O Círculo de Zimmerman - O Recomeço.
3 Capítulo 3 - Guerra interior.
Notas iniciais
Os momentos que se seguiram até a hora de ir embora foram, de certa forma, normais. Descrevi em meu caderno, com todos os detalhes, o que aconteceu na aula de história. Eu sabia que o dia ainda não tinha acabado. Caminhei devagar, me esforçando para manter uma velocidade humana e lembrando de respirar de vez em quando. Quando finalmente coloquei minha mochila no banco de trás do carro, senti uma mão tocar meu ombro direito. Virei-me lentamente para ver quem era.
— Ah, me desculpe por isso. — Ele disse com um sorriso que fez seus olhos se estreitarem de um jeito encantador.
— Sem problemas. — Sorri de volta.
— Sou o Ezra! Estou na mesma turma de história que você. Acho que faremos o trabalho juntos, certo?
— Isso mesmo! — Eu nunca tinha falado com ele antes, mas ele parecia muito simpático.
— Você prefere fazer o trabalho em algum lugar específico? Na biblioteca da cidade? Ou aqui na escola?
— Na verdade, estava pensando em uma cafeteria na cidade vizinha. O que acha? — Ele sugeriu, e eu sabia que dependia do clima, mas não podia dizer isso. Eu precisaria confirmar com Emery antes de decidir.
— Hmmm… Que tal me passar seu número e à noite eu confirmo com você? — Sugeri, optando pela cautela.
— Perfeito. — Ele disse, enquanto eu anotava seu número em meu caderno. Meu celular estava na bolsa, então usar o caderno foi a opção mais prática. Embora ele tenha insistido em anotar ele mesmo, algo em mim me impediu de entregar o caderno.
— Ezra Lockhart, certo?
— Sem tantas formalidades, apenas Ezra. — Ele abriu um sorriso que eu não soube decifrar. — E você é Mia, não é? Olha, Mia, preciso ir agora, tenho algumas coisas para fazer em casa.
— Claro, sem problemas. — Respondi, ainda processando tudo o que tinha acontecido.
Ezra se afastou, deixando-me com uma sensação estranha e uma curiosidade crescente. Eu não sabia o que esperar, mas algo me dizia que esse trabalho de história seria mais interessante do que eu imaginava.
Nos despedimos e cada um seguiu para um extremo da estrada. Durante todo o caminho de volta para casa, fui ouvindo um álbum do Arctic Monkeys, enquanto, vez ou outra, desviava minha atenção para o caderno no banco do passageiro. Precisava urgente arrumar o carro. Havia jaquetas jogadas por todos os lados, algumas meias e sapatos. Tudo porque às vezes gosto de correr quando está chovendo e nem sempre consigo esperar até chegar em casa. Às vezes, estaciono o carro em algum lugar escondido na floresta e corro sem rumo montanha acima. Admito que a bagunça dava um ar de carro de adolescente, mas, aos olhos de alguém com mais de 100 anos, era demais até para mim.
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Quando parei na entrada da residência, uma garoa fina caía. Recolhi meu material no banco de trás, peguei o caderno e o protegi como se minha vida dependesse disso. Emery foi o primeiro que encontrei assim que coloquei os pés dentro da casa. Ele tirou o caderno das minhas mãos com certa delicadeza e me puxou pelo punho até seu escritório. Quando digo que ele me puxou, quero esclarecer que me deixei ser arrastada até lá, afinal, também queria fazer uma pergunta. Em outra ocasião, lutaríamos no saguão da mansão. Possivelmente, meu pensamento deve ter despertado a curiosidade de Ivar, que apareceu logo atrás de mim.
— Calma. — Sibilou ele. De repente, lembrei-me que deveria reportar algo aos dois, mas não sabia ao certo o quê. Então, relaxei mais o corpo e me deixei ser arrastada. — Ela não se recorda, Emery.
— Eu sei. — Disse entre os dentes. Seja lá o que fosse, ele não estava feliz. Apertou meu punho com força. — Eu quase não me lembro!
— Irmão. — Ivar segurou a mão de Emery e a afastou do meu punho, que parecia prestes a se desfazer, com algumas marcas e rachaduras. — Peço que se acalme.
— Desculpe-me, Mia… Eu não queria… — Ele parecia realmente culpado, seus olhos e trejeitos denunciavam isso.
