Flocos de neve caem como bailarinos, dançando ao som de uma música celestial. Tudo parece estar parado... As folhas nas árvores permanecem imóveis, somente acumulando neves, de vez em quando é ouvido um barulho de um galho, que cedeu a neve, o som dessa quebra de braço entre as árvores e a água é intermitente. Os animais estão escondidos, com medo do frio e com razão. Está terrivelmente frio e os blocos de gelo que caem das frondosas são potencialmente mortais.

Toda a Ironwood parece mais “snowood”, a neve vem se acumulando a vários ciclos lunares. Forçando todos a se esconderem. Mas... Algo anda pela neve... Apesar de não haver ninguém para comtemplar esse corajoso (ou louco) ser. O som das pisadas dele é estranho, parece mais que estão perfurando o gelo do que andando sobre ele. Em meio ao imaculado branco da paisagem contrasta esse estranho ser todo escuro, negro, não somente preto, mas tão negro quanto algo pode ser. Não é animal, muito menos vegetal... Com certeza essa floresta jamais havia sido presenteada com essa estranha visão. O som da respiração dele é grave como um trovão, mas muito baixo e curto. Os flocos ao entrarem em contato com essa criatura silvam e se desfazem restando somente uma pequena nuvem. Um uivo distante de lobo é ouvido, perece ser distante... Outro som: um rugido violento de um leão enfurecido, alto o suficiente para fazer a preguiçosa neve cair dos galhos dos centenários pinheiros. A forma escura que anda pela floresta imediatamente para de respirar e segue outro caminho, em direção aos sons antes ouvidos...

Em todo o branco, há outro ponto escuro, só que este não é um ser, mas um lugar. A terra nua desprovida de neve, graças ao calor oriundo da terra. Não há toa os brancos flocos evaporam antes mesmo de chegarem ao chão. Uma piscina que antes do outono era um pequeno lago comum, mas desde então o calor da terra aqueceu a água como estivesse numa panela ao fogo. Nos primeiros dias de inverno os símios vinham se aquecer nas deliciosas águas mornas. Mas o que era morno se tornou escaldante, e a vida animal que ali se banhava, retirara-se. Agora somente um grupo de róseos animais banhava-se ali. Enquanto as águas fervem, esses pequenos seres se divertem nelas. Excepcionalmente hoje há apenas um desses seres que está recostado em uma das pedras que circundam o lago escaldante. Ele está se divertindo assistindo a uma luta improvável. Um Leão branco enterra as suas garras num lobo castanho, só que esse lobo é tão grande quanto um urso cinzento. Com uma velocidade absurda o Lobo se desvencilha do Leão, e em questão de instantes as posições são trocadas, agora o Lobo está sobre o Leão, mas isso dura pouco tempo, pois o dominado dá uma patada que desorienta o seu oponente dando novamente chance ao gigante branco de vencer o seu adversário. Só que, os dois farejam algo e a luta para. É um bando de alces, os dois predadores disparam em direção ao seu possível jantar. O Lobo se choca com um pinheiro a sua frente, a árvore tomba e o animal continua sua caçada como se nada tivesse acontecido.

