O teto encantado do Salão Principal espelha o humor da manhã: nuvens pesadas e baixas se movem preguiçosamente, permitindo ocasionalmente que um tímido raio de sol de outubro escape por entre suas brechas. Ainda é cedo, e apenas alguns alunos madrugadores ocupam as longas mesas das casas.

Na mesa da Corvinal, parcialmente escondida atrás de uma jarra de suco de abóbora, Luna Lovegood lê O Pasquim de cabeça para baixo, seus brincos de rabanete balançando suavemente a cada movimento. A Campainha-Lunar em sua orelha emite um brilho suave e constante.

Cassian desliza a varinha para fora do bolso, seus dedos firmes em um movimento quase automático. Ele aponta para o pequeno pedaço de pergaminho e murmura: "Volantis Scriptum." O papel se dobra suavemente, como se ganhasse vida própria, transformando-se em um pássaro delicado que levanta voo sem fazer som.

O origami encantado desliza como uma pena pelo ar, suas asas batendo em um ritmo suave enquanto navega entre as velas flutuantes. Alguns alunos sonolentos erguem brevemente os olhos de seus cafés da manhã para observar sua passagem, mas logo voltam à letargia matinal.

O pássaro de papel pousa com delicadeza ao lado da tigela de mingau de Luna. Ela o pega com sua habitual expressão sonhadora, seus olhos azuis percorrendo as palavras que pedem um encontro antes das aulas, perto da estátua em um corredor pouco usado do segundo andar. Um pequeno sorriso surge em seus lábios enquanto guarda o bilhete no bolso das vestes.

Cassian deixa o Salão Principal rapidamente, fazendo apenas um breve aceno para seus colegas de casa. Os corredores do castelo ainda estão relativamente vazios, e seus passos ecoam contra as antigas paredes de pedra enquanto ele sobe as escadas para o segundo andar.

O corredor escolhido é um dos menos frequentados de Hogwarts, iluminado apenas pela luz fraca que entra através das janelas altas. A estátua — um velho bruxo de barba comprida segurando um livro — projeta uma sombra longa no chão de pedra. Alguns retratos sonolentos nas paredes observam com desinteresse enquanto Cassian aguarda.

Não demora muito para que ele ouça os passos característicos de Luna — leves e rítmicos, quase saltitantes. Ela surge ao virar o corredor, seu cabelo prateado captando a luz da manhã que entra pelas janelas. A Campainha-Lunar em sua orelha emite o brilho suave de sempre.

"Bom dia, Cassian," diz Luna com um sorriso leve, sua voz soando como um eco da chuva lá fora. "Gostei do seu pássaro de papel. Muito elegante."

O corredor permanece deserto, com apenas o murmúrio distante do castelo despertando ao redor deles. Cassian cumprimenta Luna e segue para o ponto.

"Luna, acho que precisamos agir. A ideia de impressionar o Slughorn é boa mas pode demorar. O que me diz de entrarmos hoje depois das aulas na Seção Reservada?"

Luna se aproxima um pouco mais, baixando a voz enquanto "Hoje?" Ela considera por um momento, seus olhos grandes e pensativos. "Bem, sexta-feira à noite a biblioteca costuma ficar mais vazia. A maioria dos alunos está ansiosa demais pelo fim de semana para estudar."

Um ruído distante de passos ecoa pelo corredor adjacente — provavelmente alunos começando a se movimentar para as primeiras aulas do dia. Luna olha rapidamente ao redor antes de continuar, sua voz ainda mais baixa: "E você acha que consegue manter o feitiço de invisibilidade em nós dois por tempo suficiente?"

"Acho que sim. Eu pratiquei durante a semana, mas não por muito tempo," responde Cassian, antes de explicar o plano: esperar até um minuto antes do fechamento, entrar invisível e se esconder no banheiro até a biblioteca fechar.

Os olhos de Luna brilham em compreensão. "O banheiro dentro da biblioteca..." ela reflete, inclinando levemente a cabeça. "É uma boa ideia. Madame Pince nunca verifica depois de fechar." Ela faz uma pausa, considerando algo. "Mas e a Murta? Aquele é um dos banheiros que ela costuma visitar às vezes. Ela pode fazer um escândalo se nos encontrar lá."

"Não o banheiro perto da biblioteca," corrige Cassian rapidamente, "o banheiro que tem dentro da biblioteca."

O rosto de Luna se ilumina com entendimento. "Ah, boa idéia!" sussurra ela, parecendo mais animada. "É perfeito. Quase ninguém usa... Na verdade, acho que metade dos alunos nem sabe que ele existe."

Ela se aproxima ainda mais, sua voz quase inaudível. "Onde nos encontramos? E precisamos levar algo além das varinhas?" A Campainha-Lunar em sua orelha emite um brilho mais intenso, como se respondesse à crescente excitação do momento.

O barulho de alunos se movimentando pelos corredores aumenta — o café da manhã deve estar terminando, e as aulas começam em breve.

"Às 19h45, perto da biblioteca," diz Cassian em voz baixa. "Ela fecha às 20h. Temos que entrar invisíveis um minuto antes de fechar."

Luna acena afirmativamente, seus brincos de rabanete tilintando suavemente com o movimento. "19h45, então. E vou tomar cuidado para não usar nada que faça barulho," diz ela, tocando levemente seus brincos.

Os passos e vozes se aproximam cada vez mais — Pansy e seu grupo parecem prestes a virar o corredor.

"Melhor irmos," sussurra Luna, já se movendo em direção à saída oposta do corredor. "Boa sorte com a McGonagall hoje. E cuidado com os Zonzóbulos na aula de História da Magia — eles adoram salas sonolentas."

Cassian percebe que está atrasado assim que ouve o som do relógio do corredor ecoando ao longe. Ele acelera o passo, ajustando a alça da mochila no ombro, e tenta ignorar a pontada de ansiedade que cresce. Ao entrar na sala de aula, sua respiração está ligeiramente ofegante.

"Desculpe, professora," diz ele, parando na porta. "Tive que desviar o caminho por conta do Pirraça e acabei me atrasando."

A Professora McGonagall ergue o olhar por cima de seus óculos quadrados, seus lábios comprimidos em uma linha fina de desaprovação. "Sr. Blackwood. Enquanto Pirraça pode ser... inconveniente, sugiro que planeje suas rotas com mais antecedência no futuro. Cinco pontos serão deduzidos da Sonserina." Ela faz um gesto em direção aos assentos vazios. "Agora, por favor, sente-se para podermos continuar com nossa lição sobre Transformação Cruzada de Espécies."

