O Frio que Precede A Morte
1 Capítulo Único
— Falta Muito?
-É a quinta vez que você pergunta isso. — Respondeu uma firme voz no banco do motorista
O Rapaz que havia perguntado se ajeitou preguiçosamente no banco detrás, ignorando completamente a resposta proferida por seu empregado. As feições cadavéricas e rígidas do rapaz derreteram em um sorriso simplista, passando a fitar o breu de fora.
Embora fosse de madrugada o exterior estava sendo pintado pela neve que caía copiosamente, cobrindo toda a estrada com uma grossa camada de neve. Chantili na opinião do rapazote, que fez questão de deixar sua visão açucarada do mundo em público ( o que gerou um simples suspiro vindo do motorista).
— 5 minutos para chegarmos — Disse o motorista, numa trégua, — Por que você sempre faz questão de perguntar isso? Já deveria ser rotina para você?
Embora o interior do carro estivesse um negrume o motorista viu pelo retrovisor o brilho frio dos olhos do Rapaz. Um azul de um lago, cuja profundidade seria suficiente para morrer afogado, tentado descobrir os mistérios que aqueles olhos guardavam. o sorriso que brevemente havia sumiu;
— Sou compromissado, faço questão de entregar meu serviço na hora, e é preferível te irritar que apelar a um relógio, aquela engenhoca que eles fazem questão de admirar. "Vinte anos de vida, Três meses para isso ou aquilo" — Disse o Rapaz em uma voz aguda cheia de escárnio, ao invés de continuar a imitação ele estourou em uma risada seca, sem ar saindo de seus pulmões. — Tamo quase lá, eu sinto isso, terminou o rapaz
— Senhor.. — Começou o Motorista, cautelosamente,- Mas.. Com essa roupa, não preferiria algo mais reconhecível? Uma capa longa e uma fo...
— Pare aqui mesmo. — Ignorou o rapazote, Embora estivesse com simples casaco de couro ele abriu a porta do carro e saiu lentamente, o frio que invadiu o carro fez o motorista contorcer de dor, embora o rapaz achasse graça disso;
— Coloque o ar condicionado no quente da próxima vez; respondeu o Rapaz em um tom irônico. Enquanto preparava-se para andar (deixando a porta aberta, sabia que isso irritaria ainda mais o pobre servo) ele girou o calcanhar, assemelhando-se a um soldado, dando um giro de 180 graus parado; -ah, não sei, capas são para heróis, eu sou.. — Disse o Rapaz em um tom pensativo, fitando os céus, -... uma força da natureza. Não preciso de disfarces, máscaras ou qualquer coisa,-arregaçando as mangas de sua jaqueta em plena nevasca, os pálidos braços pareciam ser feitos do mesmo gesso que o inexpressivo rosto.
Ele partiu indefinidamente seguindo o rumo da calçada (mantendo a porta do passageiro aberta) quando uma buzina impaciente o relembrou da existência de seu funcionário;
— Pode ir, eu cuido por aqui, tire o resto da semana de férias; acompanhado de um impaciente "chega para lá" com as mãos. Apenas a linguagem corporal foi suficiente para fazer o motorista seguir o rumo sem seu chefe, os faróis iluminavam os flocos de neve que caiam pesadamente na rua já coberta de neve.
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O rapaz admirou a paisagem por um breve momento, a luz dos postes iluminando os flocos de neve, da mesma maneira que o farol iluminou, mas agora era a branca luz dos postes iluminando os igualmente claros flocos de neve. O frio presente seria mortal para um ser humano, mas ele era uma força da natureza, e caminhava em direção a ação. E quando é dito "ação" é no sentido do que vem antes da reação, também pode significar uma atitude, o motivo ficam a critério do nosso personagem, o rapaz; agora caminhando vagarosamente, embora apenas os postes iluminassem o carpete branco que aquela cidade se tornou ele viu uma figura de quatro na calçada, sendo iluminado por um poste vermelho , deitada no chão, porém indiscutivelmente viva
. Deleitava-se o momento, o frio gritante, o barulho que a neve fazia com seus passos e a fina camada gélida que se formou nos seus ombros. Fora uma eternidade até alcançar a figura recurvada, agora as curvas eram mais destacadas, era uma figura feminina.
— Boa noite; Disse o Rapaz. — O que faz aqui neste frio?; Embora sempre soubesse o desfecho ele gostava de dar uma chance as pessoas saberem o que estava acontecendo. Morrer sem saber qual foi o seu fim era pior do que a morte em si.
-Que...Quem é Você? — Disse a moça assustada, com todo o corpo tremendo, pelos eriçados e vestindo curtas roupas.
Era uma bela moça, notou o rapaz, embora aparentasse ser de origem humilde se vestia com elegância, o batom escarlate dava vida ao rosto belo da mulher.
-Eu sou a Morte- Disse o Rapaz, se ajoelhando em direção a moça; Esta se contorcia de frio, em posição recurvada segurando uma garrafa com os braços, esta pressionada contra seu tórax,
A moça encarou os olhos vazios da Morte, poderia ter se afogado neles, dado a vida para saber o que se encontrava do outro lado daquelas pupilas azuis, porém retrocedeu, desviando o olhar
— Eu... Não esto.. estou pronta — Disse a moça chorando, as lágrimas congelavam no instante que saiam dos seus olhos piedosos, pedindo por uma intervenção.
— Nunca estamos prontos, disse o rapaz, agora sentado perto do corpo trêmulo da moça; — Porém temo dizer que é hora de aceitar..Isso que te faz humana, imprevisibilidade, sou uma força da natureza. Agora, me olhe,por favor.
A Moça encarou de novo a Morte, face a face, a última se aproximou lentamente do rosto da moça, inexpressivo, a Moça estava sendo forte, encarando a mesma, aceitando seu destino; após um momento, e o que quer que seja considerado um momento para uma pessoa que encontrou a morte em pessoa, ela chegou do outro lado dos olhos da Morte, o lado que continha a luz, atravessou o enfumaçado de mistério que circuncidavam o destino final de todo ser vivo, ela tinha encontrado a salvação.
A face dela desbotou em um trêmulo sorriso, a morte colocou o indicador nos carminados lábios dela, e beijou suavemente ela; O beijo da morte. Os lábios assumiram um tom roxeado, e o cadáver caiu na neve, em sua cama gélida e impessoal, em um calçada qualquer em uma rua qualquer na saída de um bar qualquer. O que levou a esse trágico destino não dizia a respeito a nenhum ser vivo, apenas a moça e a morte, agora encarando o cadáver que jazia no chão. A morte levantou, encarou o poste que iluminava a cena, agora ela estava em outro plano, onde ele não teria como atuar, e partiu para onde quer que fosse necessário, deixando um rastro de neve por trás do cadáver.
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