O Escritor
1 Prólogo
Uma voz o acordou de seus próprios devaneios. Ele fechou o livro e olhou pela janela. A chuva do lado de fora fazia os desavisados correrem e muitos guarda-chuvas se abrirem. O vidro embaçado distorcia as figuras que passavam rapidamente diante de seus olhos protegidos pelas lentes dos óculos. Zack passou os dedos pelos fios finos de seus cabelos para se certificar de que já não estavam tão encharcados como mais cedo naquele dia.
– Senhor, – a voz preocupada chamou mais alto. Ele tirou os fones de ouvido, libertando-se da batida rápida dos A Day To Remember. Ao olhar em direção ao assento ao seu lado, viu que a mulher sorria levemente para ele. Ela devia ter pouco menos que sua idade e parecia estar se divertindo com o jeito desastrado dele. Seus cabelos estavam pintados em um vermelho nada natural e ela estava tão perto que ele podia ver suas raízes castanho escuras por baixo de toda aquela tinta. – as horas?
– Ah, sim – respondeu ele depois de processar o que a mulher estava pedindo. Ela já havia perguntado duas vezes desde que sentara-se ao seu lado, mas ele estava absorto demais em si mesmo para notar – São nove e quarenta e dois. – Só quando ela assentiu e lhe lançou um grande sorriso foi que Zack percebeu que a moça até que era bonita. Uma sensação estranha na boca do estômago o fez voltar às batidas agitadas de seus fones de ouvido, cortando qualquer possibilidade de uma conversa.
Quando o ônibus parou, a uma quadra de distância de seu apartamento, Zack sentiu a água lhe tocar o corpo mais uma vez. Era uma quinta-feira e, como em todas as quintas-feiras, resolveu parar para beber uma dose de uísque no pequeno bar-restaurante de seu amigo Arthur.
Ao entrar, cumprimentou Hafik, o segurança, com um aceno de cabeça e foi sentar-se em um dos bancos junto ao balcão. O lugar era bem iluminado e estava sempre limpo, muito diferente dos outros bares que Zack conhecia. Arthur estava de costas arrumando algumas garrafas na parede ao fundo. Ele era pelo menos uns trezentos anos mais velho do que Zack e a generosa quantidade de fios grisalhos em seus cabelos e barba eram sinais da idade.
– O que um cara tem que fazer para conseguir uma bebida por aqui? – disse o mais novo em alto e bom tom batendo o punho no balcão de madeira. Arthur virou-se com um grande sorriso no rosto ao reconhecer a voz de Zack. Seus olhos eram de um azul vivo e tinham os cantos marcados por rugas finas.
– Pagar, é claro! – ele riu enquanto pegava um copo debaixo do balcão para servir o amigo – Como foram as coisas lá?
– Vão me deixar publicar, – Zack sorriu para, logo depois, deixar escapar um suspiro – uma pena eu não saber quando.
– Já é algo! – Arthur parecia mais animado do que de costume, o que era estranho para um Ceifador – Vou deixar você sair sem pagar hoje. Beba tudo que quiser. – ele sorriu. Zack pegou o copo e brindou antes de beber. – À nossa história!
– E que ninguém, jamais, acredite nela! – os dois riram com gosto. O Conselho havia liberado mais um dos livros de Zack. Era realmente algo a ser comemorado.
Quando Arthur se retirou para atender os outros clientes, Zack foi sentar-se em uma mesa ao lado da janela. Sua maior diversão era observar os humanos: seus hábitos, seus sentimentos, os mais variados tipos de reações. Uma raça com um grande potencial, mas dona de uma fragilidade tão grande que chegava a ser ridículo.
Um grupo de quatro homens mais ao fundo olhava com ferocidade para o outro lado do bar e Zack seguiu seu olhar. Era uma mulher jovem cujos cabelos loiros caiam em cachos sobre os ombros. Ela estava sentada próxima à porta e vestia uma blusa verde escura que apertava seus seios – que pareciam grandes demais em relação ao restante do corpo – e uma calça jeans azul tão justa quanto. Ele viu os homens cutucarem uns aos outros quando a moça saiu. O grupo foi logo atrás.
