O Estereoscópio
12 A alma perdida
Notas iniciais
A campainha tocou, tinha som de sino. Clara gritou para que Henrique abrisse a porta e ele foi. Ali, no limiar, estava Freia, a vidente. Ela carregava uma bolsa, uma pequena mala e uma sacola com um quadro.
― Bom dia. ― Disse Henrique, olhando-a nos olhos.
― Ah, como estou cansada! Aqui, segure isto para mim. ― Respondeu Freia, enquanto limpava a sapatilha no capacho. Ela entregou a mala e o quadro para Henrique.
― O que você faz aqui, Freia? No que posso lhe ajudar? ― O rapaz perguntou.
A mulher já havia se lançado sobre a primeira cadeira que encontrara, esbaforida. Retirou as sapatilhas, que lhe incomodavam, e ficou descalça. Os cabelos estavam desgrenhados. Retirou um leque da bolsa e se abanava, embora não estivesse calor.
― Fique à vontade. Você quer alguma coisa?
― Eu aceito água: nem fria nem quente, em um copo rachado, de vidro, meio cheio. Obrigada.
Henrique foi até a cozinha, fez como a vidente pediu e depois voltou.
― Aqui está. Agora vamos conversar? O que te traz até este lugar?
― Me surpreende que você não saiba. ― Freia afirmou, com sinceridade. ― Eu já acertei tudo com a Luciana, por e-mail.
― Ela não disse nada. Aliás, saiu cedo, disse que tinha algo importante para resolver.
― Ela não vai voltar. ― Disse Freia, categoricamente, sublinhando as palavras e fazendo que não com o indicador. Observou a reação de espanto dele. Olhou-o de baixo para cima e isso causou uma certa impressão em Henrique. ― Não por enquanto. ― Continuou. ― Então vou ficar no lugar dela, onde costumava ser o seu quarto.
― Acontece que eu ainda não saí do meu quarto. ― Objetou.
― Sim, Luciana já me explicou todos os pormenores e eu não me importo, nem você há de se importar. Me diga se estou correta, mas há de ser assim, eu sei, já foi decidido há muito tempo, é inevitável. E o quarto não é mais seu, que isso fique claro.
Henrique tentou refletir um pouco. Freia guardava uma vaga semelhança com Luciana, então ele pensou que tudo bem se ela ficasse no lugar da outra por um tempo. Ele comunicou sua decisão e Freia recebeu a resposta que esperava.
Por um minuto ou dois, Freia manteve os olhos fechados, sorvendo lentamente a sua água, como se meditasse. Clara, que tinha uma noção de eletrônica, acabara de consertar o micro-ondas e apareceu à entrada, onde estavam Freia e Henrique.
― Clara! Chegou na hora certa, eu já me preparava para gritar por você, mas você apareceu. ― Disse Freia, antes de abrir os olhos.
― Será um prazer recebe-la em minha casa, Freia, enquanto Luciana estiver fora.
Aos poucos, Henrique compreendia que havia algum laço secreto entre as três mulheres, ainda que ele não compreendesse a natureza de suas relações.
― Façam-me o favor de sentar-se. A minha história não é longa, mas me incomoda falar sentada a pessoas de pé. ― Pediu Freia e, dirigindo-se a Henrique: ― não diga nada, nem abra a boca. Antes que você possa pensar em dizer eu já saberei. “Hoje ela está inspirada”, você pensa. Sim, hoje meu terceiro olho está mais aberto do que nunca.
Ao dizer isso, Freia jogou a franja grisalha para o lado e em sua testa, no centro, havia um olho desenhado.
― Vejam: não tenho onde ficar. Ontem, por volta das três da madrugada, eu, cansada, já havia trabalhado muito. Já havia dado muitos banhos e tirado a sorte de muitas pessoas, vocês sabem, pelas cartas. Também faço adivinhações por vídeo, por telefone e por mensagem de texto, porque sou uma vidente tecnológica, como uma cliente me chamou outro dia. Eu não vou contar exatamente o que se passou nessas sessões, porque é confidencial. Não vou contar que tem uma viúva que me faz conversar com o marido dela uma vez por semana, sem falta, porque isso seria antiprofissional. Enfim, à tarde, a minha bola de cristal se partira, o que eu encarei como péssimo sinal. Limpei tudo, tudo, claro, não tirei o pó, limpei quaisquer energias com a minha vassourinha. Fiz todos os procedimentos, os banimentos, ajeitei os símbolos e, não me sentindo suficientemente segura, ainda peguei a minha espada e me isolei dentro do meu círculo de proteção. Só que eu não poderia ficar ali para sempre. Fiquei umas duas horas parada, na mesma posição, até que o meu estômago se revoltar. Comi o resto de uma galinha preta e, quando terminei, já me sentia melhor. Parece que quando a gente come tudo fica melhor, até as más energias saem da nossa casa. Bom, apesar do meu medo, eu tinha uma audiência marcada com um dos condes do inferno naquela noite, sendo que cancelar estava fora de cogitação. Vocês acreditem ou não, é preciso ser uma maga importante para contatar condes. Quando eu tiver mais autoridade, vou falar é com os superiores deles, com os marqueses, com os duques ou, quem sabe, até mesmo com os príncipes. No entanto, uma coisa é certa: nunca se deve lidar com espíritos enquanto você estiver com medo, pois eles percebem, eles sabe tudo. Em um momento, eu mantinha velas e incenso acesos, senti um cheiro forte de ovo podre vindo do selo de invocação. Então, em um acesso de coragem, tomei a minha espada e cutuquei o selo, quando caí de sono, de chofre. Henrique, ― dizia ela, olhando-o fixamente ― a culpa aqui é sua. Você não me ligou ontem. Se você tivesse ligado, o toque do meu telefone teria me acordado e nada teria acontecido.
