O Escolhido.
1 Prefácio.
Mike acordou em cima do telhado da casa de seu amigo Paul. Por muito pouco ele não deslizou pelas telhas de concreto e caiu de uma altura de cinco metros, o que seria no mínimo desastroso, uma vez que terra batida se encontrava lá embaixo. Não se lembrava muito bem como fora parar ali, e por isso também se esquecera de onde havia largado suas roupas. Completamente nu, Mike caminhou com cuidado até chegar no parapeito da janela do amigo, abriu a vidraça e entrou rapidamente para dentro da casa, rezando para que nenhum vizinho estivesse o observando e certamente a ponto de acionar a polícia avisando sobre um suposto ladrão peladão no imóvel dos Hills.
Saltou por sobre o criado-mudo e deu uma boa olhada em volta, notando que na verdade estava nos aposentos dos pais de Paul. Sentiu-se aliviado ao pelo menos lembrar que o senhor e a senhora Hills viajaram para as montanhas aquele fim de semana. Essa sensação boa se quebrou no momento em que o cobertor da cama se moveu e por debaixo dele uma garota se revelou.
- Onde estava? Não o achei em lugar algum — disse a menina que devia ter sua mesma idade. O cabelo loiro e bagunçado caía frente ao rosto magro, mesmo assim reconheceu que era bonita.
- Quem é você?
- Não se lembra de mim? — fez bico se fingindo de ofendida. Levantou o cobertor totalmente, mostrando seu belo corpo cheio de curvas traiçoeiras. Tinha pernas lindas, além dos seios fartos. Sorriu com a reação de Mike. — Não lembra mesmo?
- É... acho que não.
- Onde estava?
Mike deu uma breve olhada para além da janela, o bastante para a garota entender e soltar uma gargalhada. No entanto a ignorou ao encontrar suas vestes jogadas num canto do quarto.
- Dormiu no telhado?! Não achei que estivesse falando sério!
- E o que eu disse? — perguntou com a mente perdida. Realmente não conseguia se lembrar da noite anterior. Quer dizer... não depois do décimo copo de vodka. Vestiu-se rapidamente.
- Que iria puxar a lua com a sua mente, e depois dormiria olhando para ela. Mas disse depois que eu perguntei se podia fazer algo melhor do que ter transado comigo.
- Melhor a gente ir embora...
- Não se preocupa, cara. O Paul é legal. Disse que podíamos ficar o tempo que quiséssemos. Era o presente dele de aniversário para você. Aliás, feliz aniversário.
- Droga, estou atrasado! — Mike deu se conta do que estava acontecendo. Não era mesmo para ele estar ali no momento. Havia exagerado na festa que recebera do amigo.
- Não vamos ter uma rapidinha agora de manhã? Sério mesmo?
- Eu tenho que ir... Realmente foi um prazer te conhecer...?
- Carey...
- Carey... Realmente deve ter sido um prazer te conhecer — sorriu ao dar mais uma olhada no corpo da garota. — Mas tenho de ir. E você também. Se os pais de Paul voltam antes da hora, não sabe do que são capazes de fazer, eles são assustadores.
- Por que tanta pressa? Ainda são sete horas da manhã, gato.
- Por isso mesmo. Eu tenho meia hora para comemorar meu décimo oitavo aniversário vencendo o campeonato de basquete da escola. Algo me diz que... este é o meu dia.
- Será mesmo? — ela apontou para a camisa de trás para frente que Mike vestira, das calças invertidas e dos tênis em seus pés cada um de uma marca.
- Merda!
No caminho para a escola Mike constatou que aquele definitivamente não era seu dia. Havia pisado numa lembrança mal cheirosa deixada por um cachorro, perdera o ônibus e ainda não conseguia achar um táxi desocupado. Além disso, sua cabeça estava estourando. Bebi demais... Meus pais vão me matar, eu devo estar horrível. E estava mesmo. Ao passar por uma vitrine de uma loja de sapatos, visualizou seu próprio reflexo, observando o rosto jovial pálido, sem vida. O cabelo castanho completamente desgrenhado escondiam suas sobrancelhas grossas sobre os olhos azuis, escovados. Infelizmente a cor de seus olhos era condenada pelas notórias olheiras negras de sono. Suspirou ao olhar a hora em seu relógio de pulso. Vinte minutos?! Assim eu não vou chegar! Pensando numa solução rápida, pegou o celular para ligar para Paul. Tentou acordá-lo antes de ir embora, mas o desgraçado não queria sair da cama por nada, uma coisa que o levou a essa decisão eram as duas ninfetas deitadas cada uma de seu lado. Porém a situação ali era de vida ou morte. Seus pais, seu treinador, o time e a maioria da escola o esperavam no ginásio. Aquele era o jogo do ano, e ele de fato era o principal jogador.
O problema era que algo estranho estava acontecendo. Ao sacar o celular, tudo aconteceu extremamente rápido. Um vulto surgiu do nada pedalando uma bicicleta e lhe roubou o celular em pleno movimento, desviando das pessoas na calçada e gritando algo como “perdeu, amigo, perdeu!”. Mike ficou incrédulo com a situação. Qual é... alguém me amaldiçoou, certeza.
