O Décimo Terceiro Espírito
7 A filha de Ophichulus (Parte 1)
Notas iniciais
Fiore, ano X754
Jonah encarava seu oponente caído no chão. A batalha havia terminado de fato, pois pelo seu estado, o mago não conseguiria levantar mais, pelo menos não no momento. Depois de limpar o suor da testa e o corte na bochecha esquerda, o homem que aparentava ter pouco mais de 30 anos, de longos cabelos castanhos e uma leve camada de barba no rosto se agachou até o canalha que impedira de quase destruir uma vila inteira.
- Entregue sua chave. Agora.
O mago caído murmurou palavras obscenas e até tentou se levantar para impedir que aquele homem tomasse o que era seu, mas estava tão fraco que mal conseguia levantar.
- Você é uma vergonha como mago celestial. – Jonah praguejou, arrancando o cordão no pescoço do homem que guardava sua chave dourada com uma pequena serpente desenhada em forma de “U”
Após entregá-lo às autoridades locais, Jonah seguiu seu caminho. Não até sua casa, até porque, com a quantidade de viagens que vinha fazendo, estava quase se considerando um nômade. Partiu em direção a um albergue perto da vila. Não importava muito o local onde estivesse, o que importava mesmo era a raridade que acabara de conseguir.
Ao pagar sua estada, subiu até o quarto alugado – que por sorte, estava vazio – jogou sua mochila carregada de rascunhos e papeis soltos na cama e sentou-se. Respirou fundo, olhando profundamente para aquela chave dourada envolvida no cordão na sua mão. Estava um pouco lascada em algumas partes, mas ainda brilhava. O que mais lhe intrigava era aquele desenho. Em toda a sua vida, jamais vira em nenhum livro aquele “U” esverdeado estampado numa chave. Nenhum livro dos muitos que lera sequer o mencionou.
“Só me resta perguntar a ela”.
E com esse pensamento, concentrou toda a energia espiritual que possuía no momento e cochichou, como se estivesse contando um segredo à chave :
- Abra, portão da Serpente.
Dito isso, uma luz emanou no pequeno quarto, e um vento jogou as folhas soltas quase para fora da janela. Jonah caiu de joelhos em frente à cama, e quando certificou-se de que era seguro olhar sem que seus olhos doessem, viu-se diante de uma moça que parecia ter seus 18, 19 anos, de longos cabelos verdes trançados, olhos dourados e escamas em tons de cinza e branco cobrindo seus braços. Não era a primeira vez que a via, já que já havia lutado com ela – e ganho facilmente – há menos de um dia. Mesmo assim, ainda era uma visão radiante.
A moça, ao perceber que seus pés descalços pisavam o chão do mundo dos humanos, logo arregalou os olhos e encolheu-se. Depois do susto momentâneo, a raiva tomou conta de seus olhos, mesmo ela se mostrando claramente apavorada.
- Veio terminar o serviço ? – ela disse, se abaixando e abraçando os joelhos.
- O quê ? Não vou te machucar. – ele tentou se aproximar, mas foi impedido pelo chiado da língua do espírito, em um tom ameaçador. – Ok, vou ficar aqui então. – ele levantou as mãos na altura dos ombros e manteve o tom de voz calmo – Você é um espírito celestial, certo ?
- Você me invocou, o que acha que eu sou ? – ela encarou o chão, ríspida.
Jonah riu de leve.
- Por que a atitude ? – ele arqueou uma sombrancelha, como um pai dando sermão.
- Você pergunta o porquê ? – ela finalmente olhou em seus olhos castanhos – O que você fez com meu mestre não é motivo suficiente ?
- Ah, por favor. Seu mestre era um canalha. Um criminoso, baderneiro. – ele se aproximou levemente com um olhar curioso sobre ela – E pelo jeito como gritou com você durante a luta não parecia ser um mestre simpático.
- Um espírito deve se manter subordinado ao seu mestre. – ela retrucou, séria.
- Mesmo quando o mestre lhe faz isso ? – e chegou até a moça, mostrando-lhe os hematomas espalhados pelos braços. – Nem adianta dizer que eu fiz isso. Lutamos há poucas horas atrás.
