O Estranho no Sótão
11 Capitulo 10
Notas iniciais
O som da música soava ritmado e suave por todo o sótão, as notas doces entoadas com perfeição pelas mãos ágeis e experientes de Edward causavam-lhe a sensação de paz que a tanto tempo ansiava em sentir. Toda a melancolia que sentia desaparecera por completo e ele já não podia recordar-se do motivo que o levara as lagrimas por tantas vezes
No meio do sótão, em frente a parede de espelhos, Bella dançava feliz com movimentos leves e bonitos, olhava-o sorrindo abertamente e já não podia ver-lhe a tristeza sempre escondida por trás do sorriso que tanto o confundia. Sua pentelha assim como ele, estava plena, satisfeita e isso inflava ainda mais seu coração, seriam felizes. Estava muito claro para ele, após tantos tormentos finalmente seriam felizes, um dando forças ao outro como ela mesma dissera. Em meio a um rodopio sua pentelha desequilibrou-se e caiu ao chão roubando toda a sua atenção
— Bella está tudo bem? – perguntou assim que chegou dela já abaixando-se para ampara-la. O rosto delicado, quase que angelical estava coberto de lágrimas e ela nada dizia deixando-o a beira do pânico – Hei, está tudo bem, eu estou aqui – tentou acalma-la. Não suportava a ideia de sua pentelha tão fragilizada a sua frente
No intuito de leva-la para a cama tomou-a no braços e estacou no lugar quando ao passar o braço por baixo de seus joelhos sentiu uma única perna ali. Assombrou-se ao olhar relutante para baixo constatar que de fato só havia um único pé aparecendo por baixo da saia cumprida e tecido esvoaçante que ela usava. Puxou o leve tecido para cima na esperança de encontrar a outra perna dobrada, talvez em uma posição estranha
Quase gritou de terror por encontrar não duas pernas como esperava, mas um toco de cocha mutilado. Podia ouvir o próprio coração batendo-lhe ao peito de forma tão pesada que causava-lhe dor, subiu vagarosamente a vista pelo corpo da moça com medo do que tinha certeza que veria
Por mais que tentasse protelar o momento, não tinha como fugir e sabia disso. E lá estava ela, o rosto angelical de menina intrometida dera lugar ao rosto sôfrego e sem vida de sua mãe caída flácida em seus braços
...
Edward sentou-se em um salto na cama olhando para todas as direções assustado procurando pela mãe, a respiração e o coração acelerados, a consciência voltando aos poucos inundando-o com a constatação de que fora somente um sonho ruim. Sonho ruim? Bufou, quem dera tivesse sido somente um sonho, de fato estivera naquela posição anos antes, sentado com o corpo sem vida da mãe sobre os braços.
As imagens do rosto sem vida da mãe lhe vieram nítidas a sua frente, apertou os olhos com força e começou a bater na própria cabeça como se aquele ato de violência fosse colocar para fora aquelas imagens e aliviar a dor em seu peito avisando-o que a trégua estava cancelada e ela reassumiria o seu posto
Por mais forte que batesse as imagens não sumiam como ele ordenava desesperadamente, ao contrário, enraizavam-se cada vez mais fundo puxando outras ainda mais sôfregas para junto de si. Quando já estava vendo o caixão de sua mãe ser coberto de terra a sua frente os espasmos começaram acompanhados do choro e nó na garganta que impedia-o de respirar. Colocou-se de pé inquieto, tentando encontrar uma forma de fazer aquilo parar
Não queria! Amava a mãe e morreria a amando, mas não queria mais aquilo, não aguentava mais viver naquele sofrimento, não aguentava mais viver naquela dor. Andava perturbado de um lado para o outro, as mãos infiltradas no cabelo puxavam os fios com tanta força que julgou ser capaz de arranca-los do couro a qualquer momento. Tinha a visão embaçada pelas lágrimas e a respiração embargada pelo choro
Parou diante do piano onde horas antes tocara para a pentelha dançar, queria fazer bem a ela, queria ser um bom homem digno dela, um homem capaz de protege-la, de faze-la feliz e não esse verme desprezível e fraco que vive choramingando pelos cantos como um bebê que exige a atenção da mãe
Atenção da mãe? Ah! Como se ele ao menos tivesse uma mãe para exigir-lhe atenção. Mais lágrimas rolaram por seus olhos, grossas e constantes e a dor foi tão grande que pensou terem-lhe enfiado uma faca ao peito tão fundo que ultrapassou o coração alcançando o pulmão. Apoiou-se no piano sentindo que desmoronaria ao chão a qualquer momento
Não! Não daquela vez! Não ia entregar-se! Não ia deixar-se abater! Não! Não daquela vez!
