O Dom
6 Goodbye to What We Know, Part 1
- 16 de Setembro, Kyoto, 01:10 am –
Zonzo mas consciente, Kenato voltou a conseguir visualizar todos os tons de cor da sala escura onde agora se encontrava, percebendo estar amarrado ao mover as mãos atrás das costas, e aos poucos descobria estar num escritório diferente àquele onde embateu e a tantos outros que atravessou até ao 19º andar. Aquele era bem amplo e no fundo, à sua frente, uma janela gigante que vinha do teto ao chão, ocupando toda uma parede, mostrando toda a vida noturna ainda funcional em Kyoto, os placares luminosos e os prédios com luzes aleatórias ligadas.
Ao mexer a cabeça, sentiu dor e parou, mas focou o olhar numa cadeira por de trás de uma longa secretária escura, virada para a janela, mas que se movia ligeiramente e demostrava que alguém se sentava nela.
- Parece que aqui o menino acordou finalmente. – O homem que o atacara no início falara inglês tão bem como a língua de Kenato. Estava atrás da cadeira onde ele se sentava e depois, colocou-se mais à frente, na esquerda, ainda de braços cruzados e um sorriso estampado no rosto ao observar o rapaz, de alto a baixo. O rapaz tentou responder-lhe grosseiramente mas foi ai que entendeu ter uma mordaça na boca que o impedia de falar. Ainda se debateu, mas era inútil. Estava sem escapatória pois por algum motivo, o seu poder deixara de vibrar no seu corpo e ele não o conseguia mover. Parecia estar paralisado pelo cansaço ou pelo medo.
- Nesse caso veremos quem se esconde por de trás dessa máscara... – Comentou a nova figura, também em japonês, escondida na cadeira rolante, que acabou por virar e demostrar-se. Era alto e devia ter mais ou menos 40 e muitos anos, mas de aspeto atlético e bem cuidado. A barba era branca e curta, assim como o cabelo puxado para trás da mesma cor. Entrelaçava as mãos na secretária e olhava Kenato, de alto a baixo, sem demostrar muitas emoções. A voz era carregada e possante, mas delicada e pausada. – Bem também não será muito necessário, certo, Tsukisaki Kenato? – Ao perguntar com retórica, sorriu e deparou-se com o espanto do jovem, que parou de se mover na cadeira. – Vamos Iron, não sejas indelicado, retira-lhe a máscara para que falemos cara a cara como verdadeiros cavalheiros. – Falava para o seu ajudante ainda na língua da china.
- Não é que eu o ache de confiança senhor Matthew, mas ordens são ordens. Afinal deu trabalho... – Como falou em inglês, Kenato apenas conseguiu distinguir o nome da pessoa presente à sua frente. Era o líder da SEC. Percebeu que o seu inimigo era Iron, mas o menos sabia que isso queria dizer “Ferro”, algo que deveria ser um apelido, talvez aplicado à utilização do poder do homem.
Iron caminhou até ele e retirou-lhe a máscara negra do rosto, lançando-a para o chão ao seu lado, deixando ao descoberto a face de Kenato sem os habituais óculos de ver. Como eram usados para ver de perto, conseguia distinguir bem os seus raptores.
- A mordaça também... – E assim Iron fez com muito custo. Desamarrou o pano que estava atado no cabelo do rapaz e ela acabou por cair sozinha. Assim que pode falar, não se conteve muito tempo.
- Desamarra-me já! – Gritou Kenato, tentando mover a cadeira e balança-la para ambos os lados. – Não sabem com quem se estão a meter!
- És jovem e pouco experiente, mas pareces corajoso à partida. Nota-se pela tua ingenuidade. – Comentou o chefe da empresa, levantando-se e voltando a olhar pela janela, cruzando as mãos atrás das costas. – Sabes ao menos quem sou eu, ou o meu empregado que está ai ao teu lado?
- Uma coisa eu sei, com os estragos que ele fez, certamente sabe que ele tem algum tipo de dom...
- Tal como tu, Kenato... – A resposta do homem surpreendeu-o. Era quase claro que Matthew saberia que a pessoa com quem trabalha teria poderes e Iron poderia ter-lhe informado das capacidades do jovem, mas em momento algum ele disse o seu nome em Kyoto.
- Como sabes tu o meu nome?! Já sabias que eu viria? Tens espiões atrás de mim? – Quando se tratava de multinacionais, já poucas estratégias, mesmo as mais estranhas e bizarras, lhe pareciam convincentes.
- Até és esperto quando queres rapaz. – Sorriu e virou o rosto para ele. – É quase isso. Tenho observado a tua vida à algum tempo Kenato e acredita que os teus planos em Tokyo não passavam muito despercebidos caso as pessoas certas te procurassem ou seguissem. Foi uma questão de tempo até traçar o teu perfil. Após isso, nada mais fiz de especial que envolver a SEC com as empresas Tsukisaki e sabia perfeitamente que isso te traria a um golpe em Kyoto. – Esfregou as mãos e avançou um pouco na sala.
- Mas afinal o que se passa aqui? O que queres de mim? – Questionava Kenato, acabando por desistir de se debater na cadeira. O que tivesse de acontecer, aconteceria e para ser algo que o punisse, já teria ocorrido.
- Sabes que és especial certo Kenato?
- Especial? Sei que consigo fazer coisas que até então pensava ser o único a possuir.
- Um pouco egocêntrico, não achas?
- Talvez... mas o que interessa isso para o caso?
