O Destino
3 Noite...
Notas iniciais
Helenya nunca imaginou que pudesse estar tão perto do céu que pudesse contar cada estrela que brilhava naquele vasto cenário. Parecia um sonho todo aquele lugar. As paisagens encantadoras, as pessoas tão coloridas e se tudo o que já tinha visto já era de tirar o fôlego, imagina quando pudesse se inteirar dos costumes desse povo. Antes que pudesse se afundar em seus próprios pensamentos, a porta de sua habitação ecoou em batidas. Foi a vez de ser apresentada a mais um componente daquele imenso lugar que se refugiaria durante toda a viagem. Samiry. Uma serva do palácio que havia sido enviada para que pudesse fazer companhia e auxiliar a Grã-Duquesa no que fosse necessário. Samiry aparentava ter a mesma idade da nobre visitante. Os cabelos longos e escuros, traços do império corriam em suas costas se perdendo juntamente com o simples e leve vestido que usava. Os olhos castanhos tão escuros brilhavam como uma criança, mas sabia se portar a altura de quem se encontrava a sua frente. Calada, se apresentou e se mostrou presente para que pudesse auxiliar em qualquer demanda da dona daquele quarto decorado com grandes tapetes e moveis refinados.
—A senhorita deve estar cansada da viagem. -Comentou a serva já se preparando para se retirar do quarto. -Providenciarei um belo banho para que possa descansar essa noite.
Samiry era atenciosa. Helenya se daria bem com a jovem. Precisaria de companhia, pois sabia que seu pai não estaria a sua disposição sempre que quisesse. Talvez, a serva pudesse levá-la para conhecer tudo o que desejava ver. Agradeceu e esperou até que fosse trazido a banheira com água quente para que pudesse se banhar. A primeira diferença a estranhar. Helenya foi levada para um outro lugar, não tão distante de seu quarto. Casa de banho. Tudo feito de pedras enormes e tão bem estruturada para que fosse aconchegante. Ela foi sentada pelas odaliscas que a banharam. Os cabelos loiros da Grã-Duquesa foram molhados e lavados com um perfume de rosas que sentiria a noite toda em seus sonhos.
—Obrigada, Samiry. -A serva era tão caprichosa que Helenya entrou em seu quarto e pode se deparar com um pequeno jantar em sua mesa de escrita. -Já jantou? -Questionou a nobre ao se sentar na mesa.
Samiry era reservada. Abaixou a cabeça e informou a sua dona que iria fazer assim que fosse dispensada para ir de volta ao harém. Mas Helenya tinha outros planos. A convidou para que pudessem cear juntas. Prontamente a jovem declinou o convite feito pela estrangeira que sorriu, levantou da cadeira e se aproximou da garota que se mantinha na posição perto da porta.
—Não ache que por eu ter um título e vim de fora. -A Grã-Duquesa disse trazendo o queixo da jovem para cima a fim de que pudessem se olhar nos olhos. -Que você é diferente de mim. Está bem?
A serva a olhou nos olhos por leve instante sem saber como processar as palavras tão impactantes de sua senhora. Jamais imaginaria que logo uma estrangeira a cuidaria tão melhor que seus iguais. Samiry desejava rir se não soubesse seu devido lugar. O que sua superior acharia ao vê-la se sentar na mesma mesa que a convidada do Sultão? Hayir, isso não poderia acontecer.
—Minha senhora. -Começou a se explicar, mas foi logo interrompida pela dama a sua frente.
—Não irei aceitar nenhuma justificativa. -E como se pudesse ler a mente de sua companheira. -E caso exista qualquer empecilho, peça para falarem comigo.
A dama se sentou novamente na cadeira e dessa vez foi acompanhada de sua nova amiga. Sim. Helenya sabia que Samiry se tornaria uma ótima amiga durante sua estadia no palácio.
—Devo informá-la, minha senhora, que o Sultão ordenou que fosse realizado amanhã um grande banquete em homenagem a vossa senhorita e vosso pai. -Revelou a criada enquanto servia Helenya, antes que pudesse comer.
—Quanta hospitalidade estamos a receber no palácio. -Confessou a nobre enquanto degustava seu prato. -O Sultão não deveria se preocupar tanto conosco.
Mesmo que não fosse obrigada a falar o nome do Imperador, os olhos negros do homem que havia conhecido na barraca das flores ainda se encontravam em sua mente inquieta. Ela juraria que nunca pudesse imaginar a possibilidade de que o Sultão e o homem que vestia roupas escuras fossem a mesma pessoa. E que ambos seriam o dono de um império tão poderoso. Talvez, por um leve instante, a gentileza que havia acometido com ela deveria fazer parte apenas do caráter de seu anfitrião, mesmo que a cena fosse diferente de uma simples rotina, ela nunca saberia o que realmente aconteceu.
