Notas iniciais
Leiam com atenção e espero que entendam o que quis passar ^^

Soraya corria sozinha pela calçada.

Ela não estava realmente sozinha, dezenas de pessoas corriam para todos os lados, em suas vidas agitadas de cidade grande. Mas Soraya se sentia sozinha; mais sozinha do que nunca. Um acidente trágico tirara a vida de seus pais, isso já tinha cinco minutos.

Ou seriam dez?

Ela continuava correndo sob o sol rubro do fim da tarde. Lágrimas pesadas escorriam por sua face morena, enquanto seu cabelo negro voava com o vento frio da primavera. Ela estava distraída, trombava, empurrava e se chocava com a multidão sem rosto, tão distraída com os próprios problemas que se limitava a um chiado leve quando o corpo leve da garota se chocava contra sua massa cinzenta e desanimada.

A garota corria do local de onde vira o acidente. Um acidente de carro, bem comum, daqueles que são vistos todos os dias na TV. Ela havia acabado de sair da escola, estava esperando os pais quando, BANG, um caminhão atravessou o carro no meio. Foi um dia particularmente triste para o acidente, afinal, era aniversário de Soraya.

Ela ainda estava de uniforme, correndo sem rumo. Completamente alheia ao mundo ao seu redor. Se estivesse prestando mais atenção teria notado que seu relógio digital estava estalando de forma estranha, que os carros se moviam a velocidades estupidamente absurdas e que, uma viga de metal que caia de uma construção ali perto, que tinha endereço certo bem no meio de sua cabeça, de repente, ficou lenta no ar.

Ela correu até um parque, cercado por cercas de metal. Era um belo ponto de referencia da cidade, até ser invadida por dependentes de drogas. Ela estava quase dando meia volta quando avistou, ao longe, um velho.

Ele vestia uma túnica preta, com desenhos em azul. Os desenhos não tinham uma forma fixa, mas dançavam lentamente, uma dança calma e serena. Seria possível ficar o dia inteiro olhando para aquilo. Tinha o rosto embranquecido pelo tempo, assim como os cabelos e a barba de um branco neve gelado, mas reconfortante. Seus cabelos eram lisos e leves, como se nenhuma impureza tivesse permissão para se aproximar. Seus olhos eram de um azul tão belo quanto o dos céus e seus lábios eram vermelhos como o entardecer. Tinha o rosto sereno e feliz, mas olhava ao seu redor com um ar nostálgico, quase triste.

- Quem é o senhor? – perguntou a garota, entre os soluços. Algo no velho a fazia querer se aproximar dele, se afundar em sua barba, como se aquilo fosse curar todos os seus males.

O velho, surpreso, olhou em volta antes de responder, como se quisesse conferir se ela realmente falava com ele.

- Garota, você pode me ver?

Soraya fez quem sim com a cabeça, tímida. O velho tinha uma aura inocentemente gentil, podendo ser equiparada apenas com a das crianças. Sua voz era profunda, mas leve e gentil, como um pai ensinando o filho. Após mais alguns momentos de choque, ele sorriu e disse:

- Belo dia para o Tempo acabar, não é?

A garota assustou-se com aquilo. Por algum tempo, começou a duvidar de seu julgamento e a pensar que aquele velho era apenas mais um viciado. Mas ele continuou firme:

- Sou Glavskat, senhor do Tempo. – após uma pausa, para que a garota entendesse a magnitude do que tinha acabado de declarar, continuou – O Tempo para a humanidade acabou.

Soraya olhou para o velho gentil na sua frente com os olhos arregalados. Aquilo era loucura. Como o tempo poderia acabar? O tempo não acaba, ele é um ciclo continuo. Pelo menos era o que a menina pensava. Levada quase pelo instinto, ela olhou para o relógio e só naquele momento percebeu que ele estava quebrado. Olhou em volta, carros corriam em velocidades inimagináveis, coisas caiam em câmera lenta, aviões pareciam pontos parados no céu. Era como se o tempo não se decidisse se estava avançando ou regredindo, nem em qual velocidade fazê-lo.

