O Estranho no Sótão
13 Capitulo 12
Notas iniciais
Subia receosa as escadas que dariam ao terceiro andar, evitava fazer qualquer tipo de ruído com medo de acordar os que ainda dormiam naquela manhã, já tivera broncas de mais de Victoria por aqueles dias e não queria repetir a dose
Controlar seus passos para que se tornassem tão leves quanto os de um gato não era problema, o problema era seu estranho. Seu estranho? Ainda podia chama-lo assim? Acreditava que não, desde que ocorrera a festa não reconheciam mais Edward como seu estranho
O homem trancado no sótão em nada se assemelhava ao amigo a quem se afeiçoara de maneira tão profunda, aliás, aquele mais parecia um corpo inativo e desprovido de espirito. Quando finalmente chegou ao terceiro andar devido a lentidão de seus calculados passos sentia que seu coração batendo tão forte a ponto de causar-lhe dor a qualquer momento pararia de exercer sua fincão
Não sabia dizer com exatidão o motivo de tanta angustia. Oh! A quem ela queria enganar? É claro que sabia exatamente o motivo de sua angustia todas as vezes que subia ao último andar desde que encontrara o amigo tão debilitado ao retornar da escola naquela quarta feira, temia encontra-lo morto ao chão do sótão tal como foi com o pai na manhã de natal
Abriu a porta e antes de empurra-la respirou fundo tentando mandar para longe a expressão melancólica que sabia estar cravada em sua face, colocou um sorriso forçado no rosto – sorriso esse que já a dois dias estava mantendo – e entrou
— Hei como você está hoje? – O corpo sentado sobre a cama como sempre não demonstrou nenhuma reação, se quer olhou em sua direção, permaneceu parado meio sentado meio deitado sobre a cama, a expressão tensa de maxilar travado olhando fixamente o piano a sua frente
Com cuidado avaliou o estranho, Edward não encontrava-se em condições melhores do que estivera quando finalmente resolveu abrir a porta após a noite de aniversário da irmã caçula. O hematoma arroxeado sobre a têmpora direita começava a clarear assumindo tons esverdeados, as mordidas e arranhões sobre o rosto começavam a entrar em processo de cicatrização
O corpo no entanto não melhorara nada, ao contrario, estava ainda mais magro visto que poucas eram as vezes em que Alice conseguia convence-lhe a comer algumas poucas colheres de alimento. Os pelos que já se aglomeravam sobre a pele do rosto começavam a abandonar a linha barba por fazer e chegar próximo a fronteira do desleixo
Mas em todo aquele cenário de pena os olhos sem duvida alguma eram a parte que mais esmagava-lhe o peito, as lindas obres verde eram cercadas por olheiras tão escuras que se não soubesse juraria terem esmurrado os olhos do estranho, dando-lhe uma expressão sem vida. Edward já não chorava, não gemia ou gritava, ficava unicamente parado fitando o vazio, tal como se estivesse morto. Para ela, a clara definição de alguém em estado vegetativo com a única diferença de que não estava ligado a aparelho algum
— Eu trouxe seu café da manhã
Relutante e sem mudar a expressão de amargura o estranho a olhou, os olhos parados na figura feminina em pé diante de si segurando uma bandeja e um sorriso gentil no rosto. Edward soltou um profundo suspiro que conflitava entre a dor e o alívio
Ao contrário do que Isabella acreditava o estranho estava sim ligado a aparelhos que lhe mantinham vivo, um único aparelho, ela, naquele momento aquela pentelha era o único motivo que encontrava para continuar respirando
Já não existia medo, estava entregue. Queria ter retomado sua vida mas viu que não seria possível, jamais conseguiria viver com a dor da ausência da mãe, sempre existira uma lembrança, uma música, uma data, sempre existiria algo que o socaria o peito e esmagaria sua alma, não tinha porque lutar contra isso se no fim sabia que perderia
