Notas iniciais
Fiz este capítulo num dia de extremo movimento no trabalho, e acho que me saí bem... Um suspense não faz mal a ninguém! Bjos, e desculpem os erros, eu tentei corrigir, mas é meio difícil quando paramos a todo momento.

– Posso ir junto? – perguntou o menino.

– Não. – disse seco. Sua voz estava rouca e pesada. Parecia que todas as mágoas queriam sair num grito.

A expressão de Kiki era de receio e, mesmo com a ordem de não ir junto do ferreiro, ele decidiu segui-lo. Era bom em seguir as pessoas, desde sempre.

Esperou que seu tutor se afastasse consideravelmente e tratou de segui-lo. O caminho que Mu fazia era o da cidade, e ele bem sabia disso. Estaria a caminho da casa de Aldebaran? Então, por que não queria levá-lo junto, já que gostava tanto do gigante?

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Aldebaran arrumava a pequena estante de livros do escritório da casa. Ouviu passos na escada e foi até lá. Afrodite descia, sempre segurando no corrimão. Seu rosto estava um pouco inchado, mas já esperava por isso. Observou-o até ele chegar ao último degrau.

O florista passou sua mão pelos cabelos do artesão, o que o fez fechar os olhos.

– Que problemático, eu sou... – riu o florista. Para o artesão, era bom ouvir este tom de voz vindo dele.

– Tem fome?

– Sim. Chorar sempre me dá fome. – esfregou os olhos.

– Ainda da tempo de pegar a feira da noite. Vou comprar frutas e verduras para você. Quer mais alguma coisa?

– Não. Obrigado.

Ficou ao pé da escada observando Aldebaran fechar a porta. Pensou em quão gentil ele era. Então, num suspiro pesado, rumou a cozinha. A jarra de barro com água estava em cima da mesa. Pegou um copo e aproveitou cada gole. Sentia como se tivesse comido areia, de tão seca que sua garganta estava. Ouviu um estalo na madeira vindo da sala.

– Casa velha... – murmurou.

Mais um estalo.

– Aldebaran...?

Colocou o copo na mesa e andou até a porta da cozinha. Nem bem chegou ao batente da porta e ouviu um rangido. Aquilo, sem dúvidas, eram passos. Então, com muito cuidado se afastou de onde estava, silenciosamente, e tentou se aproximar da porta dos fundos. Uma sombra apareceu, toda deformada pela luz da vela. Agora ele tentava girar a maçaneta velha e enferrujada daquela porta que nunca abriram. Um barulho emitido pela mesma o fez fechar os olhos. Suava frio. Não sabia o que essa pessoa queria, mas ninguém entra tão quieto assim na casa dos outros a toa. Pegou uma faca que estava a sua frente num movimento suave, com medo de ser percebido. Enfiou-a entre a porta e o batente e a forçou. Com isso, o trinco enferrujado se rompeu e abriu-a com um puxão.

Parou mais uma vez, agora do lado de fora. Os passos continuavam do lado de dentro da cozinha. Leves, mas determinados, como se fosse uma fera procurando à presa. A sua frente estava a caixa de utensílios de Aldebaran, mais uma vez jogada em qualquer lugar da casa, como sempre reclamava. Abaixou-se e engatinhou até ela. Posicionou o objeto bem abaixo da porta e saiu correndo.

Como imaginou: ele estava esperando algum sinal de vida do florista. Mas não esperava que o mesmo tivesse colocado aquele caixote em seu caminho.

Viu os cabelos loiros correndo para trás da casa. Seu ódio só aumentou. Levantou-se num pulo e o seguiu. Antes que o florista pudesse se fechar numa pequena cabana aos fundos da casa, ele agarrou seus cabelos.

Afrodite trancou a porta, mas seus fios loiros eram puxados com força do lado de fora. Sentia alguns serem arrancados de sua cabeça, tamanha era a violência dos puxões. Pedia que a pessoa o largasse, mas ele não respondia nada. Mas, a sua frente estava sua tesoura de jardinagem; não pensou duas vezes e se esticou o máximo que pôde para alcançá-la. Entretanto, quanto mais ele tentava se mover, mais a pessoa o puxava. Decidiu, num ataque de fúria e dor, puxar-se de volta, com toda a força que tinha. Porém, isso resolveu apenas o tempo suficiente para pegar a tesoura.

Suas mãos tremiam tanto que mal conseguia segurar direito à ferramenta pesada. Cortou seu dedo tentando abri-la e quando conseguiu, começou a picotar os fios dourados.

Por fim, conseguiu soltar-se. Chorava e tremia devido ao terror imposto pelo outro. Olhou rápido à procura de um lugar para se esconder do atacante que estava quase abrindo a porta. Nunca se sentiu tão grato por esta porta que emperrava.

