O Estranho.
1 One-Shot: O olhar.
Notas iniciais
O sol, ora escaldante, havia sito obstruído pela densa massa cinzenta. Os ventos uivavam aos meus ouvidos como lobos ensandecidos pela fome e pelo sangue. As gotas das chuvas purificavam as ruas apodrecidas — Arrastando uma corrente de entulho em direção os bueiros estreitos, formando uma poça — e substituíam o odor do lixo decomposto.
Eu, como sempre, saía correndo com as mãos e os braços sobre a cabeça, com o intuito de proteger minha leve maquiagem, sem sucesso. Praticamente, estava toda borrada. No mínimo, eu me assemelhava-se a um daqueles palhaços de American Horror Story, afinal, não era uma maquiadora profissional, então, ás vezes extrapolava o desnecessário.
Em compensação, avistei o ponto de ônibus mais próximo e caminhei até ele, enquanto me excomungava por ser tão distraída a ponto de nem notar o "Nublado" do céu. Ao chegar ao local, suspirei e debochei mentalmente com desdém, odiava a chuva, como odiava. Repúdio em demasia deveria ser considerado um desejo.
Um dos assentos estava vago; pensei em ocupa-la, mas preferi conferir se o ônibus estadual se aproximava: Nada. Me desvencilhei das pessoas que esperam impacientemente, umas pateando com os pés no chão, outras proferindo alguns murmúrios de ódio, e também havia aquelas que olhavam para uma garota encharcada de 17 anos com um olhar de "Passe distante".
Sentei aliviada, enquanto espremia ligeiramente os meus cabelos lisos e ondulados nas pontas. Uma das características que diziam ser da minha peculiaridade era os meus olhos de cor púrpura, ou vulgarmente conhecidos, olhos de Alexandria. Quando falavam isso para mim, pressentia algum sinal de inveja, sou bastante sensível às emoções. Mas se for para falar a verdade, os orbes não eram tão extravagantes assim, eram apenas normais, acredito que ter eles não me faria diferente, pelo menos ninguém me tratava de modo distinto.
Senti um par de olhos me observar, o peso sobre minhas costas. Rapidamente direcionei minha atenção a uma pessoa atrás de mim, a cerca de 5 metros: Parecia ser um garoto, com uma calça jeans preta, um tênis All Star Purple, um casaco preto com um capuz cobrindo a cabeça e escurecendo a face, e uma camiseta branca. Estava encostado numa parede pichada de um prédio abandonado.
Algo de excêntrico naquele garoto me dava náusea e entorpecia minha visão. Aqueles cabelos arrepiados aloirados criava uma harmonia com seus globos oculares dourados. Olhos de felino em prontidão para o ataque. Postura imponente e eminente. Os pingos da chuva banhavam sua face e contornavam sua pele esbranquiçada. Por um breve momento pensei ter visto um sorriso brotar, talvez fosse apenas minha imaginação. Senti fadigas e minha visão se embaraçar, o mundo ao redor queria girar. Entretanto, o barulho do ônibus se aproximando, me salvou daquele transe; Me levantei, ligeiramente, e acelerei em direção a entrada, enquanto espiava pelo canto dos olhos o garoto desconhecido com pose de Bad Boy.
Aqueles olhos estavam mais intensos e mais carnívoros do que antes.
Impossível. Esse sorriso.
Era dentes tão níveo quanto à neve, e tão amedrontador quanto um predador. Vi dois dentes que se enfatizavam em comparação aos demais: Eram afiados e sutilmente tentadores.
Meu coração acelerou.
Infelizmente o transporte público estava lotado, então tive que ficar em pé, enquanto encarava estupefata e com os pé bambos a cena a minha frente.
O garoto se desencostou da parede pichada e fitou o ônibus, especificamente, eu. Eu sentia. Algo querendo me empurrar para baixo.
Circunspetamente, e sutilmente, algo começou a se elevar de suas costas como duas nuvens obscuras: Era um par de asas enegrecidas e estonteantes, e a medida que se alargava, maior ficava. Eram magníficas e lindas, mas ao mesmo tempo perversas e destruidoras.
O garoto levou as mãos ao peito e apertou o casaco. O ônibus começou a andar.
Ele desviou o olhar para a parede pichada, na qual havia uma frase escrita: "Um Lírio amarelo pode ser amputado trazendo a mensagem de seu próprio declínio.".
Fiquei mais atormentada que o normal, e encarei as pessoas ao meu redor que nem pareciam notar o ocorrido. Porém, o que me deixou em transe foi outra frase.
"Estarei presente em toda primavera, verão, outono e inverno, fui moldado para ser eterno".
E com mais um sorriso ornado em seus lábios carnudos, vi sua silhueta desaparecer pouco a pouco, e um gato preto surgir no seu lugar. Este caminhou em direção ao prédio abandonado e entrou sem olhar para trás, mas de um jeito majestoso.
Meus lábios tremiam, e minha garganta prendia meus soluços. Quem era aquele garoto?
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