- Penso que existem tantas pessoas com dons especiais, como flores num campo da Suíça. O que é necessário é procurar e colher as corretas. – Prosseguiu Matthew, já de braços atrás das costas e perto de Iron. – O que tu queres são os teus pais de volta, certo? Só para ti. E se eu mesmo te conseguisse ajudar nisso?
- Não existe modo de me ajudar com isso. O que estava a fazer com a SEC, criando um protocolo com a empresa Tsukisaki apenas deixaria tudo pior. – Virou a cara para o chão. – E para mais, apenas eu o posso fazer...
- Acho que te enganas rapaz. Pelo que sei ainda sou dono de uma empresa multinacional e multimilionária. Como tal posso muito bem chegar ao ponto de conseguir compra-la e comanda-la como minha. Os teus pais manteriam o emprego, a estabilidade financeira, mas teriam muito mais tempo livre.
- Não acredito que seja possível. Eles nunca abdicariam do que tem em mãos até que a empresa caia na banca rota.
- Para mim muita coisa é possível. Sou conhecido por fazer propostas irrecusáveis.
- Como posso eu acreditar em alguém que me prende aqui?! Nada me comprova que seja real o que está a dizer!
- Vamos ter que estabelecer uma confiança entre os dois. Eu não estou aqui para te fazer mais mal e peço desculpa pelo que o Iron fez contigo à uns minutos. E desde que ele não abra também a boca, nada tenho para acrescentar. – Falou enquanto mais dois homens matulões entravam pelo escritório com Mordomo nos ombros preso, sem que fosse possível para ele fazer muito mais que mexer os pés para se mexer. – Se me ajudares com uma coisa que tenho em mãos, eu posso demonstrar o primeiro passo para te ajudar também. Posso igualmente dar-te mais informações sobre aquilo que és realmente... Nunca o quiseste saber?
A conversa de Matthew, para além de assustadora, era em certa parte tentadora. O homem falava de uma maneira que era impossível dizer que a sua confiança e estado de espírito, fazia dele uma pessoa de palavra. Ao menos era isso que Kenato pensava dele. E também, que coisa seria essa que Matthew necessitava que ele cumprisse? Talvez nada que não pudesse ser feito. E depois disso, talvez o homem realmente o ajudasse a reaver a família para si, aquilo que ele tentava á anos sem grandes sucessos, mas pequenas conquistas. Podia tratar-se aquela de mais uma pequena conquista? Um procedimento do destino para realmente tudo o que ele ambicionava se cumprisse? Ou até o golpe que ele sempre esperou que acontecesse.
Olhou Matthew uma vez mais. O homem continuava sereno à sua frente. Mordomo tentava debater-se nos braços dos homens sem sucesso e mesmo que não gostasse muito de Iron, olhou de relance para ele, que permanecia de braço cruzados à sua esquerda, mais distante. Por fim, o rapaz respondeu.
- Quero comprovar se é verdade. Não perco nada com isso...
- 16 de Setembro, Boston, 08:45 am –
A manhã nasceu como tantas outras. E mais uma vez Adam levantou-se com aquele sonho estranho, sempre igual, que o acordava durante a madrugada. O cenário permanecia, Mia permanecia, o seu estranho controlo também. Já ouvira falar de sonhos lúcidos e aquilo parecia ser bem um caso desses, mas não sabia que eles se prolongavam tanto no tempo. Tentou esquecer-se disso quando apanhou a carteira e saiu do apartamento a caminho do primeiro dia de trabalho na loja que a rapariga de Boston lhe indicara e onde á dois dias se apresentou para a entrevista. Como gostaram dele, contrataram-no como empregado na Tecno-Mark, uma loja de eletrónica no centro da cidade, na Cambridge Street e uma das 10 lojas em Boston. Pelos vistos era um negócio que estava a dar bem por aqueles lados.
Apanhou um táxi e colocou-se a caminho. A viagem não era grande até lá, mas apanhar um transporte tornaria a viagem mais rápida, se queria chegar ao trabalho no primeiro dia às 9 da manhã. Olhava para o relógio a cada 2 minutos e só percebeu isso quando faltava pouco mais de 9 minutos para a hora certa. Também sabia que estava perto, tinha descido aquelas ruas com Mia no dia em que se foi candidatar na loja e como tal estava mais familiarizado com algumas das ruas. Isso relembrou-o do passeio que dera com a rapariga e como isso o deixava sempre bastante feliz por ter companhia em Boston.
Pagou a condição do taxista e começou a andar pela ponta este da Cambridge Street, já que mais alguns metros e chegaria ao destino, dentro do horário ainda. Chegou a um local com menos prédios e até um pequeno estacionamento lateral, que dava a uma loja de tamanho mediano, algo movimentada. Quando entrou, estava tudo igual ao que se lembrava. Na entrada uma porta de correr com sensor de movimento. Quase 30 metros de loja, com mais de 10 longas filas verticais de eletrodomésticos, videojogos, livros, aparelhos, televisões de todos os tamanhos e formatos, consolas e até telemóveis. Viu de longe alguns empregados distribuídos pelas filas e mais à frente, do lado esquerdo, a receção oval onde estaria o gerente. E foi para lá que se encaminhou, preparado para demonstrar a sua presença para Frank, o gerente da Tecno-Mark, aquele que tinha colocado a sua candidatura para aprovação e a mesma pessoa que o informara que tinha de vir trabalhar naquele dia. Não foi preciso chamar a sua atenção já que assim que apareceu no balcão, o homem franzino e com mais alguns anos que ele tirou os olhos do visor e encontrou Adam com o olhar. Sorriu brevemente. Era simpático, mas só quando queria muito, ou necessitava muito disso.
