O Fantasma - Legados
4 Capítulo 4 – Peças fora do lugar
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Meu pai amava os cavalos, mas sabia de seus limites. Por isso providenciava outros meios de transporte que se adequassem às necessidades de cada missão. Naquele dia, passamos em uma das casas amigas do Fantasma e deixamos Herói e Faísca descansando, seguindo nosso caminho em Zoloz, nome que meu pai dera ao jipão só de brincadeira depois de nos perdermos na primeira vez que o utilizamos.
Por vezes eu só queria ter seguido outro caminho. Talvez se não tivéssemos trocados os cavalos pelo jipe antes de seguirmos para Mawitaan. Talvez se eu tivesse ido com ele naquele encontro.
Talvez, talvez e talvez...
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O prédio da WalkTec não se destacava em nada no cenário de Bangala e poucos eram os habitantes que realmente sabiam o que era feito ali; era apenas mais uma das inúmeras empresas do ramo de tecnologia no cenário mundial, desenvolvendo softwares e hardwares que eram empregados por setores dos mais diversos, desde o mercado de finanças até aparelhamentos para a saúde.
Lá dentro, debruçada em sua bancada de trabalho, Heloíse Walker estava frustrada. Já fazia dias que trabalhava naqueles componentes e não conseguia fazer com que funcionassem do jeito que queria.
– O problema, Heloíse, – ela dizia para si mesma – é conseguir colocar em braceletes equipamentos e programas que precisam de uma mochila; para isso você precisa abandonar algumas certezas e arriscar-se nas possibilidades.
Falar sozinha a ajudava a pensar, mas ela sabia que não era só a dificuldade técnica o que a atrapalhava. Como presidente e principal acionista, eram diversos os momentos em que era interrompida. Por isso mesmo vinha delegando funções a alguns de seus subordinados; assim podia dedicar-se a projetos próprios que nem sempre eram destinados às linhas de serviços da empresa, mas a um cliente particular e muito especial.
O interfone tocou fazendo-a soltar um longo suspiro. Mesmo com a delegação de funções, não eram poucas as questões trazidas diretamente a ela.
– Sim, Lindsay.
– Lamento interrompê-la, Srtª Walker, mas seu pai e seu irmão estão aqui.
Um sorriso se desenhou em seu rosto quando ela disse a Lindsay que os mandasse entrar.
* * *
No QG da Patrulha da Selva, Sala ouvia atentamente o relatório do Sargento Guerra para o Coronel Smythe. Este balançava a cabeça demonstrando que estava analisando cada um dos dados.
– Então isso é tudo o que temos sobre esse tal “Presidente”, Sargento?
– Sim, senhor. A lista de crimes dele é bastante incomum, pelo menos não é o tipo de crime com o qual estamos habituados a lidar.
– Mas faz sentido, Sargento. – Interviu Sala – Mawitaan seria o último lugar onde pensariam em procurá-lo.
– E ainda assim, disse Smythe, a senhora está aqui, Srª Sala.
– Senhorita, Coronel. E se cheguei aqui, foi apenas depois de seguir a trilha dele por vários países.
– Faz sentido. – O Coronel Smythe levantou e passou a caminhar com as mãos cruzadas às costas; Guerra sabia que esse gesto significava que estava pensando, montando um verdadeiro tabuleiro de xadrez em sua mente, sabia também que tinha coisas a fazer.
– Sabem, quando era um principiante na Patrulha da Selva sob as ordens do Coronel Weeks, pensei em largar o serviço. Não me afeiçoava ao serviço pesado, mas Weeks percebeu que eu tinha grande aptidão para o trabalho burocrático, me incentivando a permanecer na Patrulha e a empenhar-me também no trabalho mais braçal de um patrulheiro.
Sala olhava para Smythe com certa curiosidade, deixando transparecer sua dúvida quanto à pertinência daquele discurso rememorativo; parecia tão sem propósito que até mesmo o sargento havia se recostado no batente da porta.
– Apesar de, graças ao treinamento e às circunstâncias, ter me tornado um patrulheiro como todos os outros, – Smythe prosseguia aparentemente alheio a tudo em volta – nunca perdi o gosto pela leitura dos relatórios. Creio mesmo que li, se não todos, pelo menos uma boa parte dos relatórios contidos nos arquivos da Patrulha da Selva e descobri duas coisas importantes.
Ante aquela pausa, Sala perguntou: – Que duas coisas, Coronel?