A angustia socou lhe o peito e foi bombardeado com imagens da mãe fraca e doente em cima da cama como que em um aviso de que ele não era forte o suficiente. Era como um dependente químico em tratamento posto diante do objeto de seu vicio lutando entre senguir em frente e deixar-se sucumbir
Inspirou o ar para dentro de seus pulmões tão forte que quem visse pensaria que tentava roubar todo o oxigênio para si, repetiu o ato por três vezes na esperança de acalmar-se. Era isso que precisava fazer, manter a calma
Depois de provar a quase normalidade da vida ao lado dos novos amigos e avançado tantos passos a uma possível recuperação sabia que se deixasse sucumbir novamente jamais retornaria. Pouco a pouco foi esvaziando a mente, concentrando-se nos sorrisos da pentelha, nas trapalhadas dos gêmeos, nas notas de uma nova composição que brincavam em sua mente
Sem que se desse conta do momento exato em que ocorrera cessou, não como se tivesse sumido, tinha total consciência da mágoa guardada no fundo do peito tal como uma ferida recém aberta que deixa todas as outras células conscientes de sua presença. Mas era o suficiente para conseguir respirar com normalidade e interromper o choro
Endireitou a coluna ficando ereto quase que em câmera lenta com medo de que a crise recomeçasse. Encarou a cama e um novo pânico lhe alcançou, agora com o temor de voltar a dormir e novos sonhos ruins lhe alcançarem
Em um ato quase que desespero correu para fora do sótão alcançando rapidamente as escadas, a casa encoberta pela escuridão da noite estava no mais perfeito silêncio indicando que todos dormiam
Chegando ao segundo andar caminhou pelo corredor repleto de portas, assim que alcançou a que objetivava segurou a maçaneta com receio. Assim que convenceu-se de que era isso o que queria abriu o objeto e correu a mão espalmada pela parede buscando pelo interruptor que acenderia a luz
O quarto azul estava exatamente como se lembrava dele, com a diferença de que estava impecavelmente organizado e limpo ao contrario de anos antes quando um adolescente desorganizado o abitava
Sentou na cama ainda de solteiro olhando todos os detalhes do cômodo tal como um amante das artes ao visitar uma boa galeria artística.
As enormes janelas brancas, as portas do closet abarrotadas de adesivos de bandas de rock e personagens de vídeo game, um skate apoiado na parede, o pôster de star wars preso a parede, seu livro favorito ainda a mesa de cabeceira, tudo acusava-o de abandono
Tudo ali gritava não a vida que ele abandonou no momento em que decidira mudar para o sótão, mas o futuro que abrira mão. Era claro que se ainda morasse ali aquela decoração adolescente não mais existiria, o quarto estava parado no tempo. Ele estava parado no tempo ainda velando a morte da mãe. Ah a mãe! Suspirou sofregamente
Foi com grande pesar, olhando aquele quarto de adolescente no qual não se via mais que concluiu não estar pronto. Não estava pronto para abandonar o sótão e retornar para uma vida da qual ele mal se lembrava, não estava pronto para voltar a falar e sair tagarelando como se nada tivesse acontecido e principalmente, não estava pronto para esquecer-se que a mulher que dera-lhe a vida partiu e o deixou para trás, aliás, nunca estaria pronto para isso e o vazio causado pela ausência da mãe jamais seria preenchido. No entanto, estava pronto para seguir em frente, tinha total conhecimento de que não seria fácil muito menos do dia para a noite, mas ele queria, queria voltar a viver e se esforçaria ao máximo para isso
...