Tudo o que desejava era o alivio final, porém, não obrigaria Isabella a passar por aquele trauma novamente, aguardaria ate o fim do ano letivo quando entrasse na universidade e estivesse a salvo longe dele para fazer o que tinha de ser feito
Reparou bem na pentelha tentando guardar aquela imagem de menina intrometida para sempre. A menina mulher mais forte e admirável que conhecia, aquela a qual ele não era digno do direito de se quer olhar-lhe com qualquer tipo de cobiça
Aquela que o fazia lembrar diariamente o quão desprezível e indigno dela ele era, aquela que despertava nele os sentimentos mais egoístas já registrados na historia do mundo, poderia ter mantido aquela porta fechada por todo o período de tempo em que aguardava a visita da morte, mas não, por sua vontade egoísta de vê-la nem que por uma ultima vez abriu a porta e agora a obrigava a acompanhar todo o processo exatamente como um dia acompanhou o da mãe
A garota sentou-se na beira da cama acomodando a bandeja sobre as pernas e logo enchia uma colher com seja lá o que estivesse no prato, ele não se importava, não tinha fome. Observou Bella levar a o colher de encontro a sua boca mas não conseguiu abrir
Queria comer o que ela lhe oferecia, não por fome ou vontade de degustar o sabor, mas para deixa-la satisfeita. Mas não conseguia, mandava comandos a seu corpo mas estes não lhe eram obedecidos
— Por favor Edward, só um pouquinho – implorou com voz chorosa e ele fora levado de volta a anos antes quando era ele implorando para a mãe comer. Se possível seu coração despedaçado trincou-se ainda mais o obrigando a apertar ainda mais forte o maxilar para evitar que um gemido lhe escapasse
Respirou fundo em uma tentativa infundada de controlar-se e com esforço abriu a boca tão pouco que ocasionou a dificuldade da passagem da colher, derramando um pouco de caldo em seu pescoço, não importou-se com isso, Bella no entanto correu com um guardanapo a limapa-lo
Os rostos a centímetros de distância, as obres de chocolate derretido tão perto que pode imaginar-se afundando nela, graças a proximidade e ao olhar dela fixo no seu pela primeira vez desde que tudo acontecera naquela noite foi possível ver mais do que o tão saboroso chocolate, aquela proximidade lhe permitiu ver o que sempre temera da parte dela. Pena
Isabella Swan finalmente sentia pena dele. E ele poderia culpa-la? Ele próprio sentia pena de si. O nó na garganta impediu que conseguisse engolir o bolo de massa mastigada q mantinha no canto da boca, em seu peito as marteladas de seu coração eram tão fortes que espasmos sacudiam sua clavícula a medida que tentava respirar
Como que em uma confissão de culpa ao ser pega em sua farsa as obres chocolate foram invadidas por lagrimas que acumularam-se ali a deixando com olhos ainda mais brilhantes. Isabella abaixou a cabeça envergonhada e sem conseguir controlar-se fundou sonoramente
Era um patife! Um grande patife fodidamente egoísta. Jamais sentira-se da forma como sentia-se em relação a Isabella por garota alguma, e o que ele fazia? Ao invés de despertar respeito e admiração na mulher amada causava-lhe pena
Antes que pudesse dar-se conta lágrimas escorriam também por seus olhos, sem poder aguentar mais daquilo levantou-se em um salto derrubando a bandeja no processo assustando a garota que o imitou em alerta, provavelmente temendo que ele fizesse alguma idiotice
Abriu a porta indicando que ela deveria sair, o maxilar preso tentando segurar o próprio choro e evitar que ela sentisse ainda mais pena dele. A garota nada disse, abaixou a cabeça e saiu a passos rápidos, ele ainda mais de pressa fechou a porta atrás de si recostando-se nela, infiltrou as mãos sobre os cabelos e liberou o choro que tentava segurar a medida em que escorregava para o chão
...