Cassian sente o peso do olhar de alguns colegas enquanto se move rapidamente em direção aos assentos. Edgar discretamente move sua mochila do lugar ao lado, indicando o espaço disponível.

"Obrigado," murmura Cassian ao sentar-se entre Edgar e Mirna. Ele abre o livro na página indicada, tentando ignorar o calor que ainda sente no rosto após o comentário da professora. Na frente da sala, um conjunto de gaiolas cobertas emite sons suaves e leves movimentos que prendem sua atenção por um momento.

Seus olhos voltam para o livro à sua frente. O capítulo sobre Transformação Cruzada de Espécies se estende diante dele.:

A Arte da Transformação Cruzada

Transformar um ser de uma espécie para outra é um feito extraordinariamente complexo, que vai muito além da transfiguração básica de objetos inanimados. Ele requer:

Visualização Clara: O conjurador deve imaginar a anatomia, o comportamento e os traços mágicos da espécie desejada com precisão.

Concentração Máxima: Pequenos erros podem resultar em deformidades, híbridos instáveis ou na perda de características essenciais.

Movimentos Precisos: O feitiço exige gestos fluidos e específicos com a varinha, geralmente em um formato contínuo de "S" para simbolizar a transição entre formas.

Exemplo de feitiço usado: "Mutare Speciem"

Pronúncia: Moo-TAH-reh SPEH-see-em

Efeito: Transforma temporariamente uma criatura viva em outra espécie com características similares.

Casos Históricos e Aplicações

Animagia Mal-Sucedida: Antes da regulamentação da Animagia, muitos bruxos tentaram se transformar em animais por meio da transfiguração cruzada. A maioria desses experimentos resultou em híbridos instáveis ou danos permanentes, como a incapacidade de falar ou de retomar a forma humana.

Uso em Tratamentos Médicos: Em casos raros, hospitais mágicos utilizam a transformação cruzada para curar doenças ou regenerar partes do corpo. Por exemplo, transformar temporariamente um bruxo em um réptil pode incentivar a regeneração de tecidos perdidos.

Experimentação Ilegal:

Bruxos inescrupulosos usaram essa técnica para fins obscuros, como transformar pessoas em animais contra a vontade delas. Essa prática é estritamente proibida pelo Ministério da Magia é considerada uma violação gravíssima.

Ética da Transformação Cruzada

A transfiguração de seres vivos levanta questões éticas significativas, como:

Consentimento: Transformar um ser vivo sem sua permissão é uma violação grave da ética mágica. Isso se aplica tanto a humanos quanto a criaturas mágicas conscientes.

Impacto Emocional e Psicológico: Ser transformado, mesmo temporariamente, pode causar traumas profundos, especialmente em criaturas mágicas com forte vínculo com sua identidade.

Consequências Permanentes: Existe o risco de que traços da nova espécie permaneçam após o término do feitiço, como vozes alteradas, deformidades ou comportamentos instintivos indesejados.

Perigos e Riscos

Híbridos Instáveis: Se mal executada, a transformação pode deixar o alvo preso entre duas formas, resultando em deformidades físicas ou na perda de funções vitais.

Efeitos Colaterais Mágicos: A magia envolvida na transformação cruzada pode desestabilizar o equilíbrio mágico do alvo, tornando-o vulnerável a feitiços e maldições.

Perda de Identidade: Transformações prolongadas podem levar à perda de traços de personalidade, com o alvo assumindo comportamentos instintivos da espécie transformada.

Precauções

Preparação Adequada: O conjurador deve estudar detalhadamente a biologia mágica da espécie-alvo antes de tentar qualquer transformação.

Supervisão: Transformações cruzadas só devem ser realizadas sob a supervisão de um especialista em transfiguração.

Limitações de Tempo: Transformações prolongadas aumentam os riscos de permanência de traços indesejados.

Conclusão

A Transformação Cruzada de Espécies é um testemunho do poder e da complexidade da transfiguração, mas também um lembrete das responsabilidades que vêm com essa habilidade. Apesar de seu potencial para inovação, cura e experimentação, os riscos envolvidos e as implicações éticas tornam essa prática uma das mais debatidas no mundo mágico.

"Como eu estava dizendo," continua McGonagall, sua voz severa ecoando pela sala, "a Transformação Cruzada requer um entendimento profundo de ambas as espécies envolvidas. Não é simplesmente uma questão de mudar a forma — vocês precisam compreender a essência de cada criatura."

Com um movimento fluido de sua varinha, ela transforma o pássaro em sua mesa em um elegante lagarto verde-esmeralda. O animal pisca, aparentemente confuso com sua nova forma, suas patas curtas tateando a superfície da mesa.

"Hoje, vocês tentarão transformar seus lagartos em pássaros. Lembrem-se da importância da visualização clara e da precisão do movimento da varinha."

O lagarto à frente de Cassian o observa fixamente, sua língua bifurcada testando o ar em intervalos. Há algo desconcertante no olhar penetrante da pequena criatura, como se ela soubesse algo que ele não sabe. Depois de alguns momentos de hesitação, ele ergue a mão.

McGonagall se vira em sua direção, suas sobrancelhas levemente erguidas em curiosidade. "Sim, Sr. Blackwood?"

O burburinho na sala diminui. Outros alunos pausam suas tentativas de transfiguração para observar, suas varinhas ainda suspensas no ar, enquanto McGonagall ajusta os óculos quadrados. O silêncio é pontuado apenas pelos leves ruídos dos lagartos, que arranham as mesas ou deslizam sobre o pergaminho.

"O que gostaria de perguntar?" repete McGonagall, sua voz firme, mas com uma ponta de paciência.

"Professora, eu prefiro não praticar esse encantamento," diz Cassian, sua voz firme apesar da hesitação que sente. "Eu não gosto da ideia de forçar uma criatura a outra forma. Não acho certo tratar qualquer vida de forma experimental."

Um silêncio profundo cai sobre a sala. Os alunos da Sonserina trocam olhares confusos, enquanto outros ficam desconfortavelmente conscientes de seus próprios lagartos parcialmente transformados sobre as mesas. A luz do sol que entra pelas janelas altas parece congelar no ar por um instante, como se o tempo tivesse parado.

A Professora McGonagall o observa por um longo momento através de seus óculos quadrados. Sua expressão é uma mistura de surpresa e... seria isso um toque de aprovação? O silêncio na sala é quase palpável, o único som é o leve arranhar das garras de um lagarto na madeira.

