O Eterno Equinócio

2 Notas do Tigre que Fugiu do Zoológico


Eu não acredito que sonhos podem ter algum significado, para mim são apenas fragmentos da sua mente juntos e sendo vistos de um jeito... diferente. Mas a nossa mente pode ser bem confusa e coincidências acontecem... Ou isso seria inocência da minha parte? Eu tive um pesadelo, e ele parecia tão real... Mas não consigo lembrar de nada claramente, e é por isso que eu sei que tudo não passa de um borrão na minha mente, um rascunho criado por ela.

– Você ainda vai querer dormir em algum momento da sua vida? – Essas palavras eram a única coisa que eu lembrava.

E logo depois de tudo isso, veio aquele sol batendo no meu rosto, ou melhor, meio que me espancando até. Eu não queria acordar, ninguém quer acordar em uma Segunda-Feira, até quando é um feriado. Mas depois de tomar coragens eu finalmente me levantei, fechei as cortinas e cai de novo na cama, só que... Eu não queria dormir, não depois daquele sonho... Então fiquei boa parte do tempo tomando coragens para tomar um banho, fico pensando porque a água é tão fria de manhã.

– Olha, Queijo, café da manhã.

– ONDE? – Levantei rapidamente e... É, não deveria estar surpreso. – Ah, é você Haah.

– QUE? NÃO, EU NÃO SOU O CAFÉ DA MANHÃ.

– EU NÃO QUIS DIZER ISSO. – Alertei, assustado com o engano. – E eu não deixei você entrar...

– Sua mãe deixou, mas se você não me quer aqui, então eu vou embora, tudo bem. – Ela caminhava em direção a porta lentamente enquanto olhava para trás várias vezes.

– Sem drama, não é que seja isso, só não é agradável acordar com um falso aviso de café da manhã. – Eu disse caminhando em direção ao banheiro. — Bem, vou escovar os dentes e tomar meu banh... TEM UM MONSTRO AQUI, CADÊ O LIVRO PRA EU CAPTURAR ELE?

– Isso não tem graça! – Klaus exclamava irritado.

– Ah, é só você, veio encher o saco também? – Perguntei, entrando no banheiro.

– É assim que você pensa dos seus amiguinhos? – Já havia fechado a porta, mas com certeza ele deveria estar fazendo uma cara idiota enquanto falava isso. – Viemos te ajudar a não faltar mais a escola, senão vai repetir de ano.

– Obrigado.

– De nada.

– Só que eu não pedi sua ajuda.

– AI. – Era a voz de Haah. – Eu não deixava.

– A sua também.

– NOSSA.

– Agora me esperem na sala e parem de falar comigo enquanto eu tô no banheiro.

– Tá. – Eles responderam juntos.

Então eu fui pro meu banho, quase morrendo com aquela água gelada. Como eu digo, se o inferno existir, ele é gelado... Depois escovei meus dentes, só não sabia se tava fazendo isso certo, a preguiça era maior do que a responsabilidade de me cuidar. Então abri a porta do banheiro, olhei para os lados para ver se eles estavam por perto antes de sair e então fui para o meu quarto quando percebi que estava seguro. Coloquei meu uniforme e preparei minhas coisas, cheguei na sala com minha mochila nas costas.

– Você não ia tomar banho? – Perguntou Haah.

– E tomei.

– Muito rápido. – Disse Klaus.

– Não, vocês que demoram demais. Agora parem de falar do tempo que eu passo no banho e vamos logo.

– Calma, por que a pressa? PRA QUE STRESS? PRA QUE? – Brincou Haah.

– Não tô estressado, tô calmo, olha minha cara de calmo.

– Essa é sua cara pra tudo.

– Não tem graça. – Eu saia de casa. – Como a gente vai pra escola agora que o Leko tá sem carro?

– Metrô, ué.

– Ah... Bem, é o jeito né.

Passamos um bom tempo andando, estávamos indo pela avenida, mas tivemos que cortar caminho pelas ruas menos movimentadas, afinal no meio do caminho a Haah quase foi atropelada... Quatro vezes. Pelo menos era um lugar mais calmos e deu pra apreciar o momento, e nossa, que belo momento ir para escola de manhã em uma Segunda-Feira para assistir duas aulas seguidas de Química logo de cara. Enfim, tomamos um café da manhã em uma lanchonete ao lado do metrô e então pegamos o trem para a estação mais próxima da nossa escola.

– Desculpem, não posso deixa-los entrar, já passou quinze minutos da primeira aula, esperem lá fora e entrem no segundo tempo. – Foi o que o professor disse quando chegamos na sala de aula. – Depois eu irei passar o nome de vocês para a diretoria, para que fique registrado o atraso.