Naquela manhã toda a mansão Cullen encontrava-se acinzentada pelo ar fúnebre tão forte quanto na data em que tudo acontecera, trazendo de volta a memória de todos aqueles sôfregos dias tais como se houvessem ocorrido a poucos dias
Na cozinha, Angela chorava baixinho enquanto preparava o café de Victoria, sabia que a mulher seria a única com apetite naquele dia, tal como ocorria em todos os anos
Fora da casa o motorista Ben olhava com melancolia na direção onde estava o jardim esforçando-se para conter o nó que formara-se em sua garganta e a angustia no peito, ainda lhe era difícil de acreditar que a mulher sempre tão amável que gostava de rodopiar alegre em meio as flores partira de forma tão melancólica
No segundo andar Alice chorava sonoramente com o rosto enterrado no travesseiro, aquele era o único dia do ano em que ela se permitia abater, o único dia em que não preocupava-se em ser forte. O único dia do ano em que se permitia não importar-se com mais ninguém, nem mesmo com Edward
Afinal de contas ela também perdera a mãe naquele dia e ela também sofria por isso. Não era fácil ser uma adolescente e passar por todas as alterações hormonais da idade sem a figura feminina ao seu lado dando-lhe apoio e incentivos
Não era fácil descobrir o novo interesse por garotos e as sensações que o sexo oposto despertava em seu corpo sem a mãe para explicar-lhe essas novas emoções e aconselha-la sobre todos os riscos que essas descobertas poderiam proporcionar e rir sonoramente quando escutasse sobre suas aventuras exatamente como via as mães das amigas fazerem
Mas acima de tudo, não era fácil fechar os olhos e lembrar-se da figura feminina embalando-a em um abraço enquanto sussurrava-lhe palavras doces e de carinho, ou como sempre a defendia quando os irmãos mais velhos implicavam com ela e ao abrir os olhos saber que aqueles momentos continuariam existindo somente em suas lembranças
Infelizmente nem todas as lembranças eram boas, algumas ela fazia questão de esquecer, mas como esquecer se o irmão mais velho a obrigava a repeti-las diariamente? Haviam momentos em que ela simplesmente sentia vontade de desistir, de aceitar que não existia mais solução ao irmão, e era exatamente nesses momentos que a memoria mais nitida que tinha com a mãe lhe vinha a lembrança. A promessa que fizera ao leito de morte da mãe enquanto despediam-se...
“- Eu preciso que você faça algo por mim minha princesa – sussurrou de forma fraca a mulher pálida deitada a cama naquele começo de noite
— Tudo o que a senhora quiser mamãe – respondeu a garota de longos calos escuros que aproximava-se da adolescência
— Eu estou partindo meu amor – a garota abriu os olhos aterrorizada com as palavras pessimistas da mãe. Antes que tivesse oportunidade de protestar sobre aquelas palavras a mulher levantou a mão pedindo que a filha a deixasse prosseguir. Tomou as mãos da filha nas suas – Você precisa ser forte minha princesa, eu sinto muito por tudo isso e espero que um dia possa me perdoar – enxugou as lagrimas que escorriam dos olhos da menina
— Você precisa entender que a vida é feita de escolhas, destino e sorte não existem. Cada um escolhe o futuro que deseja para sí, eu escolhi o meu e escolhi errado. Você vai passar por muitas decepções durante a sua vida meu amor, talvez algum sonho, algum plano que você faça vá ser frustado e eu infelizmente não estarei aqui para ajuda-la. Por isso eu quero que você sempre lembre-se que vai sempre existir o amanhã, sempre haverão recomeços, novas oportunidades, novos sonhos, novos planos, novas chances
— Você não pode desistir porque a vida te deu um não, você não pode deixar de tentar por que não deu certo na primeira ou na segunda, você precisa continuar tentando quantas vezes forem necessárias e buscar novas formas de ser feliz se preciso for
— Não quero que lembre-se de mim como estou agora mas sim nos nossos melhores momentos sempre felizes e sorrindo, no entanto, quero que lembre-se que eu desisti e por isso estou tendo esse fim e você não será como eu entendeu? – a garota apenas balançou a cabeça em afirmativa, os olhos repletos de lagrimas acumulando-se ali. A mãe afagou com ternura os cabelos da filha e pousou a mão sobre o rosto angelical da menina a olhando com um sorriso de orgulho enquanto lagrimas silenciosas desciam por seus olhos
— Você sempre foi e sempre será a minha princesinha, não permita nunca que alguém a trate de maneira menor a que uma princesa merece ser tratada. Esteja sempre com seus irmãos, familia é o bem mais precioso que possuímos, um laço que jamais pode ser desfeito, não importa o quão zangada esteja com eles jamais os vire as costas. Você é o elo que liga os três, como em um triângulo você é a base que manterá os dois de pé, você será a razão pela qual eles seguirão em frente, ambos viverão para proteger você, se você romper eles caem entendeu? – novamente a menina apenas acenou
