O Florista de Star Hill
12 O Detetive
Notas iniciais
Logo após deixar Afrodite e Kiki em casa, Shura resolveu tomar outro caminho além do circo.
O pequeno departamento policial, se é que poderia ser chamado assim, vivia quase sempre vazio, com exceção de uns ou outros desordeiros que passavam as noites de embriaguez trancafiadas em uma das três celas do local. Os crimes daquela cidade eram quase zero. O detetive, que tomava conta daquele lugar, o reconheceu assim que entrou. Deu um sorriso “amistoso” e o convidou a se sentar:
– Sente-se, por favor. O que posso fazer por você?
Demorou-se pensando bem no que diria. Pensou em desistir, mas resolveu ficar. Esta era sua melhor chance. Se desistisse, se sentiria culpado se algo acontecesse com o florista.
– Ahn... – começou – Acho que um amigo meu corre perigo.
– Como assim, perigo?
O detetive estreitou os olhos. Agora media Shura de cima a baixo, ou até onde seus olhos alcançavam.
– É alguém de circo? Porque se for, eu prefiro não meter meu dedo nisso. Não quero gente de outro lugar preso aqui. Isso só atrai mais criminosos.
Agora quem olhava bem era Shura para o homem. Aquele homem tinha sobrancelhas grossas, ou, melhor dizendo, uma única sobrancelha... Seus olhos avistaram uma plaquinha na mesa com o nome dele:
Radamanthys
– N-não... Não é do circo. – disse Shura, voltando-se para a conversa. – É um amigo que mora aqui na cidade, que tive o prazer de rever. Mas acho que o homem que mora com ele, o sócio, melhor dizendo... Acho que ele é um homem perigoso.
Radamanthys debruçou-se sobre a mesa e encarou Shura.
– O senhor já viu algo suspeito? Digo, algo suspeito feito por este sócio do seu amigo?
– Ah... Na realidade, nunca, mas uma outra pessoa que conheço, e este tal sócio também conhece, desapareceu...
– Então está acusando-o de alguma coisa?
– Sim! Digo, não! Não exatamente.
O detetive monocelha deu um suspiro e coçou atrás da orelha.
– Faça o seguinte: apenas pense melhor antes de vir fazer alguma acusação. Não posso sair batendo na casa de pessoas que não fizeram nada ainda apenas com acusações sem fundamentos.
O circense sentiu-se um tanto revoltado com aquilo, mas não desistiria tão facilmente.
– Então ao menos procure por este que desapareceu. O que sei sobre ele é isto. – anotou algumas características de Mu e o lugar em que ele morava. – Ele cuidava de um menino que agora vive com o meu amigo e o sócio dele.
Empurrou o papel pela mesa até o detetive e se retirou. Olhou em direção ao relógio no meio da praça. Precisava voltar par ao circo.
–X-
Radamanthys pegou o papel em suas mãos e começou a ler atentamente a cada palavra. A descrição do homem do circo não era das melhores, mas não era difícil de saber de quem se tratava o tal desaparecido, e nem seria complicado saber quem era os tais envolvidos na história, já que o garoto aparentava ser como o homem que agora procurava.
Levantou-se e abriu sua garrafa de uísque, enchendo um copo e bebendo aquilo num só gole. Limpou a boca com as costas da mão. Coçou o centro da sobrancelha com o dedo e olhou para uma daquelas celas. Um riso escapou de seus lábios ao se deparar no que estava acontecendo ali.
– Essa gente de fora só traz problemas...
Pegou o papel e seu casaco e saiu.
O endereço que o circense lhe dera era um tanto distante, mas não havia como errar. Entrou naquela casa chamando pelo dono do local, entretanto ninguém respondia.
Algumas coisas estavam intactas, outras deixadas pela metade. Havia poucos brinquedos para uma casa com um garoto. A poeira acumulava rápido naquele lugar, e mesmo com poucos dias de ausência, como o outro sugeriu, ela se acumulou demasiadamente. Mas a higiene do local não lhe interessava naquele momento. Tudo o que queria era uma pista que levasse a este suposto desaparecimento.
No quarto do tal Mu havia uma caderneta muito bem guardada, que Radamanthys só encontrou depois de desarrumar tudo. Foi preciso furar um remendo no colchão fino dele para encontrar. Algumas anotações ali estavam numa língua que não conhecia, mas muitas lhe chamavam atenção. O nome Aldebaran estava escrito muitas vezes, de formas diferentes.
Um desenho de flores murchas ao lado de um rascunho de um desenho na forma de um homem de cabelos longos despertou seu interesse. Ele não lhe era estranho. Tinha uma pintinha no canto inferior do olho esquerdo.
– Eu conheço você... – disse Radamanthys para o desenho. Seu tom de voz era vago, mas a memória da pessoa retornava a sua mente. Sabia exatamente aonde encontrá-lo.
–x-
Longe dali, Afrodite observava atentamente ao ruivinho. Ele ria das gracinhas de Aldebaran e conversava com ele como se nada tivesse visto.
Parte do florista achou aquilo ótimo, pois ele parecia estar lidando bem com a perda, mas havia algo ali que o atiçava a ficar atento. Uma criança assim não deveria ser tão boa em fingir...
Ao final do dia, Afrodite preparou a cama de Kiki e fez questão de colocá-lo para dormir.
– Podemos ir ao circo amanhã? – perguntou o garoto. Parecia muito tranquilo.
– Claro. Claro que podemos.
O loiro olhou para trás e se certificou de que o companheiro não estava por perto.
– Diga-me o que não conseguiu dizer antes, Kiki! – sussurrou.
O jovem mordeu um pouco o lábio, como se pensando se deveria mesmo dizer aquilo que queria dizer, então o fez:
– Ele pode ser bem perigoso...
O olhar do garoto e aquelas palavras gelaram o sangue de Afrodite, que ao ouvir passos na escada, voltou a consciência e terminou de ninar Kiki e se apressou a encontrar o companheiro no corredor.
Ele não deu boa noite ao menino. Apenas fechou a porta.
Aldebaran, que havia acabado de chegar à parte de cima da casa agora olhava para Afrodite.
– Está pálido! O que houve?
Estava realmente preocupado. Correu até Afrodite e pegou em suas mãos, guiando-o até a cama.
– Está bem, Afrodite?
– S-sim...
O loiro evitava olhar para ele. O menino conseguiu assustar o florista. Não queria ser enterrado no quintal, ao lado de Mu. A lembrança da praticidade de Aldebaran para esconder o corpo causou angústia. Estava com medo. Porém odiava estar com medo de Aldebaran, a quem agora amava.
Num impulso que nem mesmo ele entendeu, Afrodite se jogou em cima de Aldebaran e o abraçou com força, beijando seu rosto e sua boca. Pôde sentir as mãos dele o agarrarem delicadamente.
– Eu tenho medo... – confessou a Aldebaran.
– Não tenha. Não precisa ter... Eu já disse que ficaremos bem!
O florista apenas aquiesceu.
Queria acreditar naquilo. Não, não teria dúvidas mais. Decidiu-se por acreditar naquilo, sendo bom, ou não. Àquela altura precisava de um lado, e escolheria o dele.
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