- Adam, vejo que chegaste bem a horas. – Afirmou, voltando a clicar no rato do computador para acabar algo.
- Fazia questão de chegar a horas ao meu primeiro dia, Frank. – Não o disse num tom irónico, já que não conhecia a personalidade do homem, mas tentou sorrir, sem receber grande confirmação da outra parte.
- Sim, sim, eu sei... – Continuou a mexer no computador até se acabar por levantar e mexer nas bancadas por baixo do balcão. – O teu posto é por agora na secção das máquinas fotográficas, se algo correr mal, logo te arranjamos outro posto. Percebes algo do assunto?
Para dizer a verdade, Adam não era muito dado a estudar as funções de uma máquina, muito pelo contrário, uma vez até chegara a comprar uma nova que só depois percebeu ser pior que aquela que já tinha. Mas não podia negar à primeira uma ordem daquelas.
- O básico, acho eu. Dará para desenrascar.
- Nesse caso depois analiso a tua candidatura melhor e arranjo-te uma secção onde estejas mais informado. Por agora, vê se cuidas daquela. – Apontou para a fila das máquinas no outro canto da loja, ao mesmo tempo que se levantava e deixava encima do balcão um conjunto de calças pretas e uma camisa de manga comprida de cor vermelha escura e um logotipo da loja estampado no peito. – Por agora, vai vestir o uniforme na zona de serviço ali ao fundo e ocupa o teu lugar.
- Obrigado. – Disse, agradecendo e pegando no uniforme e tentando ver para onde Frank apontava por último. A zona de serviço era no fim da loja toda, com duas portas que ao longe pareciam ser de madeira.
Tratava-se de portas grandes daquelas que se empurram para dentro e que levavam a um compartimento amplo com algum material ainda por colocar em exposição. Depois Adam achou o dito vestiário, trancou a porta e despiu a roupa que trazia de casa, para colocar o uniforme frio encima do corpo. Assim que a arranjou para que lhe assentasse bem, arrumou a anterior roupa e guardou-a num cacifo próprio. A seguir dirigiu-se para a saída e quando acabou por sair, ficou com companhia.
Assustou-se pois não esperava que alguém o esperasse a poucos metros da porta e assustou-se devido a essa mesma pessoa estar a apenas 1 metro dele, de rosto apático. Devia ter pouco mais que um ano ou dois a mais que ele, ou até a mesma altura, nariz pequeno, olhos verdes e cabelo castanho. Trazia um uniforme e por isso também trabalharia ali. Percebeu que Adam sentiu um certo desconforto com a sua presença e escondeu o verdadeiro motivo que o levaria ali estar.
- Desculpa, não te queria assustar. Fiquei...curioso com o novo empregado.
- Sem problemas. Eu sou o Adam. – Estendeu a mão para o cumprimentar e apesar de ligeiramente inseguro, acabou por lhe estender igualmente a mão e aperta-la.
- Thomas. – Disse, ao recolher depois a mão. – Se não te importas, tenho que ir continuar a trabalhar... Vemo-nos por aqui...
- Sim, vemo-nos... — Respondeu o rapaz, quando Thomas se começou a afastar para uma das primeiras filas da loja.
Acabara de presenciar um comportamento estranho vindo daquele rapaz. Não sabia porque teria ele um interesse tão súbito de o conhecer e depois simplesmente deixara isso para outra altura. Boston revelava-se, para além de enriquecedor, uns mistérios cada vez maiores para Adam, naquele sentido. Pessoas simpáticas demais como Mia; Pessoas estranhas demais como Thomas; Cidade calma demais e sonhos cada vez mais estranhos. Parecendo que não isso já o deixava de certa forma alerta. Para o quê? Nem ele mesmo sabia.
- 16 de Setembro, Las Vegas, 11:13 am –
Dwayne começou a constatar que talvez devesse ter pressionado mais Alexander para que lhe fossem dadas mais informações sobre o que procurava. Mas também não o podia culpabilizar, ele mesmo não fizera esforço algum em dar uma primeira leitura nos papéis que foram deixados antes mesmo do viajante do tempo desaparecer novamente.
No dia anterior, chegara ao deserto bem perto de Las Vegas e quando entrou na cidade, levava com ele uma autoconfiança grande que iria ter sucesso na sua busca pela rapariga mistério. Percorreu algumas ruas, mas depois achou-se estúpido, pois com toda a certeza num local tão amplo, andar pelas ruas não deixaria de maneira alguma mais perto de encontrar uma pessoa no meio de tantas que passavam. Resolveu encontrar um dos hotéis perto da zona mais movimentada e teve sorte em dois aspetos: ter trazido a carteira com o cartão de crédito no interior e ainda existir uma pequena suite sem reserva no segundo que visitou. Acabou por ficar pelo Treasure Island, na Strip. Por muito bonito e luxuoso que parecesse, o mais importante no momento seria continuar a busca e assim o rapaz de negócios fez depois de visitar pela primeira vez a sua suite e depois sair novamente para as ruas.