— Edward é a ponta mais fraca, você como base precisa segura-lo. Eu preciso que você prometa que não vai deixa-lo desistir. Você promete? – acenou escondendo o rosto com as mãos tentando abafar o choro – Você promete Alice? Promete que enquanto viver não vai permitir que Edward se entregue? Não posso morrer sem essa promessa minha filha
— Eu prometo! – respondeu firme olhando nos olhos da mãe
— Eu te amo minha princesa, jamais se esqueça disso
— Eu também te amo mamãe! Pra sempre! – e as duas compartilharam do último abraço de mãe e filha, talvez por já preverem que seria o último foi o abraço mais longo e apertado que compartilharam”
— Carl querido? Não vai tomar café? – perguntou Victoria enquanto Carlisle passava pela mesa posta onde a esposa já servia-se. O homem apenas olhou a ruiva ocupando o lugar que sempre pertencera a Elizabeth lembrando-o que se aquele dia representava toda a amargura de sua familia a culpa era única e exclusiva dele
Não respondeu a mulher, apenas abaixou a cabeça e seguiu seu caminho. Culpa, de todos os sentimentos e emoções dos homens a culpa sem duvida alguma era a pior sensação que alguém poderia ter
Tudo o que Carlisle mais desejava na vida era poder voltar no tempo e mudar tudo, mudar suas atitudes, ser um marido mais compreensivo aos sonhos da falecida esposa, estar ao lado dela quando passou por todo o período da depressão. Talvez se suas atitudes tivessem sido diferentes ela ainda estivesse ali entre eles
Seguiu para o jardim onde sempre ficava todos os anos naquela data, era uma maneira de sentir mesmo que em ilusão, que Elizabeth ainda estava ali e que ele poderia lhe pedir inúmeras vezes por perdão como não fizera enquanto ainda estava viva
Sentou como de costume encarando a janela do sótão pois era assim que cumpria sua penitência, deixava-se lembrar de todos aqueles dias de agonia que antecederam a morte da mãe de seus filhos. Deixava-se conscientizar que também por sua culpa agora seu primogênito era quem estava trancado naquele maldito sótão caminhando para um destino exatamente igual ao da mãe. Permitiu que o choro rompesse por sua garganta e as lagrimas escorressem por seus olhos no exato momento em que uma delicada mão o tocou levemente o ombro
— Oh! Desculpe-me, não quis assusta-lo – falou timidamente a empregada de rosto em forma de coração da qual não lembrava-se o nome, mas que sabia ser a mãe de Isabella – Eu estava aqui quando o senhor entrou e... Bem, eu somente gostaria de saber se esta precisando de algo? – perguntou em um misto de constrangimento e preocupação
— Não, obrigada! – respondeu tentando disfarçar o choro, era realmente bem inoportuno aquele encontro em um momento tão fragilizado
— Me desculpe a intromissão, mas você está bem? – perguntou de forma tão amável que sentiu vontade de desabafar com aquela praticamente estranha
— Sim estou, é só que hoje é um dia difícil para minha família e eu – respondeu enxugando as lagrimas com as palmas das mãos
— Sim eu sei, Angela me contou... Eu sinto muito pela sua perda – falou de forma respeitosa
— Acredite eu não mereço os seus sentimentos, mas vou agradece-lo em nome de meus filhos
A mulher pareceu analisar as palavras do homem não com confusão, — certamente Angela já havia contando-lhe como aconteceram as sequências de fatos que os levaram aquele desfecho – mas como se lutasse internamente entre falar algo ou permanecer calada
— Você sabe que a culpa que sente não altera o passado não é mesmo? – as palavras o atingiram tal como um soco no estômago
— Você não faz ideia como é conviver dia após dia com os fantasmas do seu erro – admitiu com a voz esganiçada – Eu só queria encontrar uma forma de fazer as coisas serem diferentes, de fazer esse peso sair das minhas costas. Eu só queria, apenas por um minuto ter uma ultima conversa com ela, implorar de joelhos se for necessário e ouvir da boca dela que ela me perdoa, talvez somente assim eu conseguisse ter paz – voltou a chorar e a mulher sentou-se ao lado dele afagando seu ombro
— Você precisa se perdoar antes de qualquer outra coisa
— O que eu fiz não merece perdão
— Todos merecem perdão! Foi por isso que o cordeiro morreu na cruz, para que as nossas transgressões fossem perdoadas. Acredite em mim, não existe nenhum erro que não possa ser perdoado. Sua esposa infelizmente não está mais aqui, preocupe-se com o perdão dos que ainda estão vivos... – a mulher olhou de forma significativa para a janela do sótão e então se retirou o deixando sozinho ali
...
