O Estereoscópio
6 A Conversa
Notas iniciais
Porque todo o mundo fazia alguma coisa por algum motivo. Eles entendiam que uma coisa causava a outra, logo agiam intencionalmente. Menos o pássaro cego. Tão causal quanto um computador desobediente, ele fazia só por fazer. Nem ninguém poderia sequer supor, jamais, que era porque ele queria. Ele fazia só por fazer. Sem saber, sem querer, sem justificar. A justificativa mataria. Você, leitor, joga luz nele e ele morre, desparece, não se encaixa.
Henrique também já não fazia mais nada. Isso porque até os mortos faziam alguma coisa. Eles ficavam parados, no lugar deles, esperando. Eles ocupavam espaço. Eles estavam nas suas tumbas. E ficariam para sempre assim, até o dia em que alguém fizesse alguma coisa.
Era que o pai de Henrique estava morto. No momento em que ouviu isso, Henrique não era, Henrique não estava, Henrique não falava, não existia, não respirava.
― Filho, lembre-se disso: ― continuou Clara ― a mesma mão que abençoa também lança maldições.
Henrique olhou apreensivo, sem captar direito o significado daquelas palavras. Por quê? Somente agora, depois de tantos anos, viera a se perguntar de sua origem. A resposta estava sempre ao seu alcance, mas nunca quis saber. Sentiu como se seu egoísmo lhe oprimisse. Por muito tempo ele ignorara a realidade.
Um dia, quando criança, ele sonhou ter o poder de acabar com o mal e salvar o mundo. Mas a vontade passou à medida que cresceu, até que ele mudou de ideia. O máximo que conseguiria era salvar o seu próprio mundo, ou nem isso, principalmente depois do que descobriu. Ele era filho de um vampiro, teria que pagar pelos erros de seu pai, gerações após gerações. “Herdei uma maldição”, pensou. Alguma coisa tinha se quebrado dentro dele; talvez uma corrente, talvez algo frágil e precioso.
E ele sabia que não era capaz de ajudar ninguém, porque o problema era que as pessoas não eram capazes de ajudar a si mesmas. Elas sempre se enrolavam mais e mais na corda que acabaria por lhes enforcar. Era o obeso que não conseguia levantar da mesa. A mocinha bonita que fumava. Era todo o mundo que se auto destruía, seguiam, roboticamente, direto para o abismo, mantinham-se apegados aos seus hábitos, seus relacionamentos venenosos, suas más companhias. Como se estivessem amarradas. E ele também, preso ao seu destino de sofrer sem saber o porquê. Em uma espiral decadente.
Contudo, de algo ele se esquecia. Talvez ainda não tivesse percebido, mas, quem sabe se ele não teria algo que pudesse mudar tudo. Um remédio. É que ele achava que primeiro tinha que salvar a si próprio para, só depois, tendo êxito, ter o direito de ajudar os outros.
Sua mãe já estava velha.
― Era para eu ter sido morta, Henrique, mas deu errado. Acho que ele não conseguiria, ele me amava demais para isso. E você sabe o que acontece quando alguém tenta enganar os próprios sentimentos?
― Não sei... ― Henrique secou uma lágrima. “É isso”, calculou.
― Você me lembra ele, vocês dois são muito parecidos. ― Clara lhe acariciou a face pálida. ― E eu posso ler em seus olhos que há algo te perturbando.
― Sim, sim, é isso, ― respondia Henrique ― acho que eu preciso me mudar, morar sozinho.
― A decisão é sua. ― Concluiu Clara, de modo conciso e absoluto.
Uma leve e fria brisa entrava por uma fresta aberta da janela. Apesar da poluição, lá fora respirava-se melhor. O pássaro começava a tirar de dentro da casca a ponta do bico preto, furando o ovo de dento para fora. Em seguida, pulou um olho terrivelmente negro, que parecia conter em si infinitas noites de angústia e alguma reminiscência dos tempos de embrião, antes do nascimento.
Henrique sentiu que precisava fazer alguma coisa com urgência. Lembrou-se do bilhete do homem vermelho. “Ajude-a, depressa” ― essa frase não saía da sua cabeça, mas era mais como uma música que grudara do que como um lembrete. Onde encontraria Luciana na vastidão do mundo ali fora, o qual ele tentava suprimir? Mal podia pensar no número de lugares possíveis. Coçou a cabeça, nervoso. Tinha que ajudá-la, não havia outra opção. Então foi até seu quarto, vestiu uma blusa do mancebo e saiu, sem saber que caminho tomar. Andava evitando olhar muito para os lados. Entrou em um ônibus qualquer, embebeu-se no ruído das rodas, das buzinas, da conversa das pessoas na rua. Antes que percebesse, sentiu-se mais aliviado, talvez porque a agitação da rua refletisse a agitação que acontecia dentro dele mesmo.
Enquanto passava por uma ponte, veio o congestionamento: tudo parado. Estava em cima de um rio que parecia profundo porque a água era suja e turva. Concentrado, Henrique fitava o rio, e deixou-se levar por ele. Mergulhou em suas águas sujas e lavou ali sua mente. Provavelmente não encontraria ali monstros abissais em guerra, nem gêiseres ou pérolas. Ninguém mais olhava além dele, porque ninguém nunca quis prestar atenção, mas havia sombras na água, talvez reflexos da superfície, mas o rio não estava vazio. Uma garrafa boiando era um fenômeno fantástico, um peixe de plástico. Depois pequeninas bolhas e, ainda menores, redemoinhos.
Então Henrique derramou-se inteiramente ali. A superfície era opaca e quase lisa; havia algum movimento lento. E, tal como faziam as bruxas da idade média e de sempre (porque as bruxas continuavam bem vivas) em suas panelas, ele fixava a vista naquelas águas, naquela ondulação do rio. Como se olhasse para um espelho negro, numa espécie de transe foi que entrou ali e encontrou Luciana: via seu rosto na água.
Algum tempo depois ― para Henrique, foram segundos ―, o ônibus parou na estação final e todos os passageiros desceram, inclusive ele. Os prédios ao redor eram antigos, quase históricos. A rua era estranha e as pessoas também, por isso ele só seguiu caminhando para onde lhe levasse o passo, sem se preocupar com nada; alguém diria que estava completamente distraído, mas, na verdade, encontrava-se completamente dedicado. De fato, o tempo passara, porque o céu mudara, escurecera. Não fosse o hábito de olhar para o chão, Henrique não teria percebido uma sombra que lhe acompanhava, rente à sua própria sombra. Na calçada, indo um pouco à sua frente, como querendo indicar o caminho, havia a silhueta de um pássaro em voo. Henrique levantou a cabeça ― nenhum pássaro, apenas a sombra.
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