Smythe deu um sorriso de quem esperava esta pergunta.
– A primeira coisa que descobri é que tudo tem um por quê. Não há acaso, nem podem existir peças que não se encaixem.
Smythe parou de costas para a janela e fitou Sala com ar quase indiferente.
– A segunda coisa que descobri é que tenho memória fotográfica, o que me leva a fazer-te uma pergunta, Srtª Sala.
A tensão de Sala era evidente em sua voz quando perguntou:
– Qual a pergunta, Senhor?
– Como a Interpol aceitou em seus quadros uma antiga Pirata do Céu?
Sala olhou automaticamente para a porta bloqueada por um Sargento Guerra em posição de alerta.
* * *
– Pois é isso o que estou lhes contando. Esse Presidente que vocês estão procurando pode ser o mesmo cracker que tentou invadir o sistema da WalkTec há duas semanas.
– Mas, Heloíse, – interrompeu Kit – o que ele poderia querer no sistema de sua empresa?
– Não há como saber. Mas o que sei sobre esse sujeito é que ele trabalha por dinheiro. A princípio achei que ele pudesse estar tentando usar nosso sistema como porta de entrada para outros sistemas ou como um desvio de sinal, mas agora já não tenho tanta certeza.
– Não temos nem mesmo certeza se ele é realmente o sujeito que foi capturado na aldeia dos Llongo, – a voz de seu pai era profunda, pensou Heloíse, do tipo que faz você admirá-lo e temê-lo ao mesmo tempo – e se for o mesmo, talvez não tenha sido um sequestro, mas sim um resgate; vou contatar a Patrulha e passar essa informação e ver o que eles colheram. Mas se for mesmo o tal, resta uma pergunta: por que um homem como este estaria aqui?
Dizendo isso, levantou-se e foi até um canto da sala para telefonar. Heloíse nunca deixou de impressionar-se em como ele parecia ainda maior com aquele sobretudo. Os óculos e o chapéu o tornavam quase invisível em meio à multidão, mas ela poderia reconhecê-lo a milhas de distância.
– Então, irmãzinha, no que você estava trabalhando quando chegamos?
– Um sistema de decodificação eletrônica embutido em braceletes.
– Quem te encomendaria uma coisa dessas? – Kit lançou a pergunta com um sorriso zombeteiro.
– Você sabe para quem é, bobão! Nem todas as fechaduras podem ser abertas com um arame ou uma chave mestra, também não dá pra sair derrubando todas as portas que se encontra pela frente na base do pontapé.
– Certo, certo, eu entendo, estava só brincando. Você tem se superado. Esse telefone não rastreável que você criou para ligarmos para a Patrulha da Selva é sensacional. Mas braceletes!?
– O que você queria? Um cinto de utilidades?
Neste momento seu pai aproximou-se com certa apreensão.
– Kit, temos de ir. Acabei de falar com Smythe. Passei a ele o que sabemos e ele vai juntar com o que também já levantou, mas há alguém que preciso ver como agente Walker.
– Com quem nos encontraremos, pai? – Perguntou Kit.
– Desta vez serei apenas eu, Kit. Você vai para o galpão seguro e me espera lá. Heloíse, a moto está aqui?
– Sim, pai.
– Ótimo. Vou levá-la. Se você puder reunir tudo o que for possível sobre esse Presidente e levar para Kit, será de grande ajuda.
Kit ainda pensou em protestar, mas viu o olhar de Heloíse que dizia “Não discuta; faça” e entendeu que seu pai não lhe daria outra opção.
Quando estavam saindo, seu pai ainda virou-se para Heloíse e perguntou: – Você tem falado com sua mãe?
– Sim, pai. E acho que você deveria ligar para ela.
– Ela ainda está zangada por eu não ter ido ao velório de Lily?
– Não muito, pai. Finalmente eu a convenci de que não foi sua culpa estar fora quando a vovó morreu.
– Obrigado, filha. Assim que terminar essa missão vou ligar pra ela.
Heloíse deu-lhe um beijo antes que ele saísse. Ao fechar a porta pensou que no fundo achava que era sua mãe quem deveria ligar para seu pai; afinal, ela era a esposa de um Fantasma, e os caminhos deste não se submetem ao ritmo do resto do mundo.
Ao sentar-se sentiu um calafrio acompanhado de um mal estar. Exatamente como o Velho Mozz disse que seria.
Detestava essas sensações.
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