O Décimo andar
25 O Império de Vidro e Sal
Cinco anos no Rio de Janeiro haviam transformado Eloah Cavalcante. O sol da cidade maravilhosa parecia ter dourado não apenas sua pele, mas sua confiança. O escritório Cavalcante Advocacia, localizado em uma cobertura de vidro no Centro, era agora sinônimo de terror para criminosos de colarinho branco e abusadores.
Eloah estava em sua mesa, analisando um novo inquérito, quando Beatriz, sua sócia e melhor amiga desde que retornara ao Rio, entrou com dois cafés e um sorriso astuto.
— "Dra. Cavalcante, recebi uma ligação do promotor. O caso do bicheiro da zona sul foi fechado. Ele pega 15 anos," — disse Beatriz, colocando o café sobre a mesa de carvalho. — "Você conseguiu de novo, Eloah. A cidade só fala de você."
Eloah levantou os olhos dos papéis. O olhar era afiado, mas o sorriso era de satisfação.
— "Justiça tardia não é justiça, Bia. É apenas reparação. Mas fico feliz que aquela família possa dormir em paz hoje."
Nesse momento, dois de seus advogados associados, Lucas e Mariana, entraram na sala com pastas repletas de novos documentos.
— "Doutora, temos um problema no caso da fraude portuária," — começou Lucas, visivelmente tenso. — "O advogado deles é agressivo. Ele está tentando anular as escutas."
Eloah girou sua cadeira, olhando para a vista da Baía de Guanabara antes de encarar o jovem advogado.
— "Lucas, agressividade é o último recurso de quem não tem razão. Se eles estão atacando as escutas, é porque o que está gravado ali acaba com eles. Mariana, prepare o recurso citando a jurisprudência que usamos no ano passado. Não vamos dar um centímetro de espaço para eles respirarem."
— "Com certeza, Dra. Eloah," — Mariana respondeu, anotando rapidamente. — "A senhora quer que eu agende a sustentação oral para a semana que vem?"
— "Sim. E avise que eu mesma farei a sustentação. Casos como esse precisam de um olhar que eles não consigam sustentar por muito tempo."
Após os associados saírem, Beatriz fechou a porta e sentou-se na poltrona à frente da amiga, o tom de voz mudando de profissional para íntimo.
— "Você trabalha demais, sabia? Cinco anos, Eloah. Você construiu um império. Mas às vezes eu te olho e sinto que você ainda está fugindo de algo... ou de alguém."
Eloah parou o movimento da caneta no ar. O silêncio durou alguns segundos.
— "Eu não estou fugindo, Bia. Eu cheguei. No Rio, ninguém me conhece como 'a vizinha' ou 'a aluna de fulano'. Aqui, eu sou a advogada que coloca bandido na cadeia. Isso me basta."
— "Achei que você diria isso. Mas soube que haverá um congresso nacional de Direito Penal aqui no Copacabana Palace mês que vem. Os maiores nomes de São Paulo foram convidados. Você sabe quem vai ser o palestrante principal, não sabe?"
Eloah sentiu um frio familiar na espinha, mas não desviou o olhar.
— "Arthur Meirelles," — ela disse o nome dele pela primeira vez em voz alta após anos. — "Ele faz o trabalho dele lá, e eu faço o meu aqui. O Rio é grande, Bia. Mas o meu tribunal é maior."
Beatriz deu um gole no café, observando a amiga.
— "Pode ser. Mas o destino gosta de peças pregadas no tribunal. Prepare-se, Eloah. O passado costuma pegar a ponte aérea sem avisar."
Eloah voltou sua atenção para o processo. Ela não era mais a menina que chorava no nono andar. Se o passado resolvesse aparecer, encontraria uma mulher que sabia exatamente como dar o veredito final.
Qual será a reação dela ao ver Arthur depois de tanto tempo, agora que ela está no topo do seu próprio reino?
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