O Despertar do Tigre
9 Kishan
Notas iniciais
— Anik você esta bem? —Disse Nilima delicadamente .
Abri meus olhos e encarei os gentis olhos de Nilima.Eu forcei para me levantar e a terra fofa afundava meus joelhos.
— Estou—Murmurei
Virando-me para ficar sentada, olhei para cima e vi que meu pai e Sunil descutiam baixo.
Arrastei-me lentamente sobre a terra , tentando entender minha situação atual. Mais uma vez, eu estava em uma floresta. Estavamos cercados por guerreiros de armadura que se ajoelhavam com lanças fincadas no chão.
— Quem são eles ?
— Os guerreiros de Anamika
Eu me levantei cuidadosamente.
— Prazer em conhecê-los— respondi com um sorriso.
—Eles não falam nossa lingua.Vamos agora temos que achar Anamika e Kishan.
Eu sentia uma queimação forte no estomago e minhas pernas tremiam.Eu ia virar tigre mas desisti sabendo que poderia assustar os guerreiros.
—Eles ainda estão em guerra ? —Perguntei.
—Não sei mas acho que Anamika e Kishan já receberam a noticia.
Estreitei os olhos e e tapei-os quando percebi o sol que radiava entre as plantas.
— Então...Eu vou conhecer meus primos ?
—É provavel.
— Vai demorar muito ?
— Venha,Anik já estamos chegando.Lembre-se aqui podemos virar tigres quando quisermos.Não a limite de tempo.—Disse meu pai virando tigre.
— Para onde vamos?
—Para o acampamento. Não é longe — disse Sunil
Determinada a ficar perto do meu pai embora ele correse o dobro de distância que eu a cada passo, eu o acompanhava e tentava ao máximo avaliar o jeito que ele corria.Percebi que os guerreiros não se preocupavam pela forma do meu pai e pelo contrario olhavam encantados. A floresta estava fria e esfreguei meus braços.Pensando rapidamente, usei o poder do amuleto para me aquecer. Uma bolsa de calor girava em torno do meu corpo, e eu sorri secretamente conforme me adaptei.
O caminho se tornou áspero quando descemos um caminho pedregoso.Minha testa começou a transpirar apaguei o fogo e deixei o ar ainda frio me envolver. Na parte inferior, as árvores se separaram, e eu olhei para cima para encontrar uma visão muito familiar. Imponentes montanhas cobertas de neve apareceram em todos os lados.
— São lindas.Muito parecidas com as do Oregon
— Estamos perto das grandes montanhas — Disse Sunil.
— Isso é simplesmente fantástico — eu murmurei.
Um homem se aproximou discretamente e colocou sua mão em cima do meu ombro.Virei assustada e com um sorriso ele me abraçou.Recuei alguns passos enquanto ele me olhava com tamanha gratidão.Nilima e Sunil encaravam o homem por um tempo mas depois voltaram a trilha.
—Svargaduuta—Ele sussurou.
—Eu não falo sua lingua desculpa.
— Ele é o homem que sua mãe curou.Ele a chamava de ¨anjo¨e certamente esta achando que você é ela. —Disse meu pai tranformando brevemente em homem.
—Oh entendi. —Dei um sorriso para o homem e depois ele tomou sua posição inicial.
Bom parece que realmente sou parecida com a minha mãe-Pensei.
Ao pôr do sol, nós terminamos nossa caminhada atravessando uma passagem estreita que dava para um vale cercado por montanhas altas. A frente estava o acampamento. Havia tendas espalhadas pelo vale tanto quanto eu podia ver.
—É aqui—Disse Sunil engolindo em seco.
—Onde eles estão ?— Nilima sussurou suavemente.
Um dos guerreiros nos levou à tenda maior em algum lugar no meio do campo.Sentamos em uma especie de sofá de palha e o guerreiro pediu que esperacemos.Eu enrolava o dedo em minhas tranças e senti que meus pés batiam freneticamente no chão
— Onde eles estão ? —Repeti a pergunta de Nilima.
