O Décimo andar
1 O Som do Asfalto
O fone de ouvido de Eloah estava no volume máximo, mas a batida do trap não era alta o suficiente para abafar o barulho constante dos pneus contra o asfalto da Via Dutra. Ela estava afundada no banco de trás do SUV da família, o capuz do moletom escondendo o rosto e a expressão de puro desprezo que carregava desde que saíram da Barra da Tijuca.
— Dá para acreditar que o condomínio tem academia 24 horas, Ricardo? — Marta falava com um entusiasmo que, para Eloah, soava falso e irritante. — E a segurança é impecável. É outro nível de vida.
— São Paulo vai ser bom para os negócios, Marta. E para a Eloah também — o pai respondeu, lançando um olhar pelo retrovisor, tentando encontrar os olhos da filha. — Filha, tira esse fone um pouco. Olha esse horizonte, estamos chegando.
Eloah nem se mexeu. Ela encarava a paisagem que mudava de verde para um cinza infinito de prédios e viadutos. "Bom para quem?", ela pensou, sentindo a garganta apertar. Para ela, aquilo era um exílio. Aos 18 anos, ela sentia que sua vida estava sendo embalada em caixas de papelão e descartada. Seus planos de passar o verão nas praias do Rio, as festas de formatura, o calor da areia... tudo substituído pela garoa e pelo concreto.
— Eu não pedi para vir — ela murmurou, a voz rouca de quem passou horas em silêncio.
— Eloah, já conversamos sobre isso — Ricardo suspirou, o cansaço da viagem pesando nos ombros. — É uma oportunidade única. O apartamento é maravilhoso, você vai ter o seu espaço, o prédio é de alto padrão...
— É uma gaiola de luxo, pai. Só que no nono andar — ela rebateu, finalmente tirando um dos fones e encarando-o com os olhos brilhando de raiva e tristeza. — Vocês me arrancaram de lá como se eu fosse um móvel. Eu tenho 18 anos, eu devia estar decidindo a minha vida, não sendo arrastada para outra cidade.
Marta se virou para trás, tentando tocar o joelho da filha, mas Eloah se encolheu contra a porta.
— Você vai fazer amigos novos, querida. São Paulo tem os melhores lugares, a melhor cultura...
— Eu não quero cultura. Eu queria a minha casa.
O restante da viagem seguiu em um silêncio tenso, quebrado apenas pela voz metálica do GPS anunciando a chegada ao destino. Quando o carro finalmente parou diante da fachada imponente de vidro e aço escovado no coração de um bairro nobre, Eloah não sentiu admiração. Sentiu-se presa.
Ela desceu do carro sem olhar para o porteiro ou para o saguão de mármore. Enquanto os pais discutiam sobre o descarregamento do caminhão de mudança, ela subiu pelo elevador social, vendo os números brilharem em neon até pararem no 9.
O apartamento era vasto, cheirando a tinta nova e vazio. Eloah caminhou até a varanda e olhou para cima. Acima dela, apenas o último andar: a cobertura. Mal sabia ela que a verdadeira razão do seu desassossego não viria da cidade lá fora, mas de quem morava exatamente um lance de escadas acima de sua nova revolta.
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