O Décimo andar
13 Se afastando da loucura
O retorno para São Paulo foi marcado por um silêncio sepulcral. O asfalto cinza da metrópole parecia refletir o estado de espírito de Eloah. Ela ainda sentia o toque de Arthur em sua pele, mas o olhar dele, fixo na estrada, era de um estranho.
Assim que entraram no prédio, o abismo entre o nono e o décimo andar pareceu triplicar de tamanho. Incapaz de suportar a dúvida e o vazio deixado por aquela noite interrompida na praia, Eloah esperou que seus pais se ocupassem com as malas e subiu as escadas. Ela não tocou a campainha; ela bateu na porta da cobertura com a urgência de quem precisa de oxigênio.
Arthur abriu a porta. Ele já estava de terno, a armadura do advogado implacável de volta ao lugar. Seus olhos, antes prateados de desejo, agora eram pedras de gelo.
— O que você está fazendo aqui, Eloah? — A voz dele era monocórdica, desprovida de qualquer calor.
— Arthur, a gente precisa conversar sobre o que aconteceu... sobre o que você disse na areia...
— Esqueça o que eu disse na areia — ele a interrompeu, sem deixá-la passar da soleira. — A brisa do mar faz as pessoas dizerem bobagens. Aqui é o mundo real. E no mundo real, eu tenho quarenta anos e uma reputação. Você tem dezenove e mal sabe o que quer da vida.
Eloah sentiu o primeiro golpe no peito.
— Mas você disse que estava louco por mim! Você entrou no meu quarto!
— Um erro. Um deslize impulsivo que eu não pretendo repetir — Arthur deu um passo à frente, a altura dele agora sendo usada para intimidá-la. — Olhe para você, Eloah. Você é uma menina brincando de ser adulta. Eu tenho compromissos, tenho sócios, tenho uma vida que não comporta uma estudante de primeiro ano com crises de rebeldia. Esse "nós" é proibido por uma razão: é ridículo. É um clichê barato que eu não tenho tempo para interpretar.
As lágrimas começaram a embaçar a visão de Eloah. O deboche que ela sempre usara como escudo tinha desaparecido, deixando apenas a carne viva de um coração que se abrira pela primeira vez.
— Então foi tudo um jogo? O colar, o beijo no elevador, o banheiro da faculdade... tudo isso foi para provar que você podia?
— Foi uma distração — ele respondeu, com uma frieza cirúrgica que cortava mais que uma lâmina. — Mas a distração perdeu a graça. É hora de você focar nos seus estudos e eu nos meus casos. Não suba mais aqui. E, por favor, tire esse cordão. Ele não combina com a maturidade que você finge ter.
Ele fechou a porta. O som do trinco ecoou no corredor como o martelo de um juiz anunciando uma sentença final.
Eloah desceu as escadas correndo, a visão turva pelas lágrimas que agora caíam sem controle. Ela entrou no apartamento 901, ignorou o chamado de Marta sobre o jantar e se trancou no quarto.
Ela se jogou na cama e soluçou contra o travesseiro para que seus pais não ouvissem o som de sua alma se partindo. A dor era física. Ela estava apaixonada pelo homem que morava exatamente acima dela, o homem que a levara ao céu apenas para soltar sua mão e deixá-la cair de uma altura que ela não sabia se sobreviveria.
Ela levou a mão ao pescoço, sentindo o pequeno coração de ouro. Ela queria arrancá-lo, jogá-lo longe, mas seus dedos apenas se fecharam sobre o metal quente. O silêncio do nono andar nunca foi tão ensurdecedor. Como ela poderia continuar morando ali, sabendo que a cada batida do seu coração, o homem que a destruíra estava a apenas alguns metros de distância, vivendo como se ela nunca tivesse existido?
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