— Não se preocupe, está tudo bem. — Falei enquanto observava minha pele rapidamente retornar à sua textura normal, assemelhando-se a uma escultura de vidro escuro.
O olhar de Emery ainda estava carregado de preocupação e culpa, mas Ivar manteve-se firme, segurando o ombro do irmão como um lembrete silencioso de que tudo ficaria bem. A tensão no ar era palpável, e eu sabia que havia mais por trás desse episódio do que eles estavam dispostos a compartilhar naquele momento.
Ao adentrarmos o escritório de Emery, fiquei deslumbrada com a quantidade de livros espalhados e a decoração rústica do ambiente. O cenário era melhor do que eu jamais imaginara. Uma pequena cachoeira artificial adornava uma das paredes, e o som suave da água caindo em cascata trazia uma sensação de tranquilidade e introspecção. Alguns objetos modernos contrastavam com a atmosfera atemporal, mas a maioria das peças parecia, assim como nós, ter parado no tempo. Quadros antigos decoravam as paredes, muitos retratando Emery ou tendo-o como inspiração, com molduras de ouro antigo que reluziam sob a luz suave das lâmpadas.
A escrivaninha de mogno, rica em detalhes e com uma textura que se assemelhava à nossa pele, ocupava o centro do cômodo. Sobre ela, papéis antigos, uma pena e um tinteiro de prata, relíquias de uma época passada, estavam organizados de forma meticulosa. Emery se sentou na enorme cadeira de estofamento vermelho com detalhes em ouro, que mais parecia um trono. Ele respirou fundo, seu olhar percorrendo o ambiente como se estivesse buscando forças nos detalhes familiares ao seu redor.
Cada canto do escritório exalava história e personalidade, desde os tapetes persas que cobriam o chão de madeira escura até as prateleiras abarrotadas de volumes antigos e raros. As janelas altas, com cortinas pesadas de veludo, deixavam entrever a luz difusa do fim da tarde, criando um jogo de sombras que dançava pelas paredes.
Emery finalmente quebrou o silêncio, sua voz grave e carregada de emoções contidas.
— Precisamos discutir o que aconteceu hoje. — Emery disse, enquanto apoiava os cotovelos na escrivaninha e entrelaçava os dedos em frente ao rosto, seu olhar fixo no meu. — Lembra-se de algo, Zimmerman?
— Do que eu deveria me lembrar? — Eu estava extremamente confusa, alternando meu olhar entre os irmãos.
— Com quem você estava falando antes de deixar o estacionamento? — Emery olhou diretamente em meus olhos, sua urgência evidente.
— Um garoto da minha turma de história, chamado Ezra. — Respondi, ainda mais confusa.
— Por que você entregou o caderno para ele? — Desta vez, Emery não conseguiu esconder sua frustração.
— Mas eu não entreguei o caderno a ele… Sequer deixei que ele anotasse o número, eu mesma fiz isso. — Observei Emery respirar aliviado. — Não senti confiança suficiente para isso e sequer sei o que está anotado aí dentro.
— Ele é melhor do que eu imaginei. — Ivar se pronunciou pela primeira vez desde que começamos a dialogar de fato.
— Irmão… Ele pode pressentir que eu o estava espreitando e, por cima dos ombros de Mia, olhou diretamente para mim. — Compartilhou, incrédulo. — Isso me custou cerca de dois minutos de visão.
Enquanto eles discutiam sobre o garoto, decidi que iria pegar o caderno e ler o que havia de tão importante ali. Mas fui interrompida pelas mãos ágeis de Ivar.
— Creio que não seja a melhor maneira de começar… Vejamos. — Ele me encarou por um bom tempo, parecendo vasculhar algo em mim. Pude ver suas pupilas movendo-se rapidamente de um lado para o outro, acompanhadas de pequenos sons, ora de desapontamento, ora de surpresa. — Irmão, diga-me… Amanhã irá chover em Brownsville?
Os olhos de Emery embranqueceram por alguns segundos, seguidos de uma respiração profunda.
— Completamente nublado e com fortes chuvas no início da tarde.
Eles pareciam se entender entre si, e eu estava cansada demais de vozes entrando e saindo dos meus ouvidos. Tudo o que desejava era um longo banho e não poderia esquecer de enviar uma mensagem para Ezra aceitando o convite dele e perguntando qual o endereço. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Ivar arrancou a última página do caderno e a entregou para mim.