Entretanto, nesse mesmo dia alugou um carro, pensando que poderia alargar a sua pesquisa melhor com ele. Chegaria pela manhã do dia seguinte. Foi rapidamente a um shopping ali perto e comprou algumas roupas desportivas e casuais, assim como uns óculos de sol escuros, para passar mais despercebido. Também seguiu a primeira pista dada pelos documentos: A casa dela em Warm Springs, um bairro perto da zona central. Sabia até o número da porta, mas mesmo que ficasse por lá quase meia hora, decidiu desistir e talvez tentar quando tivesse um carro para escapar do calor e do cansaço de estar de pé. Se não tivesse sucesso e em último recurso, sabia que ainda tinha outra possibilidade: Pelos vistos Kaze era uma corredora ilegal em Las Vegas e como tal, participava na maior parte delas, local onde acabou por ganhar esse mesmo cognome. A próxima corrida estava agendada para dia 16 de Setembro, ao meio dia, num dos campos abandonados perto da cidade.
E foi essa pista que Dwayne teve de seguir no dia seguinte, depois de com o seu BMW Limited, uma bomba boa e que custara uma pipa de massa em aluguer, ter passado umas boas 4 horas à espera que a mulher saísse da sua moradia. E se esperou desde as 6 da manhã, talvez ela não saísse mesmo naquele dia até ao meio dia. Mas para jogar pelo seguro, encontrar o local da corrida poderia ser um tiro mais bem dado. Suspirou olhando de relance uma última vez para a casa, colocou os óculos e ligou a ignição, desaparecendo no bairro em pouco tempo.
Percorreu a maior parte de Las Vegas para fazer tempo. Entretanto ouviu o toque do telemóvel que estava no porta-moedas, indicando acabar de receber uma mensagem. Ainda enquanto conduzia numa rua com menos trânsito, agarrou nele e clicou no ícone da sms, percebendo à partida que se tratava de Chris.
“- Onde andas tu? Pensava que ias ao almoço do pai hoje!
Responde“ – Dizia a mensagem. Parando num estacionamento ali perto, começou a formular a sua resposta.
“- Já falei com ele, não posso mesmo. Vim a Toronto resolver uns assuntos.” – Assim que a enviou, sabia perfeitamente que não ia arrancar com o carro, o melhor amigo acabaria por mandar outra mensagem em segundos. Assim aconteceu.
“- Estás a brincar comigo?! Já tínhamos isto marcado á bastante tempo, como é que te surgiu um imprevisto assim tão repentino.
Posso saber o que é?”
“- Prefiro por enquanto não falar. Não te preocupes, manda um abraço à família.” – Depois de Dwayne ter respondido a ultima mensagem chegou.
“- Confio em ti, seja lá o que for. Boa viagem”
Voltou a colocar o telemóvel no local onde estava e deixou-se cair no banco do carro, suspirando e colocando as mãos sobre a cabeça. Detestava mentir, ainda para mais a gente que o conheciam tão bem e o acolheram quando ele mais necessitava. Mas qual dos Carters receberia bem a noticia que o adotivo da família tinha poderes anormais que lhe permitiam teleportar para outra parte do globo, tal e qual num filme de ficção científica? Com tanto dinheiro, ainda o mandavam para um psicólogo ou um manicómio. Mais valia não saberem de nenhum pormenor, a ter que sofrer as consequências de tal.
Olhou novamente o relógio, 11:32, meia hora para a corrida. Tinha de se apressar. Colocou o pé no acelerador, na velocidade máxima que era recomendada nos espaços onde seria mais propício encontrar-se com a polícia, que o podia multar e iniciou a viagem pela rota 15. Encaminhou-se para perto do Sandy Valley.
A meio da estrada apanhou despercebidamente um atalho mais rude, ao colocar o seu BMW no meio da poeira do deserto à direita. Saiu para olhar em redor, no meio das montanhas e do caminho por onde seguia o atalho. Como seria de esperar eles não estariam ali tão à mão de semear, mas conferindo o mapa, aquele era o caminho certo a seguir. Enrolou o mapa e lançou-o para os bancos de trás. Sentou-se novamente na viatura e avançou entre o pó que se levantava com o andar das rodas. Com alguns solavancos desceu um vale pouco ingreme.
Seguido de duas montanhas, uma que desceu e outra que de alta que era, o trilho dava a volta à mesma, dois carros tunning lado a lado impediam a passagem para a frente e os seus condutores já estavam de olho em Dwayne, o que impossibilitava um escapar dali para descobrir algo mais discreto para penetrar na corrida. Também se começavam a ver mais pessoa a andar a pé, umas com melhor aspeto que outras, mas de certa forma todas as mulheres ali presentes, ao menos as que o rapaz conseguia ver dali, eram todas muito bonitas e a maior parte com pequenos calções ou minissaias.
Vários carros normais estavam estacionados à direita, numa posição que facilmente podiam escapar de qualquer apreensão ou rusga. O ambiente pareceu ficar mais tenso com a chegada do seu carro à concentração. Deviam estar prontos para fugir ao menor perigo. Dwayne preferiu parar a alguns metros dos carros que protegiam a continuação do trilho e esperar que um dos homens se aproximasse do carro dele para averiguar os factos. Era careca, carrancudo e com os músculos salientes na camisa de mangas cavas. Vinha com cara de poucos amigos, mas o jovem baixou o vidro do seu lado assim que ele lhe bateu ao de leve.
- O que fazes aqui rapaz? – Perguntou sem demonstrar sentimentos.
- Oh, ouvi falar desta corrida á uns dias, resolvi vir assistir. – A conversa não pareceu convencê-lo de todo. Tanto que ficou pensativo.