—Devem estar chegando—Meu pai já estava em sua forma de humano e parecia nervoso como eu.
Um guerreiro chegou na tenda e fez uma referenda.Um perna longa cortou a entrada e um par de olhos verdes encontrou os de Sunil.Ele se levantou e prendeu a respiração. Ambos os irmãos tinham os melhos olhos de um verde brilhante, e sua pele era um exótico amanteigado marrom-caramelo de açúcar. Seu longo cabelo preto com algunas fios brancos caía abaixo de sua cintura.
Ouvi soluços entre eles e eu olhava confusa e espantada.A mulher se virou para mim com um sorriso e também me deu um abraço apertado e repitiu isso com meu pai.
—Eu estava com tanta saudade de vocês já faz tanto tempo.
Meu pai retribui o abraço e depois apresentou Nilima para a grande mulher.Fiquei encarando o momento reencontro e me assustei quando senti dois braços enroscando minha cintura.Os braços me rodaram para um encontro de um par de olhos dourados.
—Kishan... —Engasguei.
Ele era muito bonito e mais moreno que meu pai. Sua pele era da cor de bronze antigo e os cabelos muito pretos, mais compridos que o tigre branco, só que igualmente penteados para trás, afastados do rosto, e levemente ondulados.
Seus olhos eram dourados com pontos cor de cobre. Tentei identificar aquela cor. Nunca tinha visto nada igual. Eram como ouro de pirata – a cor de dobrões de ouro. Na verdade, pirata era uma boa palavra para descrevê-lo. Parecia o tipo de homem que pode ser encontrado decorando a capa de um romance histórico, no papel de um moreno sedutor. Enquanto ele sorria para mim, seus olhos se enrugavam ligeiramente nos cantos.Ambos eram muito bonitos e exibiam a mesma postura majestosa. Tinham a mesma altura, mas, enquanto meu pai era magro e musculoso, o irmão era mais forte, com braços mais poderosos..
—Bilauta
Kishan me agarrou com os olhos recheados de lagrimas e acariciou meus cabelos.Ele agarrou minha mão e fez uma trilha de beijos até o pescoço sem ninguem perceber.Em choque eu não conseguia me mover.
—O que foi Kells não esta feliz em me ver ?
—Mas eu ...
—Kishan !
Meu pai deu uma gargalhada e abraçou o irmão.Os dois riram e se abraçaram até perceberem que todos olhavam para os irmãos.
—Então onde estão os pequenos ?
—Ren eu...
—Esqueça depois vemos isso.Então já vi que foram apresentados !
—Apresentados ? —Disse Kishan com uma risada fraca.
—Anik esta é Anamika ou melhor Durga e este é Kishan meu irmão.
—É um prazer—Murmurei.
—Esta é Anik ? —Disse Kishan com os olhos arregalados e o rosto corado.
—Sim.Esta é minha filhota.
—Anik é uma menina... —Kishan balançou a cabeça e me fitou.
—Eu sei que soa estranho mas a Kelsey que escolheu.
—Ah droga eu me esqueci que Kells foi raptada.
Isso explica por que ele me agarrou—Pensei.
—Ela é muito parecida com a mãe—Disse Anamika com um sorriso—Mas é um pouco mais bonita.Suas sardas são lindas e com certeza puxou o sorriso do seu pai.
—Obrigado.
—Ren precisamos conversar a sós. —Kishan olhava triste pro irmão e com certeza sua expressão tinha mudado.
—Claro,Anik pode esperar aqui ?
—Posso. —Falei sentando novamente no sofá.
Fiquei ouvindo Sunil apresentando Nilima para Anamika e contando do seu casamento.Anamika ouvia tudo com uma gargalhada estridente e segurava forte a mão do irmão.
Eu nunca tive um irmão mesmo que quisesse.Uma vaga lembrança me preencheu o dia que minha mãe veio com o exame nas mãos.O dia em que eu e meu pai soubemos que ela tinha uma rara doença no utéro e aquilo a empedia de ter mais filhos,acho que foi por isso que sempre fui tão mimada.