Então foi isso, fiquei feliz que perdi a primeira aula de Química, deu para tirar um cochilo na biblioteca antes do sinal tocar para o segundo tempo, daí assistimos a segunda aula e por fim uma aula de Geografia no terceiro tempo. Acho que a direção dessa escola conspira contra mim para colocar logo as matérias que eu me dou pior na Segunda-Feira... Quando tocou o sinal para o intervalo, os alunos corriam da sala como se fosse o último dia de suas vidas, acho que é esse o sentimento que a maioria tem quando se livra das aulas, nem que seja por alguns minutos.

– Eu não entendi nada na aula. – Eu reclamava enquanto mastigava meu misto quente.

Nós seis nos reuníamos todos os intervalos em um pequeno jardim que ficava bem longe da multidão, ficava próximo à sala do clube de música e o laboratório de ciências, então era normal ver alguns alunos passarem por ali, mas poucos. Enquanto eu sentava no chão, encostado em uma árvore, a Haah e a Ys ficavam em um banquinho bem ao lado e o Leko, o Vini e o Klaus se juntavam em uma mesa de pedra que ficava logo em frente à árvore.

– Queijo, você é burro. – Disse Haah.

– Vai me dizer que você entendeu alguma coisa?

– Claro, eu, além de santa, linda, maravilhosa, pura, casta, ungida e diva, sou muito inteligente.

– Queijo, a Haah tem razão, você é burro mesmo. – Leko concordava com ela.

– Nossa, vou contar pra direção que tô sofrendo bullying na escola. – Eu dava outra mordida no sanduiche e encarava todo mundo.

– Nos encarar enquanto come um sanduiche não vai fazer nada soar sério, Queijo. Pelo contrário... – Disse Ys.

– Deixa eu dramatizar em paz. – Eu a encarava.

– Para com isso. – Ela dizia enquanto pegava um pedaço de pedra que tinha no chão. – Na falta de tijolos, eu improviso.

– OK, PAREI.

– Bom mesmo. E eu ia falar algo pra vocês, mas esqueci totalmente.

– Ysquecida. – Haah brincou.

– Não começa. – Ys ameaçava jogar a pedra.

– PRA QUE TANTA VIOLÊNCIA? NÃO TE DERAM TODDYNHO?

– Ah, lembrei. Eu descobri uma coisa muito legal com o livro ontem enquanto o estudava. – Ela pegava o livro e olhava em volta. – Mas ninguém, sem ser a gente, pode ver.

– O que você descobriu? – Klaus parecia curioso. – Tem algum ET-Bilu no livr...PARA DE APONTAR ESSA PEDRA PRA MIM.

– Calma, só quero que você coloque a pedra em cima da mesa.

– Ah tá. – Então Ys jogou a pedra para Klaus, que a deixou bem no centro da mesa.

– Ok, não se assustem e eu vou mostrar só uma vez. – Ela se levantava e abria o livro na única página onde havia algo.

– Não me diga que... – Eu já estava desconfiando do que seria.

– POLTERGEIST. – Ys exclamava enquanto direcionava sua mão para a pedra e depois para o alto, lançando a pedra aos céus sem nem toca-la, que logo caiu ao chão, bem na minha frente.

– A YS É UMA BRUXA! – Haah se levantava assustada.

– ORRA, e eu pensando que as coisas não podiam ficar mais estranhas. – Disse Leko.

– ISSO É TÃO LEGAL, DEIXA EU TENTAR TAMBÉM. – Klaus corria em direção a Ys e pegava o livro. – POLTERGEIST. – Ele exclamava enquanto direcionava sua mão para Ys e depois para o alto.

– Klaus...

– Por que você não voou?

– Só funciona com objetos.

– Mas eu queria lançar pessoas pro alto. – Ele falava com uma expressão de choro, seria triste se não fosse tão... Sádico.

– Eu posso lançar VOCÊ pro alto e sem o livro.

– Tenho medo da Ys as vezes. – Ele fazia um gesto como se tivesse se defendendo.

– EU QUE TENHO DE VOCÊ.

– Então quer dizer que quando capturamos as lendas... Podemos usar seus poderes? – Perguntei.

– Não sei, no caso do Poltergeist sim, mas só iremos comprovar isso quando capturarmos outra lenda.

– Ninguém vai capturar nada, e se forem, não me chamem. – Vini resmungava. – Não vai ser agradável repetir a experiência que eu tive no sábado.

– Ninguém disse que vai te chamar. – Eu disse.

– NOSSA. – Ele quase caiu do banco, mas logo recuperou sua postura e cruzou os braços. – Bem, eu realmente não quero mesmo, então ótimo, melhor pra mim. – Sua cabeça estava virada para o lado e sua expressão dizia o quanto ele parecia irritado, mas ele ainda deu uma “espiada” ao término da frase.