Envergonhada e brava, ela virou o rosto e se encolheu mais.
- Não se preocupe. Não sou como ele. Não vou te tratar mal. Por que não me dá uma chance de conhece-la ?
- E por que eu devo confiar em você ?
Ele encarou o quarto ao seu redor, pensativo. Mas de repente uma ideia surgiu em sua mente. Ele levantou-se, juntou as folhas espalhadas e entregou-as nas mãos da moça.
- O que é isso ?
- Desenhos meus.
Ela baixou os olhos para as folhas e ficou maravilhada. Reconhecia aqueles desenhos. Eram de espíritos lendários, do zodíaco, o próprio rei dos espíritos estava ali, perfeitamente desenhado, e cheio de anotações a sua volta.
- Eu vivo para estudar essas criaturas. São fascinantes, tão majestosas, tão incríveis ! Pretendo escrever um livro sobre elas algum dia. Achava que conhecia todas, até...hoje à tarde.
Os olhos dourados da moça se vidraram nele.
- Eu prometo que não vou lhe fazer mal. – ele estendeu a mão, com um sorriso amigável.
Depois de alguns segundos ponderando se aquilo era mesmo uma boa ideia, ela estendeu a mão e disse, agora um pouco mais confiante.
- Serpentarius. Espírito do zodíaco, regida pela constelação de Ophiuchus.
Fiore, X764
Não se sabe como, nem quanto tempo demorará até que essa nova descoberta seja aceita. Porém, o décimo terceiro espírito, a Filha de Ophiuchus, é, sim, real, e um dia surpreenderá toda a humanidade.
- Nem acredito que está terminado. – Jonah sentiu um abraço caloroso por trás de si.
- Tanto anos trabalhando nisso... E nenhum fato sequer inventado.
- Estou orgulhosa. – a mulher atrás dele lhe deu um beijo na bochecha.
- Acha que ela vai gostar, Marion ?
- Já previ há muito tempo que ela vai adorar. – ela sorriu calorosamente.
- Que bom. – ele levantou-se da cadeira para dar um beijo na mulher e também em sua enorme barriga. – Não consegue prever se meu garotão vai nascer com meu queixo ?
Ela lhe deu um tapinha e riu.
- Minhas previsões já são raras, acha que quando eu tiver uma vai ser com esse detalhe tão bobo ?
- Desculpe-me, Senhora Profetiza. – ele debochou, levando outro tapinha da grávida.
Mais tarde, naquele mesmo dia
- Marion, não faça muito esforço. – Serpentarius disse, ajudando a grávida a deitar-se na cama com dificuldade.
- Desculpe, querida. Não quero preocupá-la. Mas meus pés doem tanto, eu preciso fazer um pouco de exercício.
- Não precisa não. – ela tirou os cabelos negros do rosto da mulher. Mesmo cansada e sem se cuidar tanto como antes, Marion ainda era linda. Serpentarius lembrou-se de quando a conheceu, há quatro anos atrás. Seu dom de prever o futuro era algo raríssimo entre os magos, o que fazia Jonah duplamente orgulhoso de sua pequena família. Era única. – Agora descanse que o pequeno Marco virá em poucos dias. – ela sorriu, olhando para a barriga grande da mulher. Ela e Jonah eram tão bondosos, carinhosos, especiais... Sabia que seu filho não seria menos do que isso. Não aguentava esperar de tanta ansiedade em conhecê-lo. – Boa noite.
Mas antes que ela pudesse apagar a vela do quarto, a mão de Marion agarrou seu pulso tão repentinamente que ela deu um pulo de susto.
- Marion ?
Mas ela parecia nem lhe dar ouvidos. Seus olhos azuis agora estavam quase brancos, virados no teto. Serpentarius conhecia aquela expressão.
- Marion... O que você viu ?
Depois de dois minutos absolutamente imóvel e inexpressiva, Marion soltou o ar e encarou o espírito, com lágrimas começando a brotar de seus olhos.
- Vamos morrer, Serp. Marco e eu.
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