Inclinei a cabeça um pouco e vi as sombras do meu pai e de Kishan lá fora .Olhando em volta, notei que Anamika,Sunil e Nilima não davam a minima para minha existencia.
Levantei vagarosamente e dei passos largos.Abri um pouco da tenda e encarei discretamente os dois irmãos que discutiam baixo.
— O que vamos fazer agora Ren? — perguntou o mais novo.
Meu pai franziu a testa.
— Realmente estou muito preucupado com Anik.
Mordi o lábio.
—Eu não sei se ela vi dar conta de tudo.Ela tem dois anos a menos que a mãe dela quando começamos as aventuras.E é claro que eu fico mais preucupado por ela ser minha filha.
— Nós dois sabemos que Anik é a única que pode nos ajudar.
—Mas Kishan podemos levar um dos seus filhos.Podemos deixar Anik aqui com Anamika.
—Ren eu e Anamika não tivemos filhos.Na verdade nem nos casamos,eu sou apenas o tigre protetor dela.
—Kishan eu e Kelsey vimos a carta.
—Eu sei tudo aquilo é mentira.Eu escrevi aquilo para não te preocupar,a verdade é que eu ainda estou preso a esta forma e apenas Anamika envelheceu.Phet disse que eu perdi minha imortalidade mas isso voltou assim que eu me entreguei para ser o tigre de Durga.Me desculpe por ter mentido a vocês irmão.
Meu pai encarou Kishan que olhava decepcionado.O irmãoo mais velho apoiou a mão no ombro do mais novo e com um sorriso o abraçou.
—Ta tudo bem Kishan.Eu fico feliz por ter tido essa preucupação eu não ligo se ficou solteiro essa vida inteira.
—Acho que não consegui amar outra mulher além de Kelsey.
Os olhos dourados encontraram os meus,minha expressão se mudou para espanto enquanto parecia que ele engolia minha alma.Recuei alguns pasos e tomei um pouco de ar e percebi que Sunil me encarava.
—É feio espionar Anik.
— Sunil — Disse Nilima dando uma leve cutuvelada no marido.
Me sentei envergonhada e Durga olhou para a bolsa que eu segurava firme.Depois ela seguiu s linhas do meu corpo e encarou o amuleto.Sua mão se mexeu em um movimento único e Fanindra ganhou vida e animada correu para o punho a dona.
—Quero ficar um pouco com ela senão se importar.
—Ela é toda sua.
—Então tigresa já esta se adaptando bem não é ?
—T-tigresa—Gaguejei.
—Pequena Anik uma deusa sabe de tudo.Que tal irmos lá fora e você mostrar um pouco deste dom.
Anamika chamou meu pai e Kishan e disse sobre uma tal luta de treinamento.Meu pai encarou preucupado e Kishan deu um longo sorriso e me analisou dos pés a cabeça.
Meu pés pesavam e todos me seguiam para o grande gramado onde varios guerreiros estavam a postos.O tigre branco e negro andavam em circulo com as presas para fora e Anamika deu uma piscadela.
Soltei um longo suspiro e corri para os dois tigres.Saltei no ar e senti o pelo cinza me cobrir e a respiração ficar mais profunda.Fiquei no centro dos dois tigres e foquei apenas no de pelo negro pois ele era o único que me preucupava.Uma onda escura veio pelos meus olhos e eu e Kishan rolamos pelo chão.
Dei uma patada em seu rosto e analisei para ver se não tinha nenhum ferimento grave.Grudei as unhas na grama e caambalei para cima do tigre.Com um rugido subi pelas costas do grande animal e seus olhos de pirata se encontraram nos meus.Senti o amuleto girar e pregar em meu pelo e a terra começou a se rachar.
Meu pai nos rodiava preucupado e Kishan se transformou em humano e levantou a mãos e forma de paz.
—Eu me rendo—Ele disse com uma gargalhada.
Me transformei e a terra voltou ao normal.
— Você é de fato filha do Ren.