— É... Rose, o que é isso? – murmurou Isabella em um misto de confusão e constrangimento. Naquela quarta feira era a vez dos alunos do terceiro ano apresentarem seus projetos da semana de artes
Todos estavam no amplo salão de eventos da escola minuciosamente decorado no estilo semana de artes modernas do século XX onde os alunos do ultimo ano dividiam-se em stands separados por turma exibindo seus projetos. Os demais alunos, assim como alguns professores, caminhavam por ali observando os trabalhos expostos e as vezes ate fazendo algumas perguntas
Tinha ainda alguns poucos próximos ao palco onde uma garota loira tocava violino. Palco este que em algum momento Isabella teria que encarar
— Como assim o que é isso Isabella? – a loira piscou seus profundos olhos azuis em uma indignação extremamente atuada na opinião de Bella – Não esta vendo? Isso é arte – exclamou como se com aquela afirmação esclarecesse tudo
— Arte? – perguntou em duvida – E como se chama?
— Arrrrgila – respondeu em tom poético
Bella olhou mais uma vez para o barro em cima da bancada tentando entender exatamente em que momento um amontoado de massa esmagada – tal como se alguém tivesse começado a manuseá-la ficado com nojo e parado – havia se transformado em arte
Amava incondicionalmente a amiga, mas se Rose conseguisse uma nota com aquilo ela se xingaria pelo resto da vida por ter temido tanto a tal semana de artes
— Droga! Droga de cavalete! – desviou a atenção da “arte” de Rose para Jasper no stand do lado gritando e chutando um cavalete caído ao chão, como se o pobre objeto fosse o responsável por todos os problemas do mundo. Os alunos que estavam próximos o suficiente para ver a sena dividiam-se entre rir e afastar-se do garoto. Antes que não houvesse mais salvação para o pobre objeto correu de encontro ao amigo
— Jasper o que está acontecendo? – perguntou segurando-lhe os ombros afim de afasta-lo do motivo de sua fúria
— Essa porcaria! – apontou para o cavalete no chão – Não funciona! – gritou dando pulinhos de insatisfação
Edward se aproximou trazendo consigo um outro cavalete e em suas costas um grosso e enorme canudo estava preso por uma alça transpassada em seu peito. O estranho olhou do desespero do amigo para o objeto de madeira largado ao chão e com muita facilidade montou seu próprio cavalete em seguida o do amigo e soltou um gemido de revolta
— Pronto Jaz esta tudo bem viu? Ele não vai mais te provocar – falou de forma terna acariciando a cabeça do loiro que fazia um biquinho de carranca infantil
— Foi ele quem começou! – acusou
— Sim nós sabemos, agora deixe-nos ver o seu projeto
O loiro pareceu ter esquecido as desavenças com o cavalete, sorriu animado e correu de encontro a um canudo semelhante ao que Edward trazia já puxando uma tela de dentro tão empolgado quanto criança querendo exibir um novo presente. Enquanto fixava a tela no cavalete que momentos antes odiava tapou a visão dos demais com o corpo querendo causar um suspense
— Contemplem... Monalisa – disse saindo da frente do quadro com o peito inflado de orgulho. Bella apertou os lábios tentando conter o sorriso, o desenho infantil colorido com lápis de cor ficara ate que fofo
— Que porcaria é essa Jasper? – gritou Rosalie olhando o desenho do irmão incrédula
— O que está dizendo mulher? – gritou olhando em fúria para a irmã
— Olha isso! Nosso priminho Brian de quatro anos teria feito melhor. Como tem coragem de apresentar isso?
— Está ensandecida! Ensandecida! – gritou em indignação – É uma obra prima – apontou com os dois braços o desenho – Foca no sorriso cara! Está perfeito
— Você envergonha todas as gerações dos Halle, passada, presente e futura – gritou jogando os braços pro ar
— E você está fazendo exatamente o que com aquele monte de barro que juntou em um prato?
— Não ouse falar da minha arte! – e lá foram os gêmeos novamente um pra cima do outro.
— Parem! – Bella gritou se colocando entre eles – Parem vocês dois! Eu já estou ansiosa o suficiente com a apresentação. Vocês como meus amigos deveriam estar me dando apoio e não brigando feito doidos
— Você escutou o que ele disse da minha arte? — revoltou-se Rosalie
— Ela zombou do meu quadro!
