi
Eduardo passou a mão pelo rosto, sentindo o peso de cada palavra como um soco.
Ele quis responder. Quis dizer que não era verdade. Que nada do que viveram foi um erro. Mas como ele podia dizer isso agora, depois de tudo que já tinha falado? Depois de ter jogado Leo no meio do caos que ele mesmo criou?
Os três pontinhos apareceram na tela novamente.
Leo ainda estava digitando.
Eduardo prendeu a respiração, esperando.
Leo: eu só queria q vc soubesse que eu nunca desejei nada disso pra vc. eu nunca quis q sua vida virasse um inferno. eu nunca quis q vc perdesse tudo
Leo: e muito menos quis ser a causa disso
Eduardo sentiu um nó apertar sua garganta.
Leo: me desculpa, eduardo
Leo: se, de alguma forma, eu tornei sua vida essa desgraça toda, me desculpa de verdade
Leo parou por um momento, mas logo voltou a digitar.
Leo:eu só queria que as coisas tivessem sido diferentes
Leo: então é isso... eu n vou mais te incomodar
Leo: se cuida
E foi isso.
Nada mais.
Nenhuma outra mensagem.
Nenhuma despedida longa. Nenhuma pergunta.
Apenas isso.
Eduardo ficou olhando para a tela, o coração martelando, os dedos tremendo.
O peito de Eduardo afundou como se alguém tivesse arrancado todo o ar de seus pulmões.
Leo estava desistindo.
E dessa vez, era pra valer.
Era isso que ele queria, não era? Não era isso que ele forçou Leo a fazer? Então por que parecia que algo dentro dele estava quebrando?
Eduardo segurou o celular com mais força, sentindo a respiração falhar.
O que ele deveria fazer agora?
Ignorar? Responder? Correr atrás?
Mas ele sabia que, qualquer que fosse a escolha, já era tarde demais.
◄☼►
O último dia de aula chegou mais rápido do que Eduardo esperava.
Os corredores estavam cheios de alunos animados, falando sobre os planos para as férias, as universidades que entrariam, os cursos que escolheram. A empolgação pelo futuro pairava no ar, mas Eduardo não compartilhava desse sentimento. Para ele, não havia nada para comemorar.
Ele passou os últimos meses se mantendo no automático. Estudando, fazendo provas, ignorando olhares, evitando conversas desnecessárias. Conseguiu manter as notas boas, o suficiente para garantir uma vaga na London School of Business & Finance, uma faculdade prestigiada na Inglaterra. Administração e Comércio Internacional. Um curso sério, técnico, prático, o tipo de coisa que seu pai aprovava.
Mas, para Eduardo, aquilo não era um sonho. Não era um plano de vida. Era uma saída.
Era a chance de sumir.
Ele já tinha tomado a decisão. Não haveria despedidas, nem nostalgia, nem apego ao que ficou para trás. Ir embora era a única coisa que fazia sentido.
— Vai na festa de formatura? — Tiago perguntou um dia antes, num tom casual, como se tudo estivesse normal entre eles.
Eduardo deu uma resposta curta.
— Não tô afim.
Tiago suspirou.
— É o fim do ensino médio, cara. A gente devia comemorar.
A gente.
Que piada. Não existia mais "a gente". Eduardo sabia disso.
— Não estou com vontade. — Ele respondeu apenas.
Tiago abriu a boca, mas desistiu. Ele não tinha mais o que dizer.
Então Eduardo não foi.
Enquanto os ex-colegas dançavam, bebiam e postavam fotos com sorrisos largos, ele ficou no quarto. Sozinho. Ouvindo o barulho abafado da televisão no andar de baixo, enquanto sua mãe e seu pai conversavam sobre os preparativos para a mudança.
Se pegou abrindo o Instagram, vendo alguns stories da festa. Kayla estava lá. Seus antigos amigos também.
Eduardo hesitou em abrir a conversa do WhatsApp com Leo, mas não abriu.
Era melhor assim. Ele largou o celular na mesa e encarou o teto.
Em poucas semanas, ele estaria longe dali. Longe da cidade, longe da escola, longe de tudo que deu errado.
Se convenceu, mais uma vez, de que era o certo a se fazer. Ele precisava ir.
Viver outra vida. Recomeçar. Sumir.
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