O Enforcado
1 O som das cordas
Notas iniciais
Não estou reescrevendo e nada assim, só corrigindo algumas coisinhas no texto, então vocês têm aqui uma amostra de como eu escrevia lá por 2014-2015... Foi na mesma época em que escrevi O Contador de Histórias, que também foi um período em que eu estava com um certo bloqueio criativo, um período ruim em relação a faculdade e estado mental/emocional.
Como dito antes, essa história segue A Águia e a Raposa, porém não é preciso ler essa fic (que nem terminada está) antes, e meio que é um... spin off, talvez, de um dos núcleos de Kolybel'naya.
Espero que gostem e, por favor, digam o que estão achando.

A última vez que vira seu pai, Helena Ravenclaw tinha onze anos e a lembrança estava tão viva como se aquilo tivesse acontecido apenas um dia antes. Lembrava-se de como o homem estava pálido e tremendo, sendo sempre interrompido pela tosse e com a sua magia tão fraca que não passava do resquício de uma nota enquanto a corda da harpa ainda vibrava. Ele ainda assim lhe dizia que ela podia ir aproveitar o dia, pedia para ela ficar calma e ir até o jardim de Helga para olhar as plantas por ele, e prometia que, assim que ficasse melhor, iria lhe ensinar alguma música nova na harpa.
Dois dias depois, Helena estava parada nas margens do lago negro de Hogwarts, vendo o barco com o corpo de seu pai queimando. Os dedos doíam por apertar demais o lírio que colocara no barco, antes deste queimar. Por alguma razão, jogar colocar aquela flor sobre as mãos de seu pai seria admitir que aquilo era um adeus sem volta, mas no fim o fez, antes de se agarrar na capa de sua mãe, tentando não chorar. Godric não estava chorando e ela, de inicio, não ousava erguer o rosto para ver se Rowena estava.
Talvez não fosse certo dizer que aquela fora a última vez definitiva que vira, talvez apenas a última com ele vivo. Ao longo dos anos, no entanto, sonhar com seu pai se tornara algo comum. Eram sonhos simples nos quais, na maioria das vezes, eles estavam nos jardins – ele amava aqueles jardins, empatando com a Torre de Astronomia se tivesse que escolher um local favorito em Hogwarts – apenas conversando. Ele lhe contava histórias que ouvira antes de ir para Hogwarts ou histórias pelas quais passara com sua mãe, lhe dizia que tudo iria ficar bem e que ela não tinha o que temer, afinal, ainda tinha Rowena ao seu lado.
Helena amava essas noites nas quais sonhava com ele, acordava ainda ouvindo o som da voz de seu pai e conseguia permanecer quase o dia inteiro bem. O problema vinha quando encontrava com sua mãe e a imagem da Rowena Ravenclaw sorridente que montava em dragões e ria enquanto voava contrastava demais com a Rowena Ravenclaw com a expressão fechada e voz regulada que via na sua frente. Aquilo parecia puxá-la de volta para a realidade, aquela onde seu pai estava morto e nunca mais lhe contaria histórias.
Ela daria de tudo para ter seu pai por perto outra vez, para vê-lo fora de um sonho, para que a presença dele fizesse tanto ela quanto sua mãe ficarem bem outra vez.
Helena nunca imaginara que vê-lo de novo fosse lhe deixar tão desesperada.
Thomas Ravenclaw continuava pálido e com as olheiras de sempre, mas agora o seu sorriso era triste e, apesar de parecer estar ao ponto de chorar e de até mesmo sua voz soar embargada, não havia lágrimas molhando o seu rosto. Ora, ela mesma queria chorar – por poder vê-lo, por medo do que acabara de acontecer, por medo do que iria acontecer – e não conseguia.
“Você aprende a chorar sem lágrimas,” ele disse, erguendo uma mão e acariciando o seu rosto. Não conseguia sentir aquilo, o máximo que tinha era uma sensação leve de frio, mas ela logo desaparecia.