Mais um ano, mais um ano e a dor não era diferente, acreditava que nunca seria. Emmett sentou-se na cama secando as lágrimas dos olhos enquanto observava as duas rosas abertas em copos com água em cima da mesa de computador a sua frente. A cor de rosa para Alice pra lembrar que ele a amava incondicionalmente e a amarela para Edward pois ainda tinha esperanças na recuperação do irmão.
Sentia todos os dias a ausência da mãe, mas sempre naquela data a dor se intensificava e por mais que tivesse vontade de ficar o dia todo na cama sofrendo pelo luto não podia, sabia que tinha que ser forte, que era dele a função de manter Alice bem. Fora encarregado desta função pela mãe e não a decepcionaria não importava o que precisasse sacrificar para isso. Propositalmente era retido todos os anos na escola para garantir que somente seria obrigado a ir para a universidade quando chegasse a hora da baixinha ir também, não importava-se com qual instituição a irmã caçula escolheria desde que não a deixasse sozinha, fora esse o compromisso assumido com a mãe naquela última conversa...
“- Meu garotinho de sorriso de covinhas – a frágil mulher sorriu ao vê-lo entrar no sótão, o que o deixou radiante, fazia muito tempo que não via a mãe sorrindo
— Alice disse que queria me ver – falou empolgado
— Sim, precisamos conversar. Sente mais perto por favor querido – obedecendo ao pedido sentou-se próximo o suficiente para que a mãe o tocasse. A mulher o olhava com os olhos transbordando em amor e ternura
— Meu filho, dos seus irmãos você é o mais sonhador e isso muito me preocupa. Tenho medo que se decepcione e acabe ficando frustrado – o garoto a olhou confuso, o sorriso morrendo em seu rosto – Por isso eu preciso te dizer que você pode sim ser o que quiser, um astronauta, um guerreiro que enfrenta dragões, um piloto de corrida e até um bombeiro que salva as pessoas – o enorme sorriso voltou ao rosto do garoto
— Você jura? — Perguntou empolgado
— Sim, claro que sim. Mas tudo isso depende de você não desistir. Você não pode jamais desistir dos seus sonhos, não importa quais são os meios q vai usar para alcançá-los, correndo, pulando em uma perna só ou se rastejando, jamais desista! Não há mal nenhum também em desistir as vezes se for pra sonhar novos objetivos o que você não pode é deixar de sonhar entende? – o garoto acenou com um sorriso – Eu desisti e os sonhos morreram dentro de mim, por isso estou partindo
— Mãe eu não quero ter essa... – o garoto se agitou nervoso mas foi calado pela mãe que levou o indicador aos lábios dele pedindo por silêncio. O menino sentia o coração bater disparado no peito com medo das próximas palavras da mulher
— Eu não sou um exemplo a ser seguido, não me orgulho do que me tornei e não quero que você nem seus irmãos sejam como eu está me entendendo? – o garoto apenas acenou com a cabeça já sentindo um no fechar-lhe a garganta
— Eu me orgulho muito de você Emmett, você é esforçado, corajoso, bondoso, honesto e um excelente filho. Para onde irei eu estarei sempre olhando pra você, não me faça deixar de me orgulhar certo? Não vou mentir pra você filho, não vai ser fácil, vai doer, você vai chorar mas vai ser como tomar injeção, eu sempre digo que vai passar e passa não é mesmo? – novamente assentiu com os olhos já lacrimejando – pois então, você tem que confiar em mim, vai doer muito mas vai diminuir com o tempo ate que finalmente será apenas uma lembrança triste.