"Sr. Blackwood," ela finalmente responde, sua voz mais suave do que o habitual. "Embora a prática seja necessária para os N.O.M.s, sua preocupação com o bem-estar das criaturas é... admirável." Ela faz uma pausa significativa, deixando suas palavras ecoarem. A sala parece respirar novamente, o burburinho de vozes retornando gradualmente. McGonagall se aproxima da mesa de Cassian. "No entanto, esse tópico é obrigatório e essencial para seus exames. Por favor, permaneça após a aula."

Cassian observa o pequeno animal por um instante e, num gesto inesperado, ergue a mão novamente.

A Professora McGonagall, que mal tinha se afastado de sua mesa, voltou-se em sua direção. "Sim, Sr. Blackwood? Mais alguma consideração?"

A classe continuava em silêncio, a maioria dos alunos ainda observando a interação com interesse. Edgar, ao seu lado, havia parado completamente sua tentativa de transfiguração, seu lagarto meio-emplumado parecendo aliviado com a pausa.

"Porque essa prática é considerada legal?" Cassian perguntou, sua voz carregando uma nota de indignação contida. "Pra mim ela é tão ruim quanto a maldição Imperius, ela pode deixar graves sequelas e traumas."

Um murmúrio de espanto percorreu a sala. Comparar uma prática de Transfiguração aprovada pelo Ministério com uma Maldição Imperdoável não era algo que se ouvia todos os dias em Hogwarts.

McGonagall pousou sua varinha na mesa e olhou profundamente para ele, uma expressão séria em seu rosto. "Sr. Blackwood," ela começou, sua voz firme mas não ríspida, "essa é uma questão complexa que tem sido debatida por séculos no mundo mágico." Ela fez uma pausa, considerando suas palavras cuidadosamente. "A diferença principal está no propósito e no contexto. A Maldição Imperius é projetada especificamente para dominar e controlar, sem qualquer benefício para o alvo."

Ela caminhou alguns passos em direção ao quadro, onde um diagrama mostrava as etapas da transformação. "A Transformação Cruzada de Espécies, quando praticada adequadamente e com supervisão apropriada, tem aplicações médicas vitais e propósitos educacionais específicos. No entanto..." ela se voltou novamente para Cassian, "suas preocupações não são infundadas. É por isso que existem regulamentações estritas sobre seu uso fora do ambiente acadêmico."

"Entendi, professora. Obrigado," responde Cassian, fazendo uma leve reverência.

A Professora McGonagall acena brevemente com a cabeça em reconhecimento antes de voltar sua atenção para o restante da classe, retomando a supervisão das tentativas de transfiguração.

Edgar se inclina ligeiramente na direção de Cassian. "Eu nunca tinha visto alguém questionar a McGonagall dessa forma," ele sussurra, observando seu próprio lagarto parcialmente transformado com um olhar diferente. "Próximo passo é fazer isso com Snape" Um sorriso malicioso se espalha no rosto de Edgar.

Do outro lado da sala, alguns alunos hesitam mais em suas tentativas de transfiguração, lançando olhares pensativos para suas criaturas. Ambrose, no entanto, parece redobrar o esforço, brandindo a varinha com ainda mais vigor, como se quisesse provar algo.

O lagarto de Cassian permanece intocado sobre a mesa, ocasionalmente inclinando a cabeça em sua direção, os olhos pequenos brilhando com curiosidade. Ele percebe que Mirna, sentada próxima, também não tentou transformar seu lagarto.

Quando ela nota o olhar de Cassian, sorri de forma discreta e tímida, inclinando levemente a cabeça em um gesto que parece aprovação. Com um movimento sutil, desliza um pedaço de pergaminho em sua direção. Cassian pega o papel e lê a mensagem escrita em uma letra delicada:

"Também não concordo com isso. Obrigada por abrir esse debate com a professora."

"Eu não entendo essas práticas," comenta Cassian para Mirna, mantendo a voz baixa. "Eu cresci em um lugar rodeado por animais, e tratá-los dessa forma me deixa desconfortável."

Mirna se inclina um pouco mais em sua direção, falando em um sussurro tão baixo que passa despercebido na agitação da sala. "Minha família tem um santuário para criaturas mágicas feridas no País de Gales," ela revela, seus olhos castanhos ganhando uma súbita animação. "Já vi o que acontece quando transformações dão errado... às vezes recebemos animais que foram vítimas de transfigurações malfeitas. É assustador."

O lagarto de Mirna se move devagar até a borda da mesa, como se estivesse ouvindo a conversa. Ele para próximo ao de Cassian, os dois répteis agora imóveis, parecendo compartilhar um momento silencioso de paz.

"Não sabia que você tinha crescido no campo," continua Mirna, ainda em voz baixa, mas com um tom curioso. "A maioria das famílias antigas vive em mansões..."

A sineta está prestes a tocar, e McGonagall começa a orientar os alunos a reverterem as transformações que conseguiram realizar.

"A minha família também vive em uma mansão" responde Cassian com um sorriso quase imperceptível, organizando seu material. "Mas as paredes de pedra estão cercadas de campos abertos. Não é muito longe daqui. Por isso, nunca venho de trem."

Mirna parece genuinamente interessada, seus olhos se iluminando com a informação. "No norte da Escócia? Deve ser maravilhoso..." ela começa, mas é interrompida pelo som da sineta.

"Muito bem, classe," a voz firme da Professora McGonagall se sobrepõe ao barulho dos alunos guardando seu material. "Quero quarenta centímetros de pergaminho sobre as implicações éticas da Transformação Cruzada de Espécies para a próxima aula. Sr. Blackwood, não se esqueça de permanecer."

Os alunos começam a sair da sala, deixando o ambiente mais tranquilo. Mirna recolhe seu lagarto com gentileza, acariciando-o levemente antes de sussurrar um "até mais" para Cassian. Ela segue até a frente da sala para devolver a criatura. Edgar passa por ele e dá um tapinha em seu ombro, acompanhando os demais enquanto se retira.

A sala logo fica silenciosa, exceto pelo som ocasional dos instrumentos de transfiguração tilintando enquanto McGonagall os organiza em sua mesa. A luz do sol da manhã entra pelas janelas altas, projetando padrões geométricos no chão de pedra, e o ar parece carregar a expectativa do momento.

Depois de um instante, McGonagall termina de organizar seus instrumentos e caminha até a mesa de Cassian, seus passos ecoando na sala vazia. Com um aceno suave da varinha, ela conjura uma cadeira para si e se senta, ajustando os óculos enquanto o observa atentamente por cima das lentes.

