Acordo suando frio. Olho para o despertador ao lado da minha cama, e vejo que são seis horas da manhã. O que diabos uma pessoa de quinze anos faria acordada seis horas da manhã?

Acho que eu posso lhe responder. Afinal, essa pessoa sou eu. Tive um pesadelo nessa mesma noite. Na verdade, não era bem um pesadelo, era uma lembrança. O que vi não foi nada agradável para meus próximos dias.

Eu estava voltando da minha aula de canto, eram oito da noite. As ruas de Washington estavam se preparando para dormirem, os comércios limpando as calçadas e os vidros, prontos para serem fechados. Muitos carros estão perambulando pelas ruas, indo para suas casas ou começando as entregas, pois perante a lei podem apenas fazer as tais entregas na faixa da noite.

Uma sirene interrompe a música em meus fones de ouvido, ao ver que o volume estava aumentando conforme se aproximava, tirei meus fones naquele momento. Os carros estavam se afastando para um carro de polícia passar.

Ele passou numa grande velocidade, porém não era apenas um, eram cinco. O desespero em sua velocidade era bem visível. Assim que cruzaram a esquina quase batendo em alguns carros que estavam no semáforo, a sirene abafou, e as ruas voltaram ao normal.

Fiquei muito curioso para ver o que tinha acontecido, acelerei meu passo, na esperança de chegar em casa mais rápido, e ver algo no noticiário das nove.

Quando voltei a andar, reparei que já estava no quarteirão de casa. Faltava apenas dar meia volta no tal. Olhei o beco do açogueiro Willber. Minha mãe odeia quando eu passo por ali, a rua é totalmente segura. Porém, quando o açogue está aberto. Quando está fechado, o beco fica escuro, apenas com suas pontas iluminadas, que seria as luzes das ruas que o mesmo cruza. O perigo? Dizem que muitos drogados dormem ali durante a noite, e de fato, toda manhã, muitos moradores de ruas (ou aparentemente isso) saem dalí.

Minha curiosidade estava quase me matando, queria chegar logo em casa para ver o que estava acontecendo por essas ruas. Adentrei ao beco.

Aparentemente, não vi nada, então coloquei meus fones de ouvidos novamente. Tentei esquecer por alguns segundos os drogados, que poderiam estar ali. Apesar de olhar para os lados e não ver nada, nem ninguém de estranho, continuei andando, até que me distrai por alguns segundos, com a música que estava a escutar.

Quando faltava aproximadamente uns 13 passos para chegar ao final, senti alguma coisa grudando na minha calça. Como estava distraído com a música, me assustei. E tentei desenrroscar ela, com o que eu havia preso. Sem ao menos tocar na coisa, acabei me soltando, assim que me recompuz para andar novamente, senti minha calça presa de novo. A coisa me puxou para baixo.

Não conseguia enxergar nada, apenas os lados iluminados do beco.

Apertei um botão aleatório do meu celular, apenas para ligar a luz da tela. Era bem fraca, mas já deu para enxergar. Um sujeito estava cara a cara comigo. Não consegui evitar um pulo de reação, porém olhei direito ao homem. Ele estava com o nariz sangrando, e seus olhos roxos, como se tivesse acabado de tomar uma surra anormal. Sua boca estava totalmente sangrando, e sem os dois dentes da frente sussurrou algo em meu ouvido.

Não consegui entender direito, então tirei os fones de ouvido. Ele parecia sorridente, apesar de estar prestes a morrer.

-A música … qual é?

Disse o homem ainda sorridente, porém ainda demonstrando sofrimento, com pequenos gemidos.

-Senhor … Irei te levar ao hospital!

-Calado, eu quero saber qual a música, não quero saber de hospital... Não dá tempo...

Aquilo era óbvio, independente dos recursos de hoje em dia, era visível que aquele homem não teria mais poucas horas de vida.

-Come out and play. É bastante conhecida internacionalmente...

-Eu sei, pirralho, sua voz é bonita. Poderia cantá-la para mim?

Ele se ajeitou no chão, e com a luz do celular, pude olhar seu corpo por cima. Estava numa situação crítica, parecia estar baleado no ombro, e minha mão também parecia úmida. Acho que relei nele sem querer, enquanto caia. Quando eu ia fazer um gesto de negação, pela situação, logicamente eu negaria a canção, acho que já não dava mais tempo. Ele estava com os olhos fechados, e um sorriso estampado no rosto.

Novamente eu estava em minha cama, suando frio, e com meu rosto totalmente ensopado de puro suor. Meu travesseiro estava quente, e meu cobertor no chão, todo revirado. Havia tido mais um pesadelo... ou lembrança.

Dessa vez já eram nove da manhã, normalmente acordo esse horário para tomar o café da manhã. Depois de dois minutos lembrando da noite anterior, meu despertador despertou, assim tocando a rádio matinal de notícias. Simplesmente desliguei, na qual a o colocar o dedo em cima do botão ' off ' a frase “Morto a noite passada, em um dos becos de Washington” foi escutada pelo meu cérebro, a qual não dei tanta atenção, por estar em um estado de cansaço ainda.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.