Quando o sol estava se pondo no horizonte, o seus raios coloriam por alguns instantes Ironwood de dourado, nos céus as nuvens tingidas de rosa-amarelado dava a impressão de estarem rodeando o astro-rei, e este se movia rumo as suas cobertas aconchegantes. Depois de o último raio de sol ter abandonado a branca floresta, um olho ainda é capaz de distinguir a sua presa se movendo ariscamente entre as raízes de um abeto. Silenciosamente descreveu uma curva entre as árvores e antes que o pobre coelho pudesse pensar em olhar para cima, foi apanhado por garras que atravessando pelo, gordura e carne atingiram seus órgão vitais, tirando a sua vida. Mesmo na escuridão da noite invernal o caçador içou voo rumo a uma clareira, onde lá saboreou o seu prêmio. Um som de galho quebrando, tira por instantes a sua atenção da comida. Virando sua cabeça em direção ao som, ele não é capaz de ouvir tão bem como os caçadores mamíferos, mas sua visão telescópica o torna capaz de saber de antemão o que o espreita sob as densas sombras. Ele sente algo frio cair sobre si, a neve claro, esta recomeçando a nevar. O ser alado resolve que é mais cômodo comer empoleirado, ele se ergue com suas asas poderosas levando consigo a sua carga preciosa, e deliciosa, enquanto distancia silenciosamente do solo, uma árvore desaparece e em seu lugar surge uma nuvem de lascas de madeira e um cheiro de âmbar que impregna o ar. De trás de tudo isso, surge uma forma grande e pesada, se movendo rápida e violentamente. A Águia, já prevendo essa explosão de movimento, fecha fortemente as suas asas à sua frente ganhando impulso para esquivar da massa destrutiva. O perseguidor e o perseguido realizam uma espécie de dança violenta e ao mesmo tempo graciosa. Seis árvores já tinham sido destruídas e esmagadas pelo poderoso caçador terrestre, os pequenos animais que estavam ali abrigados já haviam fugido, mais duas eram derrubadas. O som de crac, CRAC. Ressoava a todo o momento que a Águia pousava, com a sua presa, em alguma árvore.

- PARE!

O gigante soltou uma gargalhada gutural, e se sentou nos seus quartos traseiros e ergueu a cabeçorra em direção à ave falante. Esta continuou:

- Você nunca aprende? Jamais poderá ser mais rápido do que eu, Urso!

O ouvinte executou o mesmo som que tinha proferido antes, só que ainda mais alto.

- Eu sou mais rápido do que você sim!- disse o urso num tom de escárnio.

Uma lasca que estava pousada em um galho deslizou, e caiu. Mas não foi ação do vento e sim da vibração no chão. O urso virou em direção ao som e antes que estivesse totalmente preparado, foi atingido por uma lâmina, ele berrou alto o suficiente para ensurdecer um humano. A lança foi enterrada no seu braço esquerdo. A Águia soltou a presa que tinha nas garras e descreveu um círculo ao redor de si mesmo desviando de uma saraivada de flechas.

- REDES!- gritou um homem montado num cavalo. –Hoje vou dar para a minha mulher uma manta de urso!

Com a pata direita retirou a lança, e saltou sobre os homens. Antes que um homem baixinho pegasse essa tal rede ele foi esmagado. Os outros brandiram as suas espadas e prepararam para atacar, a rapina passou sobre seus rostos rasgando-os. Aquele que estava montado no cavalo, berrava ordens: — Mate-os! Rápido, cortem os pés do urso.

Os dois animais mataram os seus agressores de forma rápida e violenta. O último sobrevivente foi aquele eu estava a cavalo. O Urso o reconheceu. Alto, forte, pele morena, pequenos olhos negros e muito vivos, o Caçador de Dragões, que recebera esse título por matar lagartos gigantes das Ilhas Pedregosas.

- Noah! O Caçador de Lagartixas!- disse o urso enquanto gargalhava.

- Não rirá mais quando sua cabeça estiver no alto da minha porta. — respondeu o Caçador com a sua espada em punho.

- Então! Vai me enfrentar ou vai ficar aí olhando... — falou o urso, já se preparando para decepar a cabeça do homem.

-Deixe-o ir. — disse a águia para o urso. –Não vai querer morrer de forma tão estúpida. — disse ao homem.

O homem saltou do cavalo, e este fugiu em disparada. Os poderosos animais riram. Noah disparou em direção ao urso e quando o gigante tentou abocanhá-lo saltou e correu pelas costas do urso, quando o homem voltou ao chão e virou para atacar, mais rápido do que ele poderia imaginar o urso fechou as suas patas em volta da cabeça do matador de dragões, esmagando. Fazendo voar para todos os lados sangue, miolos e pedaços de osso quebrado. Depois dessa luta brutal, os dois, o urso e a águia, seguiram silenciosos em direções opostas. Pouco depois os chacais, raposas e outros carniceiros da terra e dos céus, se deliciaram com o banquete, fazendo eles por um momento nem se importar com o frio.

