Tristan olhava fixamente para a garota de cabelos negros e roupas floridas por trás dos arbustos. Estava molhada pela chuva fraca, mas ela não parecia perceber. Estava de costas, mexendo nas flores nos arbustos, mas parecia ser linda, como uma ninfa. Talvez fosse aquilo mesmo. Tristan queria se aproximar, mas seus pés estavam enterrados na lama. Estava afundando, como areia movediça. Tentou desesperadamente se livrar da lama, gerando um barulho que despertou a ninfa, que se virou em um pulo, revelando seus puros olhos verdes.
Ela encarou Tristan e não ficou surpreendida com sua presença. Pelo contrário, a presença dele ali parecia mais previsível que qualquer outra.
– Sabia que apareceria por aqui – disse a ninfa – eu... Queria saber... Onde estou.
Tristan parara de olhar para ela com admiração e começou a observar com dúvida. A chuva caía sobre seu rosto, mas ele não a sentia, apenas a via. Ele sentia seu corpo afundando, mas não saía do lugar.
– Nem mesmo eu... – gaguejou Tristan – Nem mesmo eu sei onde estou.
– Entendo. – a ninfa olhou para o horizonte, ou oque esperava ser o horizonte, pois estavam fechados por árvores, e Tristan percebera que estava na beira de um lago, que se encontrara logo atrás dele. Deveria ser um lugar bonito, mas estava sem cor e sem graça, devido à chuva. Mas os olhos da ninfa brilhavam. Entregava um pouco de cor para o lugar, e ela parecia ser o destaque do cenário, isso até perceberem uma fumaça nada natural vindo da floresta. Destacava-se ao meio das nuvens da tempestade.
– Fumaça... – suspirou a Ninfa – Por que a fumaça é tão diferente?
– É fogo. – disse Tristan, por fim. Ele não tinha afundado, mas não conseguia desenterrar seus pés da lama, estava quase dura, como se tivesse secado como concreto, enquanto seus pés estavam dentro.
– Fogo... Não gosto de fogo. Não me lembro de ter gostado.
– Está longe, não vai chegar até aqui tão rápido, eu acho. Ei, me ajude a sair daqui.
– Eu não consigo. Também estou presa na lama.
– Ah... – lamentou-se Tristan, que estava se contorcendo, tentando se livrar da lama, mas sabia que não iria conseguir tão fácil – Que tipo de lama é essa? Areia movediça?
– Areia movediça?
– É. Aquelas dos desenhos animados.
– Desenhos animados?
Tristan desviou o olhar. Uma ninfa da floresta obviamente não saberia oque eram aquelas coisas. Tentar explicar era perda de tempo.
– Ei, você é uma ninfa, não é?
– Ninfa? – disse ela, sonhadora – É um bom nome.
– É mesmo... Mas você é?
– Eu não sei. Não sei oque eu sou. E eu preciso que você me ajude... Eu... Quero saber. De tudo.

– Do que você está falando?
– Eu não sei.
– Oh, ótimo. Posso te dar um apelido?
– Apelido?
– Vou te chamar de Ninfa, mesmo. É a única ninfa que conheci, vai ser fácil.
– Queria conhecer outra ninfa. O que são elas?

Tristan ignorou a pergunta. A chuva ainda caía. O cheiro de queimado aumentava. E ele sabia que o fogo se aproximava. Mas não tinha com o que se preocupar, não tinha nada inflamável em volta dele. Mas ele poderia muito bem morrer por inalar tudo aquilo. E a Ninfa estava cercada de arbustos, que estavam conectados com a floresta, caso ela se incendiasse, a Ninfa poderia facilmente morrer ali.
– Já é a segunda vez – disse Ninfa, com um tom meio melancólico.
– Segunda vez?
– Que você aparece. Eu pedi ajuda. Pedi um guia. E você apareceu.
– No que devo te guiar?
– Nesse cenário absurdo que Ela chamou de vida.
– Ela quem?
– Ninguém. Ninguém mesmo. Ela disse para eu não contar caso você perguntasse.
– Então não posso te ajudar. Sinto muito.
– Mas...
Ninfa foi interrompida por um brilho verde que surgira atrás dela. Era tão verde quanto seus olhos, e formava um aspecto interessante, mas o brilho tomava conta da mata ciliar, e Tristan notara: era fogo, um fogo verde. Era fogo grego, e era possível ver a sombra incendiada de Ninfa se contorcendo em uma dança de desdém, enquanto berrava coisas que ninguém entenderia pelo barulho da chuva, que aumentara desde que o fogo alcançou o lago. O fogo rapidamente tomou conta do círculo em volta de Tristan, e ele sentiu sua pele queimando, pôde ver sua carne quase preta, seus olhos se negando a abrir. Contorceu-se novamente, tentando escapar, agora, da lama e do fogo, por mais que fosse fogo grego, aquela fuga era um simples extinto gerado pelo desespero mútuo. Até que ele ergueu suas mãos ao céu, sentiu a água cair sobre os dedos e o fogo agarrar seus pulsos, e viu que em cada mão havia seis dedos.
Tristan sorrira. Um sorriso aberto, que se tornou uma gargalhada de esperança, e sentiu o fogo entrar em sua boca e o queimar por dentro, enquanto a chuva o molhava. A água gelada e o fogo mais infernal que já vira era a pior combinação, mas Tristan não se importava. Afinal, estava sonhando, estava dormindo, e sairia da dor do fogo grego e a umidade para o conforto do travesseiro e o calor das cobertas, e tudo começaria novamente. A simples, porém, maravilhosa rotina de um filho de Hipnos.