O Garoto Feito de Sol e Terra

15 Capítulo 15 — Algo Diferente no Ar


O sol brilhava forte sobre os campos da fazenda, mas uma brisa leve tornava a tarde agradável. Eduardo e Leo estavam brincando, como tantas outras vezes, correndo entre os celeiros, desviando de galinhas que se espalhavam pelo terreiro e pulando obstáculos improvisados no caminho.

A competição começou com um simples desafio: quem conseguiria escalar mais rápido o cercado e pular no monte de feno do outro lado?

— Você tá parecendo um velho, riquinho. Tá demorando demais! — Leo provocou, já se agarrando na cerca de madeira.

— Velho? Você tá falando isso só porque sabe que vai perder.

Leo riu e disparou na frente, subindo com agilidade. Eduardo tentou alcançá-lo, mas o outro já estava pulando do topo.

— Toma essa! — Leo gritou no ar antes de cair no monte de feno.

Eduardo não pensou muito antes de pular logo atrás.

Mas, no último segundo, Leo rolou para o lado sem perceber, e Eduardo caiu direto em cima dele. O impacto foi leve, mas o suficiente para arrancar um "uff!" de Leo quando Eduardo caiu de peito sobre ele.

Por um instante, nenhum dos dois se mexeu.

Leo estava deitado de costas no feno, os olhos cor de mel arregalados, encarando Eduardo de perto.

Eduardo sentiu o calor do corpo de Leo debaixo dele, os peitos colados, a respiração ainda acelerada pela brincadeira.

O tempo pareceu desacelerar.

O coração de Eduardo batia forte, mas não tinha certeza se era pelo impacto da queda ou por outra coisa.

Os olhos de Leo estavam fixos nos dele. Tão próximos.

Eduardo nunca tinha notado como a cor deles ficava mais intensa sob o sol, um mel quente e dourado, profundo e vivo.

Ele piscou, sentindo algo estranho no peito.

Mas antes que pudesse processar qualquer coisa, uma chuva de terra caiu direto no seu rosto.

— ARGH!

Ele se levantou rapidamente, cuspindo poeira e esfregando os olhos.

Quando conseguiu enxergar de novo, Leo estava rindo, jogado no feno como se não tivesse acabado de quebrar o momento mais estranho da vida dos dois.

— Você tá bem? — Leo perguntou, ainda rindo.

Eduardo respirou fundo, pegando um punhado de terra do chão.

— Vou te mostrar o que é ficar bem.

E, sem pensar, jogou terra de volta nele.

O riso de Leo ficou ainda mais forte enquanto os dois voltavam a brincar, jogando poeira um no outro, como se nada tivesse acontecido.

Mas tinha acontecido.

E os dois sabiam disso.


◄☼►


Depois disso, eles continuaram brincando, correndo pela fazenda, mas às vezes o silêncio pairava entre eles.

Não um silêncio desconfortável.

Mas um silêncio carregado de alguma coisa que nenhum dos dois entendia direito.

De vez em quando, Eduardo pegava Leo olhando para ele de relance e Leo percebia quando Eduardo fazia o mesmo, mas nenhum dos dois comentava nada.

Mais tarde, quando o sol começava a descer no horizonte, Eduardo voltou para casa pedalando, sentindo o vento no rosto, mas sem conseguir organizar os próprios pensamentos.

Ele não queria pensar naquele momento, mas estava pensando mesmo assim.

A sensação do corpo de Leo sob o seu ainda estava muito vívida.

Os olhos dourados.

A respiração quente.

A proximidade.

Ele apertou os pedais da bicicleta, tentando se concentrar no barulho dos pneus no chão de terra.

Foi só quando chegou em casa que seu celular vibrou no bolso. Pegou o aparelho e desbloqueou a tela.

Mensagem de Tiago.


Tiago: mano, acabei de perder o bv com a samanta. q mina gostosa pqp.


Eduardo ficou olhando para a tela por um momento.

