O Estranho no Sótão
17 Capítulo 16
Notas iniciais
— É realmente um desejo bem arriscado Edward – falou o senhor Halle enquanto analisava os papeis a sua frente
Ashley levou o estranho a quem considerava tal como um filho de coração ao escritório do marido e ansiava que o homem pudesse ajudar o menino. Não suportaria ver a decepção naqueles olhos tão esperançosos
— Mas não impossível, não é mesmo querido? – perguntou sem poder conter a expectativa
— Não – respondeu de imediato o homem – não é impossível, mas você precisa compreender que não será de uma hora para outra Edward, precisaremos investir em divulgação, procurar parcerias, fazer uma boa reforma no lugar, investir no que há de mais moderno dentro do segmento. É muito dinheiro em questão para ser gasto unicamente na realização de um capricho – Edward se encolheu na cadeira, não era um capricho, era a escola de sua mãe
— Desculpe — corrigiu-se imediatamente ante ao olhar de reprovação da esposa – eu não quis ofender, compreendo perfeitamente o significado sentimental por trás de seu desejo. Mas se serei seu contador preciso te alertar dos riscos
— Nós estaremos ao seu lado. Faremos todo o possível para que a escola seja reaberta e produza lucros – a senhora Halle falou de maneira doce, afagando o ombro do estranho – Não é mesmo querido? – olhou de maneira ameaçadora o marido que suspirou, dando-se por vencido
— Claro. Vamos transferir quarenta e cinco por cento do valor de sua herança para o capital da escola, será esse valor que teremos para trabalhar e nada além dele. Faremos uma pequena aplicação na bolsa em nome da escola, nada muito arriscado, apenas para que já comece a produzir nesse primeiro momento e que o mundo financeiro tenha consciência do retorno da Masen Academy, isso nos ajudará a atrair investidores em um futuro próximo – O estranho sorriu abertamente sem entender muito do que o homem dizia, mas confiando que logo a escola de sua mãe estaria aberta novamente – Do que sobrar em sua conta aplicaremos uma quantia também pequena como forma de segurança a você e não mexeremos em mais nada por enquanto – Edward fez uma careta de insatisfação com as palavras – Algum problema? – perguntou o homem loiro, assim como qualquer outro Halle, sentado atrás da mesa
— Eu tenho um investimento pessoal – falou de maneira envergonhada olhando fixamente a madeira da mesa
— Um investimento? Esta em posse de sua herança a menos de vinte e quatro horas e já investiu em algo? – falou em tom de repreensão, no fundo o estranho sabia que assim como o assassino de sua mãe, o pai de seus amigos também acreditava que ele perderia todo o dinheiro em pouco tempo – Você investiu em que?
— Como disse é pessoal – respondeu não querendo soar grosseiro, mas também não querendo compartilhar aquele segredo com mais ninguém
— Pessoal? Edward, não posso ser o seu contador se não souber para onde o dinheiro esta indo. Qual o valor desse investimento? Quanto tempo vai durar? Qual a margem de lucro? – o estranho fez os cálculos aproximados mentalmente
— Cerca de vinte mil mensais durante seis anos. Não tem nenhum tipo de lucro – até mesmo a senhora Halle o olhou boquiaberta reprovando suas palavras
— Não posso deixar você fazer isso! Não como seu contador – o homem falava como se tivesse acabado de escutar o maior absurdo de sua vida
— Querido! – repreendeu Ashley e então voltou-se ao estranho com um olhar gentil – Meu amor, pode confiar em nós, você precisa dizer em que esta investindo para que possamos te dar o melhor concelho, as pessoas podem se aproveitar da sua inexperiência
— Eu não vou mudar de ideia – falou de maneira firme
— Não consigo pensar em nada que possa ser importante a esse ponto – continuou ainda com brandura mas os olhos demonstravam preocupação
— Edward entenda, não posso ser seu contador se não confiar em mim, e economista nenhum aceitará prestar serviços a você sem saber para onde o dinheiro esta indo — o estranho engoliu em seco olhando o homem e então deu-se por vencido, retirou da mochila uma nova pasta onde estavam os documentos que imprimira aquela manhã e estendeu ao homem
— É muito importante para mim que ninguém saiba, nem mesmo Jasper e Rosalie – falou enquanto o homem analisava os papeis. O loiro olhou dos papeis ao estranho, um sorriso tímido se formando no rosto e então passou a pasta a esposa que olhava curiosa
— Fique tranquilo, nada sairá desse escritório – garantiu
— É uma atitude muito bonita da sua parte meu amor – a mulher falou com a voz embargada de emoção
— Não é absolutamente nada, se comparado ao que ela fez por mim
...
Carlisle andava de um lado a outro no sótão, estalava compulsoriamente os dedos e sentia-se ridículo por estar tão nervoso quanto adolescente aguardando o horário de seu primeiro encontro. O nervosismo pela espera tomava conta de todo o seu corpo e um nó se formava na boca de seu estômago. Existiam tantas coisas que gostaria se dizer, e ao mesmo tempo não sabia como começar aquela conversa
Três batidas leves foram dadas na porta e o médico estacou no lugar olhando de maneira assustada na direção do som, e então engoliu em seco. E agora? O que deveria falar primeiro? Qual seria a melhor maneira de se começar aquela conversa?
As batidas se repetiram e Carlisle sentia o coração bater acelerado no peito ao mesmo tempo em que a boca lhe secou, tamanho o nervosismo do momento. As batidas voltaram a soar, dessa vez mais fortes e ansiosas, o medico respirou fundo e foi a passos lentos até o objeto de madeira, a mão estendida mesmo que a distancia, pronto para abrir
...