"Sr. Blackwood," começa McGonagall, seu tom mais suave do que o habitual. "Sua posição hoje foi... inesperada, mas não deixa de ser válida. No entanto, precisamos discutir como você pretende lidar com este tópico nos N.O.M.s."

Ela faz uma pausa, observando-o atentamente por trás dos óculos. "A Transformação Cruzada de Espécies é uma parte obrigatória do exame. Embora eu respeite suas convicções — e devo dizer que são admiráveis — você precisará demonstrar competência nesta área para ser aprovado."

O sol da manhã entra pelas janelas altas, projetando sombras alongadas que parecem dançar no chão de pedra. Num dos cantos da sala, um dos instrumentos prateados de transfiguração emite um brilho perolado suave, refletindo a luz do dia.

"Tenho uma proposta para você, se estiver disposto a ouvir."

"Obrigado professora," responde Cassian com respeito, mantendo o tom calmo.

McGonagall se ajeita na cadeira, inclinando-se ligeiramente para a frente. "Bem," ela diz, com um pequeno aceno de cabeça, "existem métodos alternativos para praticar transformação sem utilizar criaturas vivas. Objetos encantados que simulam características biológicas, por exemplo."

Com um movimento preciso da varinha, uma pequena caixa flutua elegantemente de sua escrivaninha até a mesa de Cassian, pousando suavemente diante dele.

Ao abrir a caixa, McGonagall revela o que parece ser um lagarto perfeitamente esculpido em madeira, mas que se move com a naturalidade de um ser vivo.

"Esta é uma ferramenta de treinamento antiga. Costumávamos usá-la para estudantes que..." ela faz uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado, "demonstravam sensibilidade excepcional em relação a criaturas vivas. O modelo reage à transfiguração exatamente como um ser vivo, mas sem as implicações éticas que o preocupam."

Ela observa Cassian por um instante, como se avaliasse sua reação, antes de continuar. "Posso emprestar isto a você para praticar, com a condição de que compareça a algumas sessões extras de treinamento comigo. Quero garantir que esteja preparado para os N.O.M.s. O que me diz?"

O lagarto de madeira se move sobre a mesa, sua cauda balançando com tamanha naturalidade que seria fácil confundi-lo com um animal real, não fosse o suave brilho de sua superfície polida.

Cassian hesita por um momento, a mão pousada na borda da mesa, antes de finalmente responder. "Professora, eu sei executar o feitiço," ele diz, sua voz firme, mas carregada de uma leve hesitação. Ele faz uma pequena pausa, escolhendo suas palavras. "Eu... a senhora sabe quem é meu irmão, certo? Ele me ensinou muitas coisas, e uma delas foi esse feitiço. Foi exatamente como a senhora explicou agora, com um objeto que não é um animal real."

Ele ergue os olhos para McGonagall, encontrando seu olhar atento. "Posso demonstrar pra senhora?"

Os olhos de McGonagall brilham com reconhecimento à menção do irmão de Cassian. "Ah, sim... Norman Blackwood. Um dos alunos mais brilhantes que já passaram por esta sala." Ela faz uma pausa, estudando Cassian com renovado interesse. "E sim, Sr. Blackwood, pode demonstrar."

Ela coloca o lagarto de madeira na mesa, recuando ligeiramente para lhe dar espaço. A luz da manhã reflete nas superfícies polidas da criatura artificial, que continua a se mover com fluidez e naturalidade.

O sol que entra pelas janelas altas cria um ambiente quase solene na sala vazia. Apenas o leve tilintar dos instrumentos de prata na mesa da professora quebra o silêncio, adicionando uma nota delicada à tensão do momento.

Cassian saca sua varinha com um movimento seguro e executa o encantamento com precisão. "Mutare Speciem," pronuncia com clareza, enquanto sua varinha traça um 'S' perfeito no ar. O gesto é fluido e controlado, exibindo a confiança de quem já praticou inúmeras vezes.

O lagarto de madeira emite um brilho suave antes de, em um instante, se transformar em um elegante canário dourado. A nova forma, também feita de madeira, mantém o mesmo movimento natural e fluido de antes. Cada detalhe é impecável — das pequenas penas entalhadas com perfeição ao brilho vívido nos olhos de madeira.

McGonagall observa em silêncio por alguns segundos, seus lábios franzidos em uma expressão que mistura aprovação e contemplação.McGonagall se inclina para examinar mais de perto, seus olhos brilhando com clara admiração pela qualidade do trabalho. "Excepcional, Sr. Blackwood," diz ela, um raro sorriso surgindo em seus lábios. "Vejo que Norman manteve seus padrões elevados ao ensinar. Sua técnica é... notável."

Ela se endireita, ajustando os óculos com um gesto preciso. "E devo dizer que concordo com o método de treinamento que ele escolheu. Usar objetos encantados para prática é uma abordagem muito mais ética."

O canário de madeira saltita graciosamente pela mesa, seu comportamento incrivelmente natural, apesar de sua origem artificial.

"Obrigado, professora," responde Cassian, inclinando levemente a cabeça. "Meu irmão sempre foi aficionado por Transfiguração. Ele estava tentando o registro de animago, mas... bem, a senhora sabe, as coisas estão complicadas no Ministério nesse momento."

A expressão de McGonagall se torna mais séria, e sua voz baixa, mesmo que estejam sozinhos na sala. "Sim, o Ministério está... complicado atualmente." Ela pausa por um instante, escolhendo cuidadosamente as palavras. "Seu irmão sempre foi excepcionalmente talentoso. É uma pena que as circunstâncias atuais estejam interferindo em seu progresso."

McGonagall acena com a varinha, revertendo o canário de madeira à sua forma original de lagarto. "Sr. Blackwood, está claro que você domina a técnica necessária para os N.O.M.s. No dia do exame, providenciarei um modelo similar a este para sua demonstração prática."

Ela se levanta com um movimento firme, indicando que a conversa está chegando ao fim. "Se você mantiver contato com Norman, diga a ele que quando as coisas voltarem ao normal, ele tem meu apoio para se tornar um animago." As palavras de McGonagall pairaram no ar enquanto o sino do castelo soava ao longe, seu eco ressoando pelas antigas paredes de pedra. Cassian hesitou por um momento, a menção do irmão evocando uma mistura de orgulho e preocupação.

Guardando cuidadosamente sua varinha, ele junta seus materiais, a mente ainda processando a conversa enquanto o burburinho dos outros alunos crescia ao redor. "Obrigado, professora," diz ele, inclinando levemente a cabeça com respeito antes de se dirigir à porta.