Gotas de sangue pingam na neve fofa, da mesma boca surge pequenas nuvens, a boca se fecha. Branco, gigante e belo, seu focinho ultrassensível fareja o ar e encontra um odor familiar.

- Irmão! Por que não estava na caça hoje conosco?- disse o Leão.

- Noah!- bufou o Urso cinzento.

- O famoso Caçador de Dragões!- reconheceu o Lobo. – Ou Caçador de Lagartixas?

Os três riram alto, assustando alguns morcegos que caçavam insetos. Continuaram rindo, e então o Urso disse: — Você quer dizer o falecido!

Os outros dois pararam de rir, a montanha de pelos e músculos continuou a rir sozinho. – Outro? Você matou mais dos homens?- perguntou o Lobo.

- Claro!- continuou gargalhando. – Era ele ou eu!

Os seus irmãos continuaram quietos a olhar para o seu companheiro peludo. Quando o Urso cansou de rir falou: — Ele não me deixou escolha. Atacou a gente com outros caçadores.

- A gente? Quem estava com você?- questionou curioso o Leão.

- A Galinha! Quem você esperava?- respondeu de prontidão. – Eu estava seguindo o rastro dela e quando tentei pegar um coelho que ela tinha entre as garras... Os homens nos atacaram.

- Ela te ajudou?- quis saber o Leão.

- Sim cabeleira. E melhor ainda eu agora sei onde ela... ou melhor ELE vive.

- Onde ele vive irmão?- perguntou o Lobo já caminhando.

- Na montanha Negra. — falou o Urso, todo orgulhoso do seu intento.

Seguiram juntos até a Lagoa do Inferno, uma afloração de águas escaldantes. Que naquele momento brilhavam sob a luz da lua. O Urso chegou primeiro e entrou na água. Reemergindo, cuspiu a água que estava pelando em direção do Lobo, que rosnou. E saltou sobre o Urso, e os dois ficaram por um momento brincando nas águas ferventes. Ao olharem para o Leão, já não era mais um leão, estava agora menor e desprovido de pelos brancos, exceto na cabeça que eram castanho-dourados eram encaracolados, só não mudaram a cor de seus olhos castanho-claros, a massa de músculos e poder estava agora reduzida a uma forma pequena, magra e esquia. Assemelhando a um filho de homem, os outros repararam sim, mas não se preocuparam, pudera eram agora tão humanos quanto o Leão-que-não-éra-leão.

Enquanto voava por cima da montanha Negra, percebeu que não estava negra e sim amarelo avermelhada. E ardia como nunca, ele ouviu grito, ou era um uivo ou anda um urro ele não sabia dizer. Da fumaça ergueu-se rápido como uma flecha uma forma negra, semelhante a uma aranha só que com quatro patas saltou sobre ele e começou a rasgar o seu corpo, antes que pudesse se defender, suas asas foram cortadas e ele começou a cair impotente... A forma estranha o apanhou como ele costumava fazer com as suas presas, no ar e rasgou seus olhos. E essa forma berrava: “morte, devorar, matar, sangue”.

Suando bicas acordou, olhando ao redor com a sua visão aguçada não viu nada de importante e a montanha estava imóvel e gelada, e silenciosa. Voltou a sua forma humana, tentou dormir novamente, mas não conseguiu pois lapsos daquele pesadelo voltavam a todo momento. Resolveu ficar a olhar a floresta. Sentou-se numa rocha e ficou a observar o mundo ao seu redor silencioso, frio e quieto. Olhou com seus olhos verdes-cinza para a lua, toda cheia de teias vermelhas em sua superfície, apesar de poder voar e de enxergar bem longe. Nunca fora capaz de descobrir essas estranhas redes. Sem falar das vezes que vira pontos brilhantes móveis no mesmo astro. Seus pés humanos passavam na rocha sentindo a sua temperatura e dureza. Será que esta montanha esquentaria a ponto de arder como madeira queimando? É verdade que nos últimos ciclos lunares ela tem esquentado cada vez mais, aquela montanha mesmo já havia abrigado um pedaço de floresta. E agora o chão é tão quente que pode queima madeira, mas não é capaz de ferir ele a Águia. Porque ele não sabe e não se importa. Enquanto fica pensando, mexe seu pequeno corpo na rocha para se sentir mais confortável. Seus cabelos dourados esvoaçam com o vento que vem vindo do norte. Olha para aquela direção, e então compreende: o inverno está acabando.