— Vamos reduzir os gastos de Isabella a quinze mil mensais no total – falava Ashley dentro do elevador, imediatamente Edward a olhou pronto para protestar – Vinte é um valor muito alto – começou antes que o estranho conseguisse abrir a boca – Entendo que queira garantir conforto a ela enquanto estuda, mas ainda assim é muito. Quinze será o suficiente, ela e Rose poderão dividir um apartamento, já estava planejando que Rosalie tivesse uma colega para dividir gastos de qualquer forma, fico aliviada que essa colga seja Isabella. Rose e Jasper também receberão uma mesada de valor baixo, apenas para gastos essências, isso dará responsabilidade a eles. Principalmente a Jasper, sociologia? Onde é que aquele garoto está com a cabeça? – lamuriou para si mesma
O estranho não gostava muito da ideia, estava disposto a doar até a herança toda a sua pentelha se fosse necessário para vê-la feliz. Mas confia em Ashley Halle e sabia que a mulher jamais faria algo que prejudicasse a pentelha, por isso apenas deu de ombros enquanto saiam do elevador. A mulher cumprimentou as recepcionistas com um sorriso gentil quando passaram por elas
— Janta conosco hoje? – perguntou olhando para o estranho. Edward pensou em aceitar o convite, mas uma sensação estranha lhe espremeu o peito com aquela ideia
— Não, prefiro ir pra casa. Obrigada pelo convite – sorriu de maneira educada
— Tudo bem, te deixo em casa então – ambos saíram para a rua onde a mulher havia deixado o carro quando chegaram
— Edward? – os dois viraram-se instintivamente na direção da voz – Edward! – gritou um senhor de cabelos esbranquiçados e pele enrugada sorrindo empolgado para o estranho enquanto encurtava a distância entre eles
— Senhor Stanley! – respondeu o estranho também de maneira empolgada quando reconheceu o homem o puxando para um abraço. Ashley olhou a sena com surpresa, não estava acostumada a ver o estranho agir de tal maneira com ninguém além dos filhos e Isabella, até mesmo com ela Edward era bem contido em suas demonstrações de afeto.
Após um longo e apertado abraço, o estranho depositou um beijo no rosto do senhor e separou-se dele voltando-se para a mulher que aguardava ao lado
— Esse é o senhor Stanley, meu professor de piano – falou com orgulho e Ashley sorriu encantada com o brilho que viu nos olhos do garoto – Essa é Ashley Halle – a olhou um pouco envergonhado mas ainda com o brilho nos olhos – minha segunda mãe – completou baixinho desviando os olhos da mulher de maneira tímida e Ashley prendeu a respiração tamanha a emoção de tais palavras, os olhos inebriaram-se de lágrimas que ela recusou a permitir que rolassem. Queria puxar o estranho para seus braços e enche-lo de beijos exatamente como fazia com Jasper, mas conteve-se para não constrange-lo ainda mais do que já estava
— É um prazer enorme conhece-lo – respondeu com sinceridade estendendo a mão ao senhor de postura encurvada, o homem aceitou a mão estendida com dificuldade devida ao tremor de seus dedos
— Como pode ver senhora Halle, não possuo mais a firmeza exigida a um pianista de respeito – colocou de maneira divertida olhando para a própria mão que tremia, o sorriso de quem fazia piada da própria situação
— O que houve? – perguntou Edward espantado avaliando as mãos que tocavam de maneira tão habilidosas e que o ensinaram tudo o que sabia sobre música
— A idade meu filho, foi isso que houve – respondeu ainda em tom de diversão – aproveite sua juventude enquanto ainda pode, pois ela chega para todos trazendo grandes desconfortos. E não me olhe com essa cara – repreendeu ainda sorrindo – eu fui muito afortunado, Parkinson não é nada se comparado ao alzheimer, o que é um pequeno tremor se comparado ao grande terror de esquecer-se das lições que a vida lhe deu? – gargalhou puxando o estranho para um novo abraço – Eu não toco como antigamente é verdade, mas a música permanece em minha essência, e não é um tremeliquinho atoa que me impedirá de fazer o que mais amo. Estou regindo uma orquestra em Seattle – contou orgulhoso
— Edward irá reabrir a escola de artes em breve – contou Ashley quando viu o desconforto do estranho perante ao idoso que mesmo ante uma grande dificuldade física não abandonava o que amava, e foi a vez do senhor de ter os olhos marejados por lagrimas olhando de maneira orgulhosa o garoto que vira crescer
— Sua mãe era uma mulher incrível, eu tenho certeza que onde ela está agora, está muito orgulhosa de você – o estranho reprimiu o choro que lhe veio ao pensamento de que a mãe se orgulhava dele e apenas acenou positivamente ao senhor – Ah a Masen Academy, lembro-me de tantos momentos bons naquele lugar, você ainda em suas fraldas, aprendendo a dar os primeiros passos pendurando-se em meu piano pra alcançar as teclas – sorriu saudoso olhando o estranho nos olhos – como eu disse, a perda das memorias é a única perda que é realmente lamentável — gargalhou segurando nos ombros do estranho – a Masen não poderia estar em melhores mãos, meus parabéns!
— Obrigado! – respondeu sorrindo. Dentro de si uma grande confiança crescendo
— Eu realmente preciso ir, pegue meu cartão, espero ser convidado para a inauguração – estendeu o pequeno retangulo de papel que tremia seguindo os movimentos de sua mão
— Marcaremos um jantar em minha casa, adoraria recebe-lo – completou Ashley
— O prazer seria inteiramente meu – respondeu o senhor cumprimentando em despedida a mulher e voltando-se a Edward para despedir-se quando algo lhe ocorreu – Edward, minha orquestra se apresentará na festa de ano novo aqui na cidade, nós não temos um pianista. Me daria a honra de ter meu pupilo mais dedicado junto a mim no palco?
...
— Edward querido, abra a porta sim? – Carlisle parou no lugar olhando confuso para a porta, o que Victoria estaria fazendo ali? Ia abrir a porta e informar a esposa que também estava aguardando o filho – Vamos conversar sim? Garanto que não irá se arrepender – continuou em tom malicioso e o médico novamente se deteu sem conseguir compreender o que estava acontecendo ali
— Eu tenho uma surpresa que você irá adorar, sei que está ai dentro, me dê uma chance de te mostrar o que uma mulher pode fazer com um homem, te proporcionarei uma noite inteira regada a prazeres que você jamais imaginou sentir. Tudo o que precisa fazer é abrir a porta
O medico abriu os olhos e a boca em assombro, enquanto sentia o mundo girar em torno de si e cambaleou para trás devido a tontura. Enquanto novas batidas soaram pelo quarto a compreensão chegou a ele, sentiu o estomago revirar, e uma súbita ânsia de vomito o atingir
— Você sabe qual o seu problema Edward? – gritou exaltada atrás da porta enquanto o medico segurava-se em um móvel para não ir ao chão devido ao tremor em suas pernas – Você é exatamente como ela, um burro teimoso! Ela poderia ter saído dessa com vida, tudo o que precisava fazer era aceitar que o casamento falido dela tinha chegado ao fim, pegar os filhos mimados que criava e ido embora. Teria me poupado o enorme sacrifício de aturar você e seus irmãos por todos esses anos. Mas não! Ela decidiu me enfrentar, decidiu lutar pelo maldito paspalhão do marido! – gritou – Eu não podia permitir, não iria aceitar perder, ela tinha tudo o que eu sempre quis, fama, um nome de prestígio, um marido montado na grana, eu queria tudo isso para mim, eu queria a vida dela!