— E você vai continuar sempre sendo esse garoto alegre, risonho e sonhador que eu tanto admiro. Vai sair com seus amigos, jogar futebol e se divertir. Você já é adolescente e esta se tornando um rapaz muito bonito, logo terá uma porção de garotas atrás de você. Eu quero que lembre-se sempre de que elas tem coração e você não deve iludi-las com sentimentos que não existem no seu próprio coração. Trate-as sempre com o respeito e honestidade que espera que os outros garotos tenham com a sua irmã combinado? – novamente o garoto apenas acenou sabendo que se falasse o choro que estava segurando fugiria. Aquilo era uma despedida, tinha certeza, não queria uma despedida, a mãe não iria morrer
A mulher olhou a clara tentativa do filho em segurar o choro e sorriu do seu homenzinho sempre tão centrado, uma lagrima escorreu de seu olho ao constatar que não veria o filho de fato tornar-se um homem
— Você é o elo mais forte do triângulo e por isso eu tenho uma missão pra você meu guerreiro, irmãos devem sempre se protegerem aconteça o que acontecer. A obrigação do irmão mais velho é cuidar dos menores, Edward talvez não consiga cumprir com esse papel por um tempo, por isso, você como o segundo no comando vai ter que assumir o leme capitão. Ajude Edward como puder e cuide de Alice, ela como menina precisa sempre de cuidados especiais, muito carinho e atenção. A distraia sempre que perceber que ela esta triste, leve para sair, esteja sempre por perto. Posso contar com você?
O garoto não mais conseguindo conter-se começou a chorar e foi prontamente amparado pela mãe que também chorava
— Me perdoe meu amor, me perdoa por estar partindo antes da hora e deixando vocês a deriva. Por favor me perdoa e não esqueça nunca que eu te amo mais do que tudo no mundo
— Eu não quero! – soluçou – Não vou conseguir, eu preciso de você! Você não pode me deixar!
— Eu vou sempre estar com você aqui — tocou-lhe o coração – Sempre estarei te acompanhando onde você for e sei que conseguirá, você é o meu guerreiro! O mais forte de todos! Você enfrenta dragões, vai conseguir proteger a sua irmã
— É diferente!
— Não, não é! Você a ama, quando amamos enfrentamos qualquer coisa
— Eu não sou o Edward! Ele sim é o melhor de todos, ele sempre consegue tudo
— Dessa vez ele não vai conseguir meu amor. Por isso ele vai precisar da sua ajuda, Edward é bom em algumas coisas, você é bom em outras e os dois juntos formam uma equipe. E dessa vez você é o líder desse time. Prometa que estará sempre perto da Alice e cuidará dela! Eu confio em você!
— Eu prometo! – falou determinado
— Você precisa saber que foi uma criança muito desejada por mim e que me orgulho muito de ser sua mãe! Eu te amo e estarei sempre com você. Você não ficará sozinho!”
...
“Edward adentrou o sótão e deparou-se com a mãe e o irmão abraçados, ambos chorando
— O que houve? – perguntou alarmado já correndo em direção a cama procurando por possíveis machucados na mãe. Emmett soltou-se da mãe e encarou o irmão aparentando estar envergonhado e então saiu correndo dali. Edward olhou a porta bater sem compreender a atitude do irmão mais novo
— Ele te admira muito Edward, você precisa sempre ter claro em sua mente que é o herói dele – falou a mulher de forma cansada acomodando-se na cama
— Emmett é um garoto bobo – bufou olhando a mãe de olhos vermelhos devido ao choro, queria saber o que Emmett fez para deixa-la naquele estado
— Um garoto bobo que esforça-se diariamente para não decepcionar o irmão mais velho. Lembra-se quando você o estava ensinando a andar de bicicleta e ele não queria mais tentar por ter caído e ralado o joelho? Ele apenas continuou tentando por que você disse que não ia gostar mais dele se fosse um covarde – sorriu orgulhosa e Edward não pode deixar de sorrir também com a lembrança – Ele precisa de você Edward, Emmett precisa que você o insentive sempre em suas conquistas
— Nesse momento a única pessoa que precisa do meu incentivo para alguma coisa é a senhora, precisa do meu incentivo para ir dormir dona Elizabeth. Você está visivelmente cansada
— Não. Nós precisamos conversar, eu... – foi calada pelo dedo indicador do filho exatamente como ela própria sempre fazia
— Amanhã! Amanhã conversamos sobre o que a senhora quiser, mas hoje a senhorita irá descansar – a mulher abriu a boca pronta para protestar – Amanhã! – reafirmou antes que qualquer som saísse da boca da mãe já a aninhando em seus braços. A mulher deu-se por vencida e aconchegou-se a ele fechando os olhos”
E o amanhã para aquela conversa nunca chegou, sua mãe morrera naquela noite.