... O mal nos espreita, mas nós cremos que os deuses nos protegerão de todo o mal...

A voz que cantava era doce como mel e a musica era melodiosa e bem tocada. Um grupo de viajantes, vindos do Grande Porto dirigia-se para as aldeias vizinhas para vender as mercadorias que traziam. Cereais, marfim, ouro, couro, aço, ferramentas, armas, enfim todo o tipo de coisa. Para transportar eles e as mercadorias equinos e bovinos.

- Vendemos bastante couro e malte. Mas metais nada. — reclamou um mercador de uns treze anos. – Não se preocupe conquanto ganhemos dinheiro, estaremos bem. – disse a mãe do rapaz, uma mulher forte e com seios grandes, olhar arrogante e fala macia. Enquanto andavam os mais jovens ficavam no chão brincando, com medo dos assaltos eles levavam cães gigantes, animais poderosos do tamanho de um cavalo, mas muito mais ágeis e rápidos. O sol estava a pino e era hora de almoçarem, a caravana parou e todos se reuniram em torno de uma larga carruagem que tinha balcões em ambas as direções, deles saíam os pratos para saciarem os viajantes, era uma verdadeira cozinha portátil. Enquanto todos se deliciavam com toucinho de porco cozido e uma massa de milho cozida junto com arroz e um grão branco parecido com feijão só que um pouco maior e mais salgado. – A neve parou de cair! – disse uma jovem que comia ao lado de seu irmão gêmeo.

Um dhãããããã... Surgiu alto e depois todos riram. O velho Gordon riu tanto que saiu toucinho pelo nariz. E então as risadas viraram gargalhadas. Os cães brigavam por um pedaço de gordura e um deles virou-se para o lado e começou a rosnar e desapareceu, os outros cães ficaram desorientados e depois correram para várias direções. Os mercadores correram para pegá-los e as crianças começaram a gritar, os que tinham pegaram armas e procuraram pelo motivo do barulho. Cheiro de sangue, e fezes ergueu-se do chão, e cadáveres jazia no chão aos montes, o rapaz Mercadante pegou uma faca que tinha na cinta e saltou da carroça. Enquanto saltava algo passou do seu lado e quando olhou em volta sua mãe tinha e os outros tinham sumido, os cães e os cavalos também. Virando-se de costas viu o assassino. Inumano, alto, magro como uma espada sem mãos ou pés reconhecíveis, era todo pontiagudo e negro, tão escuro que parecia absorver toda a luz. Sem rosto, com um buraco fundo e escuro no lugar da face. O monstro ficou fitando-o durante algum tempo, e então o jovem viu numa das pontas que ficavam no lugar das mãos uma cabeça humana, era a mãe dele... Mas estava irreconhecível, somente os cabelos eram iguais a da sua mãe, ficou sem reação por um tempo. Numa explosão de raiva ergueu a faca e correu gritando com lágrimas nos olhos, em direção à criatura. O ser se moveu um pouco e depois desapareceu. O garoto ficou sem entender, mas sentia algo... Dentro dele e sentiu a barriga esfriando, de seu abdômen saiu coisas como cobras, só que vermelhas e viscosas e se esparramaram no chão, o menino caiu no chão sem vida.

