O Filho de Hipnos
7 Vida
Tristan levantou-se com dificuldade, e mancou na direção do rio. Quando chegou em sua beira, tropeçou e caiu de joelhos, e conseguiu enxergar seu reflexo, e pela primeira vez, percebeu que não tinha o olho esquerdo. Como diabos? Nem mesmo Percy tinha percebido? Então, ele lembrou, tinha ficado tanto tempo acordado que esqueceu suas necessidades, e se acostumou muito com seu estado de visão atual, e não percebeu que ela não estava completa, pois estava caolho.
Tentou ignorar o fato e se abaixar para beber água quando ouviu Percy gritar. Percy, por sua vez, estava se subterrando na lama, tentando decidir se ele mesmo se salvava, ou se salvava Annabeth, parecia uma piada, pois Annabeth já estava mais que morta. Tristan pensou em levantar-se e correr para ajudar Percy, mas não, eles iam morrer de qualquer forma. Nenhum deles ia morrer feito um herói. Morrer afogado em lama devia ser uma piada para um filho de Poseidon, então aquilo serviu como mais um motivo para Tristan apenas se abaixar e tomar uma boa concha de água enquanto ouvia o desespero de Percy buscando por ar e seus últimos momentos de vida.
Tristan sentiu seus joelhos afundando também, e abriu um grande sorriso. Nunca vira a morte como algo agradável, mas agora era, parecia mais um alívio ver que tudo aquilo ia acabar, se esvair como água e desaparecer de vista facilmente. Um problema resolvido. O vitorioso continua na luta, mas o derrotado pode seguir outro caminho, mas no fim, todos seguem para a morte. Não é algo maravilhoso? Estava com o corpo totalmente submergido na terra, e apenas sua cabeça estava fora dela, e ele pode ver, lentamente, uma presença surgir da água, como uma sereia. Era quase isso. A própria Ninfa de seus sonhos tinha surgido da água.
– Ah... Adorei esse banho. Uma pena que você não pôde tomar comigo, Tristan. Meus olhos estão bons agora.
– C-calma... – disse Tristan, engasgando – Mas você...
– Eu falei para você ficar comigo naquele trem. Poderíamos ser felizes novamente.
– Você não é Clove... Você é apenas...
– Algo gerado pelo seu psicológico? Ah? Me diga como diabos eu estou aqui.
– EU NÃO SEI! Eu só sei que... Que você não é a Clove. A Clove morreu. Ela não está mais aqui.
– A julgar pelo seu raciocínio até você está morto.
Tristan calou-se. Ele não queria mais ver Ninfa. Não queria mais explicação, só queria morrer. Morrer e fugir dali. Mas estava incapacitado até de se matar.
– Agora Gaia acordou... – Ninfa continuou – E a terra está vencendo novamente. Está vendo como a lama possui seu corpo?
– Eu já notei isso...
– Ah, é? Ah... Seu pai está chegando.
– Mas o quê...?
Do outro lado do rio, estava Hipnos, com a mesma aparência dos sonhos de Tristan. O mesmo homem horrível que o empurrou no penúltimo sonho.
– Oh... Filho... Você está horrível. Ah, era essa a intenção!
Hipnos deu uma gargalhada ácida e irritante, que parecia mais uma tosse.
– Cala a boca e me mate logo.
– Você já está morto – Ninfa interveio.
– Cala a boca você também. Eu quero afundar logo.
– Então basta esperar – disse Hipnos – você não vai querer uma explicação, garotinho? Então tá. Eu estou do lado de Gaia, como deve saber, ou seja, estou contra os olimpianos. Eu tive que ser útil de alguma forma e sabe o que eu fiz? Adormeci todos meus filhos. Agora está tudo respondido? Você foi de longe meu filho preferido. A maioria dos meus filhos não tinham nada de especial, mas você teve um passado melancólico, o que ajudou um pouco mais nos seus sonhos lúcidos. Mas fora a isso, você continua sendo um bosta, então não se vanglorie.
