O Espadachim Branco
2 O resgate
Notas iniciais
Lion seguia a caminho da grande cidade portuária, Neanlis, conhecida pelo seu comércio, nela encontravam-se mercadorias de vários lugares do mundo, além de itens raríssimos, porém, sua política de livre comércio, que procurava apenas beneficiar a circulação do dinheiro na cidade, permitia que qualquer coisa pudesse ser vendida, isso também incluía pessoas. O que deixava Lion enfurecido.
– William, estamos chegando, vamos aproveitar que hoje não terá a iluminação da Lua e ao cair da noite iremos agir. – dizia Lion com a voz firme e certa do que fazer. – Não vou deixar que essas pessoas ajam da forma que quiserem.
Quando o sol se pôs, pararam em uma estalagem aos arredores do muro de Neanlis, lá voltaram a discutir o plano. Lion havia conseguido a planta da cidade com um velho amigo mercador de Eliandor, nela constava que a cidade portuária havia se aproveitado do formato natural do terreno que lembrava uma lua crescente, voltada para o mar, seu muro que se estendia no terreno era de cinco metros e foi construído no formato de um semicírculo, nele tinham seis torres de vigia, duas próximas do portão principal que davam uma visão periférica até o limite do terreno, as outras duas além de verem até às primeiras torres também cobriam a parte do terreno que formava o formato da lua crescente no mar e por final outras duas torres protegiam a entrada do porto. Os guardas que ficavam nelas eram exímios arqueiros, além dos pontos de iluminação com candelabros que, a partir do muro e numa distância variada de dois metros, formavam três filas. Lion estava ciente da dificuldade de conseguir entrar naquela cidade extremamente fortificada e protegida, mas ele havia percebido uma coisa, por ser muito movimentada, foi criado um sistema de esgoto que favorecesse a cidade, sendo ele subterrâneo e desembocando para o mar no lado externo dos muros, percebeu que ali é que seria a sua entrada e saída, podendo aproximar-se da região nadando próximo da costa e no fundo do mar. Com as informações que tinha sobre a cidade e também de que o navio de onde Suna veio, estava aportado no terceiro cais, criaram um plano que não podia falhar.
Ao conseguir entrar na cidade, Lion e William, disfarçados com um manto e uma máscara, se aproximaram do terceiro cais observando o movimento do local atrás de algumas caixas empilhadas na frente de um beco. William percebeu que além dos guardas que faziam a ronda, havia um homem ao lado do navio e que não fazia parte da guarda de Neanlis, provavelmente era um dos marinheiros daquela embarcação. Lion pediu que William ficasse de guarda na entrada do esgoto, ele então aproveitou um pequeno espaço entre os guardas e corre em direção ao marinheiro acertando-lhe um soco tão forte que logo o fez apagar, em seguida colocou-o em seus ombros e o levou até o beco, onde estava William para então interroga-lo. Estando dentro do esgoto e acordando o marinheiro, Lion começou a lhe questionar:
– Você trabalha naquele navio?
– Quem é você? Quem quer saber? – Disse o marinheiro eufórico e nervoso.
Lion o pegou pelo pescoço e perguntou enfurecido:
– Onde estão os escravos? O que vocês fizeram com eles?
– Espera, por que você está me perguntando isso? Por que eu responderia à um louco com máscara? – Respondeu com voz sarcástica.
– Aaa... Então você não está querendo falar nada pelo o que eu entendi. – disse Lion de forma sagaz – Está vendo esse homem atrás de mim do tamanho de um rinoceronte? Sabia que ele é um dos que possuem o chifre mais afiado que já vi na vida.
Nesse momento William tira de suas costas um martelo do seu tamanho com duas lâminas. O marinheiro, ao vê-las, começou a engolir seco e pensando em blefar disse de forma astuta:
– Vejamos, se você me matar não terá a resposta que deseja, por isso, o que acha de fazermos um negócio?
– Você apontou algo que é verdade, bem, me deixa pensar... Já sei! – E olhando nos olhos do marinheiro, disse: — Pode cortar a cabeça!
O guerreiro alto e forte moveu seu corpo como se estivesse se preparando para cortar uma árvore num golpe só e no instante em que ele, como num piscar de olhos, moveu o machado até o pescoço do marinheiro e quando parou o medroso navegador, gritava:
– Todos eles já foram vendidos para a cidade de Ardian! Nós só estamos aqui esperando receber o dinheiro e para fazer um novo negócio com o general dessa cidade. Por favor, não me mate!