Uma nuvem se ergueu do chão enquanto o líquido caía, quando terminou o Urso olhou ao redor e se espreguiçou, coçando a barriga branca, estava na forma humana ele é o mais alto dos três e o mais forte, mas não é lá o mais bonito, sua cara é redonda, seus olhos castanhos escuros, seu nariz meio gordo, seus dentes incisivos enormes. Mas ele bem sabe ali na floresta o que vale não é beleza e sim força, especialmente agilidade. Para ele e seus irmãos o mundo se move muito lentamente, as suas presas, os humanos são lentos.

- Dentuço! Acordou cedo. – disse o Lobo. Com a sua cara divertida. Para cada emoção expressada era um contorcimento de sua face, o mais engraçado era quando estava sério, seus lábios grandes e avermelhados se uniam parecendo uma cereja madura. Ele é o mais alegre, raro era vê-lo triste ou desanimado. Também é o único que se dá bem com os humanos, tem um amigo até: O Tom. (ou melhor, teve).

- Tá acordei, e daí? – falou o Urso, fingindo raiva.

- Que é que as duas garotinhas estão tagarelando a essa hora? – falou ainda com remela nos olhos, o Leão.

- Bom dia! – falou amigavelmente o Lobo. E se dirigiu em direção à aldeia de Ellesmere.

O Urso se transformou e foi para a floresta caçar, e o Leão dirigiu seu olhar e seus passos para a Montanha Negra.

Séculos de derrame de lava, geraram um solo escuro e vítreo, não é preciso ser uma águia para destingir um ponto branco se movendo logo abaixo. O Leão tomou a forma humana novamente olhou a paisagem desoladora, ele ouviu um impacto na rocha, próximo ao se virar viu a Águia no chão, olhando para ele, com seus globosos olhos tão negros quanto à montanha. A ave é grande e alta como um homem, montado num cavalo. Ao tomar a sua forma antropomórfica, é ainda menor do que os outros, sua pele é clara, seus cabelos são curtos e lisos, seu rosto é impassível, lembrando os filhos dos ricos mercadantes do norte.

“Sua aparência é frágil, poderia ser muito bem uma menina a não ser pelo seu membro”. Pensou o Leão. Mas ele sabe que aquela aparência engana, pois ele é muito sábio, e era um transmorfo antes deles sequer nascerem.

- O que buscas, felino?- falou solenemente a Águia.

- Por que ajudou meu irmão noite passada? – perguntou o Leão.

- Não o ajudei, eles também me atacaram. – replicou a ave e o estudou com aqueles olhos impassíveis: — Ouça, e que fique claro não tenho nada a ver com vocês ou o que fazem.

- Você é um de nós, sim. Queira você ou não. – cuspiu o Leão e afastou-se transformando e rugiu alto o bastante para acordar os mortos. Mas o outro não demonstrou medo ou qualquer tipo de emoção. O felino desceu a montanha rápido como um guepardo, deixando a Águia só. Desde que começaram a conversa ele finalmente piscou.

O inverno acabou, a temperatura aumenta bastante, no caminho até a aldeia Lobo caçou uma corsa e levou nas costas até o mercado de carne. Lá roubou umas roupas e saiu desfilando com a sua caça, acabou vendendo por um bom preço, era tão bom vendedor quanto era caçador. Com o dinheiro se dirigiu até o seu lugar favorito “A Malagueta”, ao entrar algumas pessoas o cumprimentam outras ficam desconfiadas e questionam a sua presença. Uma mulher o reconhece e o chama:

- Meu garotão seja bem vindo... – A mulher veste um vestido curto acima dos joelhos, seus seios são bem visíveis e bronzeados assim como a sua pele.

Ele senta em uma mesa, uns homens sentam nos outros lugares e pedem uma rodada da ‘mais pura’. A bebida chega e todos se servem inclusive o Lobo, um com aparência de ser o mais velho puxa a garrafa da mão do garoto e resmunga: — Seu lugar não é aqui garoto, vá pra outro canto, vá.

- Tire você mesmo! – disse o menino sorrindo.

