O Enforcado
9 Lírios e gardênias
Dois dias se passaram desde que vira seu pai pela última vez e, desde então, Helena não havia conseguido nenhuma explicação decente do que estava acontecendo. Ela via sua mãe passar apressada pelas escadas na frente de seu quarto, mas nunca conseguia pará-la para perguntar o que estava acontecendo. Helga também passava por ali, geralmente carregando frascos e mais frascos de poções e ervas e a menina nem se atrevia a interrompê-la. Até mesmo Godric, que dificilmente subia até os quartos deles, foi ver como as coisas estavam.
Gryffindor foi o único que parou e falou com ela por mais de dez minutos, lhe perguntando como ela estava e prometendo levá-la para praticar com espadas assim que as coisas se acalmassem. Se não fosse pelo olhar cabisbaixo do bruxo, Helena teria ficado animada com aquela promessa. Pior que aquele olhar, foi o longo momento de silêncio que o homem deixou entre eles, olhando-a como se estivesse se sentindo mal por alguma coisa, antes de se despedir.
No terceiro dia, Helena não conseguiu dormir a noite inteira: a magia de seus pais estava mais alta do que nunca e isso só foi se acalmar quando o dia já estava nascendo. Foi só então que conseguiu dormir, mas isso também não durou muito, pois acordou ao ouvir a porta de seu quarto se abrir, algumas horas depois do amanhecer, e assim que se sentou na cama, ainda sonolenta e com os cabelos bagunçados, viu Rowena parada ao seu lado. A bruxa estava mais pálida do que ela jamais a havia visto, com as olheiras fundas debaixo de seus olhos avermelhados.
"Helena," ela chamou, sua voz soando distante, antes de respirar fundo e engolir em seco.
Não foi preciso muito mais para entender o que estava acontecendo.
"Não," a menina murmurou, arregalando os olhos ao mesmo tempo que sentia um imenso vazio se abrir em seu peito. "Mama, não..."
"Helga tentou de tudo, Helena," a mulher falou. "Nós tentamos de tudo, mas ele já estava fraco demais. Só os Deuses sabem por quanto tempo ele já estava doente..."
"Não!" A garota pulou da cama, parando em pé na frente da mãe enquanto sentia os olhos encherem de lágrima. Já nem sabia mais o que estava falando ou o que estava fazendo. "A senhora deve saber de algo! Você... Você tem tantos livros! Tantas pesquisas! Alguma coisa tem que ajudar!"
"Helena, já é tarde demais..."
"O diadema! O diadema tem que ter a resposta!" ela falou, segurando a mão da bruxa e a puxando para a porta.
"Helena." A voz de Ravenclaw se tornara firme agora e ela puxara a sua mão dos dedos da menina, antes de segurá-la pelos ombros para guiá-la até a cama, fazendo com que ela se sentasse ali de novo. "Seu pai se foi. Sei o que está sentindo, pois a mesma dor que a aflige está me destruindo também. Não há nada que possamos fazer. Magia não é milagre, magia não tem poder dentro dos domínios da morte e é lá que ele está agora, entende? Nós tentamos de tudo enquanto podíamos. Agora é tarde."
A menina ficou encarando a mãe por um longo momento, sentindo como se cada palavra dela ecoasse infinitamente dentro de sua cabeça e, devagar, começando a fazer sentido. Seu pai havia morrido e ninguém podia fazer nada em relação a isso... Nem mesmo sua mãe, a maior bruxa daquele tempo, podia ajudá-lo agora. Ela não veria mais o sorriso de Thomas e nem sentiria o abraço apertado dele. Ele não iria mais sair daquele quarto e chamá-la para dar uma volta no lago ou ensiná-la uma nova música na harpa.
Era como se todo o seu corpo estivesse amortecido e formigando. Como se ela tivesse em outro lugar, apenas olhando tudo o que acontecia de fora. Sua mente estava longe, tentando se lembrar com detalhes o último sorriso que vira no rosto de seu pai.
"Vamos nos despedir hoje ao fim do dia," disse Rowena, fazendo-a voltar para o seu quarto.
Helena ficou observando enquanto a mãe se afastava e saía do quarto. Tudo continuava muito estranho e ela não tinha idéia do que fazer... Devia correr e ir abraçar Rowena? Ou talvez aproveitar o momento para chorar o quanto pudesse? Se bem que já estava chorando, conseguia sentir uma ou outra lágrima silenciosa escorrer pelo seu rosto, mas decidiu que era melhor parar. Engoliu o choro, respirando fundo e indo até a sua janela, sentando-se ali e observando os terrenos de Hogwarts. Estava um dia bonito de verão.