– Bem... O rapaz da van me deu o número da tal da Ada. – Leko dizia enquanto procurava o papel no seu bolso. – Aqui, ah não, esse é o dele.

– Você pegou o telefone dele? – Haah perguntou.

– Sim, peguei, algum problema?

– NOSSA, só fiz uma pergunta.

– Enfim, tá aqui. – Ele disse. – O telefone e o endereço também.

– Mas o que tem, Leko? – Perguntei.

– Bem, ela morava naquela casa, certo? Então deve saber algo sobre o livro.

– É, faz sentido. – Ys concordou. – Então a gente vai passar lá depois da escola?

– Por mim tudo bem. – Respondeu Haah.

– Digo o mesmo. – Falei.

– Eu vou só porque tenho nada pra fazer essa tarde. – Disse Vini.

– Fica muito longe? Eu não posso demorar... – Klaus parecia preocupado.

– Não é muito longe daqui, então dá pra gente passar lá bem rápido. – Leko analisava com cuidado o endereço no papel.

– Então tudo bem, eu vou também.

Ainda ficamos mais um tempo lá, mesmo depois do sinal tocar, a aula agora era de Filosofia e nosso professor sempre se atrasava. De qualquer jeito, não aconteceu mais nada de interessante, as aulas ocorreram normalmente, o mesmo tédio de sempre. A única coisa boa foi o seminário do Leko sobre ursos na aula de Biologia do último tempo, fomos até liberados mais cedo por atrapalhar tudo por causa das risadas, eu rio até hoje com os gifs de pandas que ele passou no slideshow e os comentários da Haah sobre a reprodução dos ursos.

– Vocês não prestam. – Leko se encontrava com a gente no lado de fora da escola. – Achei bem feito terem sido expulsos da aula.

– Valeu a pena. – Eu disse. – Meu seminário foi adiado por causa disso e eu nem tinha estudado.

– Desculpa Leko, mas não tinha como não rir. – Haah tentava disfarçar o riso.

– Bem, agora vamos procurar a moça lá antes que eu tenha que ir para casa. – Disse Klaus, nos colocando no foco.

Não pegamos nenhum transporte, o endereço era bem próximo, então chegamos bem rápido apenas indo a pé. Pelo visto a mudança de residência foi bem significante... De uma mansão vitoriana no meio da floresta para um prédio classe média perto do centro da cidade. Ah, e a Haah quase foi atropelada mais uma vez no caminho.

– Dá pra olhar pros lados antes de atravessar a rua? – Pedi.

– Mas eu olho, eles que aparecem do nada, eu não tenho culpa. – Haah reclamava.

– Certo, onde fica o interfone? – Perguntou Leko. – Ah, achei. – Ele discava o número.

– Então, o que vamos falar? – Perguntou Ys.

– Alô? É a Ada? Ah, bem, somos alunos do colegial da escola mais próxima. Precisamos falar sobre algo com você, o rapaz da van passou seu endereço. Sim, um ruivo. Obrigado.

– Ela deixou a gente entrar? – Klaus perguntou.

– Sim.

Então a moça apareceu lá embaixo depois de um tempo de espera, seus cabelos eram negros e seus olhos azuis, tão claros que nem pareciam ter cor. Sua pele era pálida, e a expressão em seu rosto passava um ar de segurança, não sei porque. Ela vestia uma blusa azul por cima de um vestido preto de saia rodada, sua meia calça era escura e sua sapatilha prateada reluzia. O prédio era um lugar bem comum, não parecia nada com aquela casa velha onde ela morava antes, era um lugar bem simples. Pegamos elevador até o último andar, onde ela morava, seu apartamento não era muito grande, mas tinha o suficiente para uma só pessoa. A decoração era bem parecida com a da mansão, pelo visto seu gosto não tinha mudado.

– É tão bonito. – Klaus olhava maravilhado em volta, enquanto sentava no sofá.

– Obrigada, pena que meus vizinhos não acham o mesmo. Eles preferem decoração moderna... – Ela caminhava em direção à cozinha. – Vão querer comer algo.

– Quero. – Eu disse.

– Não precisa. – Haah falava enquanto pisava no meu pé.

– AI.

– Não vamos passar muito tempo, só queremos tirar uma dúvida. – Disse Leko. – Não precisa se incomodar.

– Então... Por que o Isaiah passou meu endereço? Ele nunca fez isso antes. – Ela parecia confusa.

– Ele só disse que iríamos precisar. – Falei. – Bem, vou resumir... Nosso carro parou de funcionar no meio da estrada, então encontramos sua antiga casa, segundo o rapaz da Van. Ficamos lá até a chuva passar e... Enquanto procurávamos comida, um idiota se perdeu e achou um livro estranho, que fez coisas estranhas e então mais coisas estranhas começaram a acontecer, capturamos uma lenda e fomos para casa com seu amigo.