Tiago e seus amigos sempre falavam disso. Sobre garotas, sobre beijos, sobre quem estava ficando com quem.

Ele deveria se importar com isso também, certo?

Deveria…

Mas por que parecia que sua mente ainda estava presa na fazenda?


◄☼►


A sala de aula estava em um burburinho. A professora segurava um pequeno pote transparente cheio de papeizinhos dobrados, de onde tiraria os nomes para formar as duplas da atividade.

Eduardo estava sentado, relaxado, ouvindo a sequência de nomes sendo anunciados.

— Próxima dupla… Eduardo Castilho e Kayla Albuquerque.

O barulho na sala continuou o mesmo, mas ao seu lado, Tiago sorriu de canto, jogando o corpo para trás na cadeira.

— Olha só... — murmurou, com um olhar malicioso.

Eduardo ignorou e se levantou, pegando seu material para se sentar ao lado de Kayla.

Ela já estava olhando para ele com um sorriso amigável.

— A gente já se conhece, né? — comentou.

Eduardo assentiu.

— Sim. Da festa do seu pai.

Kayla riu.

— Exato. Você tava meio deslocado lá, pelo que me lembro.

Eduardo deu de ombros.

— Festas não são muito minha praia.

— Nem a minha.

A professora continuava sorteando os outros nomes, e os dois aproveitaram para conversar enquanto esperavam.

Kayla parecia natural e à vontade, sem a superioridade que algumas meninas populares da escola tinham.

Eles conversaram amenidades, sobre a atividade, sobre a escola, sobre como Eduardo estava se adaptando.

Até que Kayla soltou um comentário que o pegou desprevenido.

— Sabe, desde que te vi naquela festa, eu sabia que você era diferente desses mauricinhos tipo o Tiago.

Eduardo arqueou as sobrancelhas.

— Diferente como?

— Você não age como se fosse melhor que os outros.

Eduardo ficou em silêncio por um momento.

Ele não sabia bem como responder.

Tiago e o resto do grupo tinham aquele jeito meio arrogante, ele sabia disso. Mas ele fazia parte daquele grupo agora.

Ele seria um deles?

Kayla olhou para ele de lado, como se tentasse entender seus pensamentos. Mas antes que Eduardo pudesse responder, a professora bateu palmas.

— Muito bem, turma! Agora que temos as duplas, comecem a atividade!

Então a conversa ficou para depois.


◄☼►


O intervalo chegou, e Eduardo estava sentado com Tiago, Hugo e Giovane no pátio.

O assunto não demorou a chegar até Kayla.

— Você tem sorte, hein, Castilho? — Tiago disse, dando uma cotovelada nele.

Eduardo franziu a testa.

— Sorte?

— Kayla, cara! Dupla com ela logo de cara.

Hugo riu.

— Vai que rola alguma coisa.

— E se rolar, ele já pode perder o BV. — Giovane completou, e os três caíram na risada.

Eduardo não achou engraçado, mas forçou um sorriso.

O assunto então mudou para a grande conquista de Tiago.

— Falando em perder o BV… Samanta, mano. — Tiago começou, cruzando os braços com um ar de superioridade. — Que mina incrível.

Hugo e Giovane se aproximaram mais.

— Tá falando sério? — Hugo perguntou.

— Óbvio. A gente ficou no sábado, foi tranquilo.

— E como foi? — Giovane perguntou, interessado.

Tiago sorriu de lado.

— Bom… eu não sou de dar detalhes, né? Mas vocês sabem como é.

Eduardo não sabia como era. Mas, naquele momento, não queria saber.

Porque tudo que sua mente insistia em lembrar era de outra coisa.

Não de Kayla.

Não da Samanta.

Não de uma garota qualquer.

Leo.

Os olhos dourados.

O corpo quente debaixo do seu no monte de feno.

O silêncio entre eles antes de Leo jogar terra no seu rosto.

Eduardo piscou rápido, como se o simples ato de piscar pudesse afastar aqueles pensamentos.

Ele não queria pensar nisso.

