A noite caiu tal qual a vida atina a morte naquela época álgida, no auge de julho. D. Quitéria, com a cara suja de graxa (ou alguma substância de parecida natureza), chegou em casa após a labuta. Tirou o casaco grosso, orou para seu retrato da Virgem Maria e foi sentar-se perto do fogão à lenha. Iria vasculhar, de estômago desguarnecida, os potes guardados na parte de cima do armário, em busca do resto de comida que sobrara da janta (que estivera ausente).

Sentiu, no momento em que apoiara o peso do corpo na ponta dos pés para alcançar o armário de cima, um vento frio. Esgueirou o pescoço para a esquerda e viu que originara-se do quarto da filha mais velha.

D. Quitéria entrou no quarto e bateu a palma da mão, de pele enrugada e cheia de cortes, na coxa ao ver a janela aberta (no auge de julho!, exclamou em pensamento). Precisamente, a fechou. A filha mais velha roncava sucintamente, e D. Quitéria notou seu travesseiro jogado no chão, como habitual. Abaixou-se para ajuntar (e suas costas fizeram "crec") e, segurando o travesseiro com as duas mãos sobre a menina, passou pela sua cabeça: "e se eu asfixiasse minha filha?".

Seu primeiro impulso foi enxotar aquele pensamento sacrílego de sua mente; entretanto, por mais que desejasse do fundo do coração, ele não parecia errado.

Veja bem, já estava com quatorze anos, a menina; dois anos mais nova do que D. Quitéria quando esta foi morar junto de seu marido, dez anos mais velho. Assim foi com sua mãe, sua avó e assim será com sua filha e suas netas ― era sua sina. A filha mais velha era namoradeira, mas inegavelmente uma romântica. Chegara por suas bandas um homem da cidade; flertando com os trinta, era bem-apessoado e principalmente bem de vida; e demonstrara interesse especial na filha mais velha, e ela logo se encantou. D. Quitéria e o marido pretendem aprovar o matrimônio, mas não sem ressentimento exclusivo da primeira. Homem como esse D. Quitéria conhece bem, e nada de romantismo há naquela composição visualmente deleitosa. Pensara já na decepção que a filha terá ao ver suas fantasias morrerem precocemente, junto e assim como sua meninice!

Na pior das hipóteses, ele era bem de vida; e era a única forma de escapar de um destino similar ao da mãe. Olhe bem! Trinta e seis anos, mas ninguém diz. Trinta e seis anos e estava putrificando! Sua pele derreteu em seus ossos e sobrara nada senão os hematomas (não somente aqueles que podem-se ver a olho nu, mas aqueles psíquicos de cicatrização ímproba). Era, assim como a mãe, iletrada, não frequentou escola, não tem educação. Só sabe trabalhar. Meu Deus, chora D. Quitéria, como pude lhe deixar nascer!

Com as mãos trêmulas e fechadas no travesseiro, D. Quitéria fecha seu monólogo interno, direto a suas considerações finais.

Condenei a criança no momento em que lhe deixei nascer. Já nasceu em débito, um débito que não é nosso, mas é a nós que ele vem cobrar. Resta-me somente rezar, rezar que rezas tão baixas como esta possam chegar lá em cima. Deus tenha piedade.

D. Quitéria largou o travesseiro e foi até a cozinha jantar.

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