Ela queria abraçá-lo, queria sentir o cheiro de madeira que ele normalmente exalava, queria ouvir o som leve que a magia dele carregava – isso, pelo menos, conseguia ouvir um pouco -, queria brincar com seus cabelos ou traçar a cicatriz nos braços dele. Mas logo descobriu que nem mesmo fantasmas conseguiam tocar outros fantasmas, eles apenas atravessavam uns aos outros, deixando aquela sensação engraçada de algo gelado. Mas seu pai parecia contente com aquilo, ele parecia entender que aquele contato estranho de dedos atravessando um ao outro era o máximo de conforto que podiam ter e se contentava com isso. Thomas sempre fora alguém que se alegrava com coisas simples.
“Desde quando...?” a garota perguntou, sentindo sua garganta parecer fechar com a vontade de chorar.
“Sempre estive aqui,” ele falou, sorrindo fraco, aquele sorriso que dava sempre que tentava não alarmar ninguém. “Nunca deixei vocês. Eu não podia deixar minhas estrelas assim.”
“Era você? Nos sonhos?” Talvez fosse uma conclusão boba, mas era um tanto reconfortante pensar que, em todos aqueles anos, seu pai se lembrara de cuidar dela, mesmo que de um jeito diferente. Ele assentiu.
“Me desculpe por não... Por não estar realmente lá,” o homem murmurou.
Helena sacudiu a cabeça. Queria conseguir dizer que ele estava, que foi ele quem fez com que ela tivesse coragem de encarar o segundo dia de aula em Hogwarts, que foi ele quem lhe encorajara a sair e fazer pesquisas, que foi ele quem a confortara nas noites em que ia dormir chorando por razão alguma.
“Você é um trouxa,” ela sussurrou. Aquela informação ainda lhe parecia tão estranha. “Trouxas não têm fantasmas.”
“Eles têm, mas... Nós somos mais fracos do que vocês,” o homem explicou. “Nós não decidimos ficar-“
“Eu não decidi.”
“É inconsciente. Você... Talvez seja o medo. Foi tão...” A voz de seu pai sumiu enquanto ele parecia se forçar a olhar para o seu rosto, mas de vez em quando deixando o olhar escapar para algo atrás de si.
“Você viu?”
“Eu não consegui fazer nada,” ele murmurou, sua expressão finalmente saindo um pouco da mascara de calma de sempre. “Eu queria... Eu queria ter feito algo. Eu tentei, mas... Os vivos nem mesmo sentem a minha presença...”
Helena engoliu em seco, finalmente tomando coragem para se virar. Só então percebeu que flutuava alguns poucos centímetros acima do chão coberto de neve. Mas estar flutuando ou não sentindo nada não era nada comparado ao sentimento horrível que tomou conta de si ao ver a si mesma caída na neve, os olhos abertos como se observassem o céu cinzento, as mãos sujas de sangue assim como algumas áreas da neve por perto. Os lábios já estavam azulados e os olhos, embaçados e fundos. A pele parecia cera e aquele corpo não parecia lhe pertencer mais. Estava sozinha, não havia sinal de outra pessoa por perto.
“Ele nem golpeou no lugar certo,” murmurou Helena, forçando a si mesma a rir sem emoção ao ver a mancha de sangue em seu vestido estar no lado direito do peito. “Ele devia... Ele devia ter enfiado a lâmina acima da clavícula... Seria mais rápido. Ou por baixo das costelas. Ou pelo menos no lado esquerdo do peito, já seria melhor...”
“Helena.” Ouviu a voz de seu pai a chamando, baixa e receosa, antes de sentir aquele frio leve frio em seu ombro. “Vai ficar tudo bem,” ele murmurou.
“Eu estou morta,” ela falou, sentindo a voz falhar. “Como vai ficar tudo bem se eu estou morta?”
“Eu estive morto por anos até agora...”