***
Apenas os alunos que não podiam voltar para as suas casas estavam em Hogwarts naquela época. Coincidentemente, eram exatamente esses mesmos alunos que tinham uma afeição maior por Thomas Ravenclaw e todos tinham expressões tristonhas em seus rostos enquanto observavam, da beira do lago, o barco dentro do qual haviam colocado seu pai. Helena estava mais perto, junto com Rowena que, no momento, estava já dentro do lago, com a água batendo em seus tornozelos enquanto ela se debruçava por sobre o barco, parecendo estar murmurando alguma coisa. Seu pai já havia lhe contado histórias de espíritos que vagavam pelos campos e ruínas, e sua mãe parecia uma daquelas criaturas naquele momento: o vestido e capa pretos contrastando contra o verde das montanhas e o azul do céu, enquanto o véu escuro que lhe cobria o rosto esvoaçava como se fosse algum tipo de aura fantasmagórica ao redor dela.
Quando a mulher se afastou, foi a vez de Helena se aproximar. A menina não sabia se queria ver o homem naquele estado ou não, mas acabou indo até mais perto e prendendo a respiração ao vê-lo. Thomas parecia estar dormindo, apesar da palidez exagerada. Ela já havia ouvido falar sobre como guerreiros eram queimados ou enterrados com suas espadas, mas seu pai não era um guerreiro e, no lugar da espada, a garota viu apenas flores. Gardênias e lírios.
Respirando fundo e sentindo os olhos lacrimejarem, a bruxa se aproximou mais um pouco, ignorando por completo o frio da água, e se abaixou um pouco para colocar mais um lírio sobre as outras flores. Sentia um nó impedindo qualquer palavra de sair de sua garganta e a única coisa que conseguiu fazer foi tocar rapidamente, com as pontas dos dedos, o dorso da mão de Thomas, assustando-se com a temperatura gelada desta e logo se afastando.
A mão de Rowena em seu ombro a fez se afastar ainda mais, indo ficar parada atrás da mulher quando esta acenou com a mão e fez com que o barco finalmente saísse do lugar, afastando-se lentamente a medida que a noite caía. Se a morte de seu pai não estivesse envolvida naquilo tudo, Helena diria que a cena era até bela... O céu gradualmente ficando alaranjado e, então, arroxeado, com a estrela vespertina já se fazendo presente, como se estivesse observando tudo lá de cima. Por um momento, a garota chegou a pensar que o homem era tão querido pelas estrelas que justo na hora em que ele partia do mundo dos vivos, elas já o estavam esperando lá em cima.
Quando o barco já estava a uma distância considerável, Godric se aproximou, carregando consigo um arco. Rowena gesticulou para ele se aproximar e logo apanhou o arco, pegando junto uma flecha e a encaixando ali. Assim que terminou de esticar a corda, a mulher murmurou algo baixinho e a ponta da flecha se acendeu em chamar. Ela ainda demorou alguns segundos naquela posição, antes de respirar fundo e soltar a corda, fazendo a flecha cortar o ar com rapidez e encontrar o barco de forma certeira.
As chamas começaram pequenas e logo cresceram, tomando conta do barco e fazendo com que, em alguns minutos, ele fosse o único ponto brilhante no meio da noite que finalmente caíra. Durante todos os minutos nos quais o céu demorara para ficar escuro e o barco levara para ficar em chamas por completo, os outros alunos e professores foram se dispersando. Godric e Helga ainda estavam por perto, Helena conseguia senti-los, e sua mãe não se mexera nem um milímetro desde que entregara o arco à Gryffindor outra vez.
Helena não sabia exatamente o que fazer. Seus pés estavam começando a ficar dormentes por conta da água gelada, mas não queria sair dali... Queria poder ficar naquele lago até que as chamas sumissem. Rowena parecia compartilhar daquela vontade, pois não dava o menor sinal de querer voltar para o castelo.
"Row," chamou Helga, sua voz soando baixinha e quase acanhada. "Vamos entrar. Já está ficando frio."
A bruxa não respondeu e seus olhos, Helena conseguia ver, continuaram fixos nas chamas. Seu pai costumava dizer que os olhos de Ravenclaw brilhavam como se tivessem o brilho de mil estrelas dentro deles, mas, naquela noite, parecia que todas aquelas estrelas haviam se apagado e a única coisa que ela via era o brilho sem vida do fogo.