Percebi que eu ainda estava em cima dele e envergonhada engoli em seco e me levantei oferecendo a minha mão.
—Obrigado Anik—Ele pegou minha mão e eu o puxei para cima—Você é bem forte...e bonita—Sussurou
Fingi que não tinha ouvido e soltei a fita que prendia meus cabelos.O vento chicoteava meus cachos e Kishan e os guerreiros me olhavam quase encantados.Meu pai já havia se transformado em humano e me abraçou e bagunçou meus cabelos.
—Sim ela é de fato minha filha e eu me orgulho disso.
Dei uma gargalhada e Durga caminhou em minha direção.
—Ela é de fato a tigresa das cinzas.
A noite caiu e uma grande fogueira sibilava no centro do acampamento.Durga e Nilima me levaram a grande tenda enquanto os rapazes ficaram lá ajudando alguns guerreiros.
— O que vamos fazer aqui? — falei.
— Você precisa estar bonita—Sussurou Durga
A deusa-guerreira balançou as mãos e o lenço divino começou a trabalhar meu corpo.Depois de alguns minutos chequei o trabalho que o presente tinha feito.Era um Vestido em cetim estampado com flores cinzas e brancas que parava nos joelhos, com gola redonda, e um acabamento em evasê com fechamento em botões nas costas.Tentei fazer com que o vestido descesse mais um pouco.
— Não gosta das suas pernas?
—É que não estou acostumada em mostra-las.
—Se meu elogio adiantar você esta completamente...
—Linda—Disse Nilima completando a frase da Deusa.
Nilima se aproximou e pegou meus cabelos e os prendeu em um coque.Alguns cachos caiam sobre meu rosto e encarei meus pés descalços.
—Quer alguma sandália?
—Eu gosto de ficar descalça se não se importa—Sussurei.
—Não a problema algum.
Esperei Durga e Nilima se arrumarem e depois de algum tempo elas apareceram já prontas.Nilima estava com o cabelo solto e um Vestido longo em cetim estampado imitando escamas azuis. Possuía detalhes em renda nas costas e uma abertura na perna.Durga ou melhor Anamika estava com os cabelos presos em um rabo de cavalo e estava usando um Vestido longo de malha , com estampa de mandalas que era colado na cintura e solto no resto com uma sandália de tiras que viam até os joelhos.
—Vocês estão maravilhosas
— Muito obrigado—Disseram em um uníssono.
— Se não se importa vamos fazer uma festa a você e eu gostaria que segurasse isso —Durga me entregou uma lança e um escudo de bronze com três tigres estampados—Apenas para simbolizar mas se quiser eu posso te dar em forma de agradecimento.
—Eu adoraria mas acho que sou eu que devia agradecer por estar sendo tão gentil,eu não estou fazendo nada a vocês.
—Por hora não,mas entenda Anik estamos em guerra novamente e você é a única pessoa que pode ajudar os tigres novamente.
Dei de ombros.
— Pode estar certa.
.
—Vamos princesa os convidados estão esperando.
Assenti com cautela.
Andei em direção ao centro do acampamento. Havia um grande barulho vindo da cozinha. Kishan estava nos arredores com os braços cruzados sobre o peito e um sorriso no rosto. Os guerreiros estavam se refrescando e meu pai conversava com eles entusiasmado. Sunil caminhou em direção a Nilima e beijou sua mão,ela deu um sorriso sem graça e juntos eles foram se sentar na grande mesa.Durga fez um sinal com a mão e todos os guerreiros se calaram e ficavam em posições eretas.
— Saúdem e grande Tigresa das cinzas.
Os guerreiros se ajoelhavam em forma de reverenda e gaguejei.
—Não precisam se ajoelhar eu sou só uma garota.
— Devemos um grande favor a você poderosa tigresa.Demos nossa simples benção a você e que sua jornada seja objetiva e com sucesso— Disseram eles com um uníssono.
— Obrigado.
Kishan me encarava ainda ajoelhado e senti a mesma queimação no estomago.
