O Décimo andar
15 O Retorno ao Meirelles & Associados
O destino tem um senso de humor peculiar e, para Eloah, ele parecia estar escrito em letras jurídicas. O encerramento do ciclo na faculdade não era o fim, mas o começo de um novo embate.
Eloah passou semanas enviando seu currículo para as maiores firmas de São Paulo. Ela queria distância da cobertura, distância do passado e, principalmente, distância de Arthur. Mas o mercado jurídico é um tabuleiro de xadrez e, às vezes, todas as jogadas levam ao mesmo mestre.
Quando o e-mail chegou, seu coração falhou uma batida. O logotipo discreto e elegante no topo da mensagem era inconfundível. "Prezada Dra. Eloah Cavalcante, seu perfil foi selecionado para uma entrevista presencial."
Ela encarou a tela por uma hora. O ódio, a saudade e o orgulho lutaram dentro dela, mas a profissional venceu. Ela era a melhor da turma, tinha a OAB na mão e não deixaria que um fantasma do passado a impedisse de ocupar o lugar que merecia. Ela suspirou, digitou um "Aceito" e sentiu que uma nova era — muito mais perigosa — estava começando.
Às 07:50 da manhã seguinte, o hall do escritório Meirelles & Associados viu uma mulher que em nada lembrava a menina que corria pelas escadas de serviço.
Eloah estava impecável. O blazer preto estruturado abraçava seus ombros com autoridade, enquanto a saia lápis colada ao corpo desenhava uma silhueta de confiança e maturidade. A blusa de linho branca, fechada até o penúltimo botão, trazia um ar clássico. Seus cabelos loiros caíam em ondas perfeitas e a maquiagem leve apenas realçava que ela não precisava de máscaras.
— Dra. Cavalcante? Por aqui, por favor — chamou um rapaz jovem, um associado júnior chamado Gustavo.
A entrevista foi técnica, fria e precisa. Eloah dominou cada pergunta sobre Direito Civil e Processual com uma segurança que deixou Gustavo impressionado. Ela não viu Arthur. Não ouviu sua voz. O escritório parecia um labirinto de vidro onde ele era o minotauro escondido.
A noite caiu sobre São Paulo e Eloah estava em seu quarto, o mesmo quarto onde cinco anos antes ela chorara até dormir. Ela olhava para o teto, imaginando se tinha cometido um erro.
O celular sobre a mesa de cabeceira vibrou. Uma notificação de mensagem de texto de um número comercial, mas as palavras... as palavras tinham o peso de uma presença física.
"Meirelles & Associados: Dra. Cavalcante, após análise técnica, informamos que estamos ansiosos por contratá-la. Seu talento é exatamente o que este escritório exige. Seja bem-vinda à equipe. Começamos na segunda-feira, às 08:00. — A.M."
Eloah releu as iniciais no final da mensagem. A.M.
Ela sentiu um arrepio que não sentia há anos. Ele não a chamara de "vizinha", nem de "menina". Ele a chamara de Doutora. O jogo não era mais sobre quem fugia ou quem perseguia; agora, eles seriam iguais no campo de batalha.
Ela desligou a tela do celular, mas o brilho do colar de ouro, que ela guardava em uma caixinha no fundo da gaveta, pareceu pulsar no escuro. Segunda-feira não seria apenas o primeiro dia de trabalho; seria o dia em que o nono e o décimo andar finalmente se encontrariam no mesmo nível.
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