Carlisle olhou a porta totalmente incrédulo do que estava escutando
— Eu disse a ela que tudo o que tinha seria meu, mas ela duvidou de mim – gargalhou – Naquela noite fui até o teatro, mandei que ela saísse do meu caminho. Fui generosa até, expliquei a situação, ela precisava entender o quão egoísta estava sendo, ela sempre teve tudo de mão beijada, nasceu em berço de ouro, claro que era considerada a melhor de todas as bailarinas, teve sempre os melhores professores – desdenhou – a vida sempre foi muito fácil pra ela. Agora eu? A vida nunca foi tão generosa comigo, não foi fácil seduzir o idiota do seu pai! – gritou revoltada – Você faz ideia de quantas noites tediosas eu passei escutando ele se lamentar pela falta da bailarina dele? Não iria permitir que todo o meu esforço fosse pro ralo
— Então eu a atropelei – gargalhou de maneira histérica – Eu atropelei a sua mãe – cantarolou em meio aos risos espalhafatosos e Carlisle sentia os sentidos lhe fugirem – Mas a infeliz se quer fez o favor de morrer logo, não, claro que ela não facilitaria as coisas para mim. Me fez agonizar com a espera, e ainda por cima me deixou três pesos mortos para carregar, três malditos demônios com cara de anjo que faziam Carlisle sentir-se cheio de remorso todos os dias – gritou com indignação – Mas sabe que uma coisa foi boa? Eu me deliciei todos os dias com o declínio da grande Elizabeth Masen, a aclamada bailarina, famosa por equilibrar-se na ponta dos pés enquanto grávida não era assim tão inatingível quanto diziam não é mesmo? Se era tão fabulosa quanto acreditavam, por que não dançou em uma perna só? – riu maldosa – Se o tivesse feito, ai sim talvez eu me impressionasse um pouquinho – completou com deboche e Carlisle franziu o cenho irritado por tudo o que escutava
— Você não sabe como foi delicioso para mim acompanhar ela definhando, eu somente lamento por não ter tido o prazer de ter a visto pessoalmente durante o processo, teria amado olha-la nos olhos, dar um sorriso vitorioso e... – a ruiva calou-se no momento em que a porta foi aberta olhando catatônica o médico parado ali a olhando enfurecido
Victoria precisou de alguns segundos para voltar a si e compreender que a imagem do homem parado a sua frente era real e não uma alucinação. Bufou contrariada, então era isso? Era assim que as coisas terminariam para ela? Não sairia humilhada daquela história. Carlisle a olhava de cima a baixo de forma enojada
— Não me olhe dessa forma, você sempre adorou me ver em fantasias sexuais – falou altiva levantando o queixo
— Você! – grunhiu revoltado – Você é desprezível! – gritou sem saber o que falar puxando os próprios cabelos para trás
— Eu sou desprezível? – bufou – eu era solteira, quem devia respeito a sua mulher e filhos era você! Jamais te obriguei a nada. A única coisa que fiz foi te proporcionar exatamente o que você queria, te fiz um grande favor na verdade, você sabe melhor do que eu o quanto estava desesperado para fugir daquele casamento água com açúcar que sequer sexo tinha – falou com desdém dando de ombros
— Cala a boca! – gritou
— Por que? A verdade é muito dolorosa para você? Pensou que minhas atitudes fossem mais sujas do que as suas? Te faria sentir melhor se eu fosse a única culpada pelos seus erros? Pois saiba que eu não sou! Você poderia ter dito não, mas você não somente não disse, como gostou! Gostou de cada momento. Você deu espaço para que eu entrasse em sua vida, você permitiu que eu visse Elizabeth como uma rival, você é o culpado pela morte da mãe de seus filhos não eu!
— Cala a boca! – gritou em ódio, em um ato ensandecido prensou o corpo da mulher contra a parede apertando com as duas mãos o pescoço da ruiva
— Carlisle... – falou enquanto se debatia tentando inutilmente fugir do aperto do outro enquanto puxava o ar para seus pulmões e este não lhe vinha, olhava em choque o homem ensandecido que chorava sonoramente enquanto a sufocava.
Logo sua atenção fora roubada pela imagem turva da bailarina a olhando de maneira deliciada com um sorriso vitorioso no rosto
...
— Qualquer coisa você liga – pediu Roselie quando Isabella saltou do carro em frente a mansão Cullen naquele fim de tarde
Edward não comparecera ao encontro com os amigos conforme combinado, os amigos estavam receosos de que tivesse dado algo errado na conversa com o psicólogo aquela tarde e o estranho estivesse novamente trancafiado no sótão
Bella somente acentiu com a expressão endurecida pela preocupação enquanto puxava a mochila do banco traseiro e batia a porta atrás de si.
Murmurou uma despedida rápida aos amigos e logo já estava correndo para dentro da casa. Se quer guardaria a bolsa, precisava ir direto ao sótão e ver com os próprios olhos que seu estranho estava bem
...
Carlisle olhava em meio a lágrimas a maldita mulher que parecia cada vez mais enfraquecida em suas mãos devido a inconsciência que claramente começava a lhe alcançar.
Dentro dele todo o ódio que sentia de si próprio fervia obrigando-o a apertar cada vez mais forte o pescoço da outra, claro que o ódio que sentia era direcionado a sí próprio, Victoria tinha razão em cada uma de suas palavras, fora ele quem levara aquela víbora assassina para o meio de sua família
Ele era o único responsável pela morte de Elizabeth e agora também o seria pela de Victória, e o faria com as próprias mãos, a consciência lhe atingiu tal como um chute no estômago, mataria Victoria?