– Onde está o livro? – Ela parecia bem brava. — Eu sabia que isso acontecer, mas não sabia que ainda estaria viva, não deveria ter sido tão rápido.

– Então você sabe sobre o livro? – Ys perguntou.

– Por que você tiveram que ser tão curiosos? Agora vai começar tudo de novo...

– Foi o Klaus. – Haah apontava para ele.

– NOSSA, mas quem leu a contracapa foi o Lipe. – Ele tentava se livrar da culpa.

– Quem resolveu entrar na casa foi você. – Me defendi.

– Quem achou a casa foi a Ys.

– Vai ficar todo mundo se culpando mesmo? – Ela reclamava.

– Mas quem inventou de ir para a praia foram todos vocês. – Vini se intrometia.

– Você concordou. – Eu falei.

– Cala a boca.

– Chega. – Ada batia palmas. – Parem com isso, eu estou ficando chateada com vocês.

– Parece uma professora de infantil... – Eu cochichava para a Haah, que tava do meu lado.

– Sim, ela parece uma professora de infantil. – Haah falou em voz alta e Ada nos encarou fixamente, mas logo sorriu... Ela queria nos matar, com certeza.

– Agora deixem eu contar uma coisa... Quando era jovem, eu, o Isaiah e meu falecido esposo, Caleb, libertamos as lendas do livro, assim como vocês. Então, durante um bom tempo, nós caçamos todas elas, apenas nós três. Achamos ele no mesmo lugar que encontraram e eu o deixei exatamente lá ao fim de tudo, onde ele permaneceu por um bom tempo. Eu sabia que caso ele fosse encontrado, meu marido iria conseguir avisa-los em forma de lenda, no caso, a que vocês capturaram, Poltergeist. Estou errada?

– Não. – Disse Ys enquanto olhava para o livro.

– E tiveram muita sorte de encontrarem o Isaiah voltando da praia. Enfim.. Eu não lembro direito de todas as lendas, mas com certeza vocês vão acabar descobrindo em algum momento. Algumas podem ser bem inteligentes e conseguir se disfarçar, mas as principais características não são perdidas.

– Então se encontrarmos um lobisomem, por exemplo, ele irá continuar transformando-se em lobo às luas cheias, por mais que não aparente ser um? – Perguntei.

– Exatamente. E lembrem-se, nenhuma pode ter ido longe demais, com certeza estão todas nessa cidade ou nas redondezas, afinal... Eles não podem ficar muito distante do livro, é como o núcleo deles.

– E a origem de tudo isso, qual é? – Perguntou Haah.

– Não sei.

– Por que todo mundo me responde assim?

– Esse livro deve ser mais velho do que essa cidade... Não faço a mínima ideia de quem o pertencia. Nem as próprias lendas sabem dizer...

– Bem, eu tenho que ir. – Disse Klaus se levantando. – Mais tarde eu me encontro com vocês, até mais.

Então todos nos despedimos dele e continuamos escutando as histórias da juventude da Ada, descobrimos várias coisas e agora sabíamos por o que estávamos realmente passando. Almoçamos lá mesmo, escutamos a Ys tocando o piano que tinha no canto da sala e depois fomos todos assistir um seriado qualquer na TV... Até que apareceu aquela notícia: “Suposto Tigre no Centro da Cidade”.

– Como deixam um animal desses fugir do zoológico? – Haah parecia impressionada. – Ei, será que o Klaus foi para lá?

– O máximo que ele vai perder lá é o braço... – Eu disse.

– Acho melhor a gente ligar pra ele. – Disse Ys.

– O mais estranho é não conseguirem controlar ele até agora. – A notícia falava que tinham vítimas do felino desde ontem de manhã.

– Alô, Klaus? – Haah já estava ligando pra ele. – KLAUS SAI DAI, TEM UM TIGRE SOLTO. Ah, tu tá em casa... NÃO SAI DA SUA CASA SÓ DE TOALHA, NINGUÉM MERECE VER ISSO.

– Ele tá em casa então? – Perguntou Ys. – Então não tem com o que se preocupar.

– Na verdade tem sim, os pais de vocês tão onde? – Perguntei.

– Acho melhor todo mundo ir pra casa agora. – Sugeriu Vini. – Tipo, agora mesmo.

– Ok, obrigado por tudo, Ada. – Leko agradeceu por todos nós. – Então, vamos.

– Fiquem bem. – Ela sorriu uma última vez antes de fechar a porta.

Todos desciam o elevador em silêncio, com exceção da Haah, que já havia ligado para seus pais três vezes, mesmo após confirmar que eles estavam bem. Eu via todos com seus celulares enquanto saíamos pela porta da frente do prédio e à medida que dobrávamos esquinas e atravessávamos ruas, nos separávamos, até que me encontrei sozinho de frente para a porta da minha casa.