— O trabalho dos dois está perfeito! – mentiu antes que voltassem a brigar – Agora vamos olhar o projeto do Edward
Foi a vez do estranho engolir em seco e olha-la de uma forma estranha. Mas o que diabos estava acontecendo com os seus amigos naquele dia?
— Ande Edward! Exponha seu trabalho ou não ganhara nota por ele – exigiu. O estranho pareceu constrangido ao retirar a tela de dentro do canudo.
Assim como Jasper, escondeu a visão dos demais enquanto estendia a tela sobre o cavalete, Bella não tinha grandes expectativas em relação a imagem, conhecendo o amigo tão bem quanto conhecia sabia que veria o rosto da mulher no quadro da parede do sótão retratado ali. A sua ansiedade era para ver a reação do estranho quando todos estivessem olhando sua mãe, quando todos começassem a fazer-lhe perguntas sobre ela, pronta para arrasta-lo para longe ao menor sinal de desconforto em seu rosto
Quando finalmente se afastou do quadro Bella ficou confusa com o olhar analítico que o estranho lhe lançou, como se fossem as reações dela que precisavam ser analisadas ali e não o contrário. Sentindo falta do costumeiro barulho dos gêmeos procurou por eles acreditando que tivessem se afastado em respeito a memoria da mãe do amigo, mas continuavam ali, hipnotizados pelo trabalho do amigo
Foi então que ela olhou, seu queixo caiu no mesmo instante que seus olhos quase saltaram tamanho o espanto de ver-se refletida naquela imagem pintada a carvão que tão orgulhosamente o estranho trouce para exibir aos demais
Seus pulmões reclamaram por ar a lembrando que precisava de oxigênio para sobreviver, não conseguia desviar os olhos da imagem tão fiel de si mesma retratada por Edward Cullen, mesmo tendo total consciência de que ele a avaliava
— Ah! Mas é genial! – gritou uma professora aproximando-se deles – Simplesmente perfeito! – Isabella olhou rapidamente para o estranho que ainda a encarava com a face levemente corada
O contato visual não durou muito visto que logo a professora de artes estava ali juntamente com outros professores em igual nível de admiração, o artista e sua musa foram colocados ao lado da tela para algumas fotos e Isabella soube que aquele quadro entraria para a caixinha de assuntos sobre os quais não falavam, juntamente com o primeiro e único beijo trocado noites antes no jardim
Isabella não era nenhuma garotinha inexperiente sobre os assuntos do coração, sabia exatamente qual era o tipo de sentimento que nutria pelo amigo, no entanto, que tipo de esperança podia alimentar? A filha da empregada e o filho do patrão? Tão romântico quanto historinhas da Disney! E era somente nesse tipo de conto infantil que o envolvimento entre duas classes sócias tão diferentes poderia dar certo
É claro que o estranho poderia sentir-se confuso de alguma maneira sobre ela, estava totalmente fragilizado e ela era a primeira amiga que ganhara em anos, a primeira que de alguma forma o compreendia. E não seria como um urubu voando em cima da carniça e aproveitar-se da confusão dele
Pronto, estava decidido! Jamais tocaria no assunto daquele quadro! Aliás, de que quadro estavam falando mesmo? Ela não sabia de quadro algum.
...
