O Diário De Uma Espectadora
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Teorias. Opiniões que se divergem e convergem em alta velocidade. Discussões e discursos. Histórias absurdas e atípicas. Respostas inesperadas, irritantes de certa forma. Sarcasmo e ironias dosadas em brincadeiras bobas. Como era divertido! Como isso irritava! Como pode algo assim incomodá-la e aguçá-la tanto?! Quem é esse cara? Ele existe mesmo?
Questões e mais questões rodeavam sua cabeça, era tudo tão novo, uma nova experiência, novos resultados, a empolgação do querer saber mais, a irritação por ter seu ego ferido. Tudo isso misturava-se em sua mente e a incomodava, sua sede por conhecimento gritava, mas seu medo falava mais alto. "Quem ele ousa ser para ser capaz de me fazer parar pra pensar? Uma cobaia deve ser testada, e não fazer com que a observadora seja analisada... Por que me olhas tão fixamente?" E assim se fez por horas... ela manteve-se calada por vários momentos... apenas ouvindo... observando... anotando... fazendo o que sabe fazer de melhor... ser uma espectadora... e pouco a pouco, como tal, acabou se interessando pela história... perguntava por mais, na ânsia do conhecer, soube até que ele escapou da morte por amor... Espere... Amor? Ele ao menos sabe o que isso significa? Sabe como machuca?
Por impulso, logo perguntou, quantas namoradas ele teve. Onze foi a resposta. Fora os danos que causara em uma lista que parecia infinita de pretendentes.
Seu coração apertou. Como pode outra pessoa falar sobre amor, sem ao menos conhecer seu significado...? Se ela sabia? Sim, tanto como sabe o que é dor. Feridas corroeram cada vez mais, de um passado não muito distante mas que se fez esquecer, ou pelo menos tentou esquecer.
Mas logo uma pergunta interrompeu seu pensamento... "Por que me perguntou quantas namoradas tive um vez de perguntar quantas eu amei?", mais uma vez uma pequena frase remeteu-se a um grande pensamento. "Você existe?". Sorriu disfarçadamente. Ótima resposta. Uma pontinha de esperança crescia ali, talvez alguém realmente pudesse entender a essência dessa palavra cheia de atribuições. E então assumiu pela primeira vez sua derrota, estava na hora de aprender um pouco também.
Uma nova discussão surgiu, não mais eram cientista e experiência, agora os dois trabalhavam a favor da informação e conhecimento. Ambos se estudavam e analisavam. A verdade tinha que ser absoluta. A sinceridade, uma obrigação. Tudo parecia tomar um rumo ao entendimento mais puro e concordante. Mas sempre que se foca em algo, jamais deve-se esquecer que fatores externos também interferem na tese.
"Estou apaixonada por ele...". Eis que o fator externo aparece. Uma amiga em comum, uma alma inocente perdida nas armadilhas do se apaixonar. Ouvir seu choro e seus murmúrios de dor -seu coração a causa- fez a pequena diminuir sua guarda por um instante e tomou a dor como sua também... "Eu te entendo" poderia amparar o fator com tais palavras... "Mas te enganas..." a sinceridade era mais forte, como poderia dizer-lhe isso? Um coração ferido não se cura com conselhos ou palavras de compaixão... Então preferiu calar-se, não sabia o que se passava ali dentro, e não ousou usá-la como parte da pesquisa, talvez por pena, ou por ver ali, parte de alguém que um dia também já foi. Tentou ignorar o fator, como passageiro, mas por consequência a ignorância tornou-se culpa...
E teve raiva. Gostava de sua condição de observadora... Mas aos poucos entristecia-se pois parecia ser interessante fazer parte de algo maior mais uma vez, uma mão foi-lhe estendida, mas o holofote ainda queimava seus olhos, incapaz de olhar para o que estava
à sua frente, passou a procurar ver os lados, e considerou o redor dos personagens. Espectadora, experiência e fator. A observadora à passos lentos subia no palco e começava a participar também da história. Com os olhos lacrimejando, ainda cegos pela luz, fechou-os e passou a ouvir a voz de alguém que não ouvia há muito tempo. A voz do desejo. O grito que um dia fez à uma estrela. O 'eu quero' tornou-se um brado, e sentiu ciúmes, inveja... pois queria voltar a fazer parte da história, de uma história só dela, uma história que teria orgulho de se lembrar no leito do destino final. Não tinha pressa, mas o tempo não se arrasta pela eternidade, seu corpo é perecível, era preciso aproveitar o momento, e tomá-lo como seu. Ela o queria que a pertencesse.
Fale com o autor