Zack levantou-se para segui-los e percebeu que a bebida não o deixara de todo bêbado, mas um tanto leve. Teve a impressão de ter visto alguém observando-o a poucas mesas de onde estava, mas saiu sem pensar muito no assunto. Caminhou a passos lentos sob a chuva, os passos ao ritmo da música que voltara a escutar. Com o canto do olho, continuava a observar os quatro homens que seguiam a loira pelo outro lado da rua. Já passava da meia noite e ainda caia uma chuva fina do céu. Ele fechou o zíper da jaqueta de couro para não molhar a camiseta. Seus pés estavam ensopados e os óculos embaçados. Ao parar para limpa-los, perdeu a mulher de vista. Quando voltou a enxergar, viu o grupo entrando às pressas em um beco escuro e o Alarme extremeceu em suas têmporas. Perigo.
Ele correu, os pés fazendo barulho ao chocarem-se com o asfalto molhado. Na esquina do beco, escondeu-se atrás de um enorme container de lixo e parou para observar. Todos eram enormes e pareciam fortes. Um dos homens segurava os braços da jovem com um dos seus e tapava sua boca com a outra mão. Outros dois estavam segurando suas pernas, enquanto o quarto, o mais alto deles, tentava tirar sua calça.
– Ei! – Zack pulou de trás do container – Por que vocês não pegam alguém do seu tamanho!? – Os quatro o olharam e ele lhes lançou um sorriso torto. Eu sempre quis dizer isso.
– Se sair daqui agora, prometo que não matamos você – gritou o mais alto enquanto as risadas dos outros três se juntavam à sua voz.
– Acho que eu vou pagar pra ver – respondeu Zack. O brutamontes que segurava a mulher pelos braços lhe deu um soco do lado direito da cabeça que a fez desmaiar. Ele e os outros a soltaram no chão e se viraram para Zack.
– Vamos acabar logo com isso – ele rosnou lançando-se para frente.
Com um movimento rápido demais para qualquer ser humano, Zack desviou do ataque e lhe proferiu um chute nas costelas. O troglodita cambaleou, arfando, e o mais alto investiu, tendo a cabeça enfiada na abertura do container, cuja tampa Zack baixou duas ou três vezes sobre a têmpora do homem até este desmaiar. Os outros dois atacaram, seguidos pelo primeiro, agora recuperado. Um conseguiu acertar-lhe um soco no queixo enquanto desviava de um chute no estômago.
A briga não durou mais do que dois minutos. Zack acabou com um corte na boca, um hematoma na costela e uma dor considerável no maxilar. Três dos quatro homens estavam desmaiados.
– O que é você? – arquejou o último, deitado no chão. Zack limpou os óculos, sorrindo torto outra vez, e chutou o rosto do homem, que desmaiou na hora.
No saguão do prédio, Zack tomou o elevador para o sexto andar. Seu apartamento era pequeno e só tinha um quarto. Algumas garrafas de cerveja ainda estavam espalhadas pelo chão.
– Entre – ele dirigiu-se à jovem que trouxera consigo. Ela estava encolhida dentro de sua jaqueta e perecia muito pequena. Ficou parada na soleira da porta, paralisada com a ideia de entrar no apartamento de um homem completamente estranho. – Você pode dormir na minha cama, eu fico com o sofá.
– Você não vai me machucar, certo? – a voz dela estremeceu.
– Eu não teria salvo você se fosse machuca-la. – ele sorriu. Algo em seu sorriso a fez confiar nele. Afinal, o que ele dissera fazia sentido.
Zack a conduziu para dentro e ela se acomodou em seu sofá. Ele virou as costas para se dirigir à cozinha. Estava voltando com uma caneca e um pacote de ervilhas congeladas quando ela sussurrou algo baixo demais para que ele pudesse ouvir. Ele olhou-a com curiosidade.
– O que você disse?
– Evie. É meu nome. – ela disse mais alto. Ele assentiu.