― Não é verdade? ― Continuou, voltando-se para Clara.
― Sim, você tem razão. ― Concordou Clara.
― Enfim, quando eu me dei conta, um incêndio já tomava conta da casa. Se estivesse no começo, pelo menos. Mas já havia se desenvolvido bastante, o corpo de bombeiros chegava sem eu sequer ter chamado, de tão visível que se tornara, os vizinhos perceberam. Eu poderia ter inalado fumaça e morrido, mas isso não aconteceu, não sei como. É que gente ruim não morre, só pode ser isso. Vejam, a única coisa que eu consegui salvar foi este quadro aqui.
Freia mostrou o mesmo quadro pelo qual Henrique se encantara na casa dela. Apenas um detalhe: a figura hermafrodita havia sumido.
― Mas isso não é nada. Não se preocupem com esse incêndio, porque há questões muito mais graves que solicitam a nossa atenção.
― Por exemplo o quê?
― E se eu te dissesse, Henrique, que ontem eu perdi a minha a alma? O que você acharia?
― Parece ser um assunto realmente sério.
― Com efeito. Mas suponho que você não tenha ideia do que isso significa. Quero dizer, do que eu chamo de “perder a alma”. Me diga, Henrique: que nome damos a quem possui o dom da vidência?
― Dizemos que essa pessoa é uma vidente.
― Exato. Mas se uma vidente perde a sua vidência, o que acontece? Continuamos a chamá-la de vidente ou lhe damos outro nome?
― Eu não chamaria de assim, mas de ex-vidente, talvez.
― Pois eu te digo que essa pessoa ainda é uma vidente, só que perdeu o seu significado. A coisa fica vazia, por isso digo que perdeu a alma.
― Falar assim não é um pouco exagerado?
― Não.
― Acho que captei o raciocínio.
― Henrique, você é ou não um homem? Você perdeu a masculinidade, contudo, continuamos a chamá-lo de homem, por consideração. Analogamente, alguém pode muito bem ser masculino sem ser homem, como há quem pratica a vidência sem ser vidente. Você entende o alcance dessa ideia?
― Não sei se estou totalmente de acordo, mas parece interessante. Como você pensou nisso?
― Foi mais simples do que parece. Olha só: estava eu comendo salgadinho de camarão. Fiquei surpresa porque aquilo tinha, de fato, sabor de camarão. Você sabe quantos camarões eu já comi que não tinham sabor algum? No entanto, eles ainda eram chamados de camarão, para todos os fins, até custavam o preço de camarões. Foi dessa forma que cheguei à minha ideia genial. Foi um insight.
― Sim, genial. Contudo, sem querer desmerece-la, eu gostaria de fazer uma observação. Não acho que seja por causa do sabor que os camarões são chamados assim.
― É sim, é por causa do sabor sim. E eu ainda não terminei de falar. Você não ouviu nada do que eu disse até agora, então ouça. A minha ideia é revolucionária. Você passou toda a sua vida pensando que as dez virgens eram virgens de verdade, mesmo isso não fazendo o menor sentido. Agora tudo está claro. Teria sido necessário dizer que as dez virgens eram virgens, e isso não seria, de modo algum, repetitivo.
― Você fala com tamanha convicção que chego a crer.
― Sim, eu estou certa. Henrique, veja bem, você vai em direção à coisa, você a tem em mãos, e de repente ela não está mais lá. E o pior é que você jamais pensaria em buscar onde ela não deveria estar. Isso seria procurar a coisa fora da coisa. É a mesma coisa que comprar água de coco e receber suco de maça. O mundo anda todo bagunçado, ultimamente. Você mesmo julgou ter encontrado e salvado a Luciana, quando o que encontrou foi um camarão sem gosto. Sim, porque é bem isso que ela é agora, literalmente.
Henrique se espantou um pouco, especialmente ao ouvir que Luciana era, literalmente, um camarão. Devido a uma certa predisposição a absorver tudo sem nada filtrar, aos poucos deixara-se persuadir pelo discurso de Freia.
― Rapaz, não estou me sentido bem. Agora que estou aqui, vou responder a quaisquer perguntas suas e da sua mãe, porque, para todos os efeitos, ainda sou uma vidente. Mas antes me traga algum remédio para tomar.
― O que você tem? ― Interveio Clara.
― Dói. Alguma coisa dói. Pode ser porque acabei de perder a minha alma. Por favor, um remédio, sem demora. Qualquer um serve, é melhor do que nada.
Henrique obedeceu. Agora acresciam-se aos seus problemas a necessidade de recuperar a vidência perdida de Freia e, novamente, encontrar Luciana.
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