“Você é o melhor filho que alguém poderia sonhar em ter e eu te amei todos os dias da minha vida desde que era somente uma sementinha no meu ventre” Foram as ultimas palavras da mulher antes que deixasse o mundo dos vivos sem dar-lhe a oportunidade de dizer o quanto a amava também e ele odiava-se por isso
Odiava-se por não ter tido a ultima conversa que ela tanto queria, odiava-se por não ter passado aquela última noite inteira repetindo para ela o quanto a amava e como ela era uma mãe maravilhosa. E por isso, por tê-la privado dessa ultima conversa jurou sobre seu tumulo que jamais ninguém ouviria sua voz de novo e vinha mantendo aquela promessa por todos aqueles anos
Levantou-se da cama e suspirou olhando em volta, mais uma vez revivendo cada segundo daquela noite. Seis anos, seis longos e sofridos anos. Sofrimento que logo chegaria ao fim, estava decidido, somente mais alguns meses e estaria novamente com sua mãe
Não dormira por toda a noite e por isso sentia-se esgotado. Não preocupou-se com sua aparência, não importava-se com isso, apenas precisava conseguir chegar a tempo a missa em memória de sua mãe
Não era religioso, acreditava que se de fato existisse um Deus ele era um cara muito perverso por ter lhe tirado a pessoa que mais amava na vida. No entanto sua mãe era extremamente religiosa e sabia que ficaria decepcionada caso não comparecesse a cerimônia
Abriu a porta deparando-se com uma única rosa de tonalidade amarela depositada ao chão em um colo com água. “Emmett”. Recolheu a flor levando-a ao nariz, duvidava que após todos aqueles anos de negligencia o irmão ainda o admirasse
Lamentava muito que naquele dia os irmãos fossem obrigados a sofrerem não apenas a morte da mãe mas também a queda do irmão mais velho, porem quais outras opções a vida lhe deu? Colocou com carinho a rosa ofertada pelo irmão em cima do piano que tanto amava e desceu para o ultimo andar
Como de costume naquela data a casa estava em silêncio por todos já terem ido a igreja não muito longe dali. Não tinha porque chegar mais cedo e receber os falsos pesares dos vizinhos que pouco se importavam com sua dor
Por um rápido momento olhou na direção da cozinha imaginado onde Isabella estaria naquela manhã, Angela e Ben por terem servido Elizabeth desde de sempre todos os anos compareciam a missa. Mas e quanto a pentelha? Provavelmente estaria com Jasper e Rosalie, talvez tenha ate dormido na casa dos amigos. Todos os anos passava por aquela data sozinho, nem mesmo Alice ficava com ele naquele dia. Aquele ano imaginou como seria ter os talvez ex amigos junto de si, seria mais fácil talvez? A dor seria mais leve? Essas seriam perguntas que jamais saberia a resposta
Quando entrou na igreja olhou para os inúmeros rostos ali o avaliando, com passos firme caminhou em direção ao altar pelo corredor de bancos dispostos em duas fileiras. Rapidamente avistou Emmett e Alice abraçados no primeiro banco da fileira da direita, logo em seguida no banco atrás deles o assassino de sua mãe e sua concubina
Como de costume sentou-se no primeiro banco da fileira da esquerda, não sabia exatamente o porque daquele banco sempre estar vazio esperando por ele, talvez fosse obra de Alice que reservava aquele objeto de madeira unicamente para ele
O padre pediu que todos se colocassem de pé e ele automaticamente o fez, os olhos presos no retrato de sua mãe colocado junto ao altar cercado por rosas de todas as cores que gritavam para ele que ela não estava mais lá, que ele estava sozinho no mundo
A enxurrada de lagrimas veio no exato momento em que uma mão firme segurou em seu ombro. Olhou boquiaberto o loiro em pé a seu lado segurando em seu ombro, os enormes olhos azuis o olhando cheio de sentimentos. Ao lado do loiro Isabella e Rosalie o olhavam em cumplicidade
— Você não está sozinho! – falou o loiro com firmeza e aquelas quatro palavras foram o suficiente para romper todas as barreiras que havia criado em torno de si por seis anos, jogou-se sobre os braços do amigo e permitiu-se chorar em seus ombros toda a dor que esmagava seu peito. Sentiu os braços das garotas o circularem em um abraço grupal o lembrando que elas também estavam ali com ele
Continua...
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