- Quem te informou da corrida? – Dwayne estava a ponto de ser desmascarado, não tinha nada que pudesse dizer para mudar a situação. Mas o colega dele, lá mais ao fundo, parecia não estar para grandes conversas.
- Ei, vamos lá! Não temos o tempo todo. – Gritou ele, recebendo do homem careca que o interrogava uma expressão carrancuda. Depois voltou a virar-se para o rapaz.
- Espero bem que não sejas da bófia, ou estás frito em campo inimigo. – Depois pareceu suavizar-se antes de partir, apontou para um lugar vago de estacionamento. – Podes estacionar ali.
Dwayne quase que escorreu o suor frio da testa. Parecia que a pior parte tinha passado e que eles o deixariam entrar. Quando o homem se afastava e olhava uma última vez para ele, o jovem estacionou no campo de areia ao lado de tantos outros carros e saiu, juntando-se com a multidão. Era até difícil de acreditar que um evento ilegal estivesse ainda de pé, aquelas horas do dia e numa dimensão como aquela, sem que a polícia se desse conta e prendesse os seus organizadores. Depois daquilo que se podia chamar entrada, vinha um vale quase a pique que as pessoas desciam para ver mais de perto, ou então até se espalhavam pela encosta de maneira a assistir à corrida que possivelmente estaria a ponto de se iniciar. Seguindo o exemplo de muitos deles, Dwayne tentou impedir-se de escorregar pelo monte inclinado de areia e espalhou-se entre a multidão que já gritava de euforia. Naquilo que dava a entender ser a estrada da corrida, estavam já alguns carros artilhados com os seus corredores babados de lado a mostrar as máquinas a quem estivesse interessado. Eram todos homens, o que desanimou de certa forma Dwayne. Mas ele sabia que Kaze teria de aparecer. Aquele dia era o último que Alexander lhe dera para encontra-la e não o podia desapontar. Fosse para o que fosse.
A hora chegou e aquele que possivelmente era o apresentador do evento, um homem alto com um pano enrolado à testa mandava os carros colocarem-se lado a lado na partida. Por fim ela apareceu.
Conduzia o carro azul metálico da marca Subaru pelo terreno e colocava-se 100% alinhada com os outros corredores na linha de partida. Um carro simples que tinha arranjado para “arriscar” naquela situação. Tirou o espelho traseiro da sua posição normal apenas para ajeitar os cabelos castanhos e longos que tinham esvoaçado na sua pequena corrida pessoal para ali chegar a horas. A verdadeira campeã das corridas ilegais de Las Vegas não podia desapontar os seus fãs, pensava ela. O que muitos não sabiam é que a chave do seu sucesso estava para além de um simples conduzir de carro, ou alguma manobra mais arriscada que lhe permitia ganhar. Estava envolvido algo muito mais “poderoso” que isso, mas era o pequenino segredo da jovem com os seus juvenis 27 anos. Sentia-se uma adolescente ainda e adorava isso. Afinal, era uma japonesa bem-parecida, tanto para padrões do Japão, como para os padrões da América.
- Ei, miss! – Arranjou o espelho e deu logo conta de quem falava com ela. Olhou para o lado e ali estava ele. Conhecido como Josh “Brutus” Malosh, o corredor sem piedade e como a sua alcunha dá a entender, um bruto. Kaze já estivera em várias corridas contra ele, umas vezes ganhava, outras vezes perdia. Mas parecia que a confiança e arrogância do homem nunca desapareciam. Como sempre deixara a barba crescer apenas à volta da boca e queixo, nojento para os padrões da jovem. O trintão ainda devia era viver com os pais.
- Oh, nem te vi Brutus... Acho que cada vez estás mais pequeno. Tal e qual o teu material... – Gracejou a jovem. Não se podia orgulhar, tinha tido uma noite com ele, apenas de experimentação. Nunca mais queria repetir a doze.
- Engraçadinha... – A sua expressão passou de grosseiro para rude. – Vais ver quando comeres o meu pó nesta corrida!
- Veremos então. – Subiu o vidro do Subaru. Não estava disposta a ouvir mais nada vindo daquele sujeito. O importante agora era a corrida que se iniciaria na tarda nada.
O apresentador do evento já estava no meio da pista, falando para o público. Kaze não ouvia nada, tinha instalado vidros anti som. Preferia estar concentrada na corrida, enquanto os vidros laterais estivessem fechados por completo. E por isso mesmo, se Brutus ainda estivesse a falar, ela não estava a apanhar nada. Depois o apresentador, parecia apontar para cada corredor e apresenta-lo, deixando a multidão cada vez mais excitada. Por fim devia-se dar início à contagem e para isso o vidro do seu lado foi descido alguns centímetros.
- E tem inicio a contagem! – Nessa altura uma mulher de origem africana e de minissaia entrava para a pista com uma bandeira na mão. – 3! 2! – A ignição de Kaze já tinha sido ligada e tudo estava pronto para arrancar. – 1! – A bandeira desceu e os carros partiram. Kaze era uma das primeiras a arrancar. A sua habilidade de condução já era notável, mas também devia muito há sua habilidade especial. Tal que a primeira coisa que fez ao arrancar foi se conectar ao carro, de tal maneira que ele era agora uma extensão do seu corpo uma vez mais nas corridas. Todos os botões, manípulos, o motor, o carburador, controlada tudo isso instintivamente como algo natural e sem pensar. Por isso o seu arrancar foi mais bem-sucedido que o dos outros. Ela fazia algo que os outros nem perto poderiam.