Naquela noite o patriarca da família Cullen fazia sua refeição na sala de jantar acompanhado unicamente da esposa já que os filhos não retornaram para casa após a escola. Segundo a filha caçula eles iriam comprar as fantasias para a tal festa de aniversário que aconteceria no fim de semana. Carlisle sentia-se radiante, ano após ano vendo o filho trançado naquele sótão sem jamais aceitar ajuda fosse profissional, fosse da família o machucava mais do que qualquer outra coisa no mundo seria capaz de machucar
Para um pai nunca é fácil – por menor que seja – ver a dor de um filho e sentir-se de mãos atadas sobre isso. A festa de aniversário da Alice significava a melhora de seu primogênito e nada poderia deixa-lo mais feliz. Aniversário da Alice... Sua mente fora inundada por recordações do passado
Andava irritado pelos corredores do hospital, Elizabeth acabara de ligar avisando que não poderia comparecer ao show do Bom Jovi aquela noite, show este que estava marcado a meses
Amava a esposa mas não conseguia entender como a mulher era capaz de colocar a carreira artística acima dos próprios filhos. Segundo ela, Alice ainda teria muito aniversários – bufou sentindo vontade de socar alguma coisa – claro que Alice ainda teria muitos aniversários, mas ela também ainda teria muitas apresentações, inclusive em outros estados, viajaria com a companhia e abandonaria os filhos em casa aos cuidados de Angela. Não era completamente leigo do assunto, sabia que a companhia tinha bailarinas substitutas para imprevistos, aquela era uma noite importante para Alice, era uma noite importante para eles
A muito tempo estavam separados de corpos, Elizabeth sempre fora uma mãe maravilhosa, não tinha queixas quanto a isso, ainda que nunca tenha desejado o ser, Edward fora um acidente e passado os primeiros sustos e desespero por ter que abandonar a carreira para cuidar do filho tornou-se a melhor mãe que já vira
Porém, quando viu a chance de retomar a carreira já em uma idade em que normalmente bailarinas não mais são requisitadas Elizabeth tornou-se ensandecida e reassumiu a personalidade da adolescente inconsequente que abre mão de tudo pela dança
Estava sempre muito ocupada dividindo-se entre os ensaios e seu estúdio de artes. O filho primogênito fora mais afortunado do que os outros, herdeiro da paixão da mãe pelas artes clássicas estava sempre em volta dela durantes os ensaios ou aprendendo algo novo na escola de artes. Enquanto isso os outros dois não sentiam-se assim tão empolgados com a ideia de serem os novos artistas modernos e acabavam ficando com as migalhas quando a mãe retornava para casa no fim da noite.
Assim que o espetáculo estreou ele estava lá junto com os filhos a prestigiando, no entanto esse mundo de música clássica e danças não prendiam por muito tempo a atenção das crianças e cabia a ele leva-los a passeios que realmente os agradassem durante a ausência da mãe
O relacionamento deles como casal também fora atingido por esse retorno da grande Elizabeth Masen, ela nunca tinha tempo para eles, quando estava em cada sua atenção era voltada unicamente aos filhos e não reclamava quanto a isso, quando ia procura-la como homem estava sempre muito exausta e com sono
As brigas entre eles tornaram-se tão intensas que já não sentia vontade de voltar para casa, o distanciamento fora tão grande que por carência acabara se envolvendo com outra pessoa, não era algo pelo qual se orgulhava tinha que admitir, no começo era só uma amizade, uma companhia agradável para tomar um drinque e desabafar dos problemas em casa mas as coisas foram se aprofundando e quando percebeu já estava mais envolvido do que gostaria, amava sua esposa e era a ela quem queria acariciar, quem queria beijar, era com ela que queria estar
Por isso estava tão irado com a ausência dela naquela noite, tinham conversado, prometeram uma trégua, iriam recomeçar naquela noite e apagar todos os erros, mágoas e brigas. Já havia deixado claro a outra pessoa que não se veriam novamente, que iria reconstruir seu casamento, entrar em harmonia com sua esposa e o que ela faz? Cancela em cima da hora como se em nada preocupasse o destino do relacionamento deles
Entrou em sua sala esfumaçando, jogou-se em sua cadeira olhando fixamente uma foto da esposa com os filhos sobre a mesa
— Carl querido – Victoria, uma enfermeira do hospital e seu maior apoio desde que os problemas em casa começaram entrou na sala parecendo preocupada
— Vick não é uma boa hora
— Eu soube da nova apresentação! É hoje o aniversário da Alice não é mesmo?