– Mãe? – Eu a chamava enquanto entrava com cuidado.

– Oi filho. – Ela saia do seu quarto, anotando algo em um caderno. – Depois você pode ir pegar sua irmã?

– Posso. – Eu suspirava aliviado, enquanto adentrava meu quarto e largava minhas coisas em qualquer lugar. – Ela ainda não voltou da escola?

– Ela foi ao centro da cidade com as amigas dela depois da aula.

– MEU DEUS. – Eu corria.

– O que houve?

– EU TÔ MORRENDO DE FOME. – Respondia enquanto abria a geladeira à procura de algo pra comer.

– Então, como foi a aula?

– Chata pra caralho. Mas a última matéria foi de boas. – Eu pegava uma tangerina.

– E seus amigos, onde estão?

– Foram ver se os parentes deles tão bem, porque tem um tigre solto no centro da cidade.

– Que horrível, ele atacou alguém?

– Sim, tem vítimas desde ontem de manhã.

– Como não conseguiram controlar esse bicho até agora?

– Isso que eu me pergunto. – Eu suspirava ao sentar no sofá. – E pensar que ainda vou ter que passar por lá pra pegar a Nathália...

– Sim. – Um silêncio se formou por um minuto inteiro. — FILIPE, VAI AGORA MESMO PEGAR SUA IRMÃ.

– EU?

– SIM, TEM UM TIGRE SOLTO ONDE ELA TÁ.

– E SE ELE ME ATACAR? A SENHORA NÃO SE PREOCUPA COMIGO?

– VAI... PEGAR... SUA... IRMÃ.

– Ok... Ok... – Eu saia lá de casa segurando a tangerina em uma mão e discando para o Leko com a outra, até lembrar que ele tava sem carro e dar meia volta depois de cancelar a chamada. – Mãe, me leva até lá?

– Óbvio que eu vou levar. – Ela já saia de casa toda arrumada e com a chave do carro nas mãos. – Vem.

– Se você ia de qualquer jeito, por que mandou eu ir?

– Eu mudei de idéia depois que percebi que mandei VOCÊ ajudar sua irmã.

– Fez bem. – Eu entrava no carro. – EI, CALMA. – Eu reclamei assim ela deu ré sem eu nem ter fechado a porta.

– Eu to com pressa, Filipe. Se não vai ajudar, então não atrapalha.

– Ok, desculpa.

Eu ligava para todos no meio do caminho, eu precisava de ajuda, principalmente da Ys, que tinha uma grande ferramenta em mãos. Haah , Leko e Vini demoraram pra aceitar o “convite”, já o Klaus nem podia ir, mas acabou cedendo. O tempo passava e a situação começava a ficar mais tensa, havia ruas interditadas, viaturas e ambulâncias passando na nossa frente, minha mãe tava tão preocupada que nem falava nada... Por mais veloz que o carro estivesse, o trânsito não colaborou para que chegássemos tão rápido por lá.

– Amém, chegamos. Filipe vai procurando sua irmã, eu vou pedir informações pra polícia. – Ela descia do carro com pressa, indo em direção a uma multidão. Já eu ia pelo lado contrário, sem rumo, apenas com o objetivo de encontrar qualquer um dos meus amigos. Embora estivesse tudo interditado, não havia nada de diferente em volta além do tumulto, provavelmente o tigre só atacava em surdina, sem nenhum alarde, o que era estranho...

– Lipe. – Era a voz de Klaus, que se encontrava bem distante, com o Vini ao seu lado. – Vem cá.

– Imaginei que chegassem aqui antes de mim, acham melhor esperarmos os outros ou irmos logo? – Eu me aproximava deles.

– Eu prefiro esperar. – Disse Vini, ele estava sendo paciente pelo menos uma vez?

– Eu também, principalmente a Ys, ela é uma bruxinha. – Klaus fazia gestos com as mãos, simulando o poder do livro.

– Então vamos esperar, mas primeiro vamos ver se minha mãe encontrou alguma informação sobre minha irmã.

Então caminhamos em direção àquele bolo de pessoas e luzes, o barulho estava me deixando com dor de cabeça e minha mente já não ia trabalhar tão bem como de costume, não que ela trabalhe bem normalmente. Minha mãe não parava de gritar com os policiais, provavelmente ela não me daria atenção naquele momento, então já dei meia volta e fiquei parado, enquanto Klaus e Vini tentavam se situar.

– Tem uma anta perdida ali. – Vini se referia à Haah, que ficava olhando em volta e olhando o celular o tempo todo.

– Ficar olhando pra ele não vai carregar a bateria magicamente. – Eu tocava seu ombro.