- Isso não é o tempo – disse o velho, adivinhando os pensamentos da garota – É apenas uma tentativa desesperada da realidade de concertar as coisas. Venha, não vai ser um lugar bonito de se estar quando os humanos perceberem o que aconteceu.

Um portal dourado se abriu no meio do ar. Lá de dentro, um vento calmo saia, balançando a grama e as folhas caídas no chão. O velho fez um gesto pedindo para que Soraya entrasse no portal. Ela receou por alguns instantes, mas decidiu que não tinha nada a perder.

Após entrar no portal, o queixo de Soraya caiu.

O lugar era esplêndido, em uma definição mais simplória possível. Era imenso, quase infinito, por onde se estendia, em todas as direções, um sol rosado de fim de tarde, com nuvens douradas servindo de terra e placas de ouro maciço como ladrilhos. A garota pisou de forma cautelosa, como que para conferir se o chão era realmente real. Após constatar que era sólido, ela apoiou todo o peso do corpo. O velho veio logo atrás, fechando o portal atrás de si.

- Aqui, minha querida, é a morada dos deuses. Tem muitos nomes, refira-se a ela como quiser.

Ela assentiu com a cabeça, boquiaberta. Aquele era simplesmente o paraíso, o verdadeiro, não o paraíso criado pelas empresas de telemarketing. Glavskat se adiantou e tomou a frente, conduzindo a garota pelo caminho dourado. Ela continuou com a boca aberta a viagem inteira, pronunciando apenas algumas exclamações de surpresa quando algo que achava extraordinário acontecia – o que, basicamente, englobava tudo naquele lugar.

Após algo que Soraya chamaria de minutos – embora aquela unidade não fizesse sentido longe da Terra – eles encontraram uma cidade. A cidade era basicamente composta de palácios e templos, daqueles enormes e extravagantemente desnecessários. Tudo era feito de mármore, ouro e prata, além de materiais desconhecidos até mesmo pelos construtores. Pelas ruas, homens e mulheres belíssimos – ou que, pelo menos, acreditavam ser – passeavam em lindas túnicas de seda colorida, despreocupados, alheios ao fato do caos ter se instalado na Terra.

Adentrando a cidade dourada, Soraya pode ver tudo mais de perto. A cidade era belíssima de longe, mas de perto ela era, bem, bela. Alguns prédios tinham rachaduras minúsculas, outros estavam sujos e outros ainda, embora Soraya não tenha visto, tinham pichações e desenhos nada agradáveis.

As pessoas se olhavam com olhares de ódio e inveja. Embora não pudesse dizer com certeza, Soraya acreditava ter visto algo que se parecia com um mendigo ser chutado para longe por algo que parecia ser um guarda metropolitano, alegando que a cidade tinha visitas e precisava ficar apresentável.

- Isso é mesmo o paraíso? – perguntou a menina atônita.

Glavskat deu uma risada leve e respondeu:

- Minha querida, eu disse que aqui é o paraíso, não que as pessoas são santas.

Eles continuaram, em silêncio, pelas ruas douradas. O sol parecia brilhar abaixo deles, o que lançava um brilho alaranjado quente sobre as paredes de mármore. As pessoas – Soraya notara que alguns tinham formas humanas, outros eram meio animais, alguns tinham asas e assim por diante – lançavam-lhes olhares curiosos de onde estavam, mas absolutamente nenhuma se deu ao trabalho de dar-lhes um bom dia ou qualquer coisa do gênero. Mas não se pode culpá-los, quem esperaria algo assim vindo de alguém do paraíso?

Em meio ao caos organizado da cidade dourada, quando viraram em uma curva, Soraya se deparou com o maior prédio que jamais vira. Ela não teve coragem de imaginar sua altura – mas se tivesse, teria chegado a um valor próximo ao de 500 metros – sendo que os detalhes no teto abobadado eram ocultados pelas nuvens, o que era estranho, pois eles já estavam sobre as nuvens, mas não se discute a lógica da Morada dos Deuses.