– Prazer, Evie. Meu nome é Zack. – respondeu ele lhe oferecendo a caneca com um líquido quente e o pacote congelado. Ela hesitou. – É só café. E isto é para você pôr na cabeça – ele disse indicando o pacote de ervilhas. Ela segurou a caneca em silêncio entre os dedos e a sensação gelada em sua cabeça diminuiu o desconforto. Quando finalmente bebeu, uma onda de calor invadiu seu corpo, fazendo-a sentir-se ainda melhor.
– Você devia tomar um banho quente, vou achar algumas roupas secas pra você vestir – disse Zack. Ela concordou com a cabeça.
– Você também, sua boca não está nada bem – ela sorriu de canto de boca. Ao terminar seu café, Evie foi para o banheiro e Zack providenciou roupas suas para ela. Ele também se lavou depois que ela já estava pronta e vestida.
Na cozinha, tirou da geladeira uma garrafa de cerveja e voltou à sala, o gosto um pouco azedo misturando-se ao seu hálito de uísque. Abriu a janela e debruçou-se no parapeito, observando a rua do lado de fora. O vento frio fazia cócegas em seu rosto. A chuva era uma névoa fina que caia sobre as luzes da cidade. De cima da tevê, puxou uma carteira para acender um cigarro e continuou a observar o casal apaixonado que se beijava e atrapalhava o trânsito, alguns carros buzinando logo atrás. Lembrou-se de si mesmo, de como fora feliz, um dia. Naqueles minutos, era como se sua vida toda estivesse passando diante de seus olhos. Por instantes, Zack esquecera daquela segunda presença em sua sala.
Limpa e agora mais calma, Evie foi ao encontro dele na janela e tocou-lhe os quadris com as pontas dos dedos. Zack sentiu as mãos dela deslocarem-se até sua bunda e subirem pelas suas costas enquanto levavam junto sua camiseta. Seu toque era frio como a brisa da noite, o que fez os pelos de seus braços se eriçarem, mas ele não se mexeu. Continuou fumando seu cigarro, a cerveja estava quase no fim. As mãos dela passaram por sua barriga, descendo. Sentiu-as sob sua calça, o toque gelado agora o deixando involuntariamente excitado.
– O que você está fazendo? – ele perguntou calmamente. O cheiro de sabonete que vinha dela era reconfortante.
– Não sou de cerimônias, Zack – ela sussurrou em seu ouvido – Você é bonito e tem sido gentil comigo, mas não precisa fingir que não pode só para me proteger. – Ele fechou os olhos e contou até dez. Cerrou os punhos e virou o corpo, deixando a carteira de cigarros e a garrafa vazia sob a tevê. Seus cabelos molhados estavam despenteados e ainda havia um pouco de maquiagem em seu rosto. A camiseta e calça largas não apertavam seus peitos e coxas, o que a deixou consideravelmente mais bonita. Ela beijou-lhe nos lábios, o que fez o corte em sua boca arder, seu gosto doce misturando-se ao álcool e ao cheiro forte de tabaco.
Com as mãos em sua cintura, levou-a para o quarto e os dois caíram na cama, seus movimentos rápidos deixando Zack tonto. Com uma das mãos, ele abriu a gaveta do bidê onde haviam guardados alguns baseados. Evie também encontrou uma garrafa de vinho aberta no chão ao lado da cama. Eles agora estavam nus e ele podia sentir as unhas dela percorrendo seu corpo, tocando-lhe, seus lábios beijando-o ardentemente, a fumaça dançando sobre seus corpos. Entre tragadas e goles, os dois transaram pelo que pareceu terem sido muitas horas. Ela fazia o melhor sexo que ele já provara, isso Zack tinha de admitir.
Ao terminarem, ele sentia-se enjoado, entorpecido, sua cabeça girando sem parar. Levantou-se para ir em direção ao banheiro, mas sentiu uma sensação estranha, a mesma que sentira ao deixar o bar mais cedo. Cambaleante, foi até a janela e não notou nada de diferente até ver algo que o fez parar. Havia alguém lá. Estava parado, segurava um guarda-chuva e parecia encarar Zack. Ele limpou os olhos. Só podia estar imaginando coisas. Um ônibus parou em frente à criatura e, quando arrancou novamente, sua silhueta tinha desaparecido.
Não pode ser.
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