No corredor, conseguiu distinguir a figura de Edgar entre os alunos que se dirigiam ao Salão Principal, sua mochila balançando caracteristicamente enquanto ele conversava com Mirna. O castelo parecia despertar para a hora do almoço. Retratos comentavam animadamente sobre os aromas que subiam das cozinhas, enquanto grupos de alunos desciam as escadas, suas vozes ecoando pelas paredes de pedra. Um fantasma — provavelmente Nick Quase Sem Cabeça — atravessou uma parede próxima, cumprimentando os estudantes com seu habitual floreio dramático.

"Edgar!" chamou Cassian, apressando o passo para alcançar os amigos. "Espere!"

Ao ouvir os passos de Cassian se aproximando, Edgar se vira com um sorriso curioso. "E aí? Como foi? McGonagall não foi muito dura com você, foi?"

"Não, ela só queria garantir que eu estou preparado para os N.O.M.s," responde Cassian, enquanto eles seguem pelo corredor em direção à sala do Professor Binns.

"Bem, conhecendo você e feitiços, imagino que deve ter impressionado ela de alguma forma," comenta Edgar, com um sorriso meio torto, enquanto caminham lado a lado.

Mirna, ainda andando ao lado deles, fala em voz baixa, quase hesitante: "Você realmente mudou a atmosfera da aula hoje. Até Matilda Bletchley disse que se sentiu mal depois de transformar o lagarto dela."

O corredor se enche cada vez mais à medida que outros alunos se dirigem às suas aulas. Fantasmas flutuam preguiçosamente ao longo do caminho, discutindo algo acaloradamente sobre uma nova travessura de Pirraça.

"Prepare-se para a aula mais empolgante do dia," diz Edgar com uma dose pesada de ironia, enquanto se aproximam da sala de História da Magia. "Aposto que Binns vai nos presentear com outra fascinante palestra sobre tratados de duendes."

Eles chegam à porta da sala, onde um fluxo constante de alunos da Sonserina já está entrando. Ambrose Rosier, que está entre eles, lança um olhar rápido na direção de Cassian antes de desaparecer no interior da sala.

"Essa aula..." Edgar boceja enquanto eles descem as escadas em direção ao Salão Principal, "um dia vou descobrir se o Binns percebe que metade da turma dorme enquanto ele fala."

A aula de História da Magia havia sido especialmente tediosa. O Professor Binns dedicara quase uma hora a detalhes minuciosos sobre tratados de duendes, repetindo datas e cláusulas sem qualquer variação no tom monótono de sua voz. Poucos alunos conseguiram manter os olhos abertos até o fim, e Cassian, mesmo fazendo um esforço, percebeu que sua atenção escapava repetidamente para o som distante da chuva lá fora.

O aroma do almoço começa a encher o ar enquanto eles se aproximam do Salão. As mesas já estão se enchendo, e Cassian nota Luna entrando com um grupo de Corvinais. Ela carrega uma edição d’O Pasquim debaixo do braço e parece absorta em seus próprios pensamentos, como se nem percebesse o movimento ao redor.

O céu encantado do teto reflete as nuvens escuras do lado de fora, com alguns raios de sol escapando ocasionalmente por entre as brechas, criando um contraste entre a luz e a sombra.

"Você tá estranho hoje," comenta Edgar enquanto eles se sentam à mesa da Sonserina. "Mais distraído que o normal."

"A aula com o lagarto me deixou incomodado," Cassian responde enquanto começa a se servir. "Você sabe, eu cresci no campo, ao lado de animais."

"Ah, é por isso então," Edgar diz, colocando uma porção de batatas assadas no prato. Ele baixa a voz e se inclina um pouco mais perto. "Sabe, nunca tinha pensado muito sobre isso antes, mas faz sentido. Minha família sempre viveu na cidade, então a gente acaba... não sei, meio que distante dessas coisas."

"Quão longe sua casa é daqui?" pergunta Edgar, enquanto se serve de pudim de carne. "Dá pra ir andando?"

Cassian dá uma risada leve. "Não é tão perto assim a ponto de dar pra ir andando. Mas, se eu gostasse de vassouras, acho que chegaria em uma ou duas horas."

Edgar ergue as sobrancelhas, surpreso. "Duas horas? Isso é praticamente aqui do lado" Ele ri, pegando outra porção. "Se eu pudesse, vinha e voltava durantes as férias, soh pra comer em Hogwarts"

Nesse momento, Mirna senta ao lado deles, juntando-se à conversa. "Então você realmente não gosta de voar?" pergunta ela suavemente, enquanto se serve de suco de abóbora. "É engraçado ver um Sonserino que não é obcecado por Quadribol." Ela sorri timidamente, observando Cassian com curiosidade.

Edgar engole um pedaço de carne antes de acrescentar: "É verdade, você deve ser o único na casa que nunca apareceu nem pra assistir aos treinos."

"Falando em treinos," comenta Mirna, olhando para o teto encantado, onde nuvens escuras se movem ameaçadoramente, "parece que o time da Sonserina vai ter que treinar na chuva hoje."

A conversa é interrompida por um burburinho vindo da entrada do Salão Principal — o time de Quadribol da Grifinória acaba de entrar, ainda com os uniformes de treino enlameados. Draco Malfoy, sentado à mesa da Sonserina, faz um comentário maldoso que provoca risadas entre alguns colegas.

Cassian observa Harry Potter entrar, acompanhado pelos dois Weasley. Rony Weasley parece particularmente mal-humorado, sua expressão azeda destacada pelo estado de suas vestes sujas de lama.

"Não consigo ver graça em Quadribol, mas suponho que seja porque nunca tive muito contato," diz Cassian, voltando-se para Mirna. "E você, gosta?"

Os olhos dela brilham ao ouvir a pergunta, enquanto ela pensa na resposta.

"Eu adoro!" diz Mirna, com um entusiasmo que destoa de sua personalidade geralmente reservada. "Cresci assistindo os Harpies de Holyhead com minha mãe. Ela jogou como artilheira por duas temporadas antes de decidir trabalhar com criaturas mágicas."

Seus olhos castanhos brilham enquanto continua: "Mas não é só o jogo em si, sabe? É toda estratégia, como cada jogador precisa entender seu papel e trabalhar em equipe..." Ela interrompe a própria fala, corando levemente ao perceber o quanto se empolgou. "Desculpa, às vezes eu me animo demais falando sobre isso."

Edgar sorri, claramente divertido com o súbito ânimo dela. "Pelo menos você tem um bom motivo pra gostar. A maioria aqui só liga porque é mais uma desculpa pra rivalidade com a Grifinória."