—O Sultão é um homem muito generoso. -Comentou Samiry retirando sua senhora de seus pensamentos confusos. -Gosta de receber muito bem seus convidados.
A Grã-Duquesa sorriu em resposta ao comentário da jovem a sua frente. E continuaram a conversar sobre o palácio e tudo mais que puderam até que foi visto a hora em que precisavam se recolher para dormir. Samiry desejou-lhe boa noite e saiu dos aposentos, deixando para trás a jovem estrangeira mirando a noite da sacada da janela. A noite que se tornava, em resposta ao horário, cada vez mais densa e brilhante, ainda era a mesma que Helenya admirava mais cedo quando chegou ao quarto. A paisagem do céu combinada certeiramente com o jardim. As flores que eram vistas por causa da iluminação. O lago. Nada parecia ser ignorado pelo olhar curioso da jovem que desejava por desenhar na mesma velocidade que mirava cada parte daquele lugar que era iluminado pelo brilho da noite.
—Você está começando a sonhar acordada, Helenya. -Comentou para si. -Melhor ir descansar. Amanhã será um novo dia.
Mirou pela última vez a paisagem e adentrou ao quarto para que finalmente pudesse repousar. Mas sem antes se perguntar o que o destino que aquela flor, por último admirada, preparava para ela. Os olhos finalmente pesaram, levando a dama até o mais profundo sono, sem poder imaginar que trás das paredes que a escondiam os servos se questionavam sua origem.
De volta ao harém, Samiry não havia sido poupada dos questionamentos das odaliscas que ali estavam. Muito se escutava sobre como realmente funcionava os haréns do Império Otomano. O local em que se escondiam as mulheres pertencentes ao Sultão em todos os contextos possíveis de se imaginar. Algumas nativas das terras imperiais, outras de guerra e países conquistados. Outras, presentes de reinos estrangeiros. A diversidade ocupava cada canto daquele ambiente. Mas apesar de todos de fora do palácio acreditarem que tudo ali era uma verdadeira confusão. Ela sabia muito bem que não era assim. Existia, assim como em qualquer lugar, uma hierarquia a ser seguida. A maioria das mulheres que ali viviam eram escravas assim com Samiry, que não tinham chances de ascenderem como as concubinas. Essas sim, viviam para que pudesse chamar a atenção do Sultão. Eram ensinadas a etiqueta, músicas e outras línguas. Tudo para que pudessem ser interessantes e pudessem ser, um dia, uma Sultana. Samiry havia visto três grande Sultanas em sua vida desde que chegou ao palácio ainda muito menina. A Sultana Valide, mãe do Imperador, que havia falecido a cerca de quatro anos. A Sultana Kira, a mãe da filha mais velha do Sultão, Sultana Âmbar, que havia sido morta no atentado contra o governo e o palácio e a última Sultana a se erguer, mãe do príncipe Haydar. Falecida poucas horas após dá à luz ao herdeiro do Império Otomano. A Sultana Faryme dera a própria vida para que seu filho viesse ao mundo. A serva lembrava o quanto o palácio sentiu com a morte da favorita do Imperador. Era uma mulher muito boa para todos. Havia a admiração do povo e da Sultana Valide, mas todos sabiam que mesmo assim, ela não tinha tudo o que desejava. O amor do Sultão.
Talvez o harém nunca tivesse visto realmente o interesse do Imperador com alguma escrava. A que mais se aproximava de ter o título de favorita novamente era Dara, que constantemente era chamada aos aposentos do Sultão, e era uma questão de tempo até que ela conseguisse a única coisa que realmente almeja. Ter um filho da dinastia otomana. Rezavam constantemente que Allah não permitisse.
—Como é a estrangeira? -Samiry foi atacada por diversas perguntas feitas pelas mulheres do harém.
—Ela fala nossa língua? -Outra questionou.
—É bonita como comentaram? -E mais uma de muitas que Samiry conseguiu escutar.
Fazia muito tempo desde que aquele palácio havia recebido seus últimos convidados do império a fora. Porém, antes que a escrava pudesse responder qualquer pergunta, a voz de Lyal, responsável pelos cuidados do harém, se fez presente.
—Nenhuma pergunta sobre a convidada do Sultão. -Ela decretou batendo sua bengala no chão para que todos pudessem vê-la e assim escutá-la. -Não quero nenhum comentário a cerca desse assunto.
Samiry sorriu ao escutar os cochichos desanimados das odaliscas que iam direto para suas camas. A hora de recolher-se se aproximava e a jovem se perguntava o que aconteceria quando sua senhora fosse apresentada ao harém, se fosse apresentada.
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