Soltou a ruiva que caiu ao chão tossindo enquanto puxava fortes lufadas de ar fazendo o peito subir e descer em movimentos bruscos, as duas mãos presas ao próprio pescoço como se tentasse aliviar alguma dor
— Eu não vou te matar! – esbravejou andando de um lado ao outro de maneira descontrolada sem conseguir conter o choro que lhe subia forte pela garganta – Eu não sou como você! Eu... Eu vou denuncia-la a polícia!
Victoria abriu os olhos em assombro, em um movimento rápido pôs-se de pé empurrando o homem que cambaleou para trás e então saiu correndo pelo corredor
— Volta aqui! – gritou Carlisle correndo atrás da outra quase tropeçando nos próprios pés ao descer o primeiro lance de escadas. No corredor de quartos do segundo andar da casa viu Isabella subir, também correndo, as escadas da sala de jantar, parando no último degrau olhando de maneira confusa da ruiva que se aproximava dela para o homem atrás da mulher
— Segure ela! – gritou para a adolescente que o olhou assustada, Victoria alcançou a menina e em um ato de violência a empurrou
Carlisle parou no lugar olhando boquiaberto como que em câmera lenta a garota rolar degrau por degrau escada abaixo e finalmente parar no meio da sala de jantar desacordada em uma posição estranha. Voltou a olhar a ruiva que também encarava a adolescente com um grande sorriso nos lábios, ainda sorrindo, a mulher voltou-se para ele de maneira sínica
— Opis! – falou irônica e voltou a correr escada a baixo saindo pela porta principal da casa. Ainda sem acreditar no que estava vendo, Carlisle voltou a correr, agora de encontro a menina caída ao chão com sangue escorrendo do nariz
— Aqui é Carlisle Cullen, eu preciso de uma ambulância na minha casa, Imediatamente! – ordenou no celular enquanto terminava de descer os últimos degraus já jogando-se ao lado da menina conferindo os batimentos cardíacos da pobre
— Bella! – Escutou a voz aterrorizada de Edward e olhou para o filho que corria em sua direção vindo da cozinha. Já ia dizer a ele que ficaria tudo bem quando um punho chocou-se contra sua face e o médico caiu sentado ao chão
— O que fez com ela? – gritou de maneira acusatória indo para cima da menina de forma desesperada. Antes que conseguisse a tocar o médico o puxou para trás o prendendo em um aperto
— Não toque nela, você pode piorar ainda mais a situação
— Me larga! – gritou o estranho debatendo-se no aperto enquanto começava a chorar com desespero – Eu não sei o que você fez, mas eu juro que se perder outra pessoa que amo por sua culpa vou te matar!
— Vai ficar tudo bem, eu juro pra você que ela ficará bem! – gritou enquanto sentia o gosto de sangue em sua boca e a gola de sua camisa ensopar-se com o liquido que descia de seu nariz – Eu vou cuida dela – garantiu
— Você não chegará perto dela! Qualquer um, menos você!
— Tudo bem! Tudo bem! Como quiser, mas você não pode mexer nela, ela está em uma posição ruim, não sabemos se há algum trauma na coluna, mexer de maneira errônea somente agravará a situação
O estranho parou de tentar soltar-se das mãos do médico e então Carlisle o soltou. Edward imediatamente ajoelhou-se ao lado da amada implorando para que ela abrisse os olhos, mas suas súplicas não obtiveram resposta. Logo os paramédicos entravam correndo o local o afastando de sua pentelha
...
Bella escutava um bipe ritmado e incômodo muito próximo a ela. Abriu os olhos a procura do que aquele som significava, mas a forte dor em sua cabeça a obrigou a fecha-los novamente
— Ela esta acordando – escutou uma voz familiar – Bella? – mesmo com a dor, forçou-se a abrir novamente os olhos deparando-se com dois pares de olhos azuis exatamente iguais a olhando, cada um de um lado de seu campo de visão. Os gêmeos sorriram de forma aliviada para ela
— Olha só pra você, está viva! – comemorou Jasper empolagado
— Alguém anotou a placa do caminhão? – perguntou tentando fazer piada da situação enquanto sentia a boca seca
— Bella, antes de qualquer coisa, — começou Rosalie em tom preocupado – você precisa saber, seu estado era muito grave, você ficou em coma por muito tempo, e muita coisa aconteceu. Eu sinto muito, mas você perdeu a bolsa para Harvard – choramingou a loira
— O que? – gritou assustada – como assim perdi a bolsa? Não é possível! Quanto tempo eu apaguei?
— Dois anos – respondeu Jasper em melancolia – e o Edward está casado – completou em um sussurro
— Dois anos? – choramingou – Eu perdi a minha bolsa? O que vai ser da minha mãe agora? – tentou levar a mão ao rosto para limpar as lágrimas que ameaçavam começar a escorrer mas não conseguiu, tentou novamente e nada, nenhuma parte de seu corpo podia mover-se – Por que eu não consigo me mexer? – perguntou assustada. Os gêmeos trocaram olhares e então engoliram em seco
— Bella... – começou Rosalie em tom entristecido mas então calou-se olhando para o irmão como se pedisse ajuda. Jasper suspirou melancolicamente
— Sua coluna – continuou Jasper – Infelizmente ela foi muito afetada e você... — calou-se
— Eu o que Jasper? Anda! Me falem! O que esta acontecendo comigo?
