O Diário Atrás Das Pedras

2 Capítulo 1 : O Imperador da Paz


Notas iniciais
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Essa não é a história da minha vida.Essa é a história da minha morte. Quero que confiem em quem contará essa história. Ele é o único que poderia.

Fallcor desistiu de lutar contra. Uma hora ou outra acabaria por acontecer. Sabia que era psicológico. Mesmo assim, estava revoltado. Seus sonhos, suas regras!

A sequência era sempre a mesma : Punhal, quadros, lobos, corpo.

Se encontrava em um campo de árvores grossas, de copa grande. Aparentava ser antiga. O lugar propiamente dito era peculiar, em um circulo geométrico perfeito, não havia nenhuma árvore, ou até mesmo nenhuma copa o perfurava. Fallcor tentava gritar, mas não conseguia emitir som nenhum.

Em uma postura totalmente ereta, num terno impecável, caminhando lentamente,com seus quase dois metros, olhando Fallcor diretamente nos olhos, um homem de cabelos negros caindo no ombro se aproximava. Fallcor tentava, mas não conseguia se mexer. O homem se agachou, com um joelho no chão tocando o liso da grama,e o outro na altura do umbigo de Fallcor. Ainda agachado, era maior que o garoto. Do terno negro, ele retira um objeto de quase meio metro. Emitia luz própria e ataria diretamente a atenção. Olhando com atenção, era uma bainha folhada a ouro, com detalhes em prata e gravuras de alto relevo. A voz daquele homem Fallcor nunca esqueceria :

— Guarde — o com a sua vida. Está além de sua compreensão. — Ele se levantou e foi para onde tinha voltado com a mesma tranquilidade e elegância de antes.

Fallcor sentia se um áspero grão de areia diante daquela imensidão. Era tudo tão lindo. O piso era brilhante, de mármore dourado. Quando olhou para trás avistou uma gigantesca porta dupla marrom. A sala media aproximadamente cem metros por trinta e ao seu lado direito podia ver o que parecia ser uma estátua de um homem imponente, vestido de toga bronzeada dos pés ao pescoço, segurando uma varinha com a palma da mão, envolvendo -a. Na outra pendia uma balança provavelmente maior que Fallcor, em perfeito equilíbrio. No peito havia uma gravura de uma árvore rica de galhos retorcidos e com uma grande copa. Aos pés do gigante, duas cobras, uma em cada pé se retorciam. Com a cabeça no joelho do homem, um lobo em posição de ataque, folhado em prata, com olhos verdes, repousava, solene. Observando com cuidado, Fallcor percebeu que o homem vestia protetores nos braços, cada um mostrando um leão de pé, com as garras a mostra. Forçando o pescoço, o menino olhou diretamente a cabeça do gigante. Um capacete dourado, com uma aguia de asas abertas. Nunca tinha visto algo tão esplêndido.

O que mais perturbava o jovem eram as pinturas retratadas no salão. Eram sete, indo de canto a canto. Tinha a estranha a sensação, de que pertenciam a uma só história que estava estranhamente interligada com ele. A parede oposta a da porta estava inteiramente pintada, representando uma grande guerra, com imagens fortes, como a de a pele de um homem separada de seu corpo, soldados alados decapitando bestas demoníacas em forma de urso e atos ainda mais horrendos. A imagem que fizera Fallcor morrer de medo não tinha nada a ver com isso. No meio da pintura, o punhal que acabara de receber emanava uma aura prateada. Era Fallcor quem o segurava.

O cenário dessa vez era uma paisagem desértica e árida, livre de vegetação,de solo empobrecido e exposto. Fallcor via o por do sol. Tudo estava silencioso, até mesmo pelo garoto, que não conseguia falar. Quando o chão começou a tremer, viu ao longe uma alcateia se aproximando. Eram sete. Quanto mais se aproximavam, mais Fallcor os discerniam. Os seis de trás eram inteiramente negros, porém o da frente, que aparentava ser o macho alfa, era albino. Até mesmos seus olhos, gélidos e atemorizadamente brancos. O pior, era que os olhos brancos o encaravam. Quando a alcateia o ultrapassou, automaticamente, Fallcor correu, milagrosamente acompanhado- na, como se o sonho o obrigasse. A alcateia virou a direita, indo em direção a um grande canyon. Chegando a borda, Fallcor olhou para baixo, onde um rio corria. Ao seu lado, viu um corpo dilacerado e mutilado. Reconheceu o rosto: Ele mesmo.

