O Dragão

9 Capítulo 8


O aposento era feito com o mais puro mármore. O ambiente não havia nenhuma outra saída, a não ser a porta que a ligava ao corredor, mas o local estava iluminado como nenhum outro local da ordem. No centro havia um jovem sentado no seu trono de marfim. Ele vestia uma túnica negra e no dorso de sua mão direita estava a tatuagem símbolo das Fênix. O líder da Casa das Fênix, Malkhuth.

– Vim apenas fazer uma visita rotineira. Vejo que ainda mantém esta aparência enganosa. Você que é muito mais velho que eu...

A pele do garoto era extremamente pálida, como se não houvesse vida naquele pequeno corpo. Seus cabelos eram tão negros como a sua túnica. Os olhos brilhantes do mais puro azul contrastavam com o corpo que aparentava não ter vida. Ele aparentava ter uns treze anos, mas sua verdadeira idade datava do início da criação das três ordens.

– Eu gosto desta aparência. Ela me relembra os bons tempos. É uma pena que com o passar dos anos ela fique cada vez mais artificial... – Ele se levantou do trono e dirigiu-se a Tiferet. – É bom que um velho amigo venha me visitar nestes momentos angustiantes.

– É... – Respondeu Tiferet, com relutância.

A luz que Yonnin e Thalles encontraram se tratava apenas da saída do túnel que se arrastava por todo o subterrâneo da ilha. Mas era uma luz muito fraca. Yonnin se esgueirou pela passagem e percebeu que a luz vinha de dois pequenos buracos que davam para um enorme corredor. Ele podia ouvir a voz de Tiferet atrás dele. Ele passou as mãos pelo local e percebeu que estava dentro de alguma estátua fria como uma pedra de mármore. Ele começou a escutar o som de passos vindos próximos a ele. Depois de alguns segundos avistou Tiferet andar ao lado de alguma criança vestindo o manto das fênix. O alquimista se virou, e como se notasse a presença dele movimentou os lábios formando a frase “espere mais um pouco e vire-se, atrás de você está a passagem”.

Ele esperou os dois saírem pelo grande portão para procurar a passagem descrita por Tiferet. Ele tateou em busca de algum espaço ou alavanca, mas não encontrou nada. Até que passou a mão por uma lacuna empoeirada, revelando um símbolo dourado que se destacava do resto da obra. Um brilhante caduceu dourado, o símbolo dos alquimistas. O símbolo começou a esquentar. Aos poucos toda a estrutura de mármore foi se transformando em pó, dando espaço suficiente para Yonnin e Thalles saírem da estátua. Após a saída dos dois homens, a estátua voltou ao normal.

Tiferet e Malkhuth conversavam enquanto andavam pelo porto.

– Até hoje me pergunto por que vocês e os dragões iniciaram esta guerra... – Iniciou Tiferet.

– Questões antigas... Quando a divisão dos poderes favoreceu os dragões, as antigas células revolucionárias da ordem não aceitaram e declararam guerra. Nós nos unimos com a antiga Quarta Ordem, mas os resultados imediatos foram apenas a extinção dos nossos aliados e a morte de muitos de nossos amigos. Atualmente nós permanecemos em conflito como resposta a carnificina que ocorreu no passado. Aprendemos a lidar com a falta de habilidades, mas nunca esqueceremos o que a Segunda Ordem fez a nós...

– O que você acha de declarar uma trégua a essas lutas? Creio que os dragões aceitariam facilmente um acordo. Não haveria mais perdas para nenhum dos lados.

Malkhuth parou com a proposta do alquimista. Uma estranha e grandiosa energia brotou do chão, dando a ilusão de que a fênix estivesse muito maior do que realmente fosse. Sua voz não era mais a mesma, exibia um timbre forte, capaz de assustar os mais desavisados.

– E ignorar os meus amigos que morreram em vão? E esquecer o que aconteceu comigo por culpa daquela raça? Nunca!

– Se acalme amigo...

– É por culpa deles que eu estou preso a esta ilha! Se hoje as fênix existem é por minha causa! Eu me sacrifico todos os dias pelos meus companheiros! Você não sabe o que significa abdicar grande parte de suas habilidades para manter esta ilha flutuando longe de tudo e de todos! A guerra vai continuar até o último dragão cair aos meus pés.

– É uma pena que você pense assim, meu amigo. – Tiferet jogou rapidamente o seu caduceu no chão antes que a fênix notasse. Ele se transformou em uma pequena serpente branca de olhos vermelhos que se dirigiu rapidamente para dentro do grande corredor. – Já estou indo. Foi bom me distrair um pouco ao seu lado. Espero que pense em minha proposta.

– Faz trezentos e cinquenta anos que você mantém esta sua ideia. E faz trezentos e cinquenta anos que eu disse não.

O alquimista entrou em sua embarcação e acenou para seu amigo antes que ela se tornasse completamente invisível.

A pequena serpente-caduceu encontrou rapidamente Yonnin. Ele e Thalles vasculhavam o salão de Malkhuth. O homem parou a sua busca assim que viu a criatura, a voz de Tiferet surgiu em sua mente.