— Não esta acontecendo nada com você! – Rosnou Edward entrando no campo de visão dela olhando feio para os amigos que começaram a rir – Me deu um grande susto – sorriu para a menina depositando um beijo rápido nos lábios dela – Você lesionou um nervo cervical com a queda e por isso os médicos a imobilizaram para que não se machuque ainda mais, mas você ficará assim somente por alguns dias e você dormiu somente por algumas horas
— Você precisava ver a sua cara, deveríamos ter filmado – declarou Rosalie em meio a risadinhas
— Você viu Edward? Entre você casado e a perca da bolsa, ela preocupa-se com a bolsa – ralhou Jasper ganhando um revirar de olhos do estranho
— Onde está a minha mãe? – perguntou e os gêmeos voltaram a ficarem sérios e Edward travou o maxilar
— Bella, você lembra-se do que aconteceu? – perguntou receoso e Isabella forçou a memoria, imagens borradas de Vitoria e Carlisle correndo em sua direção, Carlisle gritando alguma coisa que ela não entendeu, Victoria lhe dizendo “ele nunca ficará com você” e então... – os olhos da adolescente se arregalaram e o corpo inteiro começou a tremer de forma compulsória enquanto um choro de medo lhe atingia
— Vamos buscar uma enfermeira! – um dos gêmeos falou e ambos saíram de suas vistas ao mesmo tempo
— Amor esta tudo bem – falou Edward tentando acalma-la – sua mãe e Carlisle estão na delegacia agora, eu estou aqui com você, ela nunca mais vai aproximar-se de você! Vai ficar tudo bem
Edward repetiu inúmeras vezes que ela ficaria bem, mas Isabella não conseguia escutar, totalmente perdida no medo. Logo escutou a voz dos gêmeos parecendo exaltados e uma mulher de branco mexendo rapidamente nos fios espalhados por ali e aplicando uma injeção em um saco se soro pendurado próximo a cabeça da menina.
Nem meio minuto passara-se e Bella sentiu todo o corpo amolecer enquanto seus olhos ficavam pesados, concentrou-se nas obres verdes lhe fitando preocupadas enquanto o inconsciente lhe sugava
...
Bella sentou-se na cama com um suspiro audível enquanto retorcia a barra do vestido rodado na altura dos joelhos em tom azul que usava. A bota de gesso em sua perna direita estava toda rabiscada pelos amigos, a perna não estava quebrada, dissera-lhe o médico, mas segundo ele, havia uma contusão e era necessário o gesso por alguns dias. Os amigos claro, divertiram-se com canetas coloridas, mas nem mesmo tal lembrança poderia alegrar-lhe naquele momento
Ali, sentada em uma cama que não era sua, dentro de uma casa que não era sua, pode compreender com exatidão o que Edward sentia todos os anos no aniversário de morte de Elizabeth
Pegou uma caixa de papelão decorada na gaveta do criado mudo, retirando em meio a algumas bugigangas que guardava ali um envelope onde mantinha em segredo uma foto de Charlie
Puxou a imagem de dentro do envelope sentindo um espasmo no peito seguido de uma dor sufocante, sem poder conter-se deixou que as lagrimas escorressem por seus olhos pingando na foto
Por mais que quisesse esquecer, lembrava-se com exatidão a imagem do homem caído ao chão sobre uma poça do próprio sangue naquela manhã. Prensou a foto contra o peito como se o ato fosse suficiente para sessar a dor que sentia e preencher aquele vazio em que encontrava-se
— Por que fez isso? – questionou de olhos fechados em meio ao choro, tal como se o homem estivesse ali para responde-la
— Ele estava com medo – a mãe lhe respondeu, mas não conseguiu abrir os olhos para olhar a mulher. Não daquela vez, não naquele dia. Naquele momento ela se permitiu ser única e exclusivamente a adolescente filha de um pai suicida. Não tinha forças para lutar com os próprios traumas, como passaria forças a mais alguém? Ainda que esse alguém fosse a própria mãe.
Aquele dia Isabella Swan se daria ao direito de ser a passo recebendo cuidados, ou não, tanto fazia, ela apenas não estava disposta a cuidar de mais ninguém naquele momento
— As pessoas tendem a se desesperar quando estão com medo, e cada um age de uma forma diferente diante a esse desespero – continuou a mulher sentando-se na cama ao lado da filha que permanecia de olhos fechados
— Eu fico tão brava com a forma que ele decidiu resolver os medos dele mamãe! Foi tão injusto conosco, tão egoísta da parte dele – abriu os olhos, olhando a mãe que também chorava silenciosamente – Eu fico tão brava que não queria que ele nunca, nunca tivesse sido meu pai! Não quero ter a mesma genética que alguém tão covarde a ponto de tirar a própria vida – chorou mais um pouco sem conseguir continuar falando devido aos soluços causados pelo choro.
Esme permitiu que a filha desabafasse e colocasse para fora tudo o que estava preso em seu coração, enquanto permanecia em seu choro mudo afagava ternamente os cabelos da menina
— Mas ao mesmo tempo... – suspirou olhando novamente a foto em suas mãos – Eu não consigo odiá-lo, não consigo ter raiva o suficiente para dizer em voz alta que ele não é o meu pai – explodiu em um choro sentido e repleto de dor.
Esme a embalou em seus braços, tal como criança pequena, permitindo que a adolescente chorasse em seus ombros exatamente como quando ainda era um bebê de colo
— Eu sinto falta dele mamãe, eu sinto muita falta dele – choramingou escondendo o rosto no pescoço da mulher que a apertou contra si, desejando transferir para si própria todas as dores e sofrimentos da menina que amava mais do que tudo no mundo
— E você vai sentir para sempre meu amor. Ele é e sempre será o seu pai, não importam as decisões erradas que ele tomou – consolou a mulher
— Não mamãe! Ele errou, nos deixou sozinhas para sofrer as consequências dos erros dele, eu não posso mais amar ele! – Esme deixou que a menina chorasse mais um pouco até que conseguisse voltar a respirar com normalidade e então a deitou na cama fazendo com que repousassem a cabeça em suas pernas e começou a alisar os cabelos de tom mogno da filha, exatamente como os do pai – enquanto grassas lágrimas caiam dos olhos perdidos em pensamentos da adolescente
— Quando um bebê nasce é um ser tão pequeno e frágil, totalmente dependente de outra pessoa. Aquele pequeno ser humano jamais poderá sobreviver sem alguém para cuidar dele. Os pais logo pegam para si a responsabilidade de cuidar daquele pequenino ser e proteger de qualquer mal. Nós amamos, cuidamos, educamos, ensinamos tudo o que sabemos, o levantamos quando caem, corrigimos quando falam as palavras de forma errada, nos esforçamos ao máximo para fazer daquele bebezinho o melhor adulto. E então, os filhos crescem, tomam as próprias decisões e nós pais continuamos ali, ao redor deles mesmo que de longe, prontos para correr na direção deles ao menor sinal de que vão cair, estamos tão acostumados a ver nossos filhos errando que os perdoamos automaticamente quando o fazem, por maior que seja o erro, o filho pode ser o mais cruel dos assassinos, os pais permanecem os amando e lutando para livra-lo de problemas – sorriu olhando a filha que prestava atenção em suas palavras