Durga fitou meu pai e depois se juntou a ele na mesa.O único lugar vago era ao lado de Kishan suspirei e sentei sem jeito do seu lado.
—Olá
Sua voz era grave, suave e sedosa. O sotaque era mais intenso do que de meu pai. Ele encarava meu pescoço e isso me fez vacilar mas mesmo assim consegui me manter em silencio.
— Você não fala muito não é?Você não puxou sua mãe nesse quesito pois ela amava falar. —Ele deu uma gargalhada.
—Finalmente algo em que não somos parecidas—Murmurei.
—Sabe pode parecer estranho pois faz poucas horas que nos conhecemos mas você tem mais sangue Rajaram do que Hayes,não é a toa que seu sobrenome seja Kishan Rajaram.
—Eu não me orgulho deste sobrenome para falar a verdade ele é ridículo e meu nome é masculino.
—Esta vendo Anik,você é feroz sua mãe era delicada como uma boneca.As duas são intimidadoras e encantadoramente perigosas.
—Você também achava isso de Yesubai?
Kishan fechou o rosto e se recompôs no assento,percebi que eu havia o magoado e me arrependi.
—Me desculpe Sohan.
—Do que me chamou?
—Sohan ,seu nome certo?
—Sim mas eu estranhei pois faz muito tempo que ninguém me chama assim.As vezes até esqueço deste nome.
—Bom se dependesse de eu te chamar apenas de Kishan acho que eu também poderia ser apelidada assim. —Dei uma risada mas depois tapei minha boca.
—O que foi não gosta da sua risada?
— Não.
— Que isso Anik,sua risada é uma graça.
— Obrigado—Falei com o rosto corado.
Posso me acostumar com ele—Pensei.
Kishan levantou a cabeça e estudou silenciosamente Anamika e meu pai enquanto se misturaram com a multidão.
Inutilmente tentando afastar a tensão no ar falei:
—Parece que Durga e meu pai são bem íntimos.
—Eles são sim.Eu era noivo de Durga mas eu nunca a amei de verdade,eu sei o que ela ainda sente por Ren e nossa relação sempre fora de trabalho.
Continuei a encara-lo até que percebi que eu sibilava um sorriso bobo,o apaguei discretamente e Kishan apertou levemente meu queixo com o polegar.
—Anik?
—Diga... —Suspirei.
—O que pensa que esta fazendo? —A voz do meu pai era gelada e rigorosa.
Arregalei os olhos e empurrei Kishan que apenas sentou normal novamente.
—Nada.Eu não estou fazendo nada.
—Ren preciso te apresentar o guerreiro que lutou do nosso lado na guerra. —Durga sorriu e puxou o braço do meu pai para um velho homem.
Segurei um meu pulso que batia forte,coloquei minhas mãos sob o rosto e ele ainda estava quente.Fechei os olhos e os apertei com as costas das minhas mãos.
—Bilauta você esta bem?
Levantei os olhos e me recompus.
—Bilauta?
—Me desculpe é que eu...
—Esta tudo bem,pode me chamar assim se quiser.Isso me faz lembrar da minha mãe pois ela gostava de me chamar assim.
Naquele momento, eu senti algo que nunca senti antes.Meu amuleto piscou levemente e isso chamou atenção de Kishan.
—Você ainda usa?
—Claro que uso. Na verdade eu nunca saio sem ele.
—Embora eu tenha achado que você era um menino eu não podia pedir companhia melhor.
Eu não pude responder e apenas soltei um suspiro em resposta com que fez Kishan dar um sorriso.Com certeza o sorriso mais lindo que eu já tive a chance de ver.
Balancei minha cabeça em negação e me levantei.Eu não devia sentir algo tão estranho por alguém que eu tinha acabado de conhecer,embora ele me conhecesse a tanto tempo mesmo nem sabendo que eu era uma menina.
Kishan ficou me olhando e focou os olhos em minhas pernas e meus pés descalços coloquei o escuda na frente e ele deu de ombros.Caminhei em direção para meu pai e alguns guerreiros bateram palmas quando viram minha presença,agradeci sem graça e agarrei o braço do meu pai.
