O Diário de Elizabeth Christie
4 A Chave e o Nome
Lavínia acordou sobressaltada, com o coração disparado. Por um longo minuto não conseguiu saber onde se encontrava e nem tinha certeza se estava acordada ou ainda dormindo. Gradualmente as formas em torno de si foram entrando em foco: a poltrona bordada, a mesinha de centro. Passou a mão no rosto, que aparentemente ficara marcado por conta do sofá e seu travesseiro estava no chão. Os detalhes do sonho se esvaíram, deixando apenas seu conteúdo emocional. Formas vagas, aterrorizantes se inclinavam sobre ela, como cordas compridas, querendo pega-la... ou talvez fossem cobras? Examinou à sua volta a sala de estar, suas formas tranquilas de certa fora a assustava. Enquanto sua mente lutava para se concentrar, a fronteira entre o sonho e realidade parecia imprecisa. Ela não conseguia se lembrar quando havia adormecido.
Antes de sair com Anastácia, Lavínia havia conseguido abrir as janelas da sala de estar, e assim o cheiro de mofo do cômodo estava quase completamente atenuado velo vento noturno do verão. É claro, isso juntando com seus esforços para limpar aquele lugar. O único som que vinha de fora o uivar do vento e o ocasional canto dos grilos. Depois de anos passados em uma cidade agitada e na Universidade, apesar de ser gratificante, Lavínia via naquele silêncio algo como um presságio estranho que rugia em seus ouvidos, exigindo sua atenção. Ela já estava acostumada a ficar acordada, algumas vezes, com os sussurros de sua ansiedade, mas ali, naquele silêncio invasivo, os sussurros pareciam cada vez mais altos.
Já completamente acordada, saltou do sofá em que estava deitada e se inclinou para olhar a hora em seu celular na mesinha. Ótimo, 3:40 da madrugada. Ela franziu o cenho, sentindo que o sono não era mais uma possibilidade. Lavínia repetiu para si mesma que estava apenas inquieta com a perspectiva de passar todo o verão em Mystic Valley. Se sentia abandonada em uma prancha, flutuando no meio de um oceano escuro em que não conseguia ver nada. Não deveria ter concordado em vir.
Andou até o interruptor e acendeu a luz; piscou um pouco, mas enfim se acendeu. Torcia para que Erin enviasse uma mensagem no dia seguinte, ela realmente precisava de um eletricista. Foi até a prateleira de livros, — que ainda não havia limpado, pois queria ter um tempo a sós para admirar os livros — em busca de uma distração. Talvez um romance antigo a acalmasse e a fizesse adormecer.
Correu os dedos suavemente pelas lombadas marcadas, acabando por levantar um pó fino e marrom que sujou seus dedos. Ela tirou da prateleira um livro pequeno, fazendo sujeira cair no chão. A Cabana do Pai Tomás. Interessante. Conhecia o livro. Suspirando, o pôs de volta em seu lugar na prateleira.
Ela se abaixou até a prateleira inferior, onde ficavam os livros mais grossos e pesados. Pareciam ser Bíblias e Livros dos Salmos. Lavínia tirou um dos livros da prateleira. Sustentando com o braço, percebeu que era mesmo uma bíblia; uma bíblia antiga. Tinha um forte cheiro de guardado e havia apenas uma data na folha de rosto: 1940. Seria de sua avó?
Ao manusear uma página mais ou menos pela metade de Levíticos, se perguntou o que encontraria caso explorasse aquela casa com afinco. Segredos antigos de sua avó? Segredos de antigos moradores? Que história se escondia ali? Perdida em seus devaneios, não notou que seu aperto na bíblia se afrouxara, e só percebeu que o livro havia caído de sua mão ao ouvir o baque abafado.
Lavínia se ajoelhou. A bíblia estava aberta no chão, iluminada pela luz da lâmpada e cercada de poeira levantada de si por conta de sua queda. Ainda ajoelhada, Lavínia inclinou-se para pegar a bíblia, mas viu uma coisa pequena e brilhante se insinuando por entre as páginas. Percorreu as páginas com os dedos e encontrou o livro de Coríntios, mas especificadamente, Coríntios 13, que falava sobre o amor. Ela conhecia aquela parte perfeitamente.
O objeto pequeno e reluzente era uma chave. Uma chave antiga, aparentemente, com cerca de uns cinco centímetros, uma cabeça enfeitada e haste oca. Provavelmente projetada para uma gaveta ou caixa. Girou a chave em sua mão e se perguntou o que ela faria dentro de uma bíblia. Enquanto observava o delicado objeto, Lavínia percebeu uma estreita tira de papel aparecendo na extremidade da haste oca. Pressionou os lábios.
Delicadamente, ela pegou a ponta do papel com as unhas do polegar e indicador e retirou-a do interior da haste. Parecia uma miniatura bem minúscula de um pergaminho, completamente comprimido e enrolado. Lavínia pôs a chave no chão ao seu lado e, com paciência, se pôs a desenrolar o papelzinho frágil.
Nela, em uma grafia quase ilegível, estava escrito apenas as palavras "Elizabeth Christie".
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