Todo aquele novo mundo que Kaze vivia, tinha começado com um simples tocar na TV quando tinha 15 anos, baixou-se para apanhar o comando caído, ao mesmo tempo que pousava a mão sobre o seu ecrã. Quando viu, a TV tinha mudado para o canal que ela pretendia ver. Achou estranho e na altura não deu muita importância. Um dia mais tarde nesse mesmo ano, tentou novamente e voltou a conseguir. A partir dai, sabia que era especial, mas não o disse a ninguém. À medida que usava a sua recém-descoberta habilidade de super-heroína para coisas mais complexas como usar o pc do professor para roubar um teste no liceu, fazer a máquina lançar gasosas descontroladamente para assustar colegas, a sua curiosidade por aquilo que conseguia fazer aumentava também. O grande proveito retirado disso foi dado por Kaze na altura que tirou a carta aos 16. Sendo honesta, chumbou duas vezes na condução. O seu instrutor era um dos mais duros da escola e como tal, mesmo que ela conduzisse umas vezes melhor que outras, estava sempre chumbada. Como tal pela primeira vez, Kaze conectou-se ao carro do exame e conduziu-o tão bem, que o instrutor não teve mais alguma hipótese que a passar. A partir dai, conduzir tornou-se numa coisa cada vez mais fácil para ela. Aos 17 anos, mudou-se para a América com os pais, mas aos 18 já queria independência e como tal viajou de Los Angeles para Las Vegas à procura de futuro. Nessa mesma altura começou a ouvir falar das corridas ilegais e agora, à mais de 9 anos que tem vindo a ganhar dinheiro e fama entre os melhores corredores. Os pais podem pensar que ela trabalha honestamente numa loja de produtos automóveis, mas é melhor que dizer que ganha dinheiro desonestamente.
Para além disso, á um par de anos atrás descobriu possuir umas segunda habilidade, que combinava muito bem com o controlo completo sobre as máquinas com as quais possui contacto físico. Foi essa mesma que utilizou ao fazer a segunda curva apertada daquela corrida perto de Sandy Valley. Muitos carros avançavam e cruzavam-se na sua frente logo com um fôlego mais demorado, tudo o que envolvia Kaze estava em camara lenta, o ar, os motores, as derrapagens. Apenas ela e o seu carro avançavam melhor e acertavam curvas e contracurvas tentando ultrapassar os outros sem ao menos riscar uma parcela do seu Subaru. Depois, tudo voltou ao normal e a pior curva na areia estava completa. Devia ser por isso que o seu apelido era cada vez mais aceite como Kaze. Quem sabia japonês podia confundir com uma tradução de “Vento”, mas na realidade Kaze era o diminutivo de kamikaze. A seu ver ambos se adequavam perfeitamente, sendo o vento ou a suicida, as manobras da mulher vistas por olhos normais deviam ser arriscadas demais para uma humana.
A corrida ia a meio e Kaze assumia o terceiro lugar, atrás de Brutus e de um novo aspirante. Na reta entre as montanhas, passou facilmente o aspirante acelerando até quase aos 180 km/h. A seguir bastava ultrapassar o trintão convencido. A rapariga tinha plena confiança nas suas capacidades.
Ziguezaguearam pelos vales e montes, mas mesmo alcançando os 190, estava a ser difícil vencer a condução maluca de Brutus. Apenas um erro numa curva, um escorregar na areia e o carro dele ficaria descontrolado, sem que ninguém pudesse fazer nada por ele. Mais 10 minutos e o circuito estava completo. Ainda estavam 5 corredores em pista, um sexto despistou-se mesmo atrás de Kaze à minutos. Era a reta final, lá bem ao fundo da pista, a quase 2 kms deles, estava o ponto onde tudo acabava. Os motores chiavam de tanto trabalhar, a mulher conseguia senti-los como as suas próprias dores, mas suportava-as, afinal bastava mais alguns metros e tudo estaria acabado. Uma grande quantia de dinheiro estava em jogo e ela necessitava dele, não por ser pobre, mas pelo gosto de o ganhar.
Finalmente, acelerou o suficiente para ficar lado a lado com o jipe laranja e artilhado de Brutus. Em camara lenta, ela pode ver o rosto do homem que de relance olhava para o interior do Subaru e batia com força no volante do seu carro, tentando acelerar mais. Um sorriso cresceu no rosto de Kaze, pois ia dar uma lição ao homem. Existia espaço no lado esquerdo do jipe e como tal Kaze ia fazer uma acrobacia final para o seu êxito na corrida. Concentrou-se uma vez mais e o mundo pareceu andar mais devagar para ela novamente. Como iam a grande velocidade, Kaze virou o volante para a esquerda e como tal as rodas começaram a derrapar em rodopio. Aos poucos o Subaru rolava para a frente do jipe e dentro dele, Brutus fazia muito devagar uma cara de quem ia morrer. Tinha tudo controlado pois viajava a menos velocidade que realmente o homem veria.
Por fim, conseguiu ficar lado a lado novamente, mas do lado esquerdo do carro que competia com ela. Depois, tudo voltou a ficar no seu tempo de execução normal. Brutus assustou-se e como tal o carro perdeu velocidade e andou aos ziguezagues por momentos. A multidão aplaudiu toda a manobra maluca e de quase morte. Kaze acelerou mais um pouco e cruzou a meta. Com a sua competência para ligar com máquinas, também conseguiu paralisar o carro no final mais rapidamente que qualquer outro corredor. O Subaru guinou e logo depois, Kaze apareceu do seu interior. Trazia vestido a sua roupa habitual de corrida e pela qual era conhecida, a camisa e as calças justas e de cor preta, as botas castanhas abotoadas à frente e os óculos de sol castanhos sobre os olhos, para cobrir o sol da vitória.