– Então a culpa foi toda sua? – Tristan exclamou – Eu me esqueci de tudo... Passei uma puta dor de cabeça tentando sair dos meus sonhos por sua causa?!
– Hm... É.
Ninfa começou rir em coro com Hipnos, e Tristan só ficava mais irritado ainda, com tudo.
– Vamos! Me mate! O que está esperando? Eu já saquei. Gaia venceu, eu estava fodido esse tempo todo enquanto uma guerra se desenrolava a minha volta. Só isso que eu preciso saber. Agora me mate!
– Vai mesmo morrer sem lutar, filhinho?
– Vou! Porque o mundo não merece minha luta. Ele é injusto, ele te mete numa situação e quer que você a encare... Pois bem, eu o fiz isso até agora, mas não vou fazer. Não sou nenhum peãozinho. Eu só quero fugir desse mundo, eu quero morrer. Morrer... Entendeu? Só isso que quero. Sumir de vista da vida! Morrer!
Ninfa e Hipnos se silenciaram. Ela submergiu novamente na água e começou a nadar sem rumo, e Hipnos abriu a boca para falar novamente.
– Sempre estivemos mortos, Tristan. Porque é isso que o mundo quer.
Nas mãos de Hipnos, estava um frasco contendo um líquido verde e gasoso. Fogo grego. Hipnos arremessou contra Tristan, e o frasco rachou na sua frente, revelando as chamas verdes que logo ocultaram a visão do filho de Hipnos e o envolveram em chamas. E antes de morrer, uma memória o puxou o pé novamente e ele...
...abriu a porta da sala do hospital com a mochila nas costas, e viu Clove deitada com os olhos ligeiramente fechados. Estava com um leve sorriso, provavelmente sonhando com algo bom. Tentando fugir da situação em que encontrava. Literalmente cega, dormir era a única maneira de fugir mesmo, sendo que a alternativa seria ler um livro, algo que Clove sempre fazia... Triste.
Tristan sentou-se na cadeira ao lado da cama de Clove, e pegou em sua mão gelada e pálida.
– Então, Clove... – disse Tristan – Meu sátiro logo vai me levar para o acampamento, infelizmente não vou poder ficar com você esse verão, mas quando eu voltar eu vou te ver novamente, ok? Eu vou tentar ler alguns livros lá, e eu te conto como eles foram, certo?
Clove continuava sonhando, mas dessa vez deu uma leve risadinha. Aquilo fez os olhos de Tristan se encherem de água, lágrimas que ele deixou escorrer, mas não chorou. Não era o fim, ele tinha que ser forte, não importava a situação.
– Tchau, Clove.
Tristan levantou-se, e enxugou as lágrimas. Abriu a porta, e olhou para trás. Clove estava com um sorriso aberto, com os olhos fechados, mas com a cabeça virada para Tristan.
– Eu vou te esperar Tristan – disse com uma voz calma, rouca e leve – eu prometo.
Tristan não soube o que falar, apenas deu um sorriso, e assentiu, limpou novamente as lágrimas, e seguiu no corredor. Só pôde sentir...
...seu pescoço agarrado pelo fogo ardente, seu corpo frio todo subterrado na lama, o fogo salpicando seus ouvidos e o queimando goela abaixo. Era apenas uma bola ardente na beira do rio, que também estava incendiado. Morrera da forma mais patética, mas agora iria se reencontrar com Clove. Não com Ninfa, e sim com Clove... Quem sabe? E em seu leito de morte, até mesmo Tristan pôde ouvir a voz de Gaia em sua mente.
Você foi um péssimo guia Tristan. Mas Ninfa foi uma ótima praga... Na sua mente, e na sua vida, não é mesmo?
Hipnos cruzou o incêndio de fogo grego, e se dirigiu até o pavilhão, agora, totalmente destruído e cercado de cães infernais. Uma linha de presença negra tinha aparecido enquanto Tristan era assado em fogo grego: gigantes e deuses menores contemplaram o despertar de Gaia. Então, os olhos de Gaia abriram-se, e o mundo seguiu o rumo da destruição e da catástrofe.
Notas finais
Então, é isso. Obrigado!
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