Todos se calaram, sabem muito bem que aquele jovem é forte demais, mesmo para um homem, todas as vezes que alguém tentou expulsá-lo volta para casa com um ou dois ossos quebrados. Aliás a própria dona da estalagem o quer ali.

Os músicos chegam e com eles as mulheres, de todos os tipos e tamanhos. Gabrielle desce e fazem as saudações costumeiras:

- Sejam todos bem vindos! Ao paraíso!

Urros, vivas, saudações e berros de alegria, inundaram a noite. Os músicos começam a tocar uma música ritmada em notas repetidas e sons graves em excesso. Semelhante à música eletrônica, seguida de letras que falam de prazeres irreais, sonhos não conquistados... Os que dançam, esfregam seus corpos seguindo a música, e deslizam trocando de pares simultaneamente.

Gabrielle chega por trás do Lobo e aperta suas nádegas, e fala ao seu ouvido, o que ela diz o deixa arrepiado e excitado, os dois sobem as escadas, seguem por um corredor propositalmente escuro onde óleos e perfumes são queimados por motivos óbvios. Ao entrar num cômodo, ela o levanta e o joga na cama e começa tirar a roupa dele com os dentes, ela joga os cabelos castanho-escuros e encaracolados em cima do rosto do Lobo, ela beija e morde o seu pescoço, ele passa as mãos nas costas amendoadas dela, Gabrielle vai mordendo sua barriga e seu umbigo, ele solta uma gargalhada.

Um estrondo e um grito são ouvidos vindo do andar inferior, ela se levanta e vai até a porta, com a sua audição aguçada ele consegue ouvir as pancadas, ele consegue farejar medo, sangue e fogo! O Lobo alcança Gabrielle e a tira da porta, algo passa por ele e atravessa os outros quartos deixando um rastro de sangue e morte, é rápido demais até para ele. Olha para a prostituta no seu quarto e está morta, partida ao meio. Antes que ele possa pensar como isso ocorreu, a criatura vem novamente pelas escadas, o Lobo se concentra e então vê, é esguia, negra, se move perfeitamente, passa pelo fogo como se não fosse nada, e vem em sua direção, o Lobo faz o mesmo os dois se movem tão rápido quanto é possível, o lupino desfere um soco na criatura e esta é lançada para fora da casa. Ele se transforma e derruba todo o segundo andar e desce farejando a criatura, corre atrás dela.

Uma folha de carvalho desce vagarosamente, refletindo os raios vermelhos da lua, sua trajetória é interrompida por um vulto que se choca contra ela, o vulto continua o seu caminho, pouco depois surge um lobo gigante que também se choca contra ela, mas depois dele ter passado deixa outras folhas a flutuar com ela.

A criatura continua a correr tão rápido que seus pontiagudos pés quase não danificam o chão, o Lobo está no seu encalço disparando rápido como ele nunca correu, resolve pegar um atalho e salta apoiando as patas traseiras num pinheiro, ganha impulso, a árvore desaparece numa nuvem de lascas e folhas-agulha, o lupino enterra seus poderosos dentes no ser, consegue apenas cortar a boca, ao chegar no chão derrubara ainda algumas árvores, e percebe que o monstro era duro, não como aço, mais, muito mais duro. Sua boca sangrava mortalmente e doía bastante, tomou a forma humana e arrancou um galho e quebrou em cima da criatura, esta girou a sua mão que rasgou o tórax do Lobo. Que caiu, sangrando bastante. O ser se ergueu e girou sobre seus pés e desapareceu.

O Lobo acordou com os raios de sol o cegando, depois de se ajustar a luminosidade, percebeu que os ferimentos estavam cicatrizando lentamente, mas estavam. O urso estava na sua frente na forma humana, e zombava da situação do seu amigo, mas seus grandes olhos diziam outra coisa, preocupação.

- Onde está o Leão? – quis saber o ferido.

- Está caçando algo para você comer. – falou o Urso olhando para as feridas no amigo.

- O que te machucou? Foram homens? – perguntou, o dentuço cerrando os punhos.

