O Garoto Feito de Sol e Terra
3 Capítulo 3 — O Garoto da Fazenda
Os dias na escola passaram rápido, e Eduardo já não se sentia tão deslocado como no primeiro dia. Além de Leo, ele fez amizade com outras crianças que também adoravam se sujar brincando na terra e inventando jogos no recreio.
Tinha o Bruno, um garoto um pouco mais gordinho que sempre aparecia com um saquinho de balas no bolso e fazia trocas com os colegas. Ele adorava corridas de tampinhas e era campeão em girar pião no pátio.
Tinha a Carla, que era esperta e corajosa, a única menina que jogava bola com os meninos e brigava se alguém dissesse que ela não podia. Ela também tinha um talento especial para subir em árvores mais rápido do que qualquer um.
E também o Davi, que gostava de contar histórias de terror durante o recreio, deixando todo mundo com medo, mesmo que ninguém admitisse.
Todos eles, junto com Leo, formavam um grupo inseparável. O recreio era sempre cheio de corridas, jogos de queimada, desafios de equilibrar pedras e apostas bobas como “quem consegue beber mais água do bebedouro sem parar para respirar”.
Mas o que Eduardo mais gostava eram as tardes na fazenda de Leo. Lá, ele se sentia livre.
Correr descalço pelo pasto, alimentar as galinhas, brincar de esconde-esconde no milharal… tudo isso parecia mais divertido do que qualquer videogame. Ele se acostumou ao cheiro da terra, ao barulho dos bichos e até ao canto dos grilos à noite.
Só que Helena Castilho não achava nada disso normal.
◄☼►
Certa tarde, quando Eduardo chegou em casa, sua mãe quase teve um infarto.
— Meu Deus do céu, Eduardo! O que aconteceu com você?!
Eduardo olhou para si mesmo. Sua camisa branca do uniforme estava coberta de manchas de terra. O joelho direito estava ralado e vermelho. Suas mãos tinham poeira e, em algum momento, seu cabelo ficou cheio de pequenos fiapos de palha.
— Ah, mãe… eu só estava brincando.
Helena cruzou os braços e franziu a testa.
— Brincando onde? Num chiqueiro?! Olha só para esse estado!
— A gente estava na fazenda do Leo…
— Quem é Leo?
Eduardo hesitou.
— Aquele meu amigo da escola que mora numa fazenda.
Helena suspirou fundo e colocou as mãos na cintura.
— Olha, Eduardo, uma coisa é fazer amigos, outra é voltar parecendo que rolou no chão como um porco. Eu quero saber quem é esse menino e onde exatamente você está se metendo.
— Mas mãe…
— Amanhã mesmo, você vai me levar até essa fazenda. Quero conhecer essa família.
Eduardo revirou os olhos. Sua mãe tinha um jeito de dramatizar as coisas. Mas sabia que não adiantava discutir.
◄☼►
No dia seguinte, Eduardo avisou Leo que teria que levar sua mãe até a fazenda.
— Ihhh… tá encrencado? — Leo perguntou, segurando o riso.
— Um pouco. Mas acho que minha mãe só quer ver se vocês são normais.
Leo deu de ombros.
—Eu acho que ela vai gostar da gente.
À tarde, depois da escola, Helena Castilho dirigiu o carro até a estrada de terra que levava à fazenda. Eduardo ficou tenso. Sabia que sua mãe vinha de um mundo diferente, um mundo onde as pessoas tomavam café da manhã em mesas bem-postas e evitavam se sujar. Será que ela iria desprezar a simplicidade da casa de Leo?
Quando o carro parou em frente à porteira da fazenda, Helena suspirou ao ver a poeira subir.
— Santo Deus… já sujou o carro todo.
Eduardo revirou os olhos.
Antes que pudessem sair, Leo apareceu correndo, descalço, com um sorriso de orelha a orelha.
— Oi, Eduardo! Oi… moça!
Helena arqueou uma sobrancelha.
— Você deve ser o Leo.
— Sim, sou eu! — respondeu ele, animado.
Eduardo sorriu. Leo não sabia ser tímido.
A mãe de Leo, Rita, logo apareceu na varanda, enxugando as mãos no avental.
— Ora, ora, temos visita! — disse ela, sorrindo calorosamente.
Helena, que estava pronta para encontrar uma casa desorganizada e um ambiente caótico, foi surpreendida por algo totalmente diferente.
A casa era simples, mas limpa e acolhedora. O cheiro de pão de queijo recém assado pairava no ar. No quintal, algumas galinhas ciscavam e uma cabra mastigava calmamente um pedaço de feno. As irmãs mais novas de Leo, Mariana e Sofia, espiavam por trás da porta com olhinhos curiosos.
— Você deve ser a mãe do Eduardo! Entre, por favor! — disse Rita.
Helena hesitou por um momento, mas aceitou o convite.