- E a corredora e grande vencedora desta corrida é... – O apresentador do evento aproximava-se dela e pegava no seu braço, acabando por levanta-lo. – Kira “Kamikaze”! – O seu nome foi recebido pela multidão com assobios, palmas e vivas. Mais uma corrida estava terminada. Naquele momento o apresentador dava os seus próprios parabéns e afastava-se para ir buscar a recompensa acordada.
Algumas pessoas que já a conheciam bem naquelas andanças, aproximavam-se para lhe darem também os seus “vivas” privados. Envolvido em gente mais ou menos conhecida, alguém afastava as pessoas de maneira acelerada e bruta, enquanto mandava para o ar palavrões. Como Kaze já esperava, era Brutus indignado.
- Essa mulher é maluca! Ela quase nos matava aos dois! Exijo uma indemnização pelo perigo que passei! – Gritava, quando já estava a poucos metros da jovem. Apontava agora o dedo gordo para ela, deitando gafanhotos da boca. – Isto foi contra as regras!
- Regras?! – Desta vez ela indignou-se também. Estava farta dos joguinhos dele. – Quais regras seu porco presunçoso!? Eu ganhei justamente e a minha manobra foi só mais um ato da “Kamikaze” – À sua volta, a maior parte das pessoas estavam do seu lado. Brutus estava cada vez mais enervado.
- Sua vadia! – Com os nervos, o homem lançou o braço para trás e preparou-se para esmurrar a rapariga. Como que se o corpo percebesse o perigo, o mundo à volta dela andou cada vez mais devagar, de maneira a que ao fim de pouco tempo o braço de Brutus andava para a frente numa velocidade menor que alguns metros por minuto. Aquele compasso de espera deu-lhe tempo de pensar o melhor a fazer. Estava rodeada de pessoas e se queria manter o anonimato com a sua habilidade, podia defender-se do murro, mas à risca e não como se fosse de resposta ultra rápida. Teve de aguentar até ao seu ombro quase tocar na mão nojenta do homem e depois, desviou-se devagar para o lado, o suficiente para que quando o tempo voltou ao seu curso normal, Brutus socasse o ar e ficasse quase perplexo com isso. Sem esperar que ele recuperasse da surpresa recente, deu-lhe sem dó um pontapé entre as virilhas, recebendo dele um gemer antes de cair de joelhos no chão. Algumas das pessoas presentes aplaudiram o facto. Tudo correu como planeado, ninguém dera por nada.
- Paspalho de merda... – Afirmou, quase por pena, enquanto se afastava da multidão que ali se juntava.
Quem também vira tudo fora Dwayne e ele podia muito bem ser a única pessoa naquele circulo à volta do homem contorcido que pensaria algo mais de Kaze. Aquele afastar não foi normal. Pareceu ponderado e quase que preparado. Ligando isso à afixação de Alexander para que ele a encontrasse, só podia indicar que ela era uma como ele. A verdadeira habilidade anormal por detrás de tudo aquilo é que ainda era um mistério para ele. Quando a viu afastar-se do maior movimento, Dwayne sabia que a tinha de seguir. Era a oportunidade perfeita.
- Com licença... – Ia dizendo o rapaz enquanto furava entre a multidão que também se ia dispersando. Pouco depois já se encontrava perto dela, no momento em que recebia o prémio merecido e se afastava, talvez para partir dali. – Kira Nakazato? – A mulher parou-se. Estava a pouco tempo de alcançar o seu Subaru azul, mas alguém saber o seu verdadeiro nome nos USA fê-la parar e olhar para trás.
- Sim? – Respondeu incrédula, analisando o rapaz com pouco mais de 17 ou talvez 18 anos que a tinha reconhecido. O mais estranho era que ela não se dava conta de onde.
- Primeiro que tudo, parabéns pela corrida. – Lançou a mão para que ela a apertasse. – Dwayne Carter.
- Prazer... Não é necessário então apresentar-me já que pareces saber o meu nome. Eu conheço-te?
- Penso que não. Nem mesmo eu a conheço muito bem. – Aquilo pareceu deixa-la um pouco mais confusa. – É difícil explicar o que me trás aqui, necessitava de falar consigo num outro local. – Falou Dwayne à medida que várias pessoas passavam por eles.
- Desculpa rapazinho, não estou para jogos. Não sei como me conheces mas eu não te conheço e isso é que me importa agora. Se me dás licença, tenho mais que fazer... – Acenou e preparou-se para partir. Sujeito estranho que sabia o seu nome, mas afinal, podia ser conhecida com o seu antigo nome, não tinha nada demais. Ela tinha coisas a fazer.
- Isto não é um jogo! – Gritou Dwayne, seguindo-a a correr entre a multidão, ela já abria a porta do seu Subaru. – Isto tem a ver com aquilo anormal que tu fizeste para ganhar a corrida.
Ela teve de se rir à gargalhada.
- Anormal?! Sou apenas habilidosa, só isso menino. Agora desempara-me a loja...
- Eu sei que está uma habilidade por detrás disso. – Disse de forma direta o rapaz, ficando frente a frente dela, que parou de abrir a porta e manteve a cabeça baixa. Como era possível alguém a desmascarar assim? Ou melhor: Como alguém sabia que aquilo era fruto de algo sobrenatural? Voltou a olhar para ele sem expressão. Viu nele um breve sorriso de sucesso em conseguir chamar à atenção.