- Não é nada que já tenhamos visto, era poderoso demais, rápido demais, cruel. – falou o Lobo, se erguendo para se encostar em alguma pedra.

- Temos que matá-lo! – continuou – Destruí-lo antes que mate mais alguém!

- O você fazia naquela cidade? – perguntou o irmão mais forte.

- Isso não vem ao caso... Eu estava... Apenas me divertindo! – disse se esquivando o Lobo.

O Urso olhou e sentou-se de cócoras, e saltou para trás virando a montanha de músculos e pelo que era. – Não se preocupe, quando se recuperar vamos caçar aquela coisa e matá-la. – falou com a voz ressoando como um rugido.

O Lobo arriscou um sorriso e seu irmão o deixou indo caçar também.

Vislumbrava a floresta ao seu redor, silenciosa. Sentado apoiando-se numa rocha, o garoto comtemplava a velha Ironwood a sua casa, lembrou-se das caçadas e dos seus irmãos, das vezes que andou como humano nas festas nas aldeias, quando se apaixonou pela primeira vez e conheceu uma mulher. Amor, lembrou das vezes incontáveis que tinha ido até aquele bordel, ele conhecia todas as garotas dali: das mais velhas, Úrsula com seus seios grandes e voz macia, Catarina pernas bem torneadas e lábios avermelhados; até as mais novas, Enya sardenta sempre violenta, Nancy com suas ‘mãos bobas’. Mas ele sentia falta principalmente da Gabrielle, primeiramente tentara expulsá-lo, mas depois dele provar que apesar da aparência não era um menininho.... Paixão!

Algo se movia entre as árvores... “Devem ser meus irmãos”, pensou o jovem. Demorou a aparecer sob o tênue brilho da lua vermelha, com o corpo balançando como um bicho-pau, mas rígido como uma armadura de aço. Saltou dentre as árvores e pousou suas pontiagudas mãos nas pernas do garoto, este tentou se mover mas não pode estava paralisado, tentou se transformar e também não conseguiu, tentou chamar seus irmãos uivando só que apenas um sofro fraco saía da sua boca. Tentou derrubar a criatura com as mãos também estavam impotentes. O estranho ser olhava para ele e respirava... seu hálito era equivalente ao cheiro de carne putrefata e fezes. O estômago do Lobo embrulhou, tentou se recompor e ficou ali fitando o monstro assassino. Percebeu a cabeça do monstro esta encaixada num pescoço fino com aparência metálica, era a fraqueza da criatura compreendeu, lembrou-se de ter visto certo brilho metálico na demoníaca criatura. O Lobo pensou em gritar, uivar, mas não conseguia, nem se movia...

A criatura se moveu... Apenas seus braços escuros, rasgando as pernas do lupino, que gemeu. Dor. As mãos, como facas, cortavam dolorosamente a carne dos membros, ele conseguiu apenas gritar e gemer diante da agonia de ser mutilado lentamente. Sangue. O cheiro de sangue encheu o ar, ao olhar para as suas pernas percebeu que elas estavam, no ponto onde as laminas tinham encostado, queimadas. Raiva. Berrou mais como um menino do que como um lobo.

Lágrimas. Chorava, tentou controlar aquilo, mas não conseguia, o monstro já havia tirado as pernas. Sem elas como ele iria correr, caçar novamente com seus irmãos, amar outra vez... Ódio. O ódio nasceu de seus lábios cheios e avermelhados, e gritou... Gritara novamente... Coisas incompreensíveis, mas gritara. Sua voz ecoara floresta adentro. Cheiro. A resposta que ele recebeu foi novamente a respiração fedorenta da criatura. Morte. O Lobo sentia seu corpo esfriar, suas pálpebras pesarem, seu coração desacelerar. Lembrar. Recordou dos seus irmãos e desejou poder ter mais uma chance para... – Viver! – exprimiu a estranha criatura.

Seus olhos se abriram novamente e percebeu que não morrera, ao contrário estava vivo e que seus ferimentos estavam sanados. Mas algo estava errado, tudo ao seu redor ardia.