A menina se aproximou mais da mulher, encostando-se nela para ver se aquilo ajudava a melhorar o frio. Só então Rowena pareceu se lembrar de onde estava, sobressaltando-se um pouco para depois apoiar uma mão no ombro da filha, apertando de leve. O som da harpa da magia dela estava baixinho e soava como o chuvisco que anunciava uma longa noite de chuva.
"Helena," dessa vez fora Godric quem chamou. "Venha."
Rowena continuava sem se mexer e o barco continuava a queimar. Desvencilhando-se com cuidado, Helena escapou da mão da mulher, indo na direção de Gryffindor, que a acolheu com a sua capa assim que ela pisou em terra firme outra vez. A garota olhou o lago outra vez, dividida entre entrar no castelo e ficar ali, mas seus olhos já começavam a pesar com o sono e o vento frio já começava a incomodar.
Por fim, acabou cedendo e indo junto com Helga e Godric, mas não sem olhar uma última vez na direção do lago negro. O barco continuava tomado pelas chamas, lá longe, e Rowena Ravenclaw, perdida no meio da escuridão, parecia quase um agouro na água rasa, com seu vestido e véu negro esvoaçando no vento enquanto seu corpo permanecia imóvel, como se esperasse que algo acontecesse. Mas nada aconteceu e nem aconteceria, Helena sabia disso.
***
Naquela noite, Helena Ravenclaw não dormiu.
O vento parecia assobiar ferozmente pelas frestas do castelo e seu quarto parecia mais frio e escuro do que nunca. Volte meia, a menina se levantava da cama e ia até a janela, mas as chamas do barco já haviam sumido faziam algumas horas... Mas sua mãe continuava na beira do lago. A única coisa que conseguia ver, na verdade, era uma ligeira tremulação no meio do terreno escuro, iluminado apenas pelas estrelas, mas a garota sabia que se tratava do véu de Rowena.
Depois de muitas idas e vindas à janela, a bruxa vestiu uma túnica e os sapatos, saindo de seu quarto sem pensar duas vezes para ir até o corujal. O lugar parecia ainda mais gelado, graças ao vento que conseguia entrar sem restrições pelas janelas abertas... As corujas ali dentro, no entanto, pareciam confortáveis, aconchegadas umas às outras, com suas cabeças escondidas debaixo de suas asas.
Assim que entrou no corujal e encontrou uma luva de couro grossa que guardavam por ali, a menina assobiou o mais parecido que conseguia com o jeito como seu pai costumava fazer. Sem muita demora, um guincho agudo ecoou na torre e uma ave — menor e mais esguia que as corujas — voou até ela, pousando em sua mão enluvada e a olhando com curiosidade.
"Olá, Morgane," ela murmurou, vendo o falcão inclinar a cabeça e soltar outro piado agudo. "Ele não vai vir mais."
A ave guinchou outra vez e bateu as asas, apesar de não sair de sua mão. Helena suspirou, indo se sentar no chão, encostada contra a parede de pedra. Morgane era dócil, mas era extremamente leal à Thomas, do mesmo jeito que Warlock, o cavalo de sua mãe, era leal à Rowena... Seria difícil alguém continuar a usando para caçadas agora que o seu dono havia partido.
"O que nós vamos fazer, moça?" a menina perguntou, afagando as penas do animal e vendo-o fechar os olhos para aproveitar o carinho.
Com cuidado, Helena ajeitou o vestido de dormir e a túnica sobre as pernas cruzadas e então deu um jeito de fazer com que o falcão descesse de sua mão e fosse para o seu colo. O animal pareceu confuso por um momento, rolando de costas sobre o tecido de suas roupas, antes de soltar um piado baixinho e fechar os olhos quando a bruxa começou a afagar-lhe as penas debaixo das asas. A menina riu, continuando com o carinho enquanto a ave parecia aproveitar, volta meia abrindo o bico e soltando barulhos suaves de contentamento.
Helena não tinha idéia de quanto tempo ficou ali, mas achou que talvez fosse melhor se esgueirar de volta para o castelo quando percebeu que o céu começava a clarear lentamente. Segurando Morgane com cuidado, ela a colocou de pé sobre a sua perna, fazendo uma careta ao sentir as garras se fincando em sua pele.
"Tenho que ir," ela murmurou, sorrindo fraquinho e coçando a cabeça do falcão. "Prometo voltar para lhe ver. Não vou lhe deixar sozinha aqui. Papa não iria gostar disso."