— O mesmo acontece com os filhos, só que ao contrário. Os filhos estão tão acostumados a verem nós pais como os protetores, os heróis, os exemplos, aqueles que vão resolver qualquer coisa sempre, que acabam se esquecendo que os pais também comentem erros, nós não somos tão perfeitos quanto fazemos vocês acreditarem. – suspirou – o seu pai errou meu amor, alguns erros tem consequências maiores que outros. O erro de Charlie teve uma grande consequência e eu lamento muito que você tenha se decepcionado com isso, mas ele permanece sendo seu pai. Não por que um DNA diz isso, mas por que ele sempre foi o seu pai
— O homem que a ensinou a andar de bicicleta, lhe mostrou a diferença entre as cores, ajudou com o dever de casa, assoprou seus machucados enquanto você chorava, o homem que lhe apresentou o mundo, continua sendo ele. Os pais erram meu amor, o tempo todo, e até quando erram ensinam lições aos filhos. Os ensinam a olhar as consequências de seus erros e não o imitarem, e os ensinam a perdoar. Todas as vezes que estiver se sentindo brava com o erro do seu pai a ponto de dizer que ele não é o seu pai, eu quero que você se lembre que esse mesmo homem que errou com você uma vez, acertou em muitas outras, que o mesmo homem que foi covarde a ponto de tirar a própria vida quando estava com medo, muitas outras vezes correu para o seu quarto no meio da noite para te salvar do bicho papão, te colocou em suas costas por muitas vezes, mesmo quando você já estava pesada demais para isso, e correu pela casa fingindo ser um super herói, somente para ver o seu sorriso – Bella puxou a mulher para um abraço apertado beijando-lhe o rosto de forma carinhosa, a mulher de imediato retribuiu ao carinho – o mesmo serve para você Edward! – falou um pouco mais alto e imediatamente Bella olhou para a porta vendo o estranho entrar no quarto sem jeito por ser pego escutando atrás da porta
— Me desculpem – passou a mão nos cabelos constrangido – eu não tinha a intenção... Eu vim... Eu só vim perguntar se vocês já estão prontas
— Não tem problema algum, estamos prontas, preciso somente dar um pulo no banheiro – falou de forma terna saindo do quarto para que os amigos pudessem conversas, no percurso ate a porta afagou carinhosamente o cabelo do estranho
Edward olhou tristemente sua pentelha tão vulnerável, de olhos e nariz vermelho, sentada a cama, ajoelhou-se aos pés dela beijando-lhe as mãos
— Você só precisa me dizer que é o que você quer, e não vamos a ceia alguma, ficamos aqui escondidos do mundo até que esse dia se acabe
— Jasper e Rosalie nos matariam! Isso sem contar que arruinaríamos a noite de natal dos seus irmãos, todos sabemos que eles aceitaram o convite dos Halle somente para estarem com você – Edward segurou com as duas mãos o rosto da pentelha a olhando firme nos olhos
— Só por uma vez, importe-se com você e os seus sentimentos antes dos outros – implorou – Eu não me importo com a decepção dos meus irmãos ou com a bronca dos gêmeos, desde que tenha garantias de que você estará bem. E tenho certeza de que todos entenderiam que hoje é um dia difícil para você, meus irmãos passam por isso todos os anos e sabem exatamente como é, Jazz e Rose são seus amigos e querem te ver bem tanto quanto eu – Bella suspirou
— Você tem mais experiência do que eu com datas difíceis, me diz o que devo fazer – pediu e o estranho abaixou a cabeça pensando por um momento em seguida voltou a olha-la
— Não é uma data feliz e isso é o que a torna tão difícil, como toda data especial, sempre vai te trazer lembranças e não são lembranças boas. Todos os dias eu tenho lembranças que gostaria de esquecer, você sabe, mas no dia da minha mãe essas lembranças ficam ainda mais vividas na minha cabeça. Mas hoje, quando penso nessa data, junto com a lembrança ruim e dolorosa, me vem você, Jasper e Rosalie me abraçando na igreja e me dizendo que estavam ali comigo, e essa é uma lembrança muito boa que traz um pouco de conforto a dor das outras lembranças. Eu já passei seis vezes por essa data difícil, gostaria de ter me dado a chance de ter outras cinco memórias boas dessa data para acalentar meu coração – Isabella sorriu olhando o estranho e então beijou-lhe de forma doce
— Vamos lá criar novas lembranças de natal – Edward sorriu levantando-se e a puxou para fora do quarto
...
Carlisle mudou mais uma vez o canal da televisão sentindo-se de saco cheio de tanto ver especiais de natal em todos os canais, seria possível que as emissoras não tivessem criatividade para investir em outra coisa naquela época? Chegando a conclusão de que não encontraria nada que não estivesse de alguma maneira relacionado ao natal e o quanto as famílias ficavam unidas e felizes naquela época desligou o aparelho decidindo ir dormir
Levantou-se do sofá apagando as luzes e sentindo vontade de arrancar as pequenas luzes piscantes da maldita arvore de natal que Alice montara naquele cômodo, mas controlou-se, a pobre decoração não tinha culpa de seu espirito pouco natalino naquele dia
Passando pela sala de jantar deparou-se com a abastarda ceia de natal posta sobre a mesa unicamente para ele e totalmente intocada. Angela e Ben foram passar a tal celebração com parentes, mas antes de sair, Angela gastou algum tempo lhe preparando aquela refeição
Em cima da grande mesa, em meio a velas decoradas estava um enorme peru rodeado por folhas de alface, em torno da ave diversas travessas com farofas, saladas, risoto e outras comidas típicas da época, na outra ponta, doces e frutas igualmente decorados
Olhou com amargura toda aquela comida exposta, para somente uma pessoa. Sozinho, era essa afinal a consequência de seus atos? Deveria admitir que estava impressionado com o quanto o destino poderia ser irônico lhe reservando um castigo a altura, ele, que por tantas vezes justificou suas traições com desculpas de sentir-se sozinho, finalmente estava de fato sozinho
Seu primogênito o desprezava, os outros dois seguiam os passos do irmão afim de agrada-lo, a mulher por quem envolveu-se e sacrificou a própria família se revelara uma grande decepção. Suspirou pesadamente ignorando toda aquela comida dando as costas a mesa pronto para ir a seu quarto mas interrompera-se no ato, olhou para o elevador e a passos lentos e arrastados foi até a caixa de metal já selecionando o botão do terceiro andar
Assim que as portas abriram-se saiu pelo corredor ainda arrastando os passos sem dar-se ao trabalho de acender alguma luz, o escuro parecia-lhe confortável pois assemelhava-se a seu espirito, escuro e sombrio
Abriu a porta do sótão e adentrou no cômodo escuro, a janela entreaberta permitia que a luz da noite clareasse parcialmente o cômodo iluminando o piano. Caminhou lentamente até o instrumento parando de frente para o quadro, o quadro que a tantos anos evitava se quer pensar na existência quem dirá olha-lo
Levantou os olhos preguiçosamente pela parede e lá estava ela, imóvel, segurando uma rosa próximo ao rosto exatamente como fora eternizada pelo filho, o olhando com olhos acusatórios, com o olhar de quem sabia exatamente cada um de seus erros
As lágrimas acumuladas nos olhos do médico começaram a rolar pelo rosto e gradativamente o choro foi ficando cada vez mais sonoro e forte a ponto de seu corpo tremelicar com os espasmos que sentia.