- Fogo! – gritou, mais para si mesmo.

Percebera então que a lagoa escaldante havia desaparecido em seu lugar uma fenda incandescente brilhava. Levantou-se e atravessou novamente como lobo, a floresta inflamada. Viver. Essa palavra ressoava em sua mente, como um grito de guerra, um chamado a luta, a vingança.

O Leão anda pela floresta procurando algo para saciar a sua fome e a de seu irmão ferido. Seu pelo branco está coberto de folhas secas e de pequenos insetos oportunistas, ele caminha suavemente confiante e reflexivo. A ideia da nova criatura que agora habita a floresta, ser capaz de ferir brutalmente um de seus irmãos o perturba. Espreitando entre um carvalho antigo e um grosso abeto, a temível criatura move-se rasteiramente em direção ao leonino. Dispara em alta velocidade, deseja cortar a cabeça do Leão, sentir sua carne e ossos deslizando por suas poderosas lâminas. Ao se aproximar do alvo, este transforma em um humano e em vez da cabeça de leão apenas consegue cortar uma mecha de cabelo. O Leão está assombrado, aquilo que o atacou mais rápido do ele. Pousando no chão o predador se transformou em felino e atingiu uma patada numa das pernas da criatura que rodopiou no mesmo lugar e caiu. Num lapso de segundo, esta se ergueu e disparou em direção ao pescoço do mamífero, que por pouco não o atravessa. O quase decepado ataca novamente com sua bocarra e morde a cintura do monstro as articulações deste começam a estralar e ele se desprende da mandíbula fincando seus pontiagudos pés em uma árvore mais próxima. A planta se parte em mil pedaços, e outra mandíbula alcança o seu pescoço, antes que os dentes fechassem a criatura escapou. E tentou cortar o seu novo oponente, mas este desviou, e gritou:

- Arranque a cabeça dele!

A criatura não pestanejou avançou contra o Lobo e este saltou no ar e transformou-se em garoto esse apoiou com as pernas numa árvore correu verticalmente até um galho mais grosso e descreveu uma volta completa no trono e usou o galho como impulso e atirou-se em direção ao monstro, a criatura esquivou e golpeou o seu oponente. No mesmo instante o Leão abocanhou-o e o lançou a centenas de metros de distancia, a criatura se ergueu e saltou sobre as árvores e antes que escapasse surge do alto uma sombra humana, era o Urso na forma de menino. De seu rosto redondo surge um sorriso coroado com seus enormes incisivos, com os punhos cerrados desfere um golpe na cabeça da criatura que então saltava, o impacto é tão forte que o ar ao redor se expande numa explosão de som e madeira, o atingido é lançado ao chão e uma cratera é aberta.

Do alto tudo é observado por um par de olhos privilegiados. A criatura levanta-se e se move rapidamente em direção do leonino, que desvia do golpe.

- O pescoço, esse é o ponto fraco! – Grita novamente o Lobo.

Mas eles têm um problema a resolver, a maldita criatura parece acompanhar cada um dos movimentos deles. Principalmente os do Urso.

- Precisamos distraí-lo – percebeu o Leão.

Um par de asas surge e envolve a criatura, desorientando-a por uns instantes.

O trio não bobeou, aproveitaram a oportunidade e atacaram de imediato à criatura. O Lobo segurou com a suas mandíbulas a cabeça, o leonino por sua vez segurou tronco e membros inferiores. Mortalmente o Urso saltou e enterrou seus pés humanos no pescoço da criatura, que se partiu com um crac metálico.

Pouco depois de a criatura ser morta, a montanha Negra despertou em chamas e lava. O céu ficou escuro e tempestuoso. A Águia que havia pousado em um galho de carvalho, disse: — Vamos! Precisamos partir esse lugar já não é mais seguro.

O quarteto moveu-se em direção ao norte para outras terras. Para viverem outras histórias. Futuro.

Notas finais
Este é o meu primeiro conto, com o tema original. Sinceramente espero que gostem.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!