O Despertar de um Natal
1 Único
As pessoas da cidade de Dominó estavam em clima de festa com a proximidade do natal. Ruas enfeitadas, risos espontâneos. Compras de final de ano. Trocas de presentes.
Lojas e shopping cheios. Não havia frio que parecesse afugentar o fluxo interminável de gastadores. Nem aqueles que estavam por lá só a passeio.
- Por que estou aqui mesmo?
- Eu não viria sozinho.
- E por que eu tive que vir?
- Você não tinha nada melhor pra fazer.
- Tinha sim. Ficar em casa onde é quente. Sabe que não me dou bem com frio.
- Deixa de frescura Marik. Vamos só assistir um filme.
- Filme eu vejo em casa! Não preciso sair do meu refúgio.
- Realmente devia ter chamado outra pessoa. – suspirou em paciência.
- Ótimo. Estou voltando pra casa.
- Não deixei você ir! – antes que o loiro conseguisse se afastar, sentiu ser puxado pelo albino para a fila do cinema.
- Você disse que ia chamar outra pessoa!
- Pra que se já tem você aqui pra eu aturar?
- Me solta Bakura!
- Tsc. Como consegue ser tão irritante?
- Estou aqui contra minha vontade. Você me arrastou de casa sem aceitar um “não” como resposta.
- E agora vai assistir o filme comigo. Ainda estou sendo legal em te pagar o ingresso.
- Legal seria ter me deixado dormindo em casa.
- Eu vou fechar sua boca com fita isolante. Durante toda a sessão.
- Não ia me aguentar calado por muito tempo.
- Não me provoque Marik. Ainda estou sendo legal por pagar seu ingresso.
- Isso é o mínimo após me arrastar para ver um filme que nem conheço.
- É Guerra nas Estrelas.
- Ah claro... Agora faz todo o sentido. – ironizou. – “O despertar da força” – leu o ingresso assim que pegou das mãos do albino. – Por que isso não me surpreende Bakura? Esse título já diz muita coisa sobre alguém que perdeu tudo isso e ainda não aprendeu.
- Fingirei que não ouvi você tentando ser engraçado e vou apenas guardar o ingresso até a hora da nossa sessão. – tomou o ingresso de volta. – Temos meia hora até começar o filme. Quer comer alguma coisa?
- Você paga?
- Não.
- Então por que oferece? Que belo sequestro.
- Primeiro se isso fosse um sequestro eu não estaria sendo legal com você.
- Precisa atualizar sua definição de “legal”. – interrompeu novamente.
- É por isso que sua irmã não liga quando te afasto dela. – tentava manter-se calmo. Apesar de tudo no final apreciavam mutuamente a presença do outro, senão não repetiriam sempre o mesmo “erro” de saírem quase sempre juntos.
- Minha irmã me ama, ok?!
- Ela não tem muita escolha. – rebateu. – Agora vamos. A pipoca é por sua conta.
- Como assim?
- Eu paguei os ingressos.
Marik pensou em remediar de imediato, porém parou antes para analisar melhor as palavras de maior efeito.
- Isso pode não ser um sequestro, mas também não agrada como encontro. – ditou seguindo para fila da lanchonete. Com o tamanho da fila, caso conseguissem comprar algo antes do início da sessão estariam com sorte.
Bakura ficou estático com o soar da última palavra dita.
- Isso não é um encontro! – respondeu quase aos berros.
- Claro que não. Além de mim quem mais aguentaria sair com você? – a resposta veio direta e Bakura preferiu o silêncio a dizer algo que o comprometesse ainda mais.
O silêncio se manteve até chegarem ao balcão da bomboniere e pedirem tudo que pretendiam consumir durante a sessão. Apenas um pote grande de pipoca.
- Eu queria pegar mais coisas. – chiou Marik enquanto adentravam na sala da sessão que já iniciava os trailers.
- Já viu o preço que é as coisas nesses lugares? Aqui é só para pipoca mesmo.
- E que diferença faz? Era eu que estava pagando.
- Te poupei de gastar dinheiro à toa. – ditou ao alcançar sua poltrona. – Refrigerante e chocolates eu trouxe na mochila.
- Você o que?!
- Menos Marik. Já estamos dentro da sala. E não aja como se eu fosse o único a trazer comida escondida. Ninguém é obrigado a pagar quase o triplo se tem opções mais baratas.
- Você é inacreditável. – sentou-se finalmente ao lado do albino.
- Eu sei. Agora me ame. – respondeu dando de ombros. – Chocolate? – ofereceu uma pequena barra que foi aceita em silêncio.
- Eu te odeio, sabia? – Marik murmurou fazendo o outro sorrir.
- Aceitarei isso como uma confissão. – colocando o pote de pipoca entre as pernas. — Agora quieto que vai começar o filme. E tem mais chocolate na mochila se isso te ajudar a ficar quieto.
Marik inflou as bochechas abrindo uma nova barra de chocolate e, ao dividi-la, jogou dentro do pote de pipoca.
- Hey! – Bakura gritou em total desaprovação. Chamando atenção dos outros da sala.