Morgane guinchou outra vez e alçou vôo, indo para o topo da torre e se escondendo entre as madeiras do teto e as sombras.
***
Quase um mês depois da morte de seu pai, após visitar Morgane todos os dias no corujal, Helena levou quase uma hora procurando pelo falcão naquela torre, antes de admitir para si mesma que ele não estava mais lá. Seja lá o que havia acontecido — talvez ela simplesmente tivesse notado que seu dono não voltaria mais e partiu também -, a menina conseguiu apenas engolir as lágrimas com muita dificuldade, para então voltar ao castelo.
Naquela noite, depois que seu quarto caiu na escuridão e a garota se viu enfiada debaixo das cobertas sem ter brincado com o falcão durante o dia ou ter ouvido uma história de seu pai, foi a primeira vez, depois do choque inicial, que Helena percebera que Thomas Ravenclaw estava morto e não voltaria mais para ela. Ele havia partido e, com ele, tudo aquilo que ele tanto amava: Morgane, a música que volte meia era ouvida vinda do quarto de seus pais, os sorrisos de Rowena, as brincadeiras nos jardins, as histórias antes de dormir... Naquela noite, Helena Ravenclaw não conseguiu se forçar a fechar os olhos e dormir, assim como não conseguiu conter o impulso de se levantar e subir, sorrateiramente, as escadas até os quartos de Rowena sorrateiramente.
"Mama?" a menina chamou, abrindo a porta devagar e espiando para dentro do quarto. Antes isso era uma tarefa tão fácil. Entrar naquele quarto não lhe trazia preocupação alguma, ela simplesmente batia na porta para não chegar sem avisar e entrava. Agora a menina percebia que sentia um vazio em seu estômago enquanto empurrava a porta devagar, sem saber qual seria a reação de Ravenclaw ou como o lugar iria parecer sem ter seu pai a esperando ali dentro.
Sua mãe estava deitada na cama, observando o teto cheio de estrelas, infinitos pontinhos luminosos que brilhavam e a iluminavam ali. A mulher levou um momento até erguer-se e olhar a garota, parecendo cansada demais, como se o seu corpo fosse pesado demais para ser sustentado pelos seus braços, então acenando para ela entrar. Desde o funeral, Rowena ficara bem mais silenciosa que o normal e muito mais distante. Helga dizia que ela estava sofrendo demais, mas a garota havia ouvido outros professores comentarem o quão estranho era o comportamento frio e controlado da mulher depois do que havia acontecido.
"O que houve, Helena?" ela perguntou enquanto a outra se aproximava. A garota não pôde deixar de perceber como era estranho ver o lado de seu pai na cama ficar vazio.
A menina parou ao lado da cama, encarando a mãe por um longo momento, sem saber o que falar. Só percebeu que já estava ali por talvez um minuto, quando sentiu algo quente e molhado escorrer pelo seu rosto, logo antes de ver a bruxa sentar-se melhor enquanto esticava os braços para ela. Helena pulou na cama, indo direto para o abraço e escondendo o rosto no pescoço de Rowena, soluçando baixinho. Ela sentia os dedos da mulher afagarem a sua cabeça com calma enquanto ela continuava a chorar. Depois de alguns minutos, sentiu a bruxa se deitar, puxando-a junto consigo enquanto mudava de posição.
"Sinto falta dele, mama," Helena soluçou, agarrando-se à mulher e ainda se recusando a erguer o olhar.
"Eu sei," ela murmurou, seus dedos continuando a carícia na cabeça da filha. "Eu também."
A respiração de Rowena continuou calma, de vez em quando parecendo travar, mas logo voltando ao ritmo anterior. Quando a menina finalmente afastou o rosto, viu que a bruxa não tirava os olhos das estrelas acima delas e que estes estavam mais brilhantes do que o normal e um tanto inchados. Ravenclaw suspirou profundamente, finalmente abaixando o olhar para a filha e levando uma mão até o rosto desta, acariciando a mandíbula dela por um momento, antes de tocar com leveza algumas sardas em suas maçãs do rosto enquanto um sorriso mínimo e um tanto triste curvava os cantos de seus lábios.
"Vai ficar tudo bem, Helena," Rowena murmurou, limpando uma lágrima do rosto da garota, antes de afastar a sua mão para apoiá-la no próprio abdômen. "Vamos todos ficar bem."