Sorri em gratidão e me dirigi ao meu quarto, sentindo um misto de curiosidade e alívio. Os eventos do dia rodopiavam na minha mente, mas no fundo eu sabia que aquele encontro com Ezra tinha despertado algo maior do que qualquer um de nós poderia imaginar.
Enquanto subia as escadas, ouvia ainda o murmúrio das vozes dos irmãos, discutindo em tons baixos e urgentes. O ambiente pesado e cheio de tensão parecia um contraste gritante com a suavidade lá fora.
Ao entrar no meu quarto, finalmente, me permiti relaxar. Fui até o banheiro e liguei o chuveiro, deixando a água quente escorrer pelo meu corpo. Fechei os olhos e deixei a mente vagar, tentando encontrar algum sentido nos acontecimentos do dia. Sentia que o mistério estava apenas começando, e que, de alguma forma, eu estava no centro de tudo isso.
Após digitar o número de Lockhart em meu celular, decidi enviar uma mensagem:
“Hey, Ezra. Mia aqui! Só para informar que eu aceito o convite da cafeteria, acho que vai ser um bom jeito de conhecer um pouco as coisas por aqui. Depois me passa o endereço. Caso queira carona é só me avisar.”
Enquanto organizava as coisas para tomar meu banho, o celular vibrou em meio aos lençóis bagunçados.
“Fala, Mia! Aqui está o endereço. Não se preocupa com a carona, nos vemos lá. Se cuida.”
De fato, ele era bastante simpático. Coloquei o celular de lado e, quando estava prestes a entrar no banheiro, percebi que estava chovendo. Não pude evitar. Minhas pernas se moveram em direção à janela, e meus dedos a abriram de maneira habilidosa. Olhei para as roupas que estava vestindo e percebi que não eram as mais confortáveis do mundo. Jeans rasgados em lugares estratégicos, para manter a “vibe” jovem, um cropped de mangas longas que me lembrava os anos 70, repleto de cores, e um tênis branco. Tirei os tênis e as meias, ficando completamente descalça, e saltei do quarto andar como se não fosse nada, o que, de fato, para mim não era.
Senti meus pés tocarem a grama, e foi uma sensação libertadora. Não tão libertadora quanto correr horas a fio entre as árvores com uma velocidade que ultrapassa os limites humanos, os carros mais velozes ou qualquer outra coisa jamais vista. Quanto mais rente aos galhos meus membros passavam, maior a adrenalina de poder desviar de tudo.
O vento e a chuva batendo no meu rosto traziam uma sensação de euforia e liberdade que eu raramente experimentava. Havia tempo desde a última vez em que estive em um campo de batalha. Embora minha habilidade me garantisse uma boa vantagem, numa guerra ninguém ficaria parado me aguardando falar, por isso fui treinada ao lado dos melhores guerreiros do clã de meu pai. Havia sido moldada pela dor para ser a minha pior versão, ou melhor, dependendo do ponto de vista.
Enquanto corria, deixei que meus pensamentos vagassem para o passado, para os momentos de treinamento exaustivo, para as batalhas que moldaram quem eu sou. Cada passo, cada movimento, era uma lembrança da força que eu possuía, da determinação que me guiava.
Já havia matado mais homens do que poderia contar e hoje em dia brinco de casinha com os três vampiros mais perigosos do mundo. Assim como ninguém sabe do que eles realmente são capazes, o mesmo serve para mim. Sabem que sou capaz de coisas horríveis, mas quão horríveis? Até que ponto eu iria? Quanto seria o suficiente para não ter mais volta? Meus pensamentos foram cortados quando cheguei à ponta de um penhasco, não caindo por pouco. O que me chamou a atenção não foi a possível queda do penhasco em si, mas o cheiro de um grupo de humanos aventureiros. Ao que meus ouvidos captavam, eram trilheiros que vieram do Leste e estavam em busca da grande mansão mal-assombrada que havia ficado famosa entre outros aventureiros que nunca mais voltaram.
Por um momento, pensei em matar todos ali e acabar com os boatos, mas estavam com diversos equipamentos de filmagens em mãos, fazendo o que eu acreditava se chamar “vlog”. E antes que eu pudesse fazer algo, estar à beira de um penhasco chamou a atenção deles, que correram para impedir que eu atentasse contra a minha vida. Jogaram todos os equipamentos e mochilas no chão e o grupo de quatro amigos veio me ajudar. Aproveitei para colocar meu plano em prática.
