O Espectro do Tempo
5 Minha Parceira de Treino
Notas iniciais
Ok, para continuar a história eu vou ter que voltar ao passado mais uma vez. Ou seja, é a hora do flashback (de novo... onde é que eu estava por sinal?).
A Arca do Tempo parecia um sonho de um diretor de filme de ficção-científica transformado em realidade, só que melhor. Tanto do lado de dentro quanto do lado de fora. Mesmo estando totalmente cansado e desanimado, não consegui evitar sentir uma leve empolgação ao ver a nave gigante na minha frente.
A viagem por si só foi um completo frenesi também. A nave levantou voo e passou por uma espécie de portal que nos levou a algo que Lake explicou ser uma zona dimensional alternativa, que permitia Guardiões do Tempo e Derivantes (David vai explicar esses para vocês depois, não se preocupem) a fazerem suas viagens e modularem as propriedades do espaço-tempo conforme necessário. Ele chamou essa zona de Dimensão Neutra.
De todas as dúvidas que eu tinha na minha cabeça, a única que eu consegui colocar em palavras foi:
— A nave tem um sistema de camuflagem?
Lake riu baixinho.
— Sim, tem. Acho que essa nave chamaria atenção demais em qualquer época se não tivesse.
Eu não saberia dizer quanto tempo a viagem durou. Aliás, não saberia dizer se a viagem durou tempo algum. Quanto mais pensava no que Lake tentava me explicar, mais parecia me perder na situação. De qualquer forma, quando a nave aterrissou, eu me vi em uma planície, numa larga clareira de uma ainda mais larga floresta. Olhei para cima e vi que o céu brilhava de forma estranha e que a luz do sol não parecia tão natural. Era quase como se as cores originais do local estivessem sendo refletidas em uma superfície metálica um pouco mais escura.
Vendo meu estranhamento, Lake explicou:
— Estamos em um Ponto de Interseção. Todos os fluxos temporais existentes no nosso universo passam por aqui. Isso acaba gerando esse efeito. — Ele apontou para cima e girou o dedo indicando o céu e a floresta. — É um lugar praticamente isolado na nossa realidade, o que faz dele o melhor lugar para fazermos nossas sedes.
Quando ele falou sede, eu imaginei um prédio, ou talvez um complexo, que abrigasse os Guardiões do Tempo e tudo mais.
Bom, prédio era pouco para o lugar.
Palácio era pouco para o lugar.
Monte Olimpo seria pouco para o lugar.
A sede dos Guardiões do Tempo era uma construção gigantesca, com muros que envolviam uma área que com certeza tinha mais quilômetros quadrados do que muitas cidades. A arquitetura parecia pegar emprestado alguns conceitos de várias épocas, em tons de azul, prata e branco que ajudavam a dar um tom imponente ao lugar. Perdi e recuperei o fôlego algumas vezes.
Lake e eu entramos na construção, ele me apresentando às pessoas que passavam ao redor e me explicando as tecnologias da construção enquanto eu perdia o fôlego novamente ao perceber que a sede era mais impressionante ainda do lado de dentro do que do lado de fora. Várias pessoas, de várias idades e falando diversos idiomas diferentes passavam pela gente, vestindo um uniforme com os mesmos tons de azul e prata do prédio. Talvez minha imaginação já estivesse querendo pregar peças em mim, mas jurei ter visto aliens usando o uniforme dos Guardiões do Tempo também.
Andamos até chegarmos a uma área em céu aberto da construção. Percebi lojas simples que pareciam vender desde livros ou itens de decoração até a peças de armaduras ou armas. Lake me levou em direção a uma loja que aparentava ser uma oficina. Podia-se ver diversos carros pequenos e motos que mais pareciam bicicletas do que motos de verdade. Atrás de um balcão, estava um robô, olhos brancos ao redor de um crânio de metal azul.
— Quer dirigir um? — Perguntou Lake, apontando para um dos mini carros nos quais cabiam duas pessoas.
Franzia a testa e olhei para ele.
— Eu não sei dirigir.
— Não precisa. — Disse ele, dando de ombros. — Eles são bem intuitivos.
Lake fez uma careta, como se ao invés de “bem intuitivos” ele quisesse descrever os carros como “à prova de idiotas”.
— Melhor não. — Respondi, e fiz sinal para que ele dirigisse.
Entramos no carro, enquanto Lake me explicava que os Guardiões do Tempo tinham comida, quartos e outros itens de necessidades básicas já fornecidos, e que as lojas eram quase decorativas, uma espécie de hobbie.
— A vida de Guardiões do Tempo é perigosa, Jonas. — Ele explicou. — É difícil para nós ficarmos no mundo normal, por isso muitos de nós prefere construir suas vidas aqui. Estudar, criar uma família, exercer uma profissão. Essas coisas.
E então deu um suspiro, que pareceu expressar uma mistura de cansaço e decepção.
Depois de alguns minutos dirigindo, Lake parou em frente a uma seção da construção que parecia uma pequena vila. Havia outras na sede, mas essa parecia mais específica.
Descemos do carro e fomos parados por um jovem negro, devia ter cerca de 20 anos, que tinha o sorriso aberto.
— E aí, Mestre Lake. — O jovem disse. — Quem é esse? — Ele me deu um tapinha no ombro.
Antes que eu pudesse me apresentar, Lake respondeu:
— Lucas, esse é Jonas. — E então apontou para mim. — Jonas, Lucas.
Lucas apertou minha mão e olhou para mim com uma expressão que indicava que Lake fazia aquilo muitas vezes, gostava de interromper as pessoas.
— Eu sou o monitor da vila. — Lucas disse. — Aqui estão os estudantes e aspirantes a Guardiões do Tempo. Meu trabalho é garantir a paz. — Ele franziu a testa e fez movimentos circulares com a mão olhando para a vila, como se paz não fosse um conceito para Guardiões do Tempo.