– QUE SUSTO, QUEIJO. – Ela gritava depois de me empurrar. – Pensei que fosse o tigre.

– Tigres não falam.

– Viu a Ys e o Leko por ai? – Klaus perguntou.

– Não, senão eu estaria com eles, né?

– AI. – Brinquei.

– Grossa. – Klaus fingia estar chorando.

– DESCULPA. – Haah o abraçava. – Então, o que a gente pode fazer pra ajudar, Queijo?

– Na verdade eu queria saber por que a gente ta aqui se a irmã é sua. – Vini reclamava.

– Quanto mais pessoas melhor. Além disso, eu preciso do livro da Ys, mas ela tá demorando muito pra chegar...

– Acho melhor a gente procurar logo sua irmã, Queijo. – Sugeriu Haah.

– Não temos outra opção, já vai anoitecer. – Fomos procurar um meio de adentrar o centro, mas a polícia impedia a passagem de qualquer um. Informávamos-nos da situação lá dentro, parece que uma grande parte dos cidadãos estava segura em uma cafeteria, porém a primeira tentativa de evacuação resultou na morte um policial e um casal. Esperava que minha irmã estivesse entre as vítimas, digo, em segurança. E em questão de segundos após o policial nos dar a informação, uma van chegou em alta velocidade, freiando de lado a menos de 1 metro de distância da multidão. Todos que estavam lá reclamavam e xingavam o motorista, até ele descer de lá. Era o rapaz que nos deu carona no sábado e junto a ele estavam Ys e Leko.

– Detetive Isaiah aqui. – Ele mostrava seu dinstitivo. – E podem se acalmando, eu sei o que eu faço sobre quatro rodas. – Sorria.

– Esse cara é um detetive? – A voz de Vini tinha um tom de desconfiança.

– Então, o setor especial me mandou aqui em uma missão de investigação e bem... Capturar uma besta fera gigante.

– D-desculpe senhor, ninguém tem permissão de passar aqui. – O policial gaguejava um pouco.

– Quem decide quem tem permissão de entrar ou não aqui sou eu.

– AI. – Todos disseram em coro. Não demorou pra polícia ceder a nossa passagem, mas depois de ouvir sobre os casos de morte que tinham acontecido naquele local, eu estava me sentindo um tanto quanto inseguro.

– Ys, ta com o livro ai? – Perguntei.

– Sim. Além disso, o carinha lá confirmou que todos os contos, sem exceção, nos dão poderes especiais.

– E o que ele ta fazendo aqui? — Haah se intrometia.

– Ele desconfia que o tigre na verdade seja uma lenda, já viram as imagens dele?

– Não.

– Aqui. – Ela tirava recortes de jornal da sua bolsa e nos mostrava.

– Só vejo borrões. – Vini também se intrometia.

– Exatamente, as lendas não podem sair em fotos quando estão em suas verdadeiras formas.

– Então essa lenda é realmente algo parecido com um tigre?

– É uma besta de Exmoor. – Isaiah se aproximava. – Simplificando: um gato inglês do rabo grande.

– É tipo a mistura do Vini, do Klaus e do Leko? – Brincava Haah, ou não, porque ela parecia estar falando sério.

– Ele tem a pelagem negra, logo pode se esconder no escuro. Além de ser rápido, ter um salto extremamente alto...

– E fazer um belo de um estrago. – Completei.

– GENTE. – Leko se aproximava correndo. – Não se afastem de mim, eu não quero morrer.

– Calma cara, eu to aqui. – Isaiah ria enquanto apoiava seus braços no ombro do Leko e da Haah. – Eu protejo todos vocês, olha, estou até armado. – Ele sacava uma pistola do seu bolso, o que fazia Haah correr em minha direção.

– LARGA ISSO, TÁ LOUCO TIO? – Ela gritava. O rapaz corria em sua direção e tampava sua boca.

– Sem gritos, querem ser atacados na surdina?

– Tipo o que aconteceu com o Klaus? – Perguntei, todos me encararam por um minuto e depois olharam em volta.

– AI TITI.

– ESSA BICHA BURRA FICOU SOZINHA. – Vini colocava suas mãos na cabeça.

– Relaxem, se ficarem nervosos vão acabar morrendo também. – Dizia Isaiah enquanto olhava em volta. – Depois nós procuramos o cadáver dele, primeiro temos que focar em capturar a besta.

– Tudo bem. – Todo mundo respondeu em coro.

– Vocês superam rápido... Enfim, temos que ir à cafeteria onde estão os refugiados.

– Fica logo ali. – Eu apontava para a cafeteria. – Espero que tenha comida lá.

– Gordo obeso. – Vini me xingava.

– Eu não tenho culpa se sinto fome.

– Tem sim, seu gordo.

– Um cafezinho ia bem mesmo. – Disse Isaiah.