Os tetos abobadados pareciam feitos de ouro maciço, embora Glavskat tenha garantido que aquele era um mineral muito mais valioso e nobre que o ouro. As paredes eram feitas de mármore branco-neve e as imensas janelas pareciam feitas de uma mistura divina de diamantes e cristais, com ornamentos florais em esmeraldas derretidas – o que era consideravelmente fácil na forja dos deuses – o que criava os vitrais mais belos que Soraya jamais sonhou em ver.

A porta principal era dupla, com uns bons 5 metros, feita de algo parecido com prata e ornamentada com rubis derretidos. As maçanetas eram feitas de safiras da mais pura qualidade, maiores do que as mãos de Soraya. Sem nem mesmo tocá-las, a porta abriu-se, dando para um imenso salão.

O teto ficava muito acima de suas cabeças e também era abobadado, mas era feito daquele estranho cristal-vidro, que dava visão para outros salões e outros tetos. O chão era feito de porcelana misturado à opalas, o que o tornava um grande mar alaranjado e, se olhado de um ângulo diferente, um grande chão espelhado, também laranja. Havia portas e escadas ricamente entalhadas com cenas e criaturas dos mais diversos tipos, mas Glavskat a conduziu por um corredor no canto direito.

- Nunca imaginei que o paraíso fosse assim... – comentou Soraya, olhando os desenhos nas portas do corredor

- Imaginou que fosse como? – os olhos azuis a observavam pacientes

- Não sei... Com nuvens... E Anjos... Nunca pensei muito nisso – ela deu de ombros, era verdade

- Nunca teve tempo – o velho tinha um sorriso acolhedor no rosto – Já consideramos essa ideia, sim, mas não gostamos muito. Enjoamos em pouco tempo. Assim está melhor, alegra mais a nossa vista e abre espaço para uma grande variedade de intervenções artísticas.

Eles continuaram pelo amplo corredor. Do lado direito, os imensos vitrais deixavam a luz de fora entrar, embora Soraya não tivesse certeza de que luz seria aquela. O lado esquerdo era recoberto de portas de diversos tamanhos, formas, materiais e expressões artísticas. O corredor parecia se estender infinitamente e ainda havia algumas tochas no lado direito, mas Soraya estava certa de que era apenas decoração.

- Chegamos – Glavskat parou, sorrindo

Ele havia parado de frente para uma imensa porta dourada. O ouro havia sido esculpido em cenas de batalha, conquistas e honrarias. As dobradiças eram tão grossas quanto o braço de Soraya, o que dava à porta uma magnitude estonteante.

- Bem, aqui estamos – Glavskat ainda sorria – Aqui está o pai da humanidade, Mlovs, deus do orgulho.

Soraya arregalou os olhos para a porta, não acreditando muito no que ouvira. Não parecia certo para ela que o Orgulho fosse o pai da humanidade. Sempre pensara em algo tão diferente...

- Ele é um sujeito muito orgulhoso – elogiou o deus do tempo

- E isso é algo bom? – respondeu a menina, levemente desapontada

- Ora, como não seria? – o velho não compreendia o desapontamento da garota – Ele se orgulha das suas vitórias, das suas derrotadas, de seus acertos e de seus erros. Um ótimo deus – ele parou para pensar um pouco, antes de continuar – Acredito que esteja confundindo orgulho com teimosia ou avareza... Vocês, humanos, são filhos do Orgulho, mas são poucos que realmente demonstram essa nobre descendência.

Glavskat abriu as pesadas portas sem esforço, revelando um interior amplamente iluminado. Havia uma única sala, enorme e circular, com pilares de mármore entalhado espalhados por toda a sala. Piras ardiam, decorativas, e a luz vinha inexplicavelmente de cima, quente e ofuscante. Um tapete de veludo vermelho levava da porta até um enorme lance de degraus, circulares, que, por sua vez, levavam até um imenso trono, do qual se podia observar toda a sala.