Mas tudo não ficou bem. A noite fora mais tranquila do que as anteriores e a menina conseguiu dormir sem ter sonhos que a deixavam exausta na manhã seguinte, mas assim que acordou, Helena, ainda sonolenta, viu sua mãe sentada na beirada da cama, com o corpo arqueado enquanto parecia respirar com certa dificuldade. Ainda não havia amanhecido, apesar de já conseguir ouvir alguns pássaros cantando do lado de fora.
"Mama?" a menina chamou, sentando-se na cama e esfregando os olhos com os dedos.
"Helena, será que você pode me fazer um favor?" Rowena pediu, ainda sem olhá-la. "Pode ir procurar Helga para mim? E dizer que preciso vê-la?"
"Está tudo bem, mama?" Helena perguntou, aproximando-se devagar, mas parando ao ver a mão erguida da mulher acenando como se indicasse para ela se apressar. Seu estômago parecia ter dado espaço à um enorme vazio outra vez enquanto seu coração acelerava.
"Está sim," ela falou, respirando fundo e soltando o ar devagar enquanto esticava as costas, logo antes de voltar a se arquear. "Diga para ela que... Que algumas cólicas estão me incomodando, sim?"
A garota franziu o cenho, observando a mãe por mais um momento, antes de pular da cama e correr para fora do quarto. Apesar de não saber a razão de Rowena precisar de Helga para cuidar de cólicas, Helena fez o trajeto mais rápido até os aposentos de Hufflepuff, não hesitando em bater na porta para chamá-la, mesmo sabendo que ainda era cedo. E, apesar de ter ficado preocupada, sua mãe não parecia mal... Mas foi só quando viu o rosto de Helga ser tomado por uma expressão preocupada que o medo tomou conta de si. Principalmente depois de ver a bruxa praticamente correr até o quarto de Ravenclaw.
Helena não foi atrás. Sabia que só iria atrapalhar e Rowena provavelmente iria mandá-la sair dali assim que pisasse dentro do quarto novamente. Simplesmente voltou para o seu quarto, enfiou-se debaixo das cobertas e abraçou com força a raposa de tecido que seu pai havia feito para si quando era menor, mordendo o lábio inferior enquanto desejava, com todas as forças, que o que Ravenclaw falara na noite anterior se tornasse realidade. Que tudo ficasse bem.
***
Thomas Ravenclaw costumava dizer que almas não tinham conserto, mas tinham tempo. Almas tinham cicatrizes, assim como a pele daqueles que foram machucados, mas as pessoas se acostumavam com essas marcas, aprendiam a conviver com elas da mesma forma que ele havia se acostumado com as cicatrizes em seu corpo. A garota sempre desconfiara que aquelas palavras não pertenciam ao homem e sim à sua mãe, mas fora Thomas quem tivera coragem de mostrá-las à filha. Agora que ele não estava mais ali, no entanto, via que aquilo só podia ter sido falado por Rowena, pois agora via que ela era cheia de cicatrizes, antes tão bem escondidas pela alegria causada pela presença do marido.
Helena se perguntava de onde vieram todas aquelas cicatrizes que adornavam a alma de Ravenclaw. Sabia de algumas, é claro, como aquela deixada pela morte de Darius e Castia Ravenclaw, também condenados por serem bruxos, e, agora, aquela marca enorme que a morte de seu pai havia provocado. Mas ainda não sabia de onde vinham as outras e talvez nunca iria descobrir, iria apenas observá-las enquanto via Rowena andar pelos corredores com o rosto fechado em uma expressão séria ou enquanto ouvia a voz da mulher quase sempre assumir um tom controlado e rígido.
A menina decidiu, naquela época, que ela odiava cicatrizes. Seu pai as amava. O homem sempre brincava, dizendo que não seria o mesmo sem as cicatrizes em seus pulsos ou as marcas já esbranquiçadas de pequenos cortes que enchiam as suas mãos... Ele sempre achava algo de belo em marcas pelo corpo: as antigas queimaduras em seus braços eram lembretes de sua sorte, a cicatriz no joelho da filha era presente de uma aventura e o antigo corte no lado do corpo de Rowena era uma batalha vencida. Helena agora só via cicatrizes como coisas horríveis que distorciam a pele e a alma das pessoas, que doíam quando o frio chegava ou quando a noite se aproximava, que faziam com que todos se lembrassem de coisas que queriam esquecer.
Elas estavam longe de ser os desenhos da vida esculpidos no corpo das pessoas, como dizia o seu pai.
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