Ela nunca havia entrado em uma casa tão diferente da sua. Na casa dos Castilho, tudo era impecável, brilhante, polido. Aqui, os móveis eram antigos, mas bem cuidados. Os panos de prato tinham bordados feitos à mão, e uma chaleira de ferro soltava vapor no fogão à lenha.
Enquanto Rita preparava o café, Gustavo, o irmão mais velho de Leo, apareceu, cumprimentando Helena com um aperto de mão firme.
— Então você é a mãe do Eduardo. O garoto aqui é praticamente um novo membro da família.
Helena olhou para o filho, que estava sentado na cadeira de balanço de madeira, rindo das brincadeiras de Leo com as irmãs.
Ela nunca tinha visto Eduardo tão à vontade.
Por fim, quando aceitaram um pedaço de bolo de fubá e começaram a conversar, Helena percebeu que aquele lugar não era de todo ruim.
Rita era gentil e acolhedora, falava com simplicidade, mas com um carinho genuíno. Contava histórias da fazenda, das colheitas, dos desafios de criar animais.
Helena, acostumada a eventos formais e reuniões de negócios, não sabia como reagir no começo. Mas, ao ver a alegria de Eduardo e o jeito sincero daquela família, foi se desarmando.
Quando finalmente se despediram, voltando para o carro, Helena olhou para o filho e perguntou:
— Você gosta muito daqui, né?
Eduardo sorriu.
— Eu adoro.
Helena suspirou, ainda tentando aceitar tudo aquilo.
— Só promete que vai tomar banho direito quando chegar em casa.
Eduardo riu.
— Prometo, mãe.
E então, voltaram para casa, mas Helena já sabia que Eduardo não pertencia apenas ao mundo dos Castilho. Ele pertencia também àquele lugar simples, com cheiro de pão de queijo e terra molhada.
◄☼►
Depois da visita à fazenda, Helena não fez mais tantas perguntas sobre Leo ou sobre os dias que Eduardo passava lá. Parecia ter aceitado que o filho encontrara um novo mundo onde se sentia bem. Ainda assim, às vezes, olhava para as roupas sujas de terra e soltava um suspiro resignado, murmurando algo sobre como lavar aquilo seria um desafio.
— Pelo menos agora ela não reclama tanto — comentou Eduardo, enquanto caminhava ao lado de Leo depois da escola.
— É, parece que ela gostou da minha mãe, né? — Leo sorriu.
— Eu acho que sim. No começo, achei que ela ia ter um ataque vendo a poeira na estrada, mas acho que ela acabou gostando de vocês.
Leo estufou o peito, brincando:
— Minha família é irresistível!
Eduardo riu.
Sua mãe, mesmo com certa relutância, parecia, de fato, ter aceitado aquela amizade. Porém, mesmo com essa aceitação, os dois garotos sabiam que pertenciam a mundos diferentes. E, de vez em quando, essa diferença ficava evidente.
◄☼►
Certa noite, enquanto jantavam na enorme mesa de madeira da sala de jantar, Frederico Castilho anunciou:
— No próximo sábado, vamos a uma festa na casa do senhor Albuquerque.
Helena ergueu os olhos do prato.
— O empresário?
— Sim, ele está comemorando a inauguração de uma nova filial da empresa. Convidou várias pessoas influentes da cidade.
Eduardo continuou comendo, sem muito interesse. Até que perguntou:
— Vai ter comida diferente lá?
— Provavelmente — respondeu Frederico. — Esses eventos sempre têm um banquete.
Helena olhou para o filho com um olhar de advertência.
— Não vá para encher o prato como um esfomeado.
Eduardo revirou os olhos.
No dia seguinte, na hora do recreio, Eduardo comentou com Leo sobre a festa enquanto mordia um pedaço de pão de queijo.
— No sábado, vai ter uma festa na casa de um empresário da cidade. Meu pai foi convidado e vai levar a família toda.
Leo, que estava sentado na escadinha do pátio chutando pedrinhas, arregalou os olhos.
— Festa chique?
— Acho que sim.
— Com um monte de comida diferente?
— Com certeza.
Leo sorriu e limpou as mãos na bermuda.
— Beleza, então eu vou também.
Eduardo congelou por um momento.
— O quê?
— Eu vou com você. Assim, a gente come um monte de coisa diferente e eu te faço companhia.
Eduardo coçou a nuca, sem jeito.
— É que… só convidaram minha família.
Leo piscou, como se só naquele momento percebesse que não havia sido incluído no convite.
— Ah.
Houve um breve silêncio.
— Mas não tem problema! — Leo disse rapidamente, com um sorriso. — Você vai e depois me conta o que tinha lá.
Eduardo assentiu, mas algo no jeito que Leo falou o incomodou.
Até aquele momento, nunca tinham precisado pensar sobre quem podia ou não podia ir a certos lugares. Estavam sempre juntos na escola, na fazenda, na rua… mas, agora, Eduardo percebia que havia espaços onde Leo não era incluído automaticamente.
E, de alguma forma, aquilo deixou um gosto amargo na sua boca.
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