Notas iniciais
Um pouco de conflito. Boa leitura!

A campainha tocou. Era Daniel. Vieram com ele um investigador da polícia e um outro rapaz de pele vermelha e cabelo liso, que parecia um índio, mas ninguém sabia direito quem era, e que ficou o tempo inteiro calado, com os braços cruzados, olhando para o chão.

Clara os recebeu com polidez, sem o menor sinal de surpresa, inclusive quando mandaram chamar Henrique. Quem sabe ela conhecesse a doença do filho e já esperasse por aquilo. Ficou sentada ali perto, com um notebook, distraída com a contabilidade da pensão. Era sábado, por isso o local estava praticamente vazio.

Henrique ainda estava com a roupa da festa de ontem, estava fedendo a suor. Acordou com o barulho da campainha, depois ouviu a voz de Daniel, em seguida a do policial. Seu rosto ficou branco. Tirou a camisa, na qual enrolou com cuidado o estereoscópio, e a colocou no cesto de roupas sujas. Vestiu qualquer outra coisa ― uma camisa do time de sua mãe, com seu nome escrito atrás ― e foi para a sala de estar, onde lhe esperavam.

A princípio, ele não entendeu muito bem o porquê de o rapaz estar ali em vez de outra pessoa. Poderiam ter mandado qualquer outro funcionário, ou ninguém, não precisava. Falara com ele algumas vezes, geralmente lhe respondia dúvidas sobre computação, por exemplo, onde fica o botão de desligar, como conectar-se à rede, coisas do tipo. Era um sujeito um tanto pretencioso, conquanto de boas maneiras. Somente mais tarde Henrique veio a atinar: aquilo deveria ser uma desculpa para deixar o trabalho de lado e sair de sua sala, pois ele ia para a empresa inclusive nos finais de semana, e também uma forma de impressionar os chefes. Fazia questão de mostrar para todo o mundo que era um viciado em trabalho, um workaholic, conforme gostava de ser chamado. No entanto, não se lia no rosto dele nenhum traço de olheiras nem de mau humor, como seria esperado.

“Deve ser por causa do estereoscópio”, Henrique pensou. Na verdade, o motivo da visita era completamente diferente, tanto que em nenhum momento se referiram ao objeto. “Terei que adiar o diálogo com Clara”, refletiu. Além disso, Henrique não era nenhum psicólogo, mas pressentia que, no escuro, o pavão não abria as penas. Logo, tudo o que ele precisava fazer era apagar as luzes, e Daniel iria embora.

Algo em Daniel não soava natural, mas até aí tudo bem, porque o bico do pássaro também não soa natural. Ele afetava ser conhecedor da linguagem criminal, e usava, desajeitadamente, alguns jargões de detetives de cinema, aliás antiquados. No momento ele trabalhava em um cargo executivo da Black Oil. No passado ele não se sentia esperto, contava, então fez um teste de QI, recebeu um resultado impressionante, bem acima da média, e se convenceu, tomou coragem de enfrentar uma faculdade e subiu na carreira. Dizia para si e para os outros que sempre fora inteligente, mas tomou consciência disso apenas depois, que o teste o motivou. De fato, o resultado deixaria até um gênio com inveja.

Quando segurou a mão de Henrique, o policial sentiu como se pegasse um peixe morto. A mil quilômetros de distância, no crepúsculo, em um inverno, um pescador buscava peixes e encontrava algas. O mar estava calmo na superfície, nenhuma onda, nenhum ruído. Mal sabia o pescador que, no fundo, os monstros travavam entre si uma guerra de vida ou morte.

― Henrique, não é? ― Disse o policial, soltando a mão dele. ― Você sabe porque estamos aqui?

― Não sei... aconteceu alguma coisa? ― Respondeu, languidamente. Por dentro, sua cabeça trabalhava.

Daniel e o outro rapaz não receberam muita atenção. O primeiro pareceu incomodado, o último, sem reação.

― A Luciana sumiu. Ela não compareceu a uma reunião na empresa hoje e também não está em casa. Nós e a família dela estamos bastante preocupados, você não está? ― Explicou Daniel, apressadamente, sem parecer nem um pouco preocupado.

― Sim.

― Com licença ― pediu Clara, do canto onde estava ― quando uma pessoa desaparece, que eu saiba, a polícia geralmente espera vinte e quatro horas antes de tomar qualquer providência. Por que agora vocês não fizeram isso?