Lake assentiu levemente e olhou para mim.
— Lucas vai levar você até o seu dormitório. Você vai precisar de um lugar para descansar, e principalmente, precisa de um lugar urgente para tomar banho. — Eu me ofenderia, mas ao olhar para baixo percebi que ainda estava com as roupas da visita ao laboratório, ainda úmidas. — Quando chegar lá, ele vai te explicar melhor a vida na vila.
Enquanto Lucas me guiava pela vila, me apresentando a outros estudantes, meu estômago pesou com a súbita noção de que eu passaria um bom tempo na sede dos Guardiões do Tempo. Até saber como controlar meus poderes provavelmente levaria anos, e no meio disso ainda teria que encontrar Nate. Respirei fundo, pensando nos meus pais e pensando que faria tudo isso para poder voltar a eles.
Finalmente Lucas me parou em frente a uma casinha pequena e abriu a porta.
Assim como tudo naquele lugar, a casa parecia um sonho. Era composta basicamente pelo quarto e banheiro. No quarto havia uma TV enorme com vários consoles conectadas a ela, e embaixo do suporte desses consoles havia mais jogos do que eu conseguiria contar. Em um canto da sala, havia uma estante suspensa repleta de livros, e embaixo havia uma mesa de trabalho com um computador em cima. Na parede adjacente estavam a maioria das minhas roupas penduradas em araras (não literalmente os pássaros, e sim aqueles suportes de roupas. Eu preciso explicar isso?). Na parede oposta, estava uma cama enorme que parecia mega confortável, com uma toalha, roupas de dormir e um uniforme nas cores dos Guardiões do Tempo.
— Eu já tinha entendido a indireta, Lake. — Resmunguei.
Lucas riu.
— Descanse. Você pode pedir comida pelo computador e não precisa se preocupar muito com lavar roupa ou essas coisas. Qualquer coisa que você precisar nossos robôs vão ajudar você.
Assenti.
— E depois? — Perguntei.
— Bom, depois, Lake vai treinar você. — Ele fez uma careta. Vendo que eu estranhei a reação dele, ele continuou. — Lake não treina quase ninguém por aqui. Só tem uma outra pessoa que treina com ele, mas bem, ela é um caso especial. Você vai conhecer ela amanhã, eu vou acordá-lo para levar até o centro de treinamento.
Assenti novamente, sentindo uma leve empolgação para o treino e para saber quem a pessoa misteriosa seria. Lucas me deu algumas últimas instruções e quando garantiu que eu tinha entendido tudo e estava devidamente confortável no meu quarto, saiu. Depois de tomar banho, trocar minhas roupas e comer, deitei-me com a preocupação de que não conseguiria dormir. Porém, assim que relaxei a cabeça no travesseiro, o sono me consumiu.
Alguns sonhos conturbados depois, acordei com alguém batendo a minha porta. Apesar de me sentir renovado com energia, não deixei de reclamar por ter sido acordado ao invés de acordar por mim mesmo. Por um momento pensei que fosse Lucas me chamando para o treinamento, mas assim que abri a porta, uma garota da minha idade entrou no quarto.
— Dormitório bacana. — Ela falou olhando ao redor. Em situações normais eu perguntaria o que caralhos ela estava fazendo, mas vendo que ela usava o uniforme dos Guardiões do Tempo, só consegui pensar “ok, acho que vou ter que me acostumar com essas coisas.
A garota sentou na cadeira próxima à mesa do computador. Seus olhos azuis ainda vasculhavam ao redor, o cabelo preto cortado à altura dos ombros esvoaçando enquanto ela se balançava na cadeira. Ela parecia um pouco mais alta do que eu. Tinha traços suaves no rosto, que passavam confiança e também calma. Ela percebeu que eu a encarava, e questionou:
— O que foi?
— Não sei. — Respondi, usando meu melhor tom sarcástico. — Você primeiro.
Ela deu um sorriso tão espontâneo que meu coração pulou um pouco. Fechei a porta e sentei na cama. Ela assentiu e fez uma expressão que indicava que eu podia ficar tranquilo, mas tranquilo era a última coisa que estaria. Ela então fez um monte de perguntas para mim, como da onde eu tinha vindo, como era o lugar onde eu morava, o “mundo real”, e coisas desse tipo. Eu entenderia o porquê dessas perguntas depois, mas na hora apenas respondi mesmo estranhando as perguntas. Depois ela disse para eu ficar tranquilo, que a maioria das pessoas se acostumava rápido com a sede dos Guardiões do Tempo. Quando ela falou isso, quase pareceu que ela tinha passado a vida inteira na sede.
Finalmente, ela se levantou, andou em direção a porta e disse:
— Pronto para o treino?
Eu franzi a testa.
— Como assim?
Ela riu mais uma vez.
— Eles não te disseram? Você vai treinar com o “Mestre Lake” né? — Eu assenti, e ela estendeu a mão. — Bom, eu sou sua parceira de treino. Meu nome é Lilian Delaney Lake. Eu sou a filha dele.
Ok, agora você pode estar se perguntando: “Mas Jonas, por que você está nos contando isso? Por que isso é importante para história?”.
Enquanto eu me arrumava no quarto do hospital, pois havia recebido alta após o incidente no banco e da minha conversa com Helena, Lilian apareceu na porta. O mesmo cabelo preto estava lá, embora bem mais longo, batendo nas suas costas, os mesmos olhos azuis intensos e as mesmas expressões suaves, que eu descobri depois de algum tempo que podiam endurecer facilmente. Seu sorriso, porém, não estava lá.
— Oi, Jonas. — Ela disse, com os olhos lacrimejados.
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