— Ei, garota! — Chamou um deles de cabelo ruivo e semblante preocupado. — Você precisa se afastar dali.
— É, não faz nada perigoso. — Disse a garota de cabelos castanhos.
— Eu… Nada faz sentido. — Acredito que eu poderia ser atriz, se fosse humana, é claro. — Nada faz sentido.
Braços que pareciam fortes para humanos me abraçaram por trás e me puxaram para longe do penhasco. Outra garota loira veio até mim com um cobertor térmico e logo os quatro amigos estavam ao meu redor, tentando entender o que estava acontecendo e fazendo o possível para que eu me mantivesse aquecida. Pedi para que me contassem um pouco mais sobre eles, para me distrair da ideia, sabe?
— Você é quem importa aqui! — Disse a garota que descobri se chamar Carly, a loira. — Você mora próximo daqui?
— Moro um pouco distante, mais próximo da estrada. — Menti. — Vim para esse lado porque não esperava encontrar ninguém aqui… Pelo visto, eu estava errada.
— Ainda bem que decidimos fazer essa trilha maluca hoje. — Foi a vez de Ryan, o de braços fortes. Ao que parece, ele e a loira eram um casal. — Tudo graças à Debbie, que insiste em encontrar essa tal mansão mal assombrada desde que a amiga dela, Olivia, desapareceu.
Olivia… A garota do outro dia.
— Eu tenho certeza que ela mencionou algo sobre uma mansão durante os telefonemas!
— Sabe… — Fiquei de pé, deixando todos com um olhar curioso. — Eu vi uma mansão no caminho até aqui.
— Você o que? — Todos disseram ao mesmo tempo. — Nos conta como chegar lá.
Esperei que todos estivessem me olhando diretamente nos olhos.
— Sim… A única maneira de chegar até lá é esquecendo completamente essa ideia. — Sibilei. — Onde já se viu, lugares mal assombrados? Não existem mansões por essas florestas, eu sequer existo.
Seus pensamentos estavam trancados em minhas palavras; tudo que eu dissesse seria verdade, então continuei.
— Vocês estão aqui explorando a trilha em busca de pura diversão, deixando para trás os equipamentos de filmagem para abraçar um momento de desconexão da tecnologia, apenas entre amigos. Decidiram parar neste local exato para fugir da chuva e descansar um pouco. Mas saibam, eu não faço parte da vida de vocês, nunca me viram e jamais me resgataram. — Enquanto eu persuadia suas mentes, coletava todos os dispositivos de filmagem, deixando apenas as fotos em seus celulares após uma rápida verificação. Deletei o grupo "Tour pela Mansão Assombrada" sem hesitar.
— Toda e qualquer menção à mansão assombrada deve ser redirecionada para a Mansão Winchester, na Califórnia. Em cerca de cinco minutos, continuem sua jornada de volta ao carro, e sob nenhuma circunstância acampem na floresta.
— Estamos no lugar errado, deveríamos estar na Califórnia e não na Pensilvânia. — Disse Debbie, enquanto todos riam.
— Eu sabia que algo estava diferente, aqui é muito mais úmido. — Carly acrescentou.
Depois de recolher todos os aparelhos, saí correndo de volta em direção à mansão. Sabia que estava prestes a atrasar para o jantar, e Bjørn não tolerava atrasos. Corri o mais rápido que pude, garantindo que os equipamentos estivessem seguros, e em poucos minutos estava de volta. Não é necessário dizer o quão lamacentos estavam meus pés, e a governanta não estava nada contente.
— Você está quase atrasada! — Vociferou ela.
— Mil perdões, Sra. Huntington. Peço desculpas por tudo. — A reverenciei como um pedido de desculpas solene.
— Vá para o banho imediatamente.
Ela não precisou me dizer duas vezes. Fui para o banho às pressas e não me demorei muito, realizando-o em uma velocidade sobre-humana, mas ainda mantendo todos os padrões de higiene. Ao me vestir para a ceia, optei por um vestido de cor vinho, não tão justo ao corpo, com alguns botões, uma reminiscência dos tempos em que vestidos e botões andavam de mãos dadas. Pensei em levar as câmeras comigo, mas não achei que seriam tão importantes quanto os humanos aflitos que estavam lá.