À medida que nos aproximávamos, ficávamos cada vez mais tensos, a besta estava por perto e já havia levado um de nós sem nem percebermos. Haah não me largava de jeito algum e me apertava tão forte que eu já estava quase colocando o meu café da manhã pra fora. Então ouvimos um barulho assustador e olhos verdes brilhavam no escuro bem no telhado da cafeteria, não demorou muito para todos verem e se desesperarem, correndo que nem um monte de baratas tontas e sem rumo. O ser já estava em meio a todos nós, nos perseguindo sem dó e rugindo de fome. Isaiah tentava atirar no monstro, mas não tinha sucesso em tiro algum.

– ACERTA PELO MENOS UM. – Vini gritava desesperado.

– QUER TENTAR? – O rapaz reclamava frustrado.

– TODO MUNDO PRA CAFETERIA. – Gritava Ys enquanto corria em direção a porta de entrada, porém a besta saltava bem em sua frente. – TODO MUNDO PRA LONGE DA CAFETERIA. – Ela fugia.

Dava pra ver todos os refugiados assistindo a cena pelas janelas de vidro, eram em, sua maioria, jovens e idosos e nenhum parecia ter coragem de sair dali de dentro. Curiosamente um grupo de garotas, inclusive minha irmã, se divertia com a situação, torcendo e mastigando uns biscoitos. Provavelmente torcendo pra besta. Felizmente, com sucesso, Isaiah acertou um de seus tiros, fazendo a criatura chorar e se afastar rapidamente, foi nossa chance de entrar na cafeteria. Iamos pouco a pouco, mas a besta já estava correndo em nossa direção novamente, Ys foi a última a entrar, fazendo com que o felino se chocasse contra a porta.

– GENTE, EU NÃO AGUENTO MAIS, QUERO DESCANSAR. – Leko caia deitado em um sofá. – Essa noite tem que acabar logo.

– EU TO MORRENDO DE FOME. – Eu roubava alguns biscoitos da minha irmã, que não parecia feliz em me ver. – E essa cara feia, por quê? Eu quase morri por sua causa.

– Devia ter morrido mesmo. – Ela virava o rosto.

– Concordo. – Disse Vini. – Brincadeira. Talvez um pouco...

– Vão se foder vocês dois.

– Eu não quero mais sair daqui nunca. – Haah chorava em um cantinho.

– Isaiah. – Ys caminhava em sua direção. – Como vamos capturar essa besta? – Ela sussurrava.

– Temos que imobilizá-la, ela precisa estar frágil, porém ela está mais forte que nunca.

– E é impossível acertar essa coisa, pelo visto. – Eu me intrometia enquanto mastigava um bolo de baunilha.

– Ela é muito rápida, minha mira não é tão ruim assim, eu juro. – Choramingava.

O barulho naquele local era constante, todo mundo falando ao mesmo tempo, além de um grupo de pessoas chorando no canto junto à Haah, mas o silêncio tomou conta do ambiente quando algo abria a porta da cafeteria lentamente, Isaiah já mirava, esperando qualquer coisa. Assim que o ser adentrou, Isaiah puxou o gatilho imediatamente, porém estava sem bala alguma, não tinha mais jeito, porém...

– Oi gente, desculpa a demora. – Klaus entrava no recinto, carregando um monte de treco em uma sacola. – Tava comprando umas coisinhas em uma lojinha que eu encontrei aberta.

– KLAUS, VOCÊ TÁ VIVO. – Haah corria e o abraçava.

– Como tem uma loja aberta com o centro da cidade nessa situação? – Ys indagava surpresa.

– Né, me pergunto o mesmo. – Eu procurava algum lugar aberto lá fora pela janela.

– EU QUERO SABER PORQUE O KLAUS TAVA FAZENDO COMPRAS ENQUANTO A GENTE ERA ATACADO POR UMA BESTA GIGANTE. – Vini tomava a sacola das mãos de Klaus. – Um espelho, relógio de mão, uma caixa de música, caneta laser e um chocolate... AINDA COMPRA PORCARIA. – Ele abria o chocolate. – Obrigado.

– Besta gigante? Você quer dizer o gatinho preto que tava lá fora? – Todos o encaravam, o silêncio era perturbador. – Eu brinquei um pouco com ele.

– Você brincou com a besta de Exmoor? – A expressão de Isaiah mostrava o quão ele estava em choque no momento. – CALMA. É isso! Podemos distrair ela com o laser e depois imobilizá-la... Mas eu to sem bala.

– Aqui ó. – Klaus entregava uma bala de menta pra ele. – Comprei na lojinha também.

– Klaus, você é burro. – Disse Haah.

– E se usarmos o livro? – Perguntei. – Ele pode ser bem útil.

– Verdade, preparados?