– E onde estão tendo essa conversa? – Perguntou Lion
– No bar próximo do navio, a duas casas de onde estamos – Respondeu o marinheiro morrendo de medo.
– É chefe esse aí acabou mijando nas calças. – Disse William, agora com o machado apoiado em seus ombros.
– Certo, obrigado pela sua ajuda! – Lion deu-lhe um soco colocando-o para dormir.
– O que iremos fazer chefe?
Frustrado socou o muro do esgoto e respondeu:
– Infelizmente chegamos tarde de mais, aquelas pessoas já devem estar próximas de Ardian e a viagem até lá com os cavalos levaria uns cinco dias sem descanso. Mas, nós vamos evitar que façam um novo contrato para conseguir mais escravos.
William sorriu satisfeito com o novo plano. Eles então saíram do esgoto e Lion, de forma discreta, checou os navios para ver se não tinha ninguém, enquanto checava percebeu que não era só o navio do terceiro cais que trazia escravos, mas outros dois com capacidade para quinhentas pessoas, confirmando que não havia ninguém dentro dos navios, pegou uma tocha e começou a atear fogo neles. As chamas chamaram a atenção de todos que estavam nas redondezas, ao verem o que estava acontecendo uma frota de marinheiros mais a guarda de Neanlis ficaram de frente para os navios e ambos viram sair dentre as chamas e a fumaça dois homens mascarados, cobertos por um manto. Lion observando a situação e ao reconhecer o capitão da frota, pegou um pedaço de madeira do tamanho de uma espada comum e num piscar de olhos apareceu na frente do capitão dando-lhe um golpe no braço e quebrando seu cotovelo, em seguida deu um arrastão derrubando-o e desferindo o último golpe que iria desacordá-lo, mas percebeu uma rapier que surgia das sombras na direção de seu peito, ele então a desviou o suficiente para apenas cortar seu braço superficialmente, o que acabou quebrando o pedaço de madeira, no mesmo instante Lion se afastou velozmente.
– Quem é e por que está interferindo? – Perguntou Lion.
Sai das sombras um rosto de queixo fino, branco, cabelos ruivos e olhos que mostravam uma alma perdida na obscuridade, com um sorriso semelhante à de um lunático, ele usava uma armadura escura como a noite com detalhes em vermelho e um símbolo no formato de uma cabeça de dragão envolto em chamas e disse:
– Meu nome você pergunta? Eu sou o general de Ardian, Sir Rosandier Glacius.
– Então você é a causa de tudo isso. Bem, eu tenho uma pergunta para você, por que estão atrás de tantos escravos?
– Esse é um assunto interno e um pedido pessoal do meu Rei, não vejo a necessidade de responder a um mendigo mascarado. — respondeu o general, em seguida, disse com uma voz cínica: — Porém, uma coisa muito me intriga, por que um mendigo como você teria interesse à reles animais, como esta aqui? Uma pobre garota, indefesa e bela, capaz de chamar a minha atenção. Gostei tanto de sua fisionomia que farei dela a minha escrava pessoal.
Nesse instante, um dos soldados próximo ao general trouxe uma garota acorrentada pelos pulsos, era uma das escravas que vieram com Suna, ao observar Rosandier rindo e provocando medo na garota, começou a crescer um sentimento de raiva em Lion que todos percebiam ao olhar para ele. A sensação que agora saia daquele guerreiro mascarado amedrontava os marinheiros ao redor do general Rosandier, que desfrutava da situação. Sem poder começar uma luta que pudesse revelar a sua identidade, procurou pensar em uma solução rápida, foi quando lembrou que William possui um dos golpes mais fortes já conhecidos, Lion então deu um sinal para o companheiro gigante que pegou seu martelo e num golpe arrasador acertou o chão com uma das lâminas causando impressionável tremor, semelhante a um terremoto, capaz de enfraquecer os fundamentos das construções próximas. Lion aproveitou esse momento que fez a garota ficar apenas com um soldado de Ardian e correu em sua direção dando um golpe certeiro no soldado fazendo-o ficar inconsciente, pegou a garota nos braços e junto de William foi para dentro do esgoto para fugir enquanto podiam. Os três foram capazes de pegar os cavalos que os esperavam fora da cidade e antes que pudesse amanhecer seguiram para Eliandor, sumindo na escuridão da noite.
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