—Eu não estou me sentindo bem. —Sussurrei.
—O que esta sentindo Rajkumari?
—Apenas um pouco de enjoo.
—Eu vou te levar a tenda...
—Ren deixe que eu a levo—Disse Kishan aparecendo atrás de mim.
Meu pai o encarou friamente mas eu falei que não ligava e que ele podia continuar a conversar com os guerreiros.
Eu e Kishan caminhamos pelo gramado frio e meus pés descalços brincavam com a grama úmida uma rajada de vento frio me abraçou e esfreguei os braços. Kishan cedeu sua jaqueta e eu aceitei embora eu soubesse que poderia me aquecer com o amuleto.
Chegamos a tenda depois de alguns minutos e Kishan abriu gentilmente a entrada.Coloquei a lança e o escudo em cima de uma mesa e o belo homem ainda me encarava.
—Acho que vou tomar um banho.
Ele deu de ombros.
—Isso significa que você terá que sair e voltar ao banquete.
—Não estou com fome.
O encarei com frieza e ele saiu da tenda com um sorriso. Verifiquei se ele já teria saído e tentei ver onde teria o rio mais próximo embora já fosse a noite.Encontrei um barril de fora da tenda e me lembrei do colar da sereia e em instantes ele se encheu de água quente.
Tomei um banho rápido e agradeci por não ter ido a algum rio.Joguei a água suja pela grama e enrolada por tolha felpuda desejei ao lenço divino um confortável pijama.
O lenço teceu um pijama de mangas compridas com um tigre negro estampado na frente,espantada tentei desfazer aquela imagem e ela se mudou para uma estrela.Cansada me joguei em um cochão de palha e abri a bolsa em busca do meu caderno.Agarrei a caneta mas antes mesmo de escrever um poema meus olhos pesaram e tirei um leve cochilo.
No meio da noite acordei faminta e percebi que Durga e Nilima ainda estavam no banquete. Percebi um grande prato de ensopado acompanhado de uma caneca cheia de néctar. Distingui que fora meu pai que me encontrou dormindo e deixou uma refeição
Devorei toda a sopa e virei a caneca de néctar rapidamente sem duvida eu tinha comido como um tigre.Percebi um pequeno papel enrolado perto do meu travesseiro e o abri curiosa.
Me desculpe por entrar assim mas seu pai me mandou vir aqui para ver se estava tudo bem.Decidi te trazer algo para comer mas quando eu cheguei você estava dormindo tão docemente que eu resolvi deixar aqui.Também pude ver um caderno mas não tive a ousadia de ver.Mas você também gosta de poemas Anik?
Uma boa noite e até amanhã
—Kishan
Fechei a carta e coloquei dentro da minha bolsa.Peguei novamente meu caderno e tracei com o dedo o lindo tigre que repousava em cima das letras vermelhas ¨Poemas¨.Folheei o caderno e um novo poema havia surgido.
Quem eu sou?
Quem Me comanda?
Qual das partes tem mais força?
Isso é uma guerra infindável.
Até o Fim da vida ...
Seguimos o rumo de Batalhas entre Ser bom e ser mal quero ver a vida sem guerra quero uma vida de paz ...
Olhando os estilhaços do meu coração por ter lutado tanto, olhando qual parte do mim sobra.
Preto ou branco, ódio ou amor ...
No leito de morte decidiremos isto
É como a última batalha dessa guerra infindável.
Abracei o caderno e depois de reler inúmeras vezes os poemas senti novamente o sono vindo. Guardei o caderno na bolsa junto com o lindo poema e deitei no colchão.
E na calada da noite uma sensação nova veio em mim. Meu pescoço formigava e fazia uma trilha até minha mão e algo mais em meu coração repousava.Algo tão rápido e tão encantador.Algo tão nostálgico e tão bom.Algo que veio do rápido e que parecia que prevalecia fazia tempo.
Algo que eu não podia admitir que sentia.
Fale com o autor