O Décimo andar

20 A noite mais esperada


O escritório tornou-se um labirinto de olhares roubados e toques furtivos. Entre uma petição e outra, eles se encontravam em salas de arquivo ou no próprio elevador, recarregando a adrenalina que os mantinha vivos durante o expediente. Mas o nono andar e a cobertura ainda pareciam mundos distintos que precisavam ser unificados.

​Numa noite de sexta-feira, Eloah decidiu que não haveria mais andares de separação. Ela subiu até a cobertura carregando sacolas com tacos, burritos e uma garrafa de um Cabernet Sauvignon que custara metade do seu primeiro bônus.

​Arthur a recebeu surpreso, mas o sorriso que ele deu ao vê-la ali, fora do ambiente de trabalho, foi de uma entrega absoluta. Eles jantaram sentados no tapete da sala, rindo das lembranças do passado e discutindo as estratégias para derrubar o político corrupto. O vinho e a comida mexicana foram apenas o prefácio.

​A conversa morreu quando Arthur afastou uma mecha de cabelo do rosto dela. O desejo, que antes era uma chama controlada, tornou-se um incêndio. Ali, na penumbra da cobertura, com a vista de São Paulo aos seus pés, Eloah decidiu que o tempo de espera havia acabado.

​Desta vez, não houve hesitação. Não houve "não posso". A entrega foi mútua, intensa e profunda. Eloah sentiu que cada toque de Arthur era uma forma de ele pedir desculpas pelos anos de ausência, e cada resposta dela era uma forma de dizer que ela sempre soube que seria ele.

​Quando o silêncio finalmente caiu sobre o quarto e os batimentos cardíacos voltaram ao normal, Arthur a puxou para o seu peito, cobrindo-os com o lençol. Ele beijou o topo da cabeça dela, mas algo no modo como ela se aninhava nele o fez perceber a verdade.

​— Eloah... — ele sussurrou, a voz carregada de uma descoberta emocionante. — Você... você se guardou? Todo esse tempo? Depois daquela noite na praia, você nunca...?

​Eloah olhou para ele, os olhos brilhando na meia-luz.

​— Eu disse para você naquela noite que eu nunca tinha feito nada. E depois que você me mandou embora, eu tentei seguir em frente, mas ninguém mais era você, Arthur. Ninguém mais tinha o seu olhar ou a sua mente. Eu não estava esperando; eu estava apenas sendo fiel ao que eu sentia.

​Arthur sentiu um nó na garganta. O homem implacável, o "tubarão" dos tribunais, estava desarmado pela lealdade daquela mulher que ele um dia chamou de menina. Ele percebeu que, enquanto ele tentava protegê-la do mundo, ela estava protegendo o que havia de mais precioso entre eles.

​Ele se inclinou, segurando o rosto dela com as duas mãos, uma expressão de felicidade pura e possessiva brilhando em seu rosto.

​— Eu não mereço você, Dra. Cavalcante. Mas eu juro que vou passar o resto da minha vida tentando merecer.

​Ele respirou fundo, o coração batendo forte contra as costelas.

​— Chega de esconder, chega de elevadores e de mensagens escondidas. Eloah, você aceita ser minha namorada? De verdade? Diante dos seus pais, do escritório e de quem mais quiser ver?

​Eloah sorriu, sentindo que o coração de ouro que ela usava anos atrás finalmente havia encontrado seu lugar definitivo.

​— Sim, Arthur. Mil vezes sim. Mas prepare-se... o Dr. Ricardo não vai facilitar sua vida no próximo almoço de domingo.

​Arthur riu, um som rico e aliviado, antes de selar o compromisso com um beijo que, desta vez, não tinha prazo para acabar.