- Silêncio Bakura, estamos no cinema. – ditou provocativo.
- Tsc. Se queria pipoca era só ter pedido. – resmungou entregando o pote com a mistura para Marik.
- Na verdade eu estava mesmo com vontade de misturar doce com salgado. – respondeu experimentando sua combinação. – E não é que ficou bom? Bakura, você deveria experimentar.
- Não quero. Pode comer tudo. E faça o favor de morrer engasgado também. –respondeu virando a cara.
- Chato. – voltou a inflar as bochechas.
Em um longo suspiro Bakura cedeu estendendo a mão para dentro do pote de pipoca e, pegando um bom punhado, levou de uma vez a boca.
- Pensei que não quisesse.
- Calado.
Ao início do filme se ouvia apenas alguns comentários de Marik, sendo a maioria ignorada e outros ainda arrancavam pequenas risadas de Bakura.
- Não acredito que me prendeu numa sala de cinema por mais de duas horas. – Marik chiou ao saírem.
- Foi tão ruim assim?
-... Não... Mas talvez fosse melhor se eu estivesse mais por dentro da história.
- Então não reclame tanto. E você poderia ter saído a hora que quisesse da sala.
- Não ia te deixar sozinho... – inflou as bochechas. Porém também não queria ir embora desacompanhado, por isso permaneceu até o fim.
- Ta a fim de comer alguma coisa? Lanche ou sei lá. – deu de ombros. – Pipoca não enche.
- Eu pago?
- Sua parte sim.
- Tudo bem, acho...
- Agora só falta decidir onde...
- Parece que ali está com um bom movimento. – apontava para uma pequena fila. – Estão saindo com mini pôster daquele filme que você me arrastou pra ver.
- É lá mesmo que vamos então. – nem esperou que o loiro respondesse. Apenas o puxou para a fila. Lá decidiriam que combo pegariam só pelo brinde.
- Quase que te confundi com uma criança que compra lanche só pelo brinquedo.
- Você também ficou animado. Não tem direito de reclamar.
- Não estou reclamando. Apenas dizendo que é sempre assim quando sairmos juntos. Algumas coisas não mudam.
- A principal delas é o fato de eu sempre acabar de comer primeiro que você. – Bakura complementou enquanto juntava as sobras.
- Algumas coisas não mudam. – riu repetindo a frase. – Eu quero um sorvete...
- Termine de comer primeiro, depois pense na sobremesa.
- Eu sei. — Bakura sorria sem perceber ao encarar as atitudes quase sempre infantis de Marik. – O que foi? – indagou percebendo que o outro lhe olhava.
- Nada. Só estava pensando. – deu de ombros.
Talvez não tenham se conhecido na melhor época e nem que aquelas antigas rivalidades os aproximariam tanto.
- Pronto. Vamos embora antes que encontremos algum conhecido e tenhamos que sumir com ele sem deixar vestígios. – Marik comentou fazendo Bakura rir alto.
- No fim não seria tão ruim. – dizia entre riso. – Seria uma boa maneira de passar o natal.
- Só vamos embora. Já vimos seu filme e comemos.
- Desistiu do sorvete?
- Ah! Verdade. Meu sorvete e então vamos embora. – Bakura apenas sorriu balançando a cabeça em negação.
O seguiu até o quiosque apenas observando Marik analisar cada picolé antes de escolher.
- Acho que... Esse aqui. – finalmente se decidiu. – É bom. – sorriu ao provar o primeiro pedaço. – Quer experimentar. – ofereceu estendendo o sorvete. Como resposta Bakura segurou a mão de Marik de modo que conseguisse morder o sorvete.
- Tem razão. É bom. – concordou agindo naturalmente.
- Er... Bakura. Já pode soltar minha mão agora. – acabou gaguejando
- Qual o problema Marik? Ficou sem graça de repente. – buscava provocá-lo ainda mais. O loiro ficava cada vez mais vermelho com a provocação, pensando em mil coisas que aquele albino poderia fazer. – Obrigado pelo sorvete. – Bakura apenas sorriu afastando-se satisfeito.
- Hã?! Bakura! – quando finalmente se recuperou da surpresa, o albino já estava distante e Marik sem seu sorvete. – Bakura! Me devolva! – gritou.
- Se não me alcançar logo vai ficar sem seu precioso sorvete! – gritou em resposta.
- Bakura! Seu ladrãozinho. – correu para tentar alcançar o albino.
- Certos hábitos não se perdem. – ria das tentativas frustradas de recuperar seu sorvete. – Pode pegar de volta. Já enjoei.
- Chato. – inflou as bochechas novamente ao recuperar seu sorvete.
- Ei, Marik. Seu rosto está sujo.
- Hã?! Onde? – levou a mão automaticamente ao rosto.
- Aqui. – ditou puxando o rosto de Marik e lambendo o canto sujo.
- Ba... Bakura...
- Agora vamos embora. – continuou andando como se nada tivesse acontecido.
- Bakura! – voltou a gritar e correr para alcançar o albino. – Bakura!
- Quieto. Você fala alto demais...
- Isso é tudo culpa sua!
- Aham... Agora quieto.
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