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— Ora, ora, pensei que não iria se juntar a nós hoje. — Ironizou Bjørn. Seu olhar carregava um misto de reprovação e curiosidade.
— Perdão, acabei me envolvendo em uma situação peculiar que me atrasou. — Tentei explicar, mas sabia que suas expectativas não seriam facilmente modificadas. Decidi, então, estender-lhe minha mão direita, permitindo que ele visse o que havia acontecido. Não era algo que eu gostasse, mas era necessário. Com relutância, Bjørn aceitou, segurando minhas mãos. Seu rosto manteve-se impassível no início, mas logo vi uma luta interna, um sorriso tentando escapar. O momento em que decidi usar minha habilidade foi como um instante de revelação para ele, quando finalmente deixou escapar uma pequena gargalhada, transformando-se em uma explosão de riso quando a habilidade foi empregada.
— Por favor, sente-se conosco, bela Mia. — Disse ele, ainda sorrindo. — Peço desculpas por minha rudeza.
Ao contrário dos meus jantares solitários, nos quais prefiro me alimentar diretamente da fonte, a ceia era servida em diversos jarros de sangue fresco.
— Deseja compartilhar conosco o que aconteceu, Mia? — Questionou Ivar.
— Claro! — Respondi com entusiasmo, sentindo-me como se estivesse contando aos meus irmãos mais velhos sobre o meu dia.
Comecei relatando desde o momento em que combinei de ir à cidade vizinha com Ezra para fazer um trabalho de história. Surpreendentemente, eles mostraram interesse no assunto, fazendo piadas sobre como seria fácil para mim, considerando minha experiência na guerra. Em certo sentido, eles não estavam errados. Continuei falando sobre meu hobby de correr em dias chuvosos, e até mesmo Bjørn parecia interessado na história, embora já estivesse a par de todos os detalhes. Não foi um momento monótono; pelo contrário, houve comentários, debates e curiosidade sobre os humanos. Então, ofereci-me para buscar as câmeras e, ali mesmo, no salão de jantar, como uma família comum, assistimos a vídeos de desconhecidos, compartilhando risadas genuínas. Pela primeira vez em muito tempo, senti-me segura e em casa em algum lugar.
— Há algo que eu queria ver. — Ivar disse com um sorriso no rosto, um sorriso quase maquiavélico. — Mas apenas se sentir-se à vontade, Mia.
— O que seria? — Um pedido tão repentino despertou minha curiosidade.
— Gostaria que manipulasse o irmão, mas com algo pequeno, apenas por diversão.
— Seria um deleite. — Disse Emery, com os olhos pequenos de tanto rir.
— Sempre tive curiosidade para saber se funcionaria em mim, Arabella sempre se recusou. — Bjørn parecia tentado com a ideia.
Após os serviçais dos d’Alighieri removerem toda a prataria da mesa, sentei-me em uma cadeira à sua frente do outro lado da mesa, olhando diretamente em seus olhos.
— Durante a manipulação é preciso olhar nos olhos? — Questionou.
— Não. — Respondi. — Só quero capturar sua reação. Imagine que é como a sua habilidade, você não precisa tocar para que tenha o efeito desejado, mas caso toque, pode ir cada vez mais longe.
— Compreendo. — Assentiu, inexpressivo. — Não deveria ter começado?
— Antes sorria, de verdade. — Pedi com delicadeza. E pela primeira vez em meus 170 anos, pude ver Bjørn sorrir. Não era um sorriso com segundas intenções, com sarcasmo e nem nada. Era um sorriso puro e belo, fazia seus olhos brilharem. Acredito que um brilho que seus irmãos não viam há séculos pela maneira que me olhavam.
— E agora? — Ele perguntou ainda com o sorriso no rosto.
— Pare de pensar nisso como um experimento, Bjørn. Se você não relaxar e deixar essa postura séria um pouco de lado, você não vai aproveitar. — O vi relaxar os ombros, girar o pescoço e estalar os dedos. — E aí qual seria a graça?
— Você tem razão, Mia. Eu preciso relaxar um pouco. — Cruzou os braços e os apoiou na mesa, de maneira descontraída. — Desde que Arabella se foi, não tenho sido eu mesmo…
— Mia… — A voz de Emery soou ao fundo.