O trono era feito de ouro e era entalhado com cenas de batalha e caça. Era acolchoado com couro vermelho e brilhava quase tanto quanto a luz. Sentado no trono estava um homem enorme, com facilmente 2 ou 3 metros de altura e quase esse tamanho de largura, tão musculoso que chegava a ser estranho. Vestia uma armadura de estilo romana e usava um grande elmo que Soraya reconheceu como sendo grego, ou algo assim. Era impossível ver seu rosto, pois o elmo encobria-o, cobrindo-o com sombras. Mas duas bolas de luzes laranja brilhavam na escuridão, onde deveriam ser seus olhos. A crista no topo de seu elmo era alaranjada e parecia muito bem cuidada.

- Seja muito bem vindo, Glavskat – a voz do deus era grave, mas surpreendentemente gentil – E quem é essa bela jovem que trás?

- Essa é Soraya, uma de suas filhas – o velho fez uma reverência respeitosa, mas era óbvio que era muito mais poderoso que o deus do orgulho

Soraya ficou surpresa. Não se lembrava de ter dito seu nome a Glavskat, mas, comparado a tudo que estava acontecendo, aquilo era irrelevante. Mlovs a observava com calma, mas por fim declarou:

- Estou imensamente orgulho de tê-la como filha, Soraya – ele vez um gesto com a mão, pedindo para que a garota se aproximasse

Soraya se aproximou timidamente. Passo após passo, ela se viu ao lado do grande deus, que a olhava com algo que parecia ser orgulho em seus orbes laranja.

- Conte-me, Glavskat, o que aconteceu com meus pequenos? – Mlovs não tirava os olhos de Soraya enquanto falava

- Foi como eu te avisei, Mlvos. O tempo para eles acabou. Tiveram suas chances, diversas vezes, mas estragaram todas

O deus do orgulho abaixou a cabeça, desapontado.

- Sim, você avisou, e eu me sinto orgulhoso por isso. Sabe, garotinha, algum tempo atrás, estava uma grande onda de criatividade aqui, na morada dos deuses. Eu também quis me sentir orgulhoso por poder criar uma forma de vida e colocá-la em um mundo, e foi o que eu fiz. Criei os humanos orgulhosamente e coloquei neles o maior número de traços meus que seus pequenos corpos seriam capazes de suportar. Fiquei tão orgulhoso deles que os soltei no mundo logo após criá-los, sem muito polimento. No entanto, uma vez no mundo, não há muito que um deus possa fazer para arrumar suas criações.

Soraya estava de boca aberta, aquilo parecia uma verdadeira piada. Como eles, os humanos, grandes criaturas dominantes da Terra, senhores do tempo e do espaço, criatura mais importante já gerada em toda a história da existência, escolhidos por todos os deuses que conseguissem lembrar o nome, criadores de todas as leis e regras que acreditavam funcipnar universalmente, senhores mestres e regentes do Universo – mesmo não conhecendo nem mesmo uma pequena parte dele e explorado menos ainda – poderiam ser simplesmente a brincadeira de um deus qualquer?

- Eu não entendo – limitou-se a dizer, o que era uma coisa muito inteligente – Você é um deus, pode fazer o que quiser

- Sim – respondeu Mlvos – Mas não posso poder o que eu quero. Quando um deus coloca uma criatura em seu mundo de origem, assinamos orgulhosamente um contrato dizendo que agora tudo está sob responsabilidade das próprias criaturas. Logo, não posso fazer nada.

- Assinam um contrato? Um contrato com quem? – Soraya se controlou para não gritar

O deus coçou o elmo, confuso. Olhou para Glavskat em busca de ajuda, mas o velho parecia não saber de muita coisa também. Por fim, resolveu dar de ombros.