Não disse nada, não pediu por desculpas, não lamentou por estar sozinho em um sótão escuro na noite de natal. Apenas chorou olhando fixamente a mulher no quadro que o acusava de seu adultério com os olhos fixos nele
...
De todas as semanas, aquela semana fora a que passara mais rápido, Isabella não sabia dizer se era por todas as atividades acumuladas que tinha pra fazer, dividida entre organizar as malas para a viagem que aconteceria dali a alguns dias assim que pegasse seu certificado de conclusão do ensino médio, os preparativos para a universidade e buscas online junto a Rose por um apartamento que coubesse no orçamento de ambas e a importante apresentação de Edward em que os amigos estavam se revezando a acompanhar os ensaios solos do rapaz no sótão, já que ele sentia-se inseguro de desconhecidos o escutarem, justamente para transmitir-lhe confiança, ou se toda a correria daquela semana se devia ao fato de carregar o incomodo gesso de um lado a outro reduzindo e muito sua velocidade
Mas finalmente tinha chegado ao fim, estava livre do gesso e poderia correr livremente por ai, ou quase, já que ainda estava mancando, o ortopedista sugeriu que permanecesse com as muletas de inicio mas ela recusara prontamente da oferta alegando que estava tudo sobre controle
Finalmente era véspera de ano novo e a apresentação de Edward aconteceria, okay, não era a apresentação do Edward, como ele mesmo gostava de lembrar, era a apresentação da orquestra do professor de Edward e o estranho faria uma participação ao piano. Mas quem ligava para esses detalhes? Edward subiria em um palco depois de anos sem apresentar-se para ninguém e estava muito nervoso com isso, precisava de todo o apoio dos amigos nesse momento e onde ela estava? Em casa mancando de um lado para o outro no quarto enquanto terminava de aprontar-se.
Bufou ao escutar o telefone tocar, não olhou quem era, só existiam três pessoas que poderiam estar lhe ligando naquele momento e todas elas tinham o mesmo assunto pra falar
— Estou quase pronta – falou prensando o telefone entre a orelha e o ombro enquanto passava rímel nos olhos
— Ele vai surtar se você não chegar em cinco minutos – a voz de Rosalie soou estérica do outro lado da linha
— Eu não tenho culpa se marcaram para tirar o gesso logo hoje – falou sentindo um frio na barriga, jamais chegaria em cinco minutos ao evento
— Eu sei disso, mas nesse momento ele está andando de um lado pro outro na minha frente repetindo que não vai conseguir e eu não sei o que fazer! Precisamos de você – soou tão desesperada quando Bella sabia que o próprio estranho estava
— Segura as pontas ai minha loira, eu sei que você consegue – choramingou enquanto colocava os sapatos – Daqui a pouco estou ai
— Por favor não demora – implorou a outra desligando o telefone sem nenhuma despedida.
Bella pegou a bolsa em cima da cama dando uma ultima olhada rápida no espelho avaliando o vestido negro de festa que brilhava conforme movia-se e então mancou a passos rápidos para fora levantando o tecido para não correr o risco de tropeçar na barra
— Você está tão bonita – falou Esme de maneira orgulhosa olhando a filha entrar na cozinha, ao lado da mulher, Angela sorria também olhando a adolescente
— Estarei aqui antes da meia noite – prometeu, não querendo deixar a mãe passar a virada do ano sozinha
— Não irei a lugar algum – prometeu a mulher sorrindo enquanto a abraçava — divirta-se – beijou o alto da cabeça da filha – pegou o dinheiro do taxi? – perguntou cuidadosa
— Peguei e já estou indo, estou muito atrasada – contou enquanto mancava para a porta antes que a mãe lhe fizesse a pergunta que mais temia. Não ligara para chamar táxi algum, sabia que mandariam um motorista que estivesse parado na central e aguardaria muito tempo ate que o carro chegasse, poderia já ter o feito enquanto se arrumava, mas estava com tanta pressa que acabara esquecendo-se do detalhe.
Mas ela tinha tudo sobre controle, não era uma caminhada assim tão longa da mansão Cullen até a avenida principal onde passavam inúmeros taxis a todo momento, caminharia até lá, pegaria o primeiro taxi que visse e chegaria a tempo de motivar Edward antes que o evento começasse
A única coisa que precisava fazer, era ignorar a dor chata em seu tornozelo e andar apressadamente, saiu pelos portões olhando para trás para garantir que sua mãe não a vigiava e então andou o mais rápido que conseguira em sentido a avenida, descobrindo no percurso que vestido longo, saltos altos e dor no tornozelo não combinavam.
Mal afastou-se da casa e sentiu algo estranho, como se alguém a olhasse, parou olhando para trás mas nada viu, a rua estava totalmente deserta de pessoas. Concluiu que estava ficando louca e voltou a andar, a sensação de alguém a acompanhando cada vez mais forte
...