- Como é que t...?! – Sirenes começaram a tocar. Não uma ou duas, mas todo o vale ressoava com sirenes. Só indicava uma coisa, a polícia tinha descoberto o evento. Não existia tempo para perguntar nada, ou ia presa, olhou uma última vez para o rapaz que estava desorientado com toda a confusão que começava a iniciar-se.
Dwayne ficou confuso no meio de toda a agitação. Com as sirenes da polícia, as pessoas começavam a correr e muitas vezes empurrar-se umas às outras para fugir. O jovem seguiu o exemplo, pois comparecer no evento é o mesmo que participar nele: Pode dar multa ou prisão e ele não pretendia isso. Teria de fugir também. Começou a correr, tentando orientar-se para o local onde os carros estavam e fora mais fácil pois muita da multidão corria para lá. Levou dois encontrões e várias cotoveladas, mas também respondeu de volta. Subiu o monte que anteriormente tinha descido com facilidade, já que muita gente se empurrava e algumas, ao desequilibrarem-se, seguravam-se a alguém à sua frente e as duas acabavam por cair redondamente no chão arenoso. Com alguma sorte, Dwayne chegou lá acima sem problemas e tentou logo de longe, avistar o seu carro no meio de tantos outros descontrolados que começavam a sair do parque e deixavam para trás, rastos gigantes de pó que voava para a cara dos outros.
Ele olhou novamente para trás e viu que o Subaru estava a partir, subindo por outra estrada de terra batida até à estrada 15 que se ligava à cidade. Tinha de se apressar, não podia perder Kaze de vista. Montou-se no carro e tentou mete-lo a trabalhar. Resultou à primeira e com rapidez colocou a mão no manípulo da embraiagem e colocou-a em marcha atrás. Teve bastante medo de atropelar alguém, já que enquanto o carro ia para trás, de vez em quando ouvia-se um estalido ou outro, com pessoas a roçarem-se na traseira ou então a embater mesmo nela. Olhou para o vale, lá em baixo já estava três carros da polícia de Las Vegas preparados para prender. Enquanto saia do monte e voltava à estrada em direção contrária ao Sandy Valley, jurou ter visto mais dois carros da polícia a rondar a poucos metros dele e a saírem do carro com armas em mãos, prontos para prender mais uns quantos.
Muitos carros envolvidos na corrida foram pegos, mas uns outros tantos, como Kaze conseguiram escapar entre a multidão, assim como Dwayne estava a conseguir. Como se tivesse superado um pesadelo, acelerou na estrada e teve de ultrapassar uns quantos carros lentos que tinham vindo do mesmo lugar que ele. De repente conseguiu ouvir uma nova sirene perto dele. Deviam estar a ser seguidos.
- Raios...raios...raios! – Conduzia como nunca antes e mesmo assim o carro de patrulha estava a ultrapassar vários carros e parecia particularmente interessado em apanha-lo a ele. – Com tanta merda de carro que por ai está, é logo atrás de mim que vocês abéculas veem?! – Gritou para ele mesmo, enquanto fazia uma nova ultrapassagem. Mais perigosa, já que um jipe passava na outra faixa e por segundos não embatia nela. Fugir parecia-lhe uma saída cada vez mais difícil de concretizar. E já não via Kaze no horizonte. Tinha de tentar “aquilo” novamente...
Tentou abstrair-se ao máximo do que se estava a passar e pensar na rapariga que acabara de conhecer. Já tinha tido à um dia a prova que se quisesse algo o bastante, era capaz de se teleportar para locais onde nunca esteve. A prova era estar ali mesmo, em Las Vegas naquele momento. Teria de conseguir igualmente teleportar-se ara o interior do carro dela. Seria até mais fácil pois tinha uma imagem mental do que pretendia, mas corria sempre o risco de ir parar com a cara no asfalto. Parecia-lhe melhor que o carro da polícia que estava a pouco de distância de o intercetar.
Era uma questão de vida ou de morte e ele ainda queria continuar a viver. Talvez por esse mesmo motivo acabou por desparecer dentro do carro, fazendo-o despistar-se e capotar várias vezes no lado esquerdo da estrada. Mas a sua chegada também não foi famosa. Quando sentiu o ar mudar à sua volta, abriu os olhos e deparou-se com o meio da estrada, em alta velocidade e começou a escorregar pelo tejadilho de um carro azul metálico. O sucesso deu lugar ao receio de morrer mais depressa que queria realmente. Quando já descia pela bagageira a toda a velocidade, conseguiu com a mão direita agarrar por pouco o assessório tuning colocado na traseira. Olhou pelo vidro traseiro e viu Kaze a conduzir e de vez em quando a olhar para trás e para o visitante que chegara do nada. Como ultimo esforço, centrou contra o vento da velocidade a sua visão no banco traseiro do carro e imaginou-se lá. Mais facilmente viajou encurtando o espaço e sem se dar conta, estava sentado sobre aquele local.
Kaze voltou a olhar para trás e quase que se assustou ao ver o rapaz agora lá sentado. Pode-se dizer que não esperava que tal acontecesse. Só lhe veio uma pergunta ao início.
- Mas quem raios és tu?! – Disse e Dwayne teve que sorrir depois de quase morrer mais que uma vez naquele dia. Assim que superou o cansaço, espondeu amigavelmente.
- Alguém como tu...
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