Agachou-se atrás de um móvel velho no canto da cabana. Rezava para que Aldebaran voltasse logo. Mas sabia que ele não voltaria agora. Tentava controlar sua respiração. Aquela pessoa parecia um fantasma. Sempre com um andar leve e deslizando ao redor. Só que fantasma não tinha cheiro de lavanda. E só conhecia uma pessoa que lhe causava calafrios e tinha este cheiro...

Esperou que ele aparecesse. Não era burro a ponto de atacar as cegas. E também não tardou que ele se mostrasse. Olhos injetados, seu rosto numa expressão de fúria que brilhava de suor.

No mesmo momento em que viu o florista, o florista o viu.

O florista tinha o corpo um pouco mais alto e pesado que o do ferreiro, mas isso não era problema para Mu. Em sua mão, uma adaga levemente curva cortava a mão do florista, fazendo-o recuar rapidamente.

Três passos foram o suficiente para começar a atacá-lo novamente. Afrodite tentou correr para a saída, mas Mu a fechara após entrar.

Fechara a porta e esquecera a tesoura do florista. Mas ele não.

Num movimento rápido, Afrodite se abaixou, pegou a ferramenta e se virou contra o ferreiro.

Sentiu o metal enferrujado entrando em sua carne. Tentou dizer algo, mas o ar estava escapando de sua boca, totalmente inaudível. Olhou para o florista, o maldito florista que fizera isso a ele, mas ele chorava. Ouviu-o dizer algo, desculpar-se. Ele tentava estancar o sangue que escorria do corpo do ferreiro, mas não conseguia.

Foi deitando-se lentamente no chão, e a cada gota que escapava de seu corpo, um pouco de sua vida ia embora junto.

Quando finalmente deu seu último suspiro, Afrodite desatou a chorar, desesperado pelo corpo agora totalmente imóvel. O sangue alcançara seus pés e a sensação de que estava começando a grudar-se no chão tomou seu íntimo. Junto de seu choro, pôde ouvir um mais fino ainda. Estava certo de que imaginava coisas.

–x-

Aldebaran chegou a casa e começou a procurar pelo companheiro. Queria contar que encontrara as frutas que ele mais gostava. Mas Afrodite não respondia. A única coisa que conseguia ouvir era um choro de criança. Foi seguindo o som e, pelo caminho, via suas ferramentas desarrumadas pelo chão do quintal. Andou mais alguns metros e viu Kiki chorando à porta da cabana de Afrodite, sentado, os dedos enlaçados uns nos outros. Aproximou-se do menino e tocou seu rostinho.

– O que houve Kiki? Por que chora tanto? Brigou com Mu, novamente?

Quando tocou no nome do ferreiro, suas lágrimas rolaram ainda mais.

Ouviu um barulho vindo de dentro da cabana. Imaginou se algum gato teria entrado ali, novamente. Fez com que o menino se afastasse da parta, e a empurrou. Algo estava ali atrás. Empurrou com mais força. Desta vez a coisa saiu de trás da porta, mas a visão que teve o fez desejar que nunca tivesse a tivesse aberto.

O corpo de Mu estava estendido no chão, e o mesmo estava coberto pelo sangue do corpo. Em pé, agora, ao lado da porta, estava Afrodite. Havia parado de chorar, mas seu rosto estava endurecido pelo medo e pelo susto.

– O que aconteceu? – perguntou Aldebaran, a boca seca.

– Ele me atacou... correu atrás de mim a casa toda.

O artesão reparou nos cabelos cortados de Afrodite.

– Ele fez isso?

– Eu... eu fiz... Mas fiz porque ele me segurou pelos cabelos! Aldebaran, eu não tive a intenção de matá-lo! Ele se jogou na frente da tesoura!

Afrodite falava sem pausa. Estava aterrorizado. O artesão o abraçou e então se lembrou de Kiki. Tirou os dois daquele local e os levou para dentro de casa, na biblioteca. Sempre de olho nos dois, ele fez um chá para eles, usando uma receita que o próprio florista lhe dera para usar como calmante há um bom tempo, e esperou que se acalmassem. O florista ainda estava nervoso. Tremia sem parar. Em sua cabeça, a cena de Mu morrendo aos pouco se repetia, mas o artesão insistia que descansassem.

O menino foi o primeiro a adormecer, em seguida foi Afrodite. Certificou-se de que eles estavam realmente dormindo e, cuidadosamente, apagou as luzes e trancou a porta da biblioteca. Andou quieto pela casa, recolhendo a bagunça da perseguição e, ao chegar à cabana, começou o trabalho pesado. Pegou um pedaço de lona escura aonde enrolou o corpo de Mu. Olhou uma última vez para o rosto dele. Parecia enfim em paz.