— E então? — Perguntou Edward olhando aflito a loira que sorriu amarelo para ele
— Já está no taxi – mentiu – logo ela estará aqui – completou virando de uma só vez a taça de champanhe que estavam servindo por ali
— Certo – falou o estranho estalando os dedos enquanto voltava a andar de um lado a outro. Jasper olhou a irmã em uma pergunta muda e esta lhe acenou negativamente fazendo o loiro encolher-se
— Boa noite – cumprimentou Emmett sorrindo de maneira educada ao aproximar-se do trio, ao seu lado Alice também sorria olhando os amigos do irmão mais velho, ambos estavam rigorosamente bem vestidos de acordo com a ocasião formal.
O estranho parou olhando o irmão mais novo avaliar sua melhor amiga de alto abaixo e então desviar os olhos sem jeito para ele que levantou uma sobrancelha intrigado para o irmão que somente deu de ombros.
Edward também acabou deixando passar, estava com a cabeça cheia naquele momento, não conseguiria decifrar as intenções do irmão para com sua melhor amiga, se é que elas existiam
— Vocês deveriam ter esperado a Bella – cobrou retomando sua rotina de passadas enquanto estalava freneticamente os dedos
— Nós pensamos que ela já estivesse aqui com você — justificou-se Alice
— Senhor Cullen, precisa juntar-se ao restante da orquestra – avisou uma mulher de cabelos negros presos em um coque redondo no alto da cabeça – a apresentação começará em instantes – o sangue do estranho gelou e imediatamente ele olhou para a porta ansiando que sua pentelha entrasse por lá naquele exato momento
— Ele está indo, vamos apenas desejar boa sorte e em um minuto ele estará junto aos demais – respondeu Emmett para a mulher assim que percebeu que o estranho sairia correndo. A mulher pareceu não estar satisfeita com a resposta, mas virou-se em seus calcanhares e saiu a passos duros
— Eu não vou! Eu não posso! Não sem ela aqui, não vou conseguir – começou a falar enquanto olhava desesperado para os lados em busca de uma rota de fuga
— Podem nos dar licença por um minuto? – pediu Emmett ainda de maneira educada, os gêmeos instantaneamente olharam para o estranho em busca de permissão para afastarem-se mas este se quer prestava atenção neles olhando de maneira fixa a porta
— Esta tudo bem, eles sempre se entendem – respondeu Alice enlaçando o braço no de Jasper e o puxando para longe
— Okay, mas estaremos logo ali onde possa nos ver – colocou Rosalie olhando desconfiada para Emmett, não permitiria que obrigassem Edward a fazer nada que ele não quisesse. Emmett sorriu abertamente para ela sentindo-se deliciado com o ar autoritário da outra, mas apenas assentiu para a loira
— É meu irmão, que ano! Mas que ano! – comemorou segurando firme o ombro do estranho que sorriu timidamente para o outro abaixando os olhos
— Mamãe deixou a escola para mim – confessou pela primeira vez desde que soube da notícia, todos sabiam o carinho que a mulher tinha pelo lugar, e parecia-lhe errado que tivesse a deixado unicamente para ele, ainda que Emmett e Alice tivessem recebido propriedades também. Ao contrario do que imaginava Emmett sustentou o sorriso no rosto
— Mas é claro que deixou, você consegue imaginar alguém melhor do que você para ficar com aquele lugar? – perguntou o olhando firme
— Não esta aborrecido com isso? Quero dizer, por ela ter deixado o bem que mais amava para mim? – Emmett manteve o sorriso, mas os olhos pareceram saudosos, olhando além do estranho
— Sim ela amava – respondeu olhando os olhos do irmão – E você ama tanto quanto ela, por isso ela deixou para você, por isso estamos aqui hoje. Por isso você vai subir naquele palco, sentar ao piano e roubar a cena como sempre fez todas as vezes que sentou-se diante de qualquer coisa com teclas que produzissem som. Por que é isso que você faz, e você é bom nisso, é o melhor do mundo inteiro! – falou com empolgação e Edward sorriu lembrando-se do garotinho de janelinha que atirara-se em seus braços falando aquelas mesmas palavras em um passado que parecia tão distante – E foi por isso que nem eu nem Alice ficamos chateados quando soubemos da decisão de nossa mãe. Você é o único que herdou o talento dela, eu sei disso, Alice sabe, ela sabia, e eu sei que bem lá no fundo, você também sabe. Agora cabe a você decidir o que vai fazer com esse talento. Você pode ir para casa agora, trancar-se no sótão e tocar para a poeira, ou você pode subir naquele palco e assumir o seu lugar de direito como Edward Masen o filho da bailarina
— Ela chegou! Ela chegou! – gritava Rosalie eufórica correndo de encontro a eles com o telefone na orelha sendo seguida por Jasper e Alice – ande logo que já vai começar – falou desligando o celular – O taxi está estacionando aqui em frente – sorriu para o amigo
— E então? Qual vai ser? – perguntou Emmett – vamos pra casa agora, ou vamos escutar Edward Masen tocar essa noite? – o estranho respirou fundo olhando o irmão
— Eu vou tocar! – falou decidido e todos comemoraram o abraçando empolgados. O estranho viu a mulher carrancuda fazer sinal para que ele se apressasse, queria muito dar um beijo em sua pentelha antes da apresentação
— Será que eu posso ter a honra de acompanhar o artista até os bastidores? – olhou com um enorme sorriso para a mulher loira que se aproximava o puxando para um abraço
— A honra seria toda minha mamãe – respondeu olhando aquela que ele adotara como sua segunda mãe enlaçando o braço no dela. Deu uma ultima olhada para a porta por onde sua pentelha deveria entrar – Diz a Bella que estou dedicando essa noite a ela – pediu a Rosalie
— Pode deixar – garantiu a loira sorrindo. O estranho sorriu e então se deixou ser guiado por Ashley Halle para os bastidores.
Emmett pegou casualmente uma taça que era oferecida e aproximou-se da amiga do irmão que estava parada olhando fixamente Edward afasta-se, Jasper e Alice já encaminhavam-se para o auditório na companhia do senhor Halle
— Ela não chegou não é mesmo? – perguntou em um murmúrio alisando a borda da taça que segurava. A loira virou de uma vez o liquido da taça também recém adquirida aparentando nervoso
— Se quer atendeu ao telefone!
Continua...
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