Acordou desesperado, batendo a cabeça no cama de cima. De novo. Dez vezes em dez dias é um recorde absoluto. Sage pareceu reclamar mas ainda estava em sono profundo. Fallcor tateou sua bancada em busca do relógio. Cinco horas. Isso precisava parar.

Olhou em volta. Ninguém pareceu ter notado. Bom, já que agora poderia tomar os primeiros cinco minutinhos de água quente do chuveiro do alojamento. De sua gaveta pegou uma toalha e despiu -se já no banheiro. Trancou a fechadura para ninguém o incomodar. Quando a eletrizante e quase insuportável água quente o evolveu eu uma profunda tristeza e raiva, o jovem de só 13 anos se perguntou se era somente isso que o destino lhe aguardava. Houve uma batida na porta, e Fallcor permaneceu em silêncio.

— Carvalho. Cinco minutos.

O garoto sorriu. Sage talvez fosse a única coisa que o acontecera de bom. Depois de uma dona de orfanato que o espancara e dois anos na rua na mão de criminosos veio a esperança. Um projeto de inclusão social do Rei Hector o colocara dentro de um treinamento para ingressão no Exército Artoriano. Desde os onze treinando, este era seu último semestre. Estava indo tudo bem. Sua vida virou de cabeça para baixo quando a noticia do suicídio do Rei. Sabia o que ia acontecer. Corte de gastos, regentes e tudo mais resultariam em uma coisa: Rua. De novo. Pelo menos o reino não estaria em guerra civil como antes de Hector. Ele não podia morrer. Seu império de paz e prosperidade se baseava unicamente e exclusivamente na figura pública que exercia. Hector era o eixo central de uma gigantesca máquina que com um só erro explodiria. Sua morte traria de volta a era de trevas e sangue que Artor vivia uma década atrás. O poder inteiramente fragmentado, duques mais poderosos do que o Rei, invasões dos povos bárbaros que Fallcor pouco conhecia e uma iminente guerra civil. Artor iria explodir antes que qualquer um se desse conta.

Fallcor já estava com a camisa preta e a calça também preta se dirigindo para mais um dia de treinamento. O dia só começava as sete, e como de costume, as horas faltantes eram gastas no grande carvalho.

Sage achou que demoraria mais. Tudo bem que Fallcor estava se esforçando, porém não significava que estava bom.

— Fallcor!

— Droga, Sage!

— Faltaram só poucos galhos dessa vez. Admita, você nunca vai subir essa árvore em silêncio.

— “ Persista e resista, mas nunca desista” — Hector Dolet Primeiro. — Dizia Fallcor, finalmente se sentando ao lado de Sage. Dali podia ver toda a estrutura do quartel de treinamento. O campo de caça bandeira, o perfeito Centro de Armas Brancas, a floreta de acampamento, o centro de montaria e tantos outros.

— Fallcor... — Diz Sage, com um gosto amargo de culpa na mente.

— Nem tente Sage. Você sabe o que Duque Williams vai fazer. Lá estaremos nós. Órfãos ignorados a margem de uma sociedade que passa de perfeita para “ prestes a se destruir”

— As sequelas de Hector não vão desaparecer tão cedo. Até mesmo um reinado baseado em figura pública demora a perder o legado! Fallcor! Agora, vamos! Levanta esse astral!

— Qual é, acabei de subir, não quero descer!

— Então pule! — Dizia Sage enquanto pulava da árvore perfeitamente, caindo de pé.

— Você sempre foi louco, mas está piorando!

— Vamos logo, seu covarde!

Nem é preciso dizer o desastre. Foi de barriga mesmo. Seus joelhos ardiam com o impacto e o tranco fez sua cabeça turvar. Embora não quisesse manter a rotina, Sage não pode conter a risada enquanto o amigo rogava pragas aos sete ventos. Os dois se entreolharam e sabiam qual seria a próxima coisa a ser feita, o que animou Fallcor, mesmo que só um pouco : Se havia algo que deixava plenamente bem era correr. Ainda mais ali, no seu lugar favorito em todo reino. Chame de feitiçaria ou fingimento, mas o simples fato de Fallcor estar perto de um lugar com árvores o deixava em um estado de espirito melhor. Correndo então? Dava aquela sensação de vento na cara. Fallcor sentia como se estivesse livre, sem regras ou restrições. Se sentia humano novamente.

— Até o campo da bandeira? — Perguntou Sage, enquanto puxava o pé perto das costas se apoiando numa perna só. Fallcor o imitou.

— Até o campo de bandeira. — Confirmou, confiante.

Contaram até três.