Voltou a si depois de alguns segundos e se colocou em corrida. Não era o melhor jogador do time só por causa de sua precisão, ginga ou habilidade. Também tinha velocidade, força, explosão! O cara podia estar de bicicleta, mas Mike tinha dezoito anos e estava em sua plena forma física. Embora não fosse aquele monstro de testosterona, possuía um bom porte físico e pouquíssima fadiga, resultado de muito treino antes dos jogos, isso ao decorrer de três anos seguidos.
Todavia, o dia não estava de sorte para si. O sol definitivamente não estava brilhando para ele, apesar dele estar lá, soberano no céu da Califórnia. O mar de pessoas que se aglomerava nas calçadas barrava mais sua corrida a pé do que a do bandido montado em sua bike de fuga. O maldito ainda gritava para o pessoal sair da frente, e quem não sairia? Um louco com um capuz e um enorme óculos escuro na face assustaria qualquer um. Onde está a polícia numa hora dessas?! Seria em vão pedir ajuda para quem quer que fosse, então nem mesmo quis perder tempo para parar seus pés. Quando deu por si já havia avançada dois quarteirões atrás do ladrão, e a distância somente aumentava, de cinco para sete metros e seria mais dali alguns minutos. Mike estava perdendo o fôlego e a paciência. Se fosse só um simples celular que estavam lhe roubando desistiria a meio minuto atrás. Mas ali estava sua esperança para a glória infinita de seu último ano no colégio, o real presente para seu aniversário.
Fora assim que decidira usar seu método particular. Ao notar que o filho da puta do furtador ia ganhando distância, tomou a decisão... Mike Dowton não era só um jovem comum americano que estudava, jogava basquete, video-game, saía para as festas e transava com desconhecidas após se embebedar. Ele não era só o orgulho da mãe por se dar muito bem em física e orgulho do pai por se dar ainda melhor em educação física. Ele é diferente. Possui algo diferente. E desde os cinco anos sabia disso.
Mike tem o dom de mover pequenas coisas por um curto período de tempo usando somente a mente. Telecinese é o nome. Nunca soube de onde havia conseguido aquilo, e nem procurou saber. Além de si, somente a melhor amiga, Andrea, sabia. Um poder muito útil, ainda mais para um jogador de basquete, que no momento certo, podia mudar ou recolocar o rumo certa da bola. Obviamente de maneira que ninguém percebesse, e nunca ninguém percebeu. Isso porque Mike é bom. Seu controle com o passar dos anos ficara perfeito, cirúrgico. Sua dificuldade ficava por conta dos efeitos colaterais, por isso não podia usar o dom frequentemente, nem mesmo em objetos pesados ou grandes, como um carro por exemplo. Além de não conseguir por não estar acostumado, podia ter sangramento nasal, forte dor de cabeça e febre avassaladora por uma semana. Por outro lado, conseguir fazer com o que os guidões da bicicleta do bandido rodasse sem controle, ou então as rodas simplesmente parassem, era algo relativamente fácil. Só era preciso concentração. Machucar alguém inocente era a última coisa que queria, assim aguardou o momento certo para agir, e quando seus olhos se fixaram nos pneus da bike, seus dedos da mão destra fizerem um sutil movimento para o lado, acionando também sua mente.
Seu objetivo era fazer a roda traseira entortar e o pneu dianteiro frear. Mesmo com certa distância, seria impossível errar.
Em vez da roda entortar, ela de repente saiu da bicicleta e voou contra uma vidraça de um restaurante, fazendo-a em mil pedaços. O pneu dianteiro não só freou como quase pegou fogo com tamanha violência fora se arrastar pressionado no chão da calçada. Muito por causa de tudo isso e da velocidade que estava, o bandido fora jogado numa distância de quase cinco metros longe, caindo sobre e quebrando uma mesa de madeira num dos bares à céu aberto. Ele tentou se levantar, mas desistiu ao notar o braço quebrado e o tornozelo também, urrando de dor nas costas, torcendo para que não houvesse partido todas as costelas do corpo.
Mike não entendia nada. Sempre teve total controle de seu dom, mas aquilo fora demais. Podia ter matado o homem apesar de ser um criminoso. Será que a raiva aumenta a potência? Não, já fiz isso várias vezes em momentos tensos de um jogo e de adrenalina pura. O que houve aqui? Por sorte, ninguém no restaurante ou no bar havia se machucado, mesmo assim Mike sentia-se culpado. Seu poder havia aumentado de repente, sem notar. Andou cautelosamente até o ladrão. A essa altura estava rodeado de gente tentando lhe prestar ajuda ingenuamente, mas Mike não fora tão gentil.
- Meu celular... — disse, e viu os olhos do homem se abrirem de medo, já que os óculos escuros se perderam na queda. — Agora!
- Tome. Desculpe-me, cara. Eu só...
Não estava afim de ouvir baboseiras, e deu as costas para o homem antes que lhe pedisse desculpas pela queda. Viu que agora só faltavam dez minutos e que provavelmente chegaria atrasado e não jogaria o primeiro período. Praguejou qualquer coisa e decidiu ligar para Paul. Se ele não viesse, testaria seus poderes de novo. Se ainda estivessem tão potentes como antes, traria o amigo até si numa atração que ultrapassaria a cidade inteira só por força de pensamento.
Enquanto discava, não notou um homem que o observava do outro lado da rua. Com seus óculos escuros e um longo sobretudo cinza, a figura misteriosa saboreava um hot dog inocentemente, sorrindo com o canto de sua boca suja de catshup.
- Sabia que ia achá-lo. Lá vamos nós, Mike — sussurrou para si mesmo.
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