Mas era exatamente nisso que estava pensando.


◄☼►


A conversa com Tiago, Hugo e Giovane ainda pairava na mente de Eduardo enquanto voltavam para a sala de aula.

Ele tentou se concentrar na atividade com Kayla, mas os comentários dos amigos continuavam ressoando.

“Vai que rola alguma coisa.”

“E se rolar, ele já pode perder o BV.”

Ele respirou fundo e empurrou esses pensamentos para longe.

Kayla estava folheando o livro didático da matéria, mas ao invés de prestar atenção, murmurou:

— Eu odeio essa escola, sabe?

Eduardo levantou os olhos para ela, surpreso.

— Sério?

Ela bufou.

— Todo mundo aqui é igual. — Fechou o livro com um movimento brusco e apoiou o queixo na mão. — Riquinhos metidos que só sabem falar sobre viagens caras, carros e quem beijou quem.

Eduardo franziu a testa.

— Então por que você estuda aqui?

Kayla riu com ironia.

— Você acha que eu tive escolha? Meu pai me colocou aqui desde criança. Acha que escola pública não é pra “gente como a gente" — Ela faz aspas com as mãos.

Eduardo se encostou na cadeira, pensativo.

Ele conseguia entender.

Kayla continuou, observando a sala ao redor com desdém.

— Você não se sente meio deslocado aqui, não?

Eduardo hesitou.

— Às vezes.

Kayla olhou para ele com mais curiosidade.

— Onde você estudava antes?

— Na escola pública de São Tomás.

Os olhos verdes de Kayla brilharam com interesse.

— E como era?

Eduardo sorriu um pouco.

— Bem diferente daqui. — Ele olhou ao redor da sala impecável e organizada. — Menos regras, mais confusão… era mais livre.

— Parece mais divertido.

Eduardo riu.

— Era.

Kayla o observou por um momento, depois perguntou, curiosa:

— Você fez amizade lá? Tem algum amigo de lá ainda?

Eduardo não precisou pensar muito antes de responder.

— Tenho. Meu melhor amigo, Leo.

O nome saiu naturalmente.

Kayla continuou interessada no que Eduardo dizia.

— Ah, eu lembro que você falou dele na festa! Esse seu amigo, Leo, como ele é?

Eduardo sorriu de leve, lembrando-se de tantas coisas ao mesmo tempo que nem sabia por onde começar.

— Ele é… sei lá. Do tipo que nunca para quieto. Sempre inventando alguma coisa pra fazer, sempre com alguma ideia idiota que no fim acaba sendo divertida.

Kayla riu.

— Parece encrenca.

Eduardo acompanhou a risada.

— Total. Mas das boas. Ele mora numa fazenda, então a gente sempre brincava lá. Jogava bola no meio do pasto, corria atrás das galinhas, subia em árvore… essas coisas que acho que ninguém aqui faria.

Kayla apoiou o rosto na mão, observando Eduardo falar.

Ele nem percebeu, mas sua expressão mudava enquanto falava sobre Leo. O tom de voz ficava mais leve, mais animado, como se as memórias fossem um lugar confortável onde sua mente gostava de se perder.

— Deve ser um lugar incrível. — Kayla comentou, depois de um tempo.

— É. — Eduardo confirmou, sem hesitar. — Acho que é o único lugar onde nada precisa fazer sentido. Onde nada precisa ser complicado.

Kayla ficou em silêncio por um instante, depois sorriu de canto.

— Você fala dele e dessa fazenda com tanta empolgação que até me deu vontade de conhecer.

Eduardo piscou, meio pego de surpresa com o comentário.

Ele riu de leve, desviando o olhar.

— Quem sabe um dia.

Kayla sorriu de volta, e a conversa seguiu para outras amenidades.

Mas Eduardo percebeu que falar sobre Leo sempre o fazia se sentir diferente. Diferente de uma forma que ele ainda não entendia direito.