Três da tarde. Tempo livre até as seis, mas de hoje não passava. O campeonato era a duas semanas. Se dirigiu aos estábulos. Ultor havia passado perrengues. Uma dor no dorso que fazia o gemido do animal gelar a alma. O veterinário dera alta a dois dias atrás, entretanto, o menino achou melhor esperar. Caminhava por uma pista asfaltada que dividia dois lados de um campo de mato aberto. A estradinha seguia até os estábulos e se dividia em dois. Uma direção para o Centro de Armas Brancas e outro bem longo que ia até as fronteiras do quartel, na floresta de Caça a Bandeira.

Veio lhe um gelo na barriga. O grupinho dos meninos riquinhos da capital e dos distritos vinha a sua direção. Todos vestiam roupas caras, mas pareciam mendigos gordos perto do menino que vinha a frente : Atilla Stuart, filho de um importante engenheiro, funcionário do Rei. Seus olhos se encontraram. Atilla cuspiu no chão quando se aproximou.

— Dunks! — Falando o sobrenome carinhosos de Fallcor com um insulto. O menino permaneceu calado, e contornou o grupo. Outro gordo o segurou.

— O que acontece se eu sair no soco com você? Você chama seus pais? Ah,não me desculpe, eles te jogaram numa cesta em um orfanato...

Fallcor tentou contornar de novo e dessa vez o deixaram. Ouvia suas risadinhas ao fundo, virando um leve sussurro a medida que se distanciava.

Como sempre, optou pelo velho pequeno espaço de cavalaria. Deserto, como sempre. Tecnicamente teria mais espaço do que no espaço principal. Ultor, um cavalo preto e jovem estava bem, quase não mancava. Fallcor tinha uma certa rejeição por ele. Depois de matar um cavaleiro em competição, havia ido ao fundo do poço. Fallcor só o pegará por ser o último que sobrou.

O espaço que adotara era circular, sustentado por pilares cilíndricos no contorno da pequena arena. Com suas próprias mãos, o garoto foi montando seu circuito. Poucas barras, obstáculos em zigue zague e coisas do tipo.

Enquanto pulava barras, sentiu uma estranha sensação. Identificação. Aos poucos incentiva o animal com falas e tapinhas.

Falando com um cavalo, Fallcor?

Pois qual o problema?

O menino caiu de susto. Olhou de surpresa ao redor.

Quem falou?

Eu, paspalho! Na mesma hora em que o cavalo relinchou.

— Não,não,não,não! Isso não pode estar acontecendo.

Posso saber por que não?

— Por tudo que é mais sagrado,você fala!

Elementar. — Dizia, esnobe, o cavalo negro.

— Como?!

Digamos que sou dotado de poderes inexplicáveis. Por hora, tudo que você precisa saber está nos seus sonhos. Sonhe.

Fallcor sentia seus ossos enfraquecendo, os músculos cedendo. Uma fraqueza lhe atingiu de forma intensa. Se lembrava somente do gelado chão dominando seu rosto.

Era perturbador. Apesar de que se não fosse não seria um sonho de Fallcor. Os outros sonhos o assustavam pelo significado escondido. Neste, a perturbação era física.

Um menino que aparentava ter a sua idade estava completamente nu, a não ser por uma espécie da tanga na cintura para baixo. Sua cabeça tocava o chão assim como a coxa, fazendo o joelho tocar seus olhos. Se contorcia a cada vez que estralava um barulho que Fallcor não discernia bem.

Eram ossos quebrando. Foram muitos. O menino se arrepiava e alinhava as costas cada vez que acontecia. Milagrosamente, o menino ficou de pé. Fallcor viu cicatrizes rasgando seu tronco no momento em que ela se formava, abrindo caminho em diagonal. Quando a última terminou, o menino estava completamente ereto com a cabeça para cima, uivando para o que Fallcor viu ser uma brilhante lua cheia.

Enquanto desenhava pela enésima vez seus pensamentos desorganizados em uma folha de papel, o velho homem sentia mais uma vez aquele latejamento na lateral de cabeça, logo à orelha. Não podia ser coincidência. Apesar do velho homem pensar que suicídio não fosse algo que coubesse a Hector, havia algo além disso. Foi quando caiu a ficha. A raiva lhe bateu com tamanha rapidez e sem aviso. Formigando de ódio sacou sua faca de caça, levantou se da cadeira e pôs se a andar pelo grande aposento. Observando as maneiras apressadas de seu humano, a coruja cinzenta rapidamente acordou de seu cochilo e alojou — se nos ombros de um furioso velho barbudo, culpando -se pela ingenuidade ante as reviravoltas Artorianas.

— Aquele gênio bastardo!