Henrique olhava para o homem vermelho, e podia jurar que viu movimento nos lábios dele. “Ela é perigosa. Essa mulher sabe de muita coisa”. Mas ele foi o único que viu e ouviu. A voz era macia e perturbadora. Na verdade, o homem não dissera nada.

― Como você já notou, esse é um caso excepcional. ― Respondeu o investigador. ― Nós estamos entrevistando todos os que estavam na festa ontem. Da última vez, ela foi vista saindo, aos gritos, da sala de pesquisa da sede da Black Oil. As câmeras mostraram ela no carro, correndo igual a uma louca, adoraríamos descobrir para onde. Isso por volta da meia noite. ― Ele suspirou e continuou, dirigindo-se agora a Henrique. ― Poderíamos ter ligado, mas queremos saber além de alguma pista do paradeiro da moça, as senhas dela, do celular, do computador, de tudo.

― Não se preocupe, você tem a permissão e a obrigação de nos passar esses dados. Depois eu explico para o seu supervisor. Vamos ― completou Daniel.

Por algum motivo, aquilo soou rude para Henrique. Outra pessoa, talvez, não interpretaria assim, ou ele mesmo, em outra situação, poderia ter tido uma impressão diferente. Mas o fato foi que soou rude, não que isso fosse difícil para a sensibilidade de Henrique, para quem qualquer superfície era demasiado áspera.

Permissão? Obrigação? Por quê? Se a única permissão que ele recebia era a do seu próprio coração, e a única coisa que lhe obrigava era aquela força que o arrebatava. Henrique se deu conta de que havia uma hierarquia e ele precisa obedecer. De repente tornou-se estranhamente consciente disso.

― Se querem tanto saber, perguntem diretamente para ela.

No meio da neve tinha um gêiser. Daniel não acreditou no que ouviu. O homem vermelho pareceu ter dado um breve e imperceptível sorriso.

O policial era calmo e a sua pessoa transmitia tranquilidade. Ia falar qualquer coisa, mas Daniel foi mais rápido e saltou à frente.

― O quê? Engraçadinho você ― Daniel riu alto e sozinho.

O riso de Daniel não era histérico, mas de escárnio. Se, ao menos, fosse histérico, Henrique poderia amar-lhe. Teria piedade daquela criatura à sua frente, que perdia a compostura com quem estava abaixo dele ― longe dos grandes. Pelo menos saberia que, por trás daquele teatro, era uma alma, ainda que doente, que respondia à sua. Mas o riso era do mais duro escárnio, que pisava e menosprezava.

― Mas nós não estamos aqui para piadas. Vai, me passa agora essas senhas, não vou sair daqui sem elas ― ele fez uma pausa, enquanto Henrique o encarava teimosamente. ― Se você gosta do seu emprego.

― Eu não gosto do meu emprego. Ainda que eu tivesse as senhas dela, eu não passaria para você ― Henrique rebateu, com rubor no rosto, e enfatizou: ― e não se mexe nas coisas dos outros.

Naquele momento, se Daniel partisse com soco para cima de Henrique, ele ainda o respeitaria. Mas os músculos de Daniel não se contraíram. Ele não tinha nenhuma emoção, nenhum sinal de raiva pelo desacato, ou medo da agressão iminente. Mantinha o mesmo olhar robótico. E os holofotes estavam desligados.

― Vocês podem ficar aqui o tempo que julgarem necessário. ― Disse Clara, dirigindo-se com firmeza a Daniel. Aqui é uma pensão para mulheres, mas posso abrir uma exceção, desde que paguem a diária.

Todos se voltaram para ela.

― Isto é, se você não se importar de ficar em um local com um padrão menor do que cinco estrelas. ― Continuou.

― Não se incomode. Além disso, segunda-feira, o Henrique pode retirar as coisas dele na companhia. ― Daniel rematou, levantando bem o queixo e mostrando as costas para sair.

― Ele irá, depois de receber uma carta formal de demissão, assinada e carimbada por alguém com autoridade suficiente para isso ― garantiu Clara.

― Pode deixar que eu mesmo faço ― retrucou, sem acreditar no que dizia.

Ao passar pela porta, o rapaz tropeçou, ou melhor, chutou um pequeno vaso com orquídeas azuis. Os cacos se espalharam à entrada, enquanto as flores agonizavam caídas. Em seguida, o policial pediu licença e foi embora. O homem da pele vermelha só foi depois de deixar um bilhete amassado na mão de Henrique. “Ajude-a, depressa”, escrevera à lápis.

Notas finais
Logo eu posto o próximo.