— Ainda estou me perguntando como ela pode – resmungou retirando o jaleco preparando-se para ir embora
— Carl meu amor, eu já te falei, Elizabeth não te ama importa-se somente com a dança — aproximou-se – você merece alguém que te ame de verdade, que fizesse de tudo por você, assim como eu
— Vick por favor já tivemos essa conversa, eu amo minha esposa, vou salvar meu casamento. Sei que fui errado com você e peço desculpas, mas teremos que voltar a sermos somente bons amigos como sempre fomos
— Não precisa se desculpar – começou a chorar – Eu sempre soube que você é casado. Não é culpa sua ser um homem tão incrível por quem acabei me apaixonando – a abraçou tentando reconforta-la. Victoria era uma mulher incrível e sentia em estar a magoando
— Eu realmente preciso ir ou vou me atrasar para o show. Você ficara bem? – a pobre moça fungou algumas vezes antes de conseguir responder:
— Sim, não se preocupe eu ficarei bem. Seus filhos são mais importantes, por favor não se atrase por mim – e era exatamente por isso que eram tão amigos, órfã e sem família a moça priorizava a família sobre qualquer circunstância exatamente por saber o quanto custava a ausência dos pais na criação de bons filhos
— Ainda somos amigos certo? — certificou-se
— Claro que sim – deu um sorriso fraco. Carlisle também sorriu, deu um beijo no alto da cabeça da enfermeira e saiu de encontro a seus filhos
...
— Pai! – um grito lhe trouce de volta a realidade, olhou para a entrada por onde uma Alice eufórica entrava correndo e gritando enquanto desenrolava uma tela – Olha pai! Edward ganhou um prêmio pelo projeto de artes hoje na escola
Estendeu a tela apressada diante dele, assim que pode ver o retrato da adolescente a sua frente escutou Victoria engasgar-se a seu lado. Olhou para a esposa que parecia que os olhos saltariam de sua face a qualquer momento de tão abertos que estavam olhando o quadro feito por seu primogênito, precisou olhar novamente a tela para assegurar-se de que não havia se confundido e no lugar do rosto da adolescente encontrava-se uma imagem pornográfica, única coisa que justificaria a reação exacerbada da mulher
Porém a tela já não podia ser vista, Edward a enrolava com uma carranca olhando a irmã caçula que sorria arteira para ele.
— É um retrato muito bem feito meu filho. Parabéns pelo prêmio, foi merecido – como se ninguém tivesse falado nada Edward terminou de guardar sua tela de volta ao canudo, deu com ele na cabeça da irmã e subiu apressado pelas escadas.
Carlisle suspirou com pesar, sabia que o filho jamais o perdoaria pelo que viu aquele dia no consultório. Ao seu lado Victoria levantou da mesa de uma vez como se acabasse de ser ofendida por alguém e retirou-se dali batendo os pés e deixando um Carlisle confuso para trás juntamente com uma Alice deliciada com a cena
...
A casa estava toda decorada ao estilo anos 80, pessoas riam e andavam de um lado para o outro. A sala de jantar toda adaptada para transformar-se em uma pista de dança onde os jovens mexiam-se de maneira ritmada ou nem tanto
Alice estava radiante em seu vestido rodado negro, luvas brancas e um arranjo de pena na cabeça ao melhor estilo cortesã da época tema de sua festa. Tirava fotos com as amiga, quicacava de um lado para o outro cumprimentando a todos que conhecia e que não conhecia também, a coisa toda saíra do controle com o tal do convite virtual, mas ela não se importava queria unicamente curtir aquela noite até o ultimo minuto em forma de recompensa por tantos aniversários pulados
Não muito longe da aniversariante Isabella sorria sendo girada em seu vestido de bolinha de um lado para o outro por um Jasper vestido comicamente de Elvis Presley, próximo a ele Edward fazia o mesmo com Rosalie vestida do melhor jeito Madona com direito a sutiã de cone e tudo, a amiga gargalhava em extasia por finalmente estar participando de uma festa de verdade
Uma música lenta começou e Bella já ia enroscar seus braços em torno do pescoço do amigo loiro — que naquela noite estava moreno devido a peruca – quando o estranho aproximou-se reclamando-a para si