Na mesa da Grifinória, Rony Weasley discute acaloradamente com Harry Potter, gesticulando de forma exagerada enquanto Harry Potter mantém uma expressão calma, mas claramente exasperada.

"Qual é a próxima aula?" pergunta Mirna, mudando de assunto.

"Temos um horário livre agora," responde Cassian, enquanto termina de beber o suco de abóbora. "Depois, poções com a Grifinória."

"Ah, é verdade. Pelo menos o Professor Slughorn não é tão... intimidante quanto o Professor Snape era."

Edgar resmunga algo enquanto termina seu pudim de sobremesa. "E temos um tempo livre antes, dá pra relaxar, ou adiantar alguma tarefa."

"Vocês viram que ele está montando um clube?" comenta Mirna, dobrando cuidadosamente seu horário e colocando-o de volta na mochila. "O Clube do Slugue. Aparentemente, ele já convidou vários alunos. Harry Potter, é claro, e alguns outros que ele considera... promissores." Ela hesita por um instante antes de acrescentar, com uma leve curiosidade na voz: "Ouvi dizer que ele está especialmente interessado em alunos que se destacam em alguma área específica."

"Bom, Potter, é claro," diz Cassian, soltando uma risada breve. "Imagino que deve ser uma festa desagradável. Ouvir Slughorn falando de gente famosa já é o suficiente durante a aula."

"Nem me fale," Edgar revira os olhos, empurrando o prato vazio para o lado. "Já perdi a conta de quantas vezes ele mencionou sua 'coleção' de ex-alunos famosos só nesse primeiro mês de aula."

Mirna hesita por um momento antes de responder: "Mas... dizem que ele realmente ajuda os alunos que ele gosta. Você sabe, conexões no Ministério, cartas de recomendação..." Ela abaixa a voz, lançando um olhar ao redor. "Em tempos como estes, ter alguém influente do seu lado pode fazer diferença."

O Salão Principal começa a esvaziar aos poucos, com grupos de alunos saindo para aproveitar o tempo livre antes das aulas da tarde. As nuvens no teto encantado estão ainda mais escuras agora, parecendo ameaçar uma tempestade iminente.

"O que vocês vão fazer no tempo livre?" pergunta Edgar, enquanto se levanta e estica os braços.

"Vou tentar finalizar uns deveres," responde Cassian, levantando-se também. Os três seguem juntos para a sala comunal da Sonserina, onde Cassian permanece até a hora da aula.

A aula de Poções corre pior do que o esperado. Mesmo com a ajuda de Creevey, a poção para curar ferimentos causados por mosquitos-da-sibéria sai muito abaixo do aceitável. Creevey parece intimidado e pede desculpas repetidamente, mas, como Cassian não demonstra estar chateado, o garoto fica visivelmente aliviado.

Quando a aula termina, Cassian inventa uma desculpa para Edgar antes de sair apressado. Ele caminha pelos corredores vazios, decidido a evitar a vista de qualquer pessoa até o momento de invadir a biblioteca.

Cassian encontra um lugar tranquilo em um dos corredores menos usados do quarto andar, próximo a uma janela que dá para os jardins. Lá fora, a chuva finalmente começa a cair, batendo suavemente contra os vitrais. No campo de Quadribol, o treino da Sonserina continua, apesar do tempo. Pequenas figuras em verde cortam o céu cinzento, parecendo insignificantes diante da vastidão da tempestade.

O corredor está silencioso, interrompido apenas pelo ocasional rangido das armaduras antigas e o som distante de Pirraça aprontando alguma travessura em outro andar. De vez em quando, um fantasma atravessa as paredes próximas, mas nenhum parece dar atenção a Cassian.

Ele consulta o relógio e percebe que ainda faltam algumas horas para o encontro com Luna. À medida que a tarde avança, o castelo vai ficando mais escuro, e as tochas nas paredes se acendem magicamente, uma a uma, lançando sombras dançantes no chão de pedra.

Cassian puxa seu caderno de anotações, o mesmo que construiu junto com Norman, e começa a passar os olhos pelos feitiços que seu irmão lhe ensinou. Ele busca algo que possa ser útil mais tarde. Depois de revisar algumas páginas, troca o caderno por um livro de transfiguração, mergulhando nos diagramas e explicações enquanto as horas se arrastam lentamente.

O relógio marca 19h15. Em meia hora, Cassian precisa começar a se mover para encontrar Luna. Guardando seus materiais com cuidado, ele se dirige ao ponto combinado próximo à biblioteca.

Os corredores do castelo estão quase desertos agora que o jantar terminou. A maioria dos estudantes já se recolheu às salas comunais, fugindo da chuva e do frio. As tochas nas paredes projetam sombras que parecem dançar nas pedras antigas, enquanto os retratos observam Cassian passar com um interesse sonolento, alguns murmurando baixo entre si.

Quando ele se aproxima do ponto de encontro, percebe que Luna já está lá, parcialmente escondida atrás de uma tapeçaria com um unicórnio bordado. Ela parece ter se preparado para a ocasião — seus brincos de rabanete e o colar de tampinhas estão ausentes, provavelmente para evitar qualquer ruído. A Campainha-Lunar, no entanto, ainda brilha discretamente em sua orelha, embora pareça emitir uma luz mais contida do que o habitual.

"Oi," sussurra Luna ao vê-lo. Sua voz é leve, quase como se fosse parte do som da chuva que ainda bate suavemente contra as janelas. "Os corredores estão bem vazios hoje. Acho que a chuva deixou todo mundo com preguiça de sair das salas comunais."

Pela porta entreaberta da biblioteca, eles podem ver Madame Pince em sua mesa, organizando alguns papéis com movimentos meticulosos. O relógio da parede marca cerca de 10 minutos para o horário de fechamento.

"Vamos esperar," sussurra Cassian, aproximando-se dela. Ele aponta para a Campainha-Lunar com um gesto discreto. "Acho melhor você esconder isso. Pode chamar atenção quando tudo estiver escuro."

"Ah, sim, claro," sussurra Luna, removendo cuidadosamente a Campainha-Lunar e guardando-a no bolso das vestes. "Ela fica mais brilhante quando está agitada"

Eles observam pela porta entreaberta enquanto Madame Pince inicia seu ritual de fechamento. A bibliotecária organiza os últimos livros devolvidos, verifica as mesas para garantir que nenhum material foi esquecido e lança olhares severos para os poucos alunos ainda presentes, que começam a guardar seus pertences apressadamente.