◄☼►


Leo estava deitado na cama, olhando para o teto de madeira do quarto. A brisa quente da tarde entrava pela janela aberta, trazendo o cheiro de terra e mato misturado ao leve aroma de pão que sua mãe provavelmente assava na cozinha.

Mas ele não estava prestando atenção em nada disso. Sua mente estava em outro lugar. Mais especificamente, no momento em que Eduardo caiu sobre ele no feno.

Ele fechou os olhos e tentou não lembrar, mas o corpo ainda se lembrava. O peso de Eduardo sobre o seu, o calor da pele dele, os olhos castanhos tão perto, tão fixos nos seus.

Foi por isso que jogou terra no rosto de Eduardo naquela hora. Porque se não tivesse criado uma barreira, Eduardo também não teria cruzado nenhuma.

E isso era um problema.

Leo não sabia explicar exatamente o porquê, mas alguma coisa dentro dele apertou naquele instante. O tempo ficou esquisito, e por um segundo ele teve medo de que Eduardo percebesse alguma coisa que ele mesmo ainda não sabia colocar em palavras.

Então quebrou o momento do único jeito que sabia.

Jogar terra foi a primeira coisa que passou pela sua cabeça. Um jeito rápido de fazer tudo voltar ao normal, de afastar aquela sensação estranha e fazer Eduardo rir de novo.

Mas agora, deitado ali, ele sabia que não tinha sido só isso. Porque não conseguia esquecer o que sentiu, e isso era um problema ainda maior.

Leo saiu do quarto e caminhou até o pátio, onde Gustavo estava abaixado, martelando um pedaço da cerca quebrada. O som ritmado da madeira ecoava no calor da tarde.

O irmão mais velho ergueu o olhar quando viu Leo se aproximar.

— Tá sem nada pra fazer hoje? — perguntou, ajeitando o boné na cabeça.

Leo deu de ombros.

— A mãe ainda não mandou eu pegar no batente.

Gustavo riu de leve e voltou ao trabalho.

— Bom pra você. Tá com a cabeça longe, né?

Leo chutou uma pedrinha no chão e não respondeu.

A escola estava sendo um saco. Ele nunca gostou muito de estudar, mas agora era pior.

Tudo parecia muito mais chato desde que Eduardo saiu. Ele ainda via Carla, Davi e Bruno todos os dias, mas nada era igual. Eduardo sempre foi o garoto que fazia a escola valer a pena. Agora, ele passava os dias cercado daqueles riquinhos idiotas.

Toda vez que pensava em Tiago, Hugo e Giovane, um nó se formava em sua garganta.

Lembrava do jeito que Tiago o olhou naquele dia do pôquer. Da forma como o chamou de burro sem pensar duas vezes.

E Eduardo? Eduardo ainda era amigo deles.

Leo tentava entender. Tentava dizer a si mesmo que Eduardo só estava tentando se adaptar, mas não conseguia evitar o ressentimento. Como alguém que dividiu tantas coisas com ele, podia se encaixar tão bem num grupo de gente que só sabia se exibir? Como Eduardo não enxergava o que eles eram?

Leo apertou os punhos.

Talvez a verdade fosse que Eduardo estivesse mudando, e ele não queria admitir isso.

Outra coisa que o irritava era não poder falar com Eduardo quando quisesse. Eduardo tinha um celular. Todos os amigos ricos dele tinham.

Leo não tinha.

Se quisesse falar com ele, teria que usar o telefone fixo da fazenda.

E era estranho ligar do nada. Helena ou Frederico poderiam atender, Eduardo podia estar ocupado, podia estar com aqueles amigos.

Leo mordeu o lábio, inquieto.

Ele odiava sentir essa falta de controle, essa distância entre eles crescendo pouco a pouco. E odiava ainda mais o fato de que, no meio de toda essa raiva e frustração, sua mente sempre voltava para o mesmo lugar.

Os olhos de Eduardo sobre os seus.

O peso dele.

A respiração curta.

E o medo de que, se não tivesse jogado terra nele naquele momento, alguma coisa tivesse acontecido.