O Descendente da Guerra
9 Minha mãe vem me fazer uma visita
Os semideuses se reuniram, em mesas, no pavilhão com uma fogueira. Uma menina ruiva com traje marrom, que aparentava uns 10 anos, atiçava o fogo com um pedaço de madeira. Ninguém parecia notar ela. Lembrei-me de quando ninguém falava comigo, ou sequer me notava. Olhei ao redor e me certifiquei que ninguém parecia reparar na menina. Prometi para mim mesmo que, mais tarde, falaria com ela.
Por fim, depois de todos os semideuses estarem em suas devidas mesas (Katherine me explicou que várias dessas pessoas tinham o mesmo pai ou a mesma mãe divina, e então eram divididos em chalés, o que me fez imaginar humanos com cabeças de coelhos, devido a quantidade de filhos da mesma faixa etária), um homem de meia idade entrou no pavilhão com sua cadeira de rodas e, ao seu lado, dois adolescentes de armadura completa.
— Pois bem – disse o homem – vejo que aconteceram alguns problemas durante o Capture a Bandeira. Alguém quer falar sobre isto?
Por mais que tentasse evitar, a vontade de procurar por Robert foi maior. Ele estava sentado em sua mesa e fuzilava Katherine com o olhar. Ao contrário do que pensei, a menina deu um passo à frente e disse:
— Quíron, nos encontramos com alguns semideuses na floresta, que nos confundiram com adversários de outro time. Tudo foi resolvido lá mesmo – disse, dando um sorriso sarcástico no final.
— Humm, ok. Conte-nos como foi em sua missão – disse Quíron, enquanto alisava a barba.
Katherine respirou fundo e começou.
— Como todos sabem, ou deveriam saber, existem diversos boatos sobre o nosso futuro, com o Sangue do Olimpo reunido em um único Acampamento. Porém, o que mais nos preocupava, era o que falava de um menino que teria o poder de salvar ou destruir tudo aquilo que mais gostamos – Katherine fez uma pausa para encarar Quíron, que assentiu a cabeça. – Sendo assim, parti em busca desse tal semideus.
Neste momento, escutei diversas risadas vindo de todos os cantos do pavilhão, e comentários do gênero: “E achou esse panaca aí?”. Katherine, que estava com os ouvidos atentos, prosseguiu.
— Esse panaca aqui – disse, apontando para mim – Conseguiu sobreviver da caçada de uma Górgona. Qual de vocês, sendo inexperientes e estando desarmados, conseguiriam isso?
Senti meu rosto corar. Sem obter nenhuma resposta, e com o enorme silêncio formado pela pergunta de Katherine, ela continuou.
— Cheguei em sua escola tarde demais. Quando finalmente consegui rastreá-lo, ele já havia saído do local. Nesse meio tempo, o monstro o atacou. Quando conseguiu correr para sua casa, ganhou tempo para que eu chegasse. Foi assim que derrotamos a primeira Górgona.
— A primeira? – perguntou um dos semideuses ao lado de Quíron, ele tinha os cabelos louros arrepiados, como se tivesse levado um choque elétrico – Quer dizer que haviam mais?
— As outras duas irmãs chegaram logo após – completou Katherine – Corremos para a floresta, e reuni poder para a viagem nas sombras. Como todos sabem, meus poderes funcionam melhor durante a noite.
Percebi uma troca de olhares entre Robert e Katherine.
— Certo, muito bem – disse Quíron. Então, ele olhou para mim – Como é o seu nome, jovem rapaz?
— Nathan – disse, com a voz falhando.
Dessa vez, foi Quíron quem nos salvou. Ele percebeu o que estava prestes a acontecer antes de todos.
— TODOS PARA O CHÃO! – gritou, enquanto saia sob quatro patas da sua cadeira de rodas. Nesse momento quase tive um ataque do coração, mas resolvi deixar para depois. Meu foco principal no momento era sobreviver.
Flechas dispararam de todos os lados, em nossa direção. Quando digo nossa, refiro-me a Katherine e eu, os alvos do dia.
— Arqueiros, apostos – comandou Quíron, enquanto puxava um arco das costas e arrumva cinco flechas de uma vez. Após seu ataque, ele interceptou diversas flechas em pleno ar.
Em média, vinte meninos e quinze meninas de duas mesas diferentes atenderam as ordens do homem-cavalo (caso não tenha mencionado, as quatros patas que disse que Quíron possuía, pertencem à um cavalo). Eles ajudavam na tarefa de interceptar os projéteis, mas eram muitas flechas que vinham em nossa direção.
Quíron chegou mais perto, com o intuito de nos proteger, e acabou sendo atingido. Seu grito de dor fez com que Katherine acordasse de seu susto, mas ela parecia tão fraca e pálida que duvido que pudesse fazer mais muita coisa. Uma flecha foi desviada cinco centímetros antes de me acertar.
— Vamos lá, vamos lá, apenas alguns esqueletos arqueiros – Katherine resmungava de olhos fechados.
Percebi que a menina já estava esgotada, e com esse pensamento feliz, vi que as flechas de nossos amigos haviam acabado. Flechas ainda vinham em nossa direção. Então, em um ato heroico, protegi meu rosto com as mãos abertas, esperando pelo pior. Passaram-se alguns segundos até eu perceber que não havia sido atingido. As flechas desviavam de nós milagrosamente.
Por fim, o ataque parou, e ninguém parecia saber como ele foi causado. O alvoroço era grande, conseguia ouvir os comentários sobre mim e alguns olhares de cantos de diversos grupos de conversa. E então... silêncio. Todos olhavam para mim, com os olhos esbugalhados. Olhei ao redor e vi que Quíron já havia curado seu ferimento, que agora estava envolto em uma faixa. Seus joelhos vacilaram para frente. Não, estavam se dobrando. Assim como o de todos no pavilhão.
Olhei para cima e percebi duas espadas cruzadas, brilhando como fogo, em cima de minha cabeça. A menina que acompanhava Quíron e o outro semideus foi a primeira a pronunciar algo coerente.
— Salve, filho da Guerra – disse ela – Seja bem-vindo ao Acampamento!
— Com certeza, espero que ele seja – disse uma voz feminina, causadora de arrepios – ou vocês se entenderão comigo.
A dona dessa voz apareceu ao lado da fogueira. Ela era alta. Ela era linda, de seu jeito. Ela transmitia coragem e confiança.
— Sou Belona, a deusa Romana – disse ela – Peço perdão por esse modo nada digno de lhe reconhecer como minha prole, mas agora temos que nos acostumar com essas novas regras.
Ela era minha mãe.
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