— Emery, irmão. Estou em meio a uma conversa, tenha modos. — Repreendeu Bjørn. — Onde paramos?
— Você falava da sua irmã…
— Ah, claro. Então, desde que Arabella se foi, tenho gastado todas as minhas forças para encontrar quem a tirou de nós. Cada aliado tem ido em busca do paradeiro de quem possa ter feito algo e fico em meu escritório analisando todas as pistas possíveis. — Ele ainda sorria, mas de maneira verdadeira e melancólica. — Acabou comigo… Admito que fui contra ter você aqui conosco pois para mim você era como uma versão ruim da Arabella, mil perdões por falar dessa maneira. Mas enquanto ela foi a luz na vida de todos, viciada em viver e ajudar, você é exatamente o contrário. Um demônio de destruição, por onde passa é uma agente do caos… Você é como eu. Arabella era a única que via salvação em mim e sem ela aqui para me salvar: você não tem salvação, assim como eu.
Aquelas palavras me atingiram em cheio. Odiava que ele estivesse certo sobre mim, odiava que eu tivesse descoberto o que ele pensava sobre mim de uma maneira tão vulnerável e em frente aos outros. Ele iria me odiar ainda mais. Eu me odiaria ainda mais.
— Imagino que sua habilidade não tenha funcionado em mim. — A voz rouca de Bjørn me tirou do transe.
Ninguém possuía coragem suficiente para dizer algo. No meu caso, não seria falta de coragem; afinal, não foi minha ideia. Apenas me levantei e andei rapidamente até meu quarto, onde fiquei trancada por horas, imóvel, aguardando.
Nasci em Bruxelas, na Bélgica, em 1859, filha de Lawrence e Celeste Zimmerman. Minha vida era normal até os 16 anos, quando tudo mudou. A vida na vila não era fácil; meus pais viviam como dois pombinhos apaixonados, esquecendo da existência do fruto do próprio amor. Como híbrida entre humano e vampiro, meu crescimento era acelerado, mas meu emocional não acompanhava o ritmo, o que me deixava à margem. A única atenção que recebia era da minha mãe. Quando meu pai precisava se ausentar para cumprir missões dos d’Alighieri, eram esses momentos que eu tinha para passar com ela. Mas, no meu aniversário de 16 anos, fui levada com minha mãe para a Itália de barco, onde, diante dos irmãos mais poderosos, fui transformada. Foi nesse dia que vi Arabella pela primeira e única vez na vida. Enquanto eu me contorcia em agonia, ela desceu de seu trono, caminhou até mim e sussurrou que tudo ficaria bem. Não sei se foi efeito psicológico ou se quis me fazer de forte para impressionar a garota mais velha, mas as coisas se tornaram mais suportáveis e parei de me contorcer. Minha mãe aguentou como se esperasse por aquilo durante toda a sua vida. Enquanto eu sequer tive a oportunidade de viver a minha. Ficamos no castelo por alguns dias para controlar a sede de recém-transformadas, mas ao voltar para a vila, meu pai levava minha mãe com ele durante as caçadas, e eu tinha que me virar. Assim, acabei realizando meu primeiro massacre. A vila precisou ser queimada para encobrir rastros, e nos mudamos. Passei a ser incluída na caça depois de muito insistir com meu pai. Ele sempre dizia não entender por que me trazia junto, até entender que era por minha habilidade. Montou um plano onde infligia dor em mim para que eu manipulasse outros a se juntarem ao seu clã. Falei das bruxas, que matavam vampiros por diversão, mas eu não estava muito longe delas e seus motivos. Cheguei a um ponto onde o tédio era tão grande que esperava que negassem, só para poder matá-los. Os treinamentos eram intensos, para evitar que qualquer um destruísse uma garota de 16 anos. Os anos passaram e os d’Alighieri decidiram não fazer nada com meu pai, pois ele havia cumprido seu acordo de nos transformar e possuía um plano astuto. Quando a primeira guerra começou, as coisas se tornaram preocupantes para minha mãe. Eu não matava por ser obrigada, mas por gosto. Inicialmente, cortei meus próprios cabelos com uma navalha cega e me infiltrei entre os soldados alemães, mas à noite me infiltrava no pelotão inimigo. Matei mais homens inocentes do que posso contar. O importante para mim era saciar minha vontade de sangue e morte. Não importava o lado em que estivesse, eu sempre sairia ganhando.
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