"Acho que está quase na hora," murmura Luna, sua voz mal passando de um sopro. Pelas janelas altas da biblioteca, a chuva continua caindo, o som constante das gotas batendo nos vidros criando um pano de fundo que ajuda a mascarar qualquer ruído que eles possam fazer.

O relógio marca 18h59. Cassian olha rapidamente para Luna antes de segurar sua mão. Ele murmura "Vellare Visum" enquanto toca a testa dela, repetindo o gesto consigo mesmo. Um brilho sutil e quase imperceptível envolve os dois antes de desaparecer completamente.

Com passos calculados, eles se movem em direção à biblioteca, silenciosos como sombras. Entram escondidos em uma cabine do banheiro anexa, a porta se fechando suavemente atrás deles. Alguns segundos depois, o som da chave girando ecoa pela sala, seguido pelo clique firme da porta principal sendo trancada por Madame Pince.

A escuridão os envolve completamente quando o feitiço faz efeito — uma sensação estranha, como se um ovo gelado tivesse sido quebrado sobre suas cabeças. Eles se movem pela biblioteca com passos sincronizados e cuidadosos, cada som abafado pelo silêncio ao redor. O banheiro, parcialmente na penumbra, é iluminado apenas pela fraca luz que entra pelas janelas altas, onde a chuva continua caindo.

Dentro da cabine, eles ouvem os passos meticulosos de Madame Pince ecoando pelo piso de pedra. O som da pesada porta da biblioteca sendo fechada. O tilintar metálico das chaves girando na fechadura. E, então, silêncio absoluto.

A chuva tamborila contra as janelas, criando sombras que dançam nas paredes e ampliando a atmosfera de espera. Cassian e Luna permanecem imóveis, atentos, enquanto o tempo parece se arrastar. Apenas para garantir, decidem esperar mais alguns minutos.

Luna aperta levemente a mão de Cassian, ainda invisível, e sussurra tão baixo que sua voz quase se mistura ao som da chuva: "Acho que ela foi embora."

"Espere," Cassian sussurra de volta, sua voz firme, mas controlada. A invisibilidade já se dissipou, mas ele não arrisca se mover sem antes verificar. Saindo da cabine, ele abre a porta do banheiro devagar, sua varinha em punho. Apontando para o corredor, ele murmura: "Absolvo Totalis."

Um brilho sutil percorre a entrada da biblioteca enquanto o feitiço se espalha pelo ambiente. Ele sabe que o encantamento desativa a maioria dos feitiços de proteção, exceto os mais poderosos. Cassian observa por um momento, atento a qualquer reação.

"Acho que está seguro. Vamos!" Ele faz sinal para Luna, e os dois avançam com cuidado, o som de seus passos quase engolido pela chuva persistente lá fora.

"Impressionante," sussurra Luna, emergindo do banheiro atrás de Cassian. Seus olhos brilham na penumbra enquanto ela observa os vestígios do feitiço dissipador pairando no ar como uma névoa prateada.

A biblioteca está mergulhada em sombras, quebradas apenas pelos clarões de relâmpagos distantes. As estantes altas criam silhuetas fantasmagóricas no chão, enquanto o cheiro dos livros antigos parece ainda mais vívido, como se sussurrassem segredos.

A Seção Reservada fica do outro lado do salão principal — suas prateleiras protegidas por uma corda grossa que parece vibrar levemente com uma magia invisível, exalando aquela aura peculiar de conhecimento proibido. A chuva continua batendo ritmicamente nas janelas, proporcionando uma cobertura sonora natural para os passos cautelosos dos dois.

Ao longe, o som do relógio do castelo batendo as horas ecoa, um lembrete sutil do tempo que passa.

Eles se movem silenciosamente em direção à seção proibida, os olhos atentos a qualquer sinal de movimento ou som fora do normal. Começam a vasculhar os livros, passando os olhos por uma infinidade de títulos. Cassian abre alguns volumes, mas nada parece falar sobre o que procuram. Cada página folheada aumenta a sensação de estar procurando uma agulha em um palheiro.

Quando a frustração começa a se instalar, Luna surge ao lado dele, segurando um livro de capa desgastada. O título, escrito em letras douradas que brilham fracamente na escuridão, chama sua atenção: "As Magias Perdidas: Enigmas Antigos e Lendas."

Luna abre o livro com cuidado, e as páginas amareladas crepitam suavemente no silêncio da biblioteca. À luz fraca de suas varinhas, seus olhos encontram um título no índice que chama a atenção: "Capítulo 7: O Espelho da Ancestralidade."

"Poucos são os que ousam falar sobre o Espelho da Ancestralidade..." lê Luna, em um sussurro quase inaudível, enquanto seus dedos percorrem as linhas do texto.

Capítulo 7: O Espelho da Ancestralidade

Poucos são os que ousam falar sobre o Espelho da Ancestralidade. Mesmo aqueles que afirmam ter ouvido os ecos de sua existência hesitam em relatar o que sabem, como se o próprio nome do artefato provocasse algo em seu íntimo. Há quem diga que ele nunca existiu; outros, no entanto, acreditam que ele está em algum lugar, esperando ser encontrado.

A lenda sugere que o espelho reflete mais do que a aparência física: ele mostraria um reflexo da linhagem, não do corpo, mas do legado, uma projeção do que foi e do que pode vir a ser. Para alguns, isso é o suficiente para justificar a busca incansável. Para outros, é apenas uma história, uma invenção para encobrir a verdadeira natureza de um poder ancestral que os antigos procuraram controlar.

As menções a este espelho raramente são diretas e sempre repletas de ambiguidades. Fala-se de uma floresta antiga, cujos limites não estão em nossa realidade, mas em algum plano paralelo, onde a linha entre o físico e o metafísico se desfaz. Não se sabe onde ela está, ou mesmo se é de fato tangível. No entanto, a conexão com um objeto mágico – o espelho – parece ser indiscutível. Ele teria o poder de revelar, ou até mesmo moldar, o destino de quem o encontra.

O que se sabe, ou pelo menos o que se afirma, é que o espelho não é um objeto como os outros. Ele não está simplesmente em algum lugar esperando ser encontrado, como muitos artefatos mágicos. Ele parece estar em um espaço de transição, à parte da nossa realidade. Uma porta, talvez, para um estado diferente da consciência.

Os olhos de Luna se iluminam com compreensão enquanto ela termina de ler. "Isso explica a conexão com o Bosque dos Sonhos," sussurra, deslizando o dedo suavemente pela página. "Um plano paralelo... onde a linha entre o físico e o metafísico se desfaz. Exatamente como imaginávamos."