Após guardar o corpo, o puxou para fora e começou a limpar o sangue. O trabalho que aquilo estava lhe dando era grande. Esfregava com força entre as madeiras da cabana, limpou bem a tesoura de jardinagem e colocou tudo no lugar, como se nada tivesse ocorrido ali.

O grande problema agora era o corpo de Mu.

Havia muito movimento na rua para sair com aquele fardo enorme, e seria perigoso deixar os dois sozinhos na casa, logo depois do que viram e fizeram. Procurou, então, um local adequado ali mesmo. Com a pá de Afrodite, ele foi testando os cantos do quintal até que encontrou um perfeito. Molhou o máximo que pôde a terra e começou cavar. A terra estava mais pesada, mas assim conseguia tira-la com mais facilidade.

Cavou até deixar fundo o suficiente e então colocou o corpo ali. Agora devolvia toda a terra ao buraco, cobrindo o corpo de lavanda. Não conseguia evitar o choro, ele o amou, ainda o amava, apesar dos pesares. Amanhecia quando finalmente terminou e foi se lavar, não antes de ter certeza de que ninguém o vira.

Afrodite abriu os olhos e sentiu sua cabeça latejar muito mais que antes. Junto de seu corpo um volume menor o agarrava. Olhou para baixo e o menino ruivo o abraçava; Estava acordado, mas não falava nada. Afrodite passou a mão pelos cabelos do menino e ele olhou para o florista.

– Você está bem...? – perguntou o loiro.

Ele fez que sim com a cabeça. Apertou o abraço. Afrodite sentiu algo que nunca sentira antes. Retribuiu o carinho. Mas a curiosidade o corroia. Ele teria visto, ou não, Afrodite matando Mu?

O florista virou a cabeça quando ouviu a maçaneta ser virada. Era Aldebaran que entrava. Seus olhos estavam vermelhos e tinha uma aparência cansada. Ele pegou Kiki no colo, que se deixou carregar, e o levou até a cama do quarto. Afrodite o seguiu a passos lentos até certa parte e ficou esperando que ele saísse. Sua roupa estava suja de sangue, assim como suas mãos, e só reparara nisso agora.

Em voz baixa, ele perguntou:

– O que ele viu? Aldebaran, o que este menino viu? Eu não quero que ele pense que sou um assassino – murmurava.

– Acredite, se ele tivesse visto algo, não deixaria você chegar perto dele. Venha, você precisa se limpar.

Ele apontou para o sangue seco em Afrodite.

Conforme o florista deixava a água escorrer por seus braços, o sangue ia manchando-a; seus cabelos, agora curtos, também tinham uns fios avermelhados graças ao ocorrido. Sua cabeça fervilhava: o que ele estaria pensando para fazer tal ato? Se não tivesse percebido, teria morrido na cozinha? Ele não saberia. Lembrou-se, então, do corpo. Ainda estava lá. Terminou seu banho e se vestiu. Correu sorrateiramente até a cabana e, criando coragem, abriu a porta com força.

O que ele esperava encontrar, já não estava mais lá, nem mesmo o sangue. Olhou em todo lugar. Nada. Sentia um leve cheiro de ferro, mas não era do que estava naquele moquifo. Era o cheiro de sangue.

Fechou tudo e voltou a casa. Aldebaran cozinhava algo para o menino, que se sentava a frente deles. Ele sorriu para o florista, que novamente retribuiu. Virou-se para o companheiro e, discretamente, perguntou:

– Onde está?

Aldebaran o olhou nos olhos.

– Eu cuidei dele... O levei até o médico.

– O quê?

Ele apontou para Kiki. Na hora Afrodite entendeu. Ele não poderia dizer nada na frente do menino.

Ambos esperaram até que ele se distraísse para conversarem.

– Então...?

– Eu limpei o galpão e enterrei o corpo.

– Enterrou? Enterrou onde?

– No jardim. Seu jardim era o único lugar que eu consegui cavar aqui.

– Aldebaran, se alguém descobrir que você escondeu, seremos os dois sentenciados a morte!

– Ninguém precisa saber! Ou você vai contar? Veja bem, Afrodite, eu disse ao Kiki que levei, durante a noite, Mu para o hospital na cidade vizinha. Daqui a alguns dias, forjarei uma carta em que ele o entrega a mim. A nós. Ele não sabe o que você fez.

– Mas não fiz por mal.

– Não importa! Por favor, apenas faça o que estou dizendo!

– Tenho feito o que você diz desde que nos conhecemos! Aldebaran, ele não é burro, uma hora vai perceber que...

– Não vai! Acredite!

O florista olhou para Kiki, que estava sentado numa poltrona, lendo um livro infantil enquanto comia o que Aldebaran preparara.

– Acho que eu não tenho outra opção...