“Mas eu não quero estar morta!” Helena gritou, afastando-se do homem. Conseguia sentir seus olhos arderem como se estivesse chorando, mas não sentia lágrima alguma. Aquilo era desesperador. “Eu tenho... Eu tenho que voltar... Eu devia ter voltado. Ela vai me odiar, papa, ela vai me odiar porque eu fui estúpida e... E roubei aquele diadema idiota e fugi e...”
Aparentemente, apesar de não terem lágrimas, fantasmas ainda conseguiam soluçar, o que não ajudava muito. Queria se encolher em algum canto, puxar a capa ao redor de si mesma para sentir alguma coisa, mas não conseguia. Ainda era possível se encolher perto do chão, o mais longe possível que podia de seu corpo, e chorar daquele jeito estranho sem lágrimas, mas não era a mesma coisa.
Seu pai parecia conhecer bem as suas limitações de espírito, já sabendo como lidar com elas. Sentiu o gelado do toque fantasmagórico outra vez, agora em sua cabeça, como se ele tentasse acariciar os seus cabelos. Permitindo-se ficar ali, Helena apenas tentou apreciar o conforto estranho que aquilo lhe trazia, ainda soluçando.
“Você é forte, pequena,” ele murmurou. “Você é tão forte quanto a sua mãe e ela foi a pessoa mais forte que eu já conheci.” A garota sentiu os dedos do pai tocarem-lhe o lado do rosto, fazendo com que ela o erguesse para olhá-lo. “Ela não vai odiá-la. Sua mãe nunca vai odiar você... Você é a nossa raposinha, lembra? Você vai sempre ser a nossa menina e nós vamos sempre amá-la, minha luz.”
Seu pai tinha a voz mais calma do mundo. Não sabia direito se fora aquela voz, o toque gelado ou os olhos dele que a fizeram voltar, mesmo com medo da possibilidade de ver sua mãe outra vez. Tinha medo de voltar para Hogwarts, mas também tinha medo de ficar ali. Pelo menos o castelo era a sua casa, o lugar onde nascera e crescera, enquanto aquela floresta não passava de um lugar gelado com um vento cortante que assoviava por entre as árvores e congelava ainda mais o seu cadáver.
Fora Thomas quem disse a Rowena o que havia acontecido. Mesmo escondida no meio da floresta, na companhia dos testrálios, conseguiu sentir a magia de sua mãe. Era ensurdecedora. O som permaneceu por um longo tempo, junto da aquela vibração estranha que sentia contra a sua pele – ainda tinha pele? Sempre achou engraçado como seus pais tinham magias parecidas, os dois soavam como música, a vibração de cordas. Rowena sempre foi mais intensa, enquanto Thomas podia ser confundido com o som da chuva. A bruxa eram dedos fortes puxando as cordas e as fazendo vibrar com força, enquanto o trouxa era como batidas leves com vibrações menores.
Eram sempre dois dias. Dois dias depois de ver seu pai vivo pela última vez, ele morrera. Dois dias depois de voltar para Hogwarts, sua mãe morrera e agora tinha que ver outro barco queimando no Lago Negro, mas dessa vez não tinha nem ao menos um lírio para jogar nas chamas.
Seu pai fora junto, é claro. Não duvidava por nem um momento que ele a amasse, mas sempre fora bem evidente que a magia dele estava atrelada à de Rowena. Fora ela quem o manteve ali e ele fizera mais do que o esperado ao dar conforto para ambas ao longo dos anos que haviam se passado.
Agora era ela, Helena Ravenclaw, e Hogwarts, o castelo onde nascera e vivera por tanto tempo e onde a magia de seus pais ainda se grudavam a tudo: no teto estrelado do Grande Salão, que soava como uma canção de ninar com a magia de Rowena, ou nas plantas dos jardins, que pareciam cantar com a chuva quando o resquício de magia de Thomas se fazia presente.
Pelo menos, pensava, ainda tinha a sua casa. Aquele era um pequeno conforto que a morte lhe cedera.
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