Um relâmpago ilumina a biblioteca por um breve instante, seguido pelo som grave do trovão. As sombras das estantes dançam de forma errática nas paredes, intensificando o clima de mistério.

"Cassian," continua Luna, sua voz ainda mais baixa, "isso significa que não podemos simplesmente procurar o espelho em um lugar físico. Precisamos encontrar uma maneira de acessar esse espaço de transição."

Antes que Cassian possa responder, um som distante interrompe o momento. Passos. Eles ecoam pelo corredor do lado de fora da biblioteca, abafados, mas inconfundíveis.

Eles permanecem completamente imóveis, mal ousando respirar. Os passos se aproximam lentamente pelo corredor. Não têm a pressa de um monitor em ronda, mas algo mais... deliberado. Lá fora, a chuva continua batendo nas janelas, com relâmpagos ocasionais iluminando o vidro e lançando clarões inquietantes pela biblioteca.

Luna segura o livro junto ao peito, seus dedos firmes, mas a expressão alerta. As sombras das estantes parecem se mexer a cada clarão, projetando formas distorcidas e inquietantes nas paredes.

Os passos param — bem em frente à porta da biblioteca. O silêncio que se segue é absoluto, quebrado apenas pelo som rítmico da chuva.

Então, eles ouvem: o suave tinir de chaves.

"Deve ser Filch", sussurra Cassian, sacando sua varinha. Seus olhos permanecem fixos na porta enquanto ele faz um gesto rápido em forma de L sobre as páginas do livro. "Duplico Skriptum."

Imediatamente, cópias perfeitas das páginas surgem, deslizando levemente para fora do livro. Luna pega as folhas duplicadas com movimentos rápidos e as guarda em suas vestes, enquanto Cassian faz o mesmo. Com a mesma cautela, ela devolve o livro original ao lugar exato de onde o retirou, garantindo que tudo pareça intacto.

O som da chave girando na fechadura ecoa pela biblioteca vazia. A maçaneta começa a se mover, o clique metálico ressoando como um aviso na quietude opressiva.

"Vellare Visum," sussurra Cassian, tocando primeiro a testa de Luna e depois a sua própria. A sensação gelada do feitiço de invisibilidade os envolve no instante em que a porta range, se abrindo lentamente.

A luz de uma lamparina invade a escuridão da biblioteca, lançando sombras vacilantes pelas estantes. Na entrada, a silhueta curvada de Filch aparece, com Madame Nora, sua gata, deslizando ao lado dele em silêncio absoluto.

"Tem alguém aqui, minha querida?" murmura Filch para a gata, inclinando-se ligeiramente. "Sentiu algum cheiro?"

Cassian aponta rapidamente para uma cadeira no outro lado da sala e murmura: "Animatus Vivere." A cadeira ganha vida, começando a se mover pelo corredor em direção oposta à Seção Reservada, os pés arrastando pelo chão de pedra.

Filch se vira bruscamente ao som do arrastar da cadeira. "Ah-há!" exclama em um sussurro triunfante, erguendo a lamparina. "Pirraça, é você de novo, fazendo das suas?"

Madame Nora ergue as orelhas, seus olhos lampejando na escuridão enquanto se vira na direção do som. Filch ajusta a lamparina, iluminando o caminho à frente, e começa a mancar na direção do corredor onde a cadeira desapareceu, seguido pela gata, que se move com passos silenciosos e precisos.

"Vou pegar você dessa vez, seu poltergeist pestilento..." resmunga Filch, sua voz carregada de frustração e determinação enquanto se afasta lentamente da Seção Reservada.

Luna aperta levemente o braço de Cassian, indicando a porta da biblioteca, que permanece aberta, oferecendo uma rota de fuga perfeita. O feitiço de invisibilidade vibra ao redor deles, sua energia enfraquecendo; Cassian sabe que vai durar apenas mais alguns minutos.

Eles se movem em sincronia perfeita, anos de amizade tornando fácil antecipar os movimentos um do outro. Seus passos são silenciosos contra o piso de pedra enquanto deslizam pela porta aberta da biblioteca. O som de Filch resmungando sobre Pirraça vai ficando cada vez mais distante, abafado pela chuva que tamborila nas janelas altas.

Uma vez no corredor, eles continuam andando rapidamente, mas com cuidado. Luna segura a mão de Cassian com firmeza, seus olhos atentos às sombras ao redor. A tempestade lá fora continua, e ocasionais relâmpagos iluminam os corredores, projetando formas inquietantes nas paredes.

Finalmente, após virarem alguns cantos, eles sentem o feitiço de invisibilidade começar a se dissipar — aquela sensação familiar de algo quente escorrendo sobre suas cabeças. Parando em um corredor próximo à torre da Corvinal, Luna solta a mão de Cassian e tira as páginas copiadas de dentro das vestes, seus olhos brilhando com uma excitação contida.

"Isso foi... intenso," sussurra ela, um pequeno sorriso brincando em seus lábios enquanto alisa as páginas, verificando se estão intactas.

Cassian, ainda ofegante, deixa escapar uma risada baixa. "Nem acredito que conseguimos alguma informação." Ele passa a mão pelo cabelo, molhado pela umidade no ar, e encara as páginas nas mãos de Luna. "Eu estava me sentindo como agulha em um palheiro lá dentro."

Luna olha para ele, seus olhos azuis iluminados pelo breve clarão de um relâmpago. "Você foi incrível," ela responde, sua voz suave, mas cheia de sinceridade. "Eu não teria conseguido sozinha."

Cassian sorri, um pouco sem jeito, mas antes que possa responder, um som distante ecoa pelo corredor. Ambos se viram imediatamente, tensos, mas é apenas o som do relógio marcando as horas.

"Precisamos voltar para nossas salas comunais," diz Luna, relutante, guardando as páginas novamente. Ela olha para Cassian, sua expressão mais séria agora. "Amanhã, podemos começar a decifrar isso... juntos. Temos que entender o que esse espelho realmente significa."

Cassian acena com a cabeça, ainda processando tudo o que aconteceu. "Certo. E... Luna," ele hesita por um momento, antes de continuar, "Obrigado."

Luna apenas sorri novamente, dessa vez de um jeito caloroso, antes de se virar para a escada que leva à torre da Corvinal. Cassian observa enquanto ela desaparece na curva do corredor, sua presença luminosa se desvanecendo na escuridão.

Ao se virar e começar seu próprio caminho de volta à sala comunal da Sonserina, Cassian sente a adrenalina da noite finalmente dar lugar ao cansaço. Mas, misturado ao cansaço, há algo mais — uma centelha de esperança, alimentada pela descoberta que fizeram.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.