– Precisamos de um plano antes. – Ys caminhava em direção a uma das janelas. – Qual foi o último lugar que você viu a besta, Klaus?

– Ela tava do lado da cafeteria. – Ele se aproximava.

– O poder que temos no livro permite que a gente mova objetos, certo? – Iniciei uma linha de raciocínio.

– Nada muito pesado, porque ele considera sua força mental. – Alertou Isaiah.

– Então temos que interagir com o ambiente. – Concluí o óbvio, parabéns Filipe.

– Aquela pilha de tijolo ali pode ser útil. – Disse Haah, quase quebrando a janela enquanto apontava.

– Opa, tijolos. – Ys sorri.

– Então a gente atrai o bichano praquela parede com o laser, o mantém lá e desmaia ele com uma tijolada. – Vini se intrometia.

– Exato, eu dou a tijolada.

– Ok, mas precisamos de um voluntário pra fazer com que a besta apareça. – Assim que Isaiah terminou de falar isso, todos olharam para o Leko.

– QUE VOCÊS TÃO OLHANDO?

– Ele disse que não quer mais sair daqui, vamos respeitar isso. Sugiro que VOCÊ vá. – Ele me encarava.

– E se eu também não quiser mais sair daqui?

– Eu fico com o laser. – Klaus colocava o laser nos meus olhos.

– Se me cegar eu não vou nem conseguir sair daqui, quanto mais atrair um monstro.

– O restante fica aqui, eu vou porque estou responsável por vocês. – Ele abria a porta da cafeteria. – Vamos.

Então iam todos se posicionando: Ys ficava próxima aos tijolos, Klaus permanecia próximo à cafeteria, junto ao Isaiah e... Eu... Bem, eu tinha que ir até onde o monstro foi visto pela última vez e não era tão perto assim. A medida que eu me distanciava dos outros, eu sentia um medo imenso de morrer sem nem mesmo perceber e estava ficando tudo tão escuro, mas algo brilhava, brilhava muito forte no meio daquela escuridão, pareciam duas jóias de esmeralda brilhantes... Mas eram os olhos dela, da besta que avançava em minha direção. Então eu corria como nunca corri na minha vida, quase chegando ao meu limite, o monstro me seguia por cima do telhado da cafeteria e eu conseguia ver todos pela janela me assistindo correr. Eu consegui, cheguei até o canto que eu deveria chegar, a criatura já estava perseguindo o laser que o Klaus havia ligado, indo em direção à parede, porém...

– Tá falhando. TÁ FALHANDO. – Klaus se desesperava.

– VOCÊ COMPROU ISSO POR QUANTO? – Ys gritava de longe. – 50 CENTAVOS?

– NÃO SEI, JÁ USEI LIBRA, EURO, REAL, EU FICO CONFUSO ASSIM.

Então o monstro parava no meio do caminho e saia do transe, olhando em volta a procura de uma vítima e... Bem... A Ys era o “petisco” mais próximo dele. Assim que ela percebeu que o monstro corria em sua direção, ela apenas gritou como se fosse o último momento da sua vida:

– POLTERGEIST.

Sua mão movia todos os tijolos da pilha em direção ao monstro, o atingindo em cheio, sem errar nenhum tijolo sequer. A besta caia desacordada ao chão, com uma pilha de tijolos em cima e, aos poucos, ela sumia nas sombras e o livro era aberto em outra página imediatamente, uma que agora estava completa, número 6: “Besta de Exmoor”.

– CAPTURAMOS. – Ys comemorava. – É... Agora faltam sessenta. Ok...

– Não lamenta por ser apenas a segunda, capturar uma lenda é uma grande conquista, vocês agora têm um novo grande poder em mãos. – Isaiah se aproximava dela.

Todos saiam correndo da cafeteria e gritando de felicidade, partimos de lá em direção à polícia, aonde demos a notícia que a besta tinha sido capturada. Bem... Demorou um tanto para considerarem uma verdade absoluta, já que o animal não existia mais em carne e osso, mas deu tudo certo no final. Isaiah levou todos para casa na van, enquanto eu fui com minha mãe e minha irmã de carro.

– Então quer dizer que o Filipe salvou vocês? – Minha mãe perguntava.

– Não, ele só correu do tigre, os outros fizeram o resto do trabalho. – Nathália respondia enquanto mexia no celular.

– Correr daquele bicho não foi tão fácil, ok?

– Cala a boca, você é um inútil.

– Com isso eu concordo. – Eu me olhava pelo retrovisor, porém via alguém ao lado da minha irmã, me virei o mais rápido possível, mas não tinha ninguém, e mesmo olhando de volta, não tinha mais nada além do meu reflexo.

– Que é? – Ela resmungava.

– Nada. – É... Essas próximas semanas vão ser um inferno.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.