O estranho estava definitivamente lindo naquela jaqueta de couro preta com gola levantada e o cabelo puxado para trás com gel. Sentiu-o segurar sua cintura e apoiou a cabeça em seu ombro inebriando-se com o cheiro de colônia que exalava dele. Não pode deixar de sorrir ou sentir os lábios quentes do outro brincando timidamente por seu pescoço causando-lhe uma gostosa sensação de arrepio
Rodavam lentamente no lugar seguindo o ritmo da melodia que soava pelas caixas de som espalhadas por ali. Ele a girou em torno do de si e a puxou inclinando o corpo dela em seus braços, levantou-a de volta a posição inicial e o rosto deles ficou a centímetros de distância. Um sorriso torto brincava nos lábios do estranho o que a fez sorrir também
Olhou em seus olhos como sempre perdendo-se na imensidão verde daquelas obres que a hipnotizavam atraindo-a para ele. Já a alguns dia estava percebendo algo novo naquele olhar, uma certa força, determinação em ser feliz tinha certeza e essa constatação a deixava ainda mais deliciada
O estranho parou de dançar sem solta-la, alisou a face dela de forma gentil e delicada e infiltrou a mão por seus cabelos segurando-lhe a nuca como que para não deixa-la escapar. Mas quem disse que ela queria escapar? Estava tão submergida a imensidão verde, tão extasiada com a vontade de viver dele que não se importaria em adicionar mais um beijo na caixa de assuntos proibidos
Como da outra vez, o estranho aproximou-se de vagar, com cuidado, avaliando suas reações, inclinou o rosto a seu encontro quase que em câmera lenta. Também como da outra vez iniciou com encostares de lábios rápidos e cálidos, provocando-a, testando-a até que finalmente a tomou, não com um beijo selvagem e cheio de desejo, mas com um beijo doce, puro, repleto de carinho que a fazia sentir borboletas voando em seu estomago e esquecer do mundo a sua volta
Puxou-a para mais perto a prensando contra ele e aquela sensação de estar presa entre os braços do estranho parecia ser a mais correta, como se pertencesse a ele e todo o seu corpo reconhecesse e aceitasse de bom grado essa entrega, unindo-os como um só
— Atenção galera – a música parou e o casal precisou separar-se para prestar atenção no DJ que falava no microfone. Isabella tinha total noção dos dedos do estranho entrelaçados aos seus no momento em que o responsável pela música da noite pediu que todos se aproximassem e na aglomeração de adolescentes acabou se soltando devido ao empurra-empurra que começou
O garoto falava no microfone coisas relacionadas a aniversariante as quais Isabella não dava atenção, tentando voltar ao lugar que estava antes com seu estranho. Os adolescentes gritavam e assobiavam eufóricos impedindo que escutassem os educados pedidos por passagem da moça
— Eu não sei onde esta a aniversariante agora – escutou o animado DJ falar em tom malicioso – mas eu sei que ela ama essa banda então... Gatinha! Essa é pra você! – gritou e Isabella congelou no lugar no momento em que as familiares notas de guitarra começaram a soar pelos alto-falantes
Tudo estava em câmera lenta, os adolescentes pulando felizes em seus lugares e gritando coisas desconexas enquanto jogavam as mãos para o ar, as pessoas rindo de forma exagerada a seu lado, o garoto esbarrando nela enquanto buscava por mais espaço para dançar, todos eufóricos com o reconhecimento da música que se iniciara
— It's My life do Bom Jovi cara! – gritou alguém ao seu lado a libertando da paralisia momentânea em que estava. A voz do cantor já era ouvida pelo salão sendo seguida por todos os presentes e ela começou a empurrar todos que pulavam a sua frente sem notarem sua tentativa frustrada de sair dali. A sensação de pânico a dominando enquanto tentava olhar por cima das cabeças procurando-o
Viu Emmett e Alice entrarem correndo desesperados pela porta, assim como ela, empurrando pessoas e fazendo gestos para que o DJ trocasse a música mas este parecia indiferente aos sinais rápidos dos anfitriões da casa
E finalmente o encontrou, frágil, destruído, prensando-se contra a parede como se pretendesse fundir-se a ela. A expressão em total devastação, os olhos tão assustados quanto um ratinho encurralado por seu carrasco a procura de um esconderijo. A boca aberta e o peito subindo e descendo em arcadas como se buscasse por ar durante uma asfixia
Continua...
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