- Não sabemos. Só assinamos. É assim que as coisas são orgulhosamente feitas por aqui.

- Certo, mas vocês nem sequer olham para as próprias criações?

- No começo sim – ponderou o deus – ficamos muito orgulhosos quando vemos os rostos felizes de nossos filhos quando fazem as coisas mais simples, como usar o fogo, criar a roda, tentar entender o espaço que criamos para eles, sabe, essas coisas de criança. Mas depois de um tempo fica um pouco chato, quando eles começam a se achar incrivelmente poderosos, então, orgulhosamente, paramos de olhá-los e cuidamos de nossos muitos afazeres orgulhosos.

- Mas, todas as criaturas que vocês criam têm um destino tão cruel? – Soraya queria recuar do deus, mas tinha medo de que os braços do deus pudessem rasgá-la ao meio se o fizesse, e realmente podiam

- Não, apenas os humanos – respondeu Glavskat, alegremente

- Por quê? – Soraya já estava começando a ficar nervosa com aquilo

- Os humanos não seguiram o contrato – respondeu Mlvos – Depois de se acharem incrivelmente poderosas, as criaturas devem compreender sua pequena inferioridade em relação a todo o resto, por isso criamos os universos, e todas juntas procurar orgulhosamente pela verdade. Assim, poderemos nos revelar a elas, trazer algumas para a cidade que você passou e transformar o mundo delas em uma espécie de mini-paraíso para o resto.

Ele fez uma pausa e apontou para o teto. Soraya olhou para cima, imaginado que ficaria cega, mas imagens surgiam na luz. A garota reconheceu inúmeras criaturas que encontrara pelas ruas da cidade, ou pelo menos parecidas com elas. Pareciam muito felizes, embora não tão bem vestidas. Comida e água pareciam surgir da terra infinitamente, o que tornava a coisa toda muito agradável.

- Essas são criaturas que seguiram o contrato e receberam seu prêmio. Em geral, a grande maioria das criaturas faz isso, ou se destrói antes. Os humanos são um caso especial – continuou Mlvos – depois de se acharem incrivelmente poderosos, eles simplesmente quiseram impor a outros humanos que eram mais poderosos do que eles. Não tem o menor sentido! Cada parte do mundo que eu orgulhosamente criei se virou contra as outras, tentando decidir quem era a melhor. Isso chega a beirar o insano! Não sei onde errei...

- Eu te avisei para colocar mais bom-senso, mas você disse ‘não, eles vão desenvolver isso sozinhos’. Acho que a cada tempo que passou eles ficaram piores – brincou Glavskat, que praticamente não usava as medidas de tempo que Soraya conhecia

Soraya olhou para o deus de armadura com desgosto. Aquele não podia ser o pai dos humanos. Ele era orgulhoso de uma maneira que beirava a esquisitice, se orgulhava das coisas mais estranhas possíveis, assinava contratos sem nem mesmo saber para quem, e seguia as regras sem nem mesmo saber o porquê. Aquele definitivamente não poderia ser o pai dos humanos...Poderia?

- Vamos, minha querida? – a voz de Glavskat era gentil e suave como a neve tocando o chão

Ela se despediu do ‘pai’ e acompanhou Glavskat até o corredor. Do lado de fora, o deus se virou para ela, com seu eterno sorriso doce nos lábios avermelhados. Ele tinha um relógio de bolso nas mãos. Soraya não conseguia distinguir os números que mostrava.

- Aqui, é para você – Glavskat entregou-o à menina – Está ajustado com o padrão daqui, vai ser bem útil até se habituar.

- Habituar a que?

- A morar aqui, oras – o velho soltou um pequeno riso – Seu mundo está destruído, deve morar aqui agora

Ela tinha os olhos arregalados, mas resistia a acreditar naquilo. A Terra não podia estar perdida, sempre haveria heróis para salvá-la, sempre houve... Ou aquilo eram filmes?

- Por quê? Por que eu? Por que me escolheu? Por que sou a única aqui?

O deus pareceu surpreso com as perguntas da garota. Ele moveu o braço para a direita e, como mágica – e realmente era – centenas de outros Glavskats apareceram e eles conversavam com outras centenas de pessoas que Soraya jamais vira na vida.

- Muitos foram escolhidos, mas prefiro fazer essa viagem de um em um. – respondeu o deus

Soraya olhou sem acreditar. Aquilo era impossível. Todos estavam ali, mas ninguém se via, ninguém se notava... Parecia até mesmo a Terra.

- Como pode estar em tantos lugares ao mesmo tempo – perguntou a garota, mesmo sendo uma pergunta particularmente estúpida

- Sou o deus do tempo, garotinha, estou em todos os lugares ao mesmo tempo, e em todos os tempos aos mesmos lugares. Além disso, a compreensão de vocês, humanos, do tempo é muito primitiva, tudo não passa de ponto de vista.

Soraya estava aturdida, aquilo era surreal. Sempre acreditara em tudo que a ensinavam na escola e agora descobria que era tudo mentira, quem poderia imaginar?

- E eu não escolhi você – continuou o deus – Você se escolheu, esqueceu? Havia centenas de pessoas passando por mim naquele momento, mas só você me viu ali, naquele lugar e naquele tempo. O por quê? Simples. Para você não importava mais. O poder não era mais algo importante, você não se importava com o amanhã ou com o ontem, nem mesmo com o agora. Sua vida tinha acabado, pensou você. Era isso que os humanos deveriam entender. Deveriam entender que não importa o quanto poder você imagine que tenham, isso jamais vai importar, pois ele não é real, é apenas outra das mentiras que vocês contam para si mesmos todos os dias.

Soraya abaixou a cabeça. Não tinha entendido nada. Não de verdade, no fundo acreditava ter entendido a mensagem, mas as palavras não pareciam fazer sentido para ela. O deus pareceu notar isso, mas não se aborreceu, ele nunca se aborrecia.

- O botão de cima dá uma visão do seu mundo, se ainda não estiver desintegrado. Quanto a cidade, não se preocupe muito, basta abrir qualquer porta e estará na casa que criamos para você. Venha nos visitar quando quiser.

O velho deu um último sorriso para a garota e foi embora a passos lentos pelo corredor. Soraya o observou ir por algum tempo e depois voltou à atenção para o relógio de bolso. Os símbolos que deveriam ser números – que por sua vez também eram símbolos – não faziam sentido para ela, mas ela não se importou. Apertou o botão de cima.

Ela viu. Tudo estava em chamas, pessoas gritavam e culpavam umas às outras pelo que acontecia. Nenhuma tinha provas ou argumentos muito convincentes, mas era sempre muito importante culpar alguém por algo, muitas vezes era mais importante culpar alguém do que resolver o problema efetivamente. Soraya viu aquele relógio-torre enorme em algum lugar que nunca se importou em lembrar, ele estava parado. Todos os relógios estavam parados. ‘O tempo acabou’ a voz de Glavskat ressoava em sua mente enquanto ela via o caos que tomava conta de seu caótico ex-lar.

E então ela chorou. Não chorou pelo pai ou pela mãe, nem por todos os seus parentes e amigos que ardiam no fogo do caos muito, muito distante dali. Não chorou pelo seu amado planeta que se reduzia a cinzas por não ter seguido um contrato que jamais conhecera, mas era obrigado a seguir. Não chorou pelos milhares de inocentes que morriam sem nem mesmo uma explicação para tudo aquilo. Ela chorava, pois...

... os ponteiros do relógio de bolso continuavam a girar.

Notas finais
Quanto tempo realmente temos? E o que significa esse tempo?

Espero que tenham gostado da história e do que eu quis passar com ela. Dúvidas, reclamações, sugestões e etc. basta apenas comentar, tentarei responder o mais rápido possível ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!