O Diário Da Assassina
4 A face do mal
Notas iniciais

— Você me assustou Amanda! – gritou Hensel – disse que estava morrendo!
Novamente os dois se encontravam naquele quarto que faziam qualquer um ficar tonto de tanta cor rosa em todos os lugares. Hensel havia chegado ali há alguns minutos. Quando viu a mensagem de Amanda imediatamente pulou a janela de seu quarto – sua mãe não iria o deixar sair depois da discussão que tiveram no jantar – e saiu correndo até a casa da garota.
Os dois estavam deitados na cama, um de cada lado. Mesmo estando sozinhos e sem ninguém por perto, Hensel não tentava nada com Amanda, para respeitar as ordens do pai dela.
— De certa forma eu estava morrendo. Estou na real – afirmou. – Morrendo de tédio e tristeza.
— Mas eu pensei que fosse sério. Um assassino matou a Mariana, podia ter te pego também. Me preocupei.
— É claro que se preocupou – disse a garota, se aproximando. – É meu namorado, tem que se preocupar. E também tem que fazer outras coisas.
— Do que está falando? – perguntou Hensel. Às vezes o garoto podia ser muito ingênuo.
— Qual é Hensel. Talvez nós sejamos o único casal virgem da sala ainda. Ainda não tivemos a nossa, você sabe, primeira vez.
Hensel finalmente compreendeu.
— Então foi por isso que me chamou? – questionou – Pra eu dormir com você pela primeira vez?
Amanda foi direta.
— Sim, isso mesmo.
— Não podemos – Hensel disse.
— Aquele dia nós quase nos devoramos aqui, antes de... Você sabe.
— Eu estava com muita saudade. E você sabe que quero respeitar as regras do seu pai. E também, quero que nossa primeira vez seja especial, não agora que estou bravo com você.
— Quanto mais bravo melhor, sabia – ela disse, se aproximando mais de Hensel, quase encostando seus lábios nos dele.
— Como você sabe disso? – perguntou ele.
Amanda hesitou por um momento, como se estivesse pensando em uma resposta.
— Vi em filmes – disse.
— Tudo bem — disse Hensel. Ele se levantou da cama e caminhou na direção da porta do quarto. — Sinto muito Amanda. Eu realmente quero algo especial para nós — ele se virou para a maçaneta. — E seu pai disse que não podemos fazer nada sem permissão, então me desculpa. Preciso ir.
— Hensel, espera — ela pede.
Hensel se vira para a garota e se surpreende com o que vê. Amanda que estava vestida alguns segundos atrás usava agora apenas calcinha e sutiã. O sutiã, obviamente rosa. Mas Hensel nem notava ele, viu apenas a parte de baixo.
— Tudo bem, – ele disse — que se danem as regras.
Hensel a puxa para perto e a levanta com a cintura. Ela envolve suas pernas em sua cintura e o abraça. Os dois se beijam insaciavelmente até caírem novamente na cama. Amanda tira a camisa do outro.
— Esses músculos... – a garota comenta e logo se volta aos beijos.
Um ruído incomoda os ouvidos dos dois. A porta bate na parede com um estrondo e Amanda afasta Hensel de perto.
— Que droga é essa? — questiona o pai de Amanda, sua voz parece irritada e severa.
Amanda se senta na cama e tenta se ajeitar – o que não consegue, já que está só de sutiã e calcinha.
— Pai...
— Quer saber, — ele a interrompe — eu já sei que droga é essa. Nós vamos conversar, eu quero saber...
— Senhor — Hensel o interrompe -, nos desculpe, nós...
Ele faz um sinal com o dedo para Hensel parar de falar.
Ele se aproxima de Hensel, sua expressão é furiosa. É alto, seu cabelo é loiro e cortado estilo militar. Veste a farda da polícia militar. O cinto que segura sua calça possui uma arma, que ele parece acariciar.
— Você – ele disse, olhando bem fixamente para os olhos de Hensel – vai embora. Nunca mais vai aparecer aqui. Se eu te ver pisando nesse quarto ou qualquer parte dessa casa, você não existirá mais. Eu te juro que eu pego você, entendeu?
— Entendi — afirma Hensel, pegando sua camisa de cima da cama e saindo do quarto.
— Ai meu Deus, cara. Ser pego pelo pai da namorada é a pior coisa possível! — diz Luís, nem se controlando para não rir — Ninguém mandou não emprestar seu carro para mim na semana passada, agora a vida está te dando um tapa na cara.
Hensel se sentia muito mal. Na outra semana após ser pego pelo pai de Amanda na cama com ela, a garota havia faltado os dois primeiros dias de aula da semana. Depois nos outros dias quando ela finalmente foi às aulas, o ignorou totalmente, tanto em sala como em outros lugares.
— Você não tem carteira pra dirigir, eu não iria te emprestar — explica Hensel. — E também, como você sabe que ser pego pelo pai da namorada é ruim? Você nunca teve uma.
— Eu tenho meus motivos pra não ter — diz Luís.
— Motivos de: ninguém te quer.
Os dois estavam sentados no sofá da sala de Luís. Hoje seria a primeira festa da turma — como estão no primeiro ano, são festas o tempo inteiro. Já eram 23h da noite e ninguém havia chegado ainda, com a exceção de Hensel, que havia ido mais cedo para ajudar na decoração e a comida.
— Que tédio. Será que ninguém vai vir? – pergunta Luís, e é quando a campainha toca.
Luís se levanta para abrir a porta e Hensel o acompanha. No instante em que ele abre praticamente a turma inteira entra.
— Como vocês poder ter chegado ao mesmo tempo? – diz Hensel.
— Nos arrumamos na casa da Mands – diz Isabel.
— E ela vai vir? Não vi ela.
Então a única pessoa que Hensel esperava ver na festa passa pela porta. Amanda veste um vestido curto preto e está linda como sempre. Seu sorriso simpático e descontraído alegra ainda mais Hensel.
— Oi Hensel – ela diz apenas isso.
— Parece que todos chegaram. E que comece a putaria! – exclama Luís.
Hensel e Amanda sentam no sofá. Ficam em silêncio por um tempo, olhando para os lados, até que Amanda fala.
— Me desculpa te ignorar essa semana. Estou cheia de problemas.
— Com certeza deve estar, seu pai estava muito furioso aquela noite.
— Sim, eu fui xingada até ás 4h da manhã. Também mandou os professores me vigiarem nas aulas, caso eu fale com você é pra eles contarem para ele.
— Sério? Mas por que você não foi à aula aqueles dois dias?
— Ele me obrigou a ir ao ginecologista na segunda, mesmo eu dizendo que não tinha feito nada com você. E na terça eu me recusei a ir.
— Credo. Sinto muito.
— Não sinta. Eu não vou obedecer ele, vou continuar te vendo mais ainda. Vou transar com você essa semana inteira, só pra irritar ele.
Eles riram um pouco, e então conversaram por horas. Em alguns momentos pararam para se beijar, dançar e beber.
— Agora eu tenho que ir. Meu pai vai chegar em casa em meia hora, se ele não me ver eu sou morta.
Hensel a acompanha até a porta e antes dela sair, a beija. Ele volta para a festa e pega um copo de cerveja de cima de um balcão. Nem teve a chance de beber, pois alguns segundos depois foi atingido por alguém que o fez derrubar a bebida inteira em cima de sua camiseta.
— Que droga, eu sou muito idiota – diz Clara, sua colega nerd.
— Não se preocupa, eu tenho outra roupa na minha mochila – Hensel diz.
— Foi mal assim mesmo – ela se desculpa.
Hensel caminha pelo corredor e sobe as escadas até o segundo andar. Entra no quarto de Luís – um cubículo com um beliche e outros acessórios – e encontra sua mochila em cima da cama.
Por um instante, se sente tonto. Sua cabeça gira, mas logo volta ao normal. Provavelmente o mal estar havia sido causado pela bebida, já que nunca havia bebido tanto assim antes.
Ele veste a camisa e caminha para fora do quarto, e é quando vê. Um rastro de um líquido vermelho segue pelo corredor até um dos quartos. Sangue.
Hensel se sente confuso, ao mesmo tempo assustado. Por que teria uma poça de sangue no chão? Ele sabia de algumas respostas sobre o porquê, mas não queria acreditar muito nelas.
Ele segue o rastro pelo corredor. Para em frente à porta do quarto onde o rastro aumenta, mas não entra. Em vez disso ele coloca apenas a cabeça, para conseguir visualizar melhor o que tem ali.
A primeira coisa que vê é a mais aterrorizante possível. O corpo do garoto se encontra no chão – Hensel o reconhece como Diego, seu colega. Sua garganta estava rasgada e um cobertor de sangue o cobria, manchando sua camiseta branca – que agora era quase vermelha.
Ao seu lado se encontrava uma pessoa que Hensel não reconheceu, já que estava virada de costas para ele. Em sua mão se via o objeto que havia causado tanto estrago no morto – uma faca coberta de sangue.
— Ai meu Deus, o que você fez? — Perguntou Hensel, aterrorizado com a cena.
Antes que pudesse perceber que havia sido um erro se mostrar para o assassino, ele se levantou e se virou. Usava um casaco preto com um capuz por cima da cabeça, junto com uma peruca vermelha. Uma máscara escondia seu rosto, mostrando a face de uma mulher sorridente, com os olhos azuis como o céu.
— O que eu fiz? — Questiona o assassino de volta. Sua voz parece abafada, provavelmente por causa da máscara, deixando Hensel com dúvida se o mesmo era homem ou mulher — Acabei de tirar mais uma merda dessa escola, dessa cidade, desse mundo.
— Mais uma? Foi você quem matou a Mariana?
— Ah sim. Mas vamos combinar, aquela puta precisava ser eliminada.
Ele se distancia do corpo e caminha pelo quarto. Para perto de uma das janelas e a abre.
— Eu não acredito... – diz Hensel — Você é um nojento, sádico, louco. Assassino!
— Nunca ofenda a pessoa com a faca – ele passa a faca ensanguentada pela máscara. – E você não é diferente de mim.
Hensel se afasta. Ainda não entendia o porquê de ainda não ter corrido.
— Sou sim. Você não sabe nada sobre mim, não pode dizer nada.
Ele ri e sua risada também sai abafada.
— Está enganado. Eu conheço você mais do que pensa.
— Você me conhece? – ele pergunta confuso.
— Com certeza sim – diz. – Não irei me revelar, mas quero que você saiba quem sou eu. Eu sou a ruina de todos, sou o anjo ceifador de vidas. Sou a pessoa dessa cidade que mais causará sofrimento nos outros. – Ele abre